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Debate sobre rádios comunitárias busca alternativas

27 Novembro 2009

“O papel das rádios comunitárias é existir”. Essa frase, proferida pelo diretor da Rádio Ipanema Comunitária, Doraci Engel, deu o tom que acompanharia o debate dessa quinta-feira, promovido pelo Jornalismo B.

Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro, foi o outro debatedor, e demonstrou semelhanças e diferenças em relação a seu companheiro. Doraci é diretor de uma rádio comunitária que possui outorga, enquanto Leonardo lidera uma rádio sem concessão. As diferenças partem daí e se multiplicam, mas as semelhanças devem ser ressaltadas.

Os dois tocaram em vários pontos comuns, a começar pela constatação de que uma das grandes dificuldades enfrentadas pelas rádios comunitárias ser o desconhecimento da sociedade. As pessoas acham que rádio comunitária é “aquela que derruba avião” e, também por isso, não fazem nada para apoiar esse tipo de iniciativa ou para pressionar o governo.

O foco do debate foi, em boa medida, as dificuldades que enfrentam esses veículos e possibilidades de como enfrentá-las. A falta de apoio governamental também esteve em destaque durante o debate, e a expressão que Doraci usou para descrever as ações do governo Lula foi “um desastre”, ainda que admita que foi o governo que mais concedeu outorgas, ao mesmo tempo em que foi o que mais fechou rádios comunitárias.

Leonardo explicou ainda que são 3 mil rádios comunitárias outorgada, e 15 mil esperando outorga ou operando sem concessão. Um número muito maior do que o de rádios comerciais, e mesmo assim essas recebem uma quantidade muito maior de recursos. Leonardo defendeu ainda a paridade entre rádios comunitárias, comerciais e estatais, mais ou menos nos moldes do que está sendo discutido na Argentina. E lembrou que boa parte dos recursos das emissoras comerciais são disponibilizados através de patrocínios estatais, que poderiam ser destinados também às comunitárias.

Quando inverti a questão central do debate e perguntei aos participantes “qual o papel da sociedade nas rádios comunitárias”, ambos concordaram que o papel é participar. Só através da participação se pode construir veículos fortes. A participação da platéia e do pessoal que acompanhou pelo Twitter também foi importante.

Com debatedores altamente qualificados, platéia e internautas participando ativamente e um tema que merece muito mais atenção do que tem, conseguimos construir um debate importante e interessante.

O debate de dezembro será antecipado por causa das festas. Será já no próximo dia 10, às 18h30min, na livraria Letras e Cia (Osvaldo Aranha, 444, Porto Alegre). Esperamos todos lá para continuarmos construindo juntos esse espaço de crítica, debate e formação de conhecimento. Na próxima semana teremos o cartaz com o serviço completo aqui mesmo no blog.

Postado por Alexandre Haubrich

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Debate “Rádios Comunitárias – qual o seu papel na sociedade?”

26 Novembro 2009

Já vai começar a cobertura do debate “Rádios Comunitárias – qual o seu papel na sociedade?”, com os debatedores Doraci Engel, da Rádio Ipanema Comunitária, e Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro.

Vai começar. Cris fazendo apresentações.

Doraci Engel, diretor da Rádio Ipanema Comunitária, começa falando.

“Temos um universo imenso de um negócio que ninguém sabe bem o que é. Temos mais rádios comunitárias do que comerciais, e estou falando só das outorgadas. Entretando, as pessoas não sabem o que são rádios comunitárias, ou acham que é só aquilo que derruba avião” – Doraci

“O papel das rádios comunitárias é a utopia. A questão é saber o que dessa utopia vai de fato se viabilizar” – Doraci Engel

“Ainda que tenhamos um grande espectro de rádios comunitárias, ocorre um boicote institucionalizado às rádios comunitárias. Precisamos que o país assuma as rádios comunitárias e isso se institucionalize. Esse debate está avançando, como com a Conferência” – Doraci

“Sistema privado, sistema estatal e esse sistema público comunitário precisam de paridade. Mas toda a política de Estado, que nem é uma política propriamente definida, vai no sentido de defender o setor privado. É o único que consegue se viabilizar. O setor estatal está mal e o setor comunitário simplesmente não existe” – Doraci Engel

Vocês podem mandar questões e colocações que, dentro do possível, serão passadas aos debatedores após suas falas iniciais.

“Muitas rádios comunitárias viram picaretagem, por causa do modelo que está aí. Não existe fomento, não existe política, só mercado”  - Doraci

Doraci começa a falar sobre a experiência com a Rádio Ipanema Comunitária. Conta o início da rádio, explicando que, como jornalista, vinha acompanhando o debate sobre rádios comunitárias, mas de forma periférica. Após trabalhar na grande imprensa, viu as rádios comunitárias como uma alternativa para retornar ao idealismo que possuía. Diz que foi uma militância tardia. Conta que fez uma carreira e resolveu interromper essa carreira precocemente para se integrar ao movimento comunitário, e depois veio a rádio.

Em 2001, criou o movimento SOS Ipanema, para defender uma área verde em Ipanema. Com o boicote que recebeu da grande imprensa, passou a se articular com outras pessoas para a criação da rádio.

Por coincidência, bem nessa época estava sendo lançado um edital para concessões. Participaram e, em 3 anos, conseguiram. Doraci diz que não houve “apelação” política para conseguir a outorga, apesar das pressões. “Não demos conotação político-partidária”.

Reclama que “nos sentimos muito sós, porque as rádios amigas não possuem outorga. Qualquer coisa que queremos pleitear tem que deixar eles de fora.”

www.ipanemacomunitaria.com.br é o site da Rádio Ipanema Comunitária.

Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro, vai começar a falar.

“O que a gente vêm tentando construir é que a rádio é um instrumento, é um meio de comunicação, que deve ser o mais democrática possível. As mesmas possibilidades que as rádios comerciais têm para criar dinheiro, queremos para criar cultura, educação.” – Leonardo Santos

“Temos que lutar pela complementaridade. 33% para cada um, entre rádios comerciais, rádios comunitárias e rádios estatais. O que os caras querem é monopolizar. Qualquer um que queira ocupar esse espaço vai receber muita pressão desse pessoal que detém 95% do espectro hoje” – Leonardo

“Por que a rádio comunitária é ‘menor’ que a comercial? A maior parte do orçamento das rádios comerciais são de dinheiro público. O problema não está em falta de dinheiro do governo, está na formação de um monopólio” – Leonardo

“Não é um sistema de produção de notícia ou de informação, é um sistema de produção de dinheiro” – Leonardo

“Ainda temos que caminhar para conseguir que as rádios comunitárias fujam dessa ideia, porque muitas acabam se rendendo” – Leonardo

“A proposta tem que ser diferente. Não temos que copiar o modelo comercial. Porque não reproduziríamos só o modelo, mas o que há por trás. As rádios comunitárias podem contribuir inclusive para testar novas formas de comunicação que não seriam testadas em outro lugar”  - Leonardo

“A lei como está atrapalha muito. As rádios comunitárias não conseguem se manter e acabam, muitas vezes, reproduzindo o mesmo modelo das rádios comerciais. Acabamos virando mais do mesmo. A lei tem esses dois problemas: não democratiza nada e obriga as rádios comunitárias a seguirem os modelos comerciais” – Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro

“São 3 mil rádios outorgadas e estima-se que 15 mil que estão esperando outorga ou operando de forma livre”

Lembrando que a cobertura está sendo feita aqui e no Twitter do Jornalismo B – www.twitter.com/jornalismob

“Se a lei não mudar, a tendência é que, como a digitalização, terminem as rádios comunitárias” – Leonardo

Pergunto sobre o governo Lula em relação às rádios comunitárias. Doraci responde: “Um desastre”. Explica, então,  que foi o governo que mais fechou rádios comunitárias ao mesmo tempo em que foi o que mais concedeu outorgas.

Doraci: “O governo Lula, em relação às rádios outorgadas :se teve esse tempo todo para construir políticas. Não fez nada. Construir ações, então? Nada. Construir programas? Não construiu nada. Fazer campanhas? Nada. Esse é o governo Lula com relação às rádios comunitárias.”

Leonardo: “A legislação está errada e o governo não fez nada para mudar isso. O que sobra é a repressão, e o governo Lula deixou tudo igual.”

Leonardo: “Não somos ‘rádio livre’, somos uma rádio comunitária, uma rádio voltada para a comunidade”

Leonardo: “Cada povo tem a mídia que merece. No Uruguai já se avançou muito nesse sentido. Na Argentina, temos a nova lei das mídias. Aqui no Brasil nunca ninguém se mobilizou. Os movimentos sociais fazem muito pouco em relação à comunicação. Fica cada um por si”

“RBS percebeu a questão da comunidade e está correndo na frente, e o Locast vai ao encontro disso” – Doraci

Falamos sobre o Locast NESSE post.

Pergunta da platéia: “As rádios comunitárias podem ajudar a integrar ricos e pobres dentro da comunidade e combater o individualismo?”

Doraci responde que sim, que as tradições de integração comunitária começam a se encontrar em torno da rádio. “Em torno da rádio, as coisas começam a se encontrar, e pessoas que jamais teriam contato acabam se conhecendo”

Platéia pergunta sobre a questão da notícia nas rádios comunitárias.

Leonardo responde que “não podemos cair na armadilha que tentam nos colocar de que rádio comunitária é pra cobrir o buraco da esquina. “A ideia de que os grandes veículos têm que cobrir as grandes questões e as rádios comunitárias o buraco da esquina. Temos que pegar grandes questões que não chegam na grande imprensa ou reverter as pautas.”

Pergunto, invertendo a questão central do debate: “Qual o papel da sociedade nas rádios comunitárias?”

Leonardo diz que o papel da sociedade é participar. “A questão do individualismo é complicada, porque as pessoas têm auto-estima muito baixa, então não participam. E muitas das que participam têm um ego muito grande. Então tu lidas com pessoas que acham que não podem mudar nada, e com lideranças que acham que podem fazer tudo por todo mundo. É complicado juntar essas pessoas.”

“É cada vez mais difícil perceber o que é ‘a sociedade’, ‘a comunidade’. A comunidade é uma coisa que a gente tenta contruir” – Leonardo

“Temos que perceber quem são as pessoas que querem construir uma sociedade. Não podemos achar que vai sair todo mundo abraçado. Temos que ver quem são os nossos” – Leonardo Santos

Vamos encaminhando o final do debate, partindo para as considerações finais.

Já avisando. O próximo debate, em dezembro, será no dia 10. Fiquem atentos, compareçam e participem. Logo o tema será divulgado. Queremos o máximo de ajuda possível para construir esse espaço. É importante a participação de todos, das mais diversas formas. Por causa do Natal e do fim do ano, o debate de dezembro será antecipado, então, para o dia 10, às 18h30, aqui mesmo na livraria Letras e Cia.

Leonardo, nas considerações finais, fala que é preciso difundir a necessidade de democratizar a informação. As pessoas devem participar dessa forma. Todos têm o dever de fazer.

Doraci complementa dizendo que esse evento faz parte exatamente desse processo que Leonardo citou.

Doraci: “O papel das rádios comunitárias é existir”.

E amanhã, aqui mesmo no Jornalismo B, a cobertura completa do debate sobre rádios comunitárias, inclusive com as fotos do evento.

Aplausos, acabou.

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Monopólio da RBS em discussão

25 Novembro 2009

Poucas são as iniciativas efetivas para romper com o monopólio dos meios de comunicação no Brasil. Uma delas aconteceu hoje, quarta-feira 25, promovida pelo Ministério Público Federal com representação em Canoas. Uma audiência pública discutiu o monopólio da RBS no Rio Grande do Sul.

O fato de as probabilidades de alguma coisa realmente mudar serem pequenas não anula a validade de se insistir. Sem se fazer nada é que as coisas não vão mesmo acontecer. Convocada pelo procurador Pedro Antônio Roso, a audiência escancarou o óbvio, que a RBS não cumpre a lei. Mesmo que no papel esteja tudo direitinho, com não mais do que dois canais de TV por CNPJ, na prática isso não acontece. São 12 os CNPJ que transmitem o mesmo conteúdo, que não é nem da RBS, mas praticamente todo da Globo. Meios de comunicação deviam ser fiscalizados pelos seu conteúdo, não simplesmente pelos números no papel.

Essas questões foram colocadas pelo público hoje à tarde. Público, aliás, já conhecido pelo pessoal do Jornalismo B. São os mesmos que estão sempre na luta: o pessoal do Dialógico, do RS Urgente, do Coletivo Catarse, dos movimentos estudantis. Estavam também o vice-presidente do Media Watch Global (do qual o presidente é Ignácio Ramonet), o presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS e o dono do Jornal Já.

Participando da mesa, além do procurador Pedro Roso, o presidente da TV comunitária POA TV, uma representante do Conselho Regional de Radiodifusão Comunitária do RS (CONRAD), um representante da Anatel, entre outros, estava uma representante do Grupo RBS, Fernanda Gutheil (ainda não descobrimos qual CNPJ ela representava). Sua função lá foi bem simples: entrar muda e sair calada. Falou o estritamente necessário, sem um posicionamento verdadeiro por parte da empresa. Entrevistada depois da audiência, Fernanda disse que foi só prestar esclarecimentos, e que não podia falar em nome da RBS, apenas no dela própria. Mas estava como representante do grupo. Vai entender…

Por incrível que pareça, a RBS alega que não tem afiliadas, mas repetidoras. A marca “Grupo RBS” pertence à RBS Participações S/A, que detém as concessões de Porto Alegre e Caxias. São duas só, tudo dentro da lei. Pouco importa, para a empresa, se no site do grupo apareçam “18 emissoras de televisão aberta (afiliadas à Rede Globo)”, entre tantos outros veículos, de TV, rádio, jornais, editoras… Isso tudo na parte institucional, sob o título “Plataforma multimídia do Grupo RBS”. Cláudia Cardoso, do Dialógico, resumiu: “isso caracteriza inconstitucionalidade, é monopólio”.

Para Marco Weissheimer, do RS Urgente e da Carta Maior, toda a RBS atua como uma única empresa. Há estratégias institucionais voltadas para todas as retransmissoras da mesma forma. As cores dos produtos, o formato dos programas, os e-mails, até os crachás dos funcionários, tudo é uniforme (isso sem citar o conteúdo, é claro), mas a RBS se defende afirmando que possui apenas duas TVs.

No fim das contas, foram definidos alguns encaminhamentos para dar sequência ao caso: solicitar os contratos da Globo com os 12 CNPJ da RBS no estado, requisitar a informação de a quem pertence a marca “RBS”, além de dados sobre a movimentação financeira da empresa, de como são feitos os pagamentos e qual é o percentual de lucro destinado à Globo, à RBS Participações S/A e às retransmissoras do interior, entre outros. Espera-se, com isso, fornecer subsídios para se abrir um processo judicial contra a RBS.

Talvez não dê em nada, tendo em vista que os interesses são muito fortes e o poder econômico que suporta o grupo é enorme. Mas é um começo. É uma luta. Um dia, tenho fé, teremos uma comunicação verdadeiramente inclusiva e democrática no Brasil.

Postado por Cris Rodrigues

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Não é a grande imprensa quem vai democratizar a informação

24 Novembro 2009

A questão é: quem vai democratizar a informação? a) Grandes empresas de comunicação; b) Governo; c) Mídia independente; d) Sociedade; e) n.d.a. Descartaria, de cara, a opção “a”. Eles não tem qualquer interesse em que você possa opinar. Para eles, você deve ler, olhar, ouvir e obedecer.

A RBS, em parceria com a PUCRS e com o Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) lançou nessa segunda-feira, 22, o site do projeto Locast. Vai funcionar mais ou menos assim: inicialmente repórteres e estudantes de jornalismo da PUCRS e, mais tarde, leitores, poderão enviar para a RBS, por celular ou outra forma de internet móvel, vídeos e notícias. Pré-selecionados pelos jornalistas do grupo, esses conteúdos irão ao ar no site e os internautas poderão, em um mapa de Porto Alegre, localizar de onde vieram as notícias, podendo ir direto ao local próximo de onde mora, trabalha ou simplesmente tem interesse.

O Grupo RBS tenta, dessa forma, antecipar-se. Muito se tem teorizado sobre a possibilidade de crescimento do jornalismo local através da web. É uma forma de seleção de conteúdo, diante da grande profusão de possibilidades que a internet oferece ao público. Agora, é realmente preocupante que uma grande empresa de comunicação dê passos na frente em relação a mais esse recurso.

A internet, como já afirmei aqui no Jornalismo B, é um espaço ainda pouco explorado e menos ainda compreendido. Quem começar a entendê-lo primeiro vai pular na frente e, se quem fizer isso forem as grandes empresas, será mais uma mídia que nasceu com a expectativa de democratizar a informação e, por incompetência de uns e competência demais de outros, perdeu-se pelo caminho.

Abrir espaço para que o público envie conteúdo nada mais é do que a centralização das decisões sobre o que é notícia e sobre o que as pessoas merecem saber nas mãos dos editores. Isso já acontece – com mais força ainda – fora da internet. Agora, em um momento em que o acesso a computadores e à rede começa a chegar a um número considerável de pessoas, os grandes veículos querem também ocupar esse espaço.

Colaborar com eles enviando conteúdo é colaborar para a manutenção do modelo ditatorial que temos na comunicação brasileira. Criar novos espaços, integrar redes, ser mais uma parte do espectro de contestação que começa a se fortalecer na web é participar da mudança e, mais do que isso, torná-la possível. Isso vale para quem ainda não teve contato com produção de conteúdo para a web e também para quem já está nela há mais tempo. Estamos todos engatinhando, mas temos que engatinhar olhando para a frente, não para baixo.

* Nessa quinta-feira, 26 de novembro, a partir das 18h30min, o Jornalismo B promove o debate “Rádios Comunitárias – qual o seu papel na sociedade?“, com os debatedores Doraci Engel, da Rádio Ipanema Comunitária, e Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro. Será na livraria Letras e Cia (Osvaldo Aranha, 444, Porto Alegre). O evento é totalmente gratuito. Esperamos todos vocês lá para debater com a gente e participar da construção desse espaço.

Postado por Alexandre Haubrich

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PIG tenta vincular Lula à imagem negativa de Ahmadinejad

23 Novembro 2009

Independente da visão que se tenha sobre o Irã – e que o PIG (Partido da Imprensa Golpista) distorce bastante -, vale refletir sobre a crítica que se tem feito ao governo brasileiro em todas as matérias que tratam da visita de Ahmadinejad ao Brasil. No Jornal Nacional de hoje, a primeira e a segunda matérias da edição foram sobre o assunto. E bastante tendenciosas, pra variar.

Já na abertura, William Bonner fala que se trata da “visita mais polêmica de um líder político ao Brasil desde o fim da ditadura militar”. Aí já abusa de termos pouco simpáticos aos ouvidos do público, que já se predispõe a achar o cara do Irã malvado. A ditadura aparece nessa frase sem nenhum motivo. Mas tudo bem, é polêmica mesmo, deixemos passar.

O problema é que ele continua. Fala de intolerância com homossexuais e que Ahmadinejad negou o extermínio de milhões de judeus durante a Segunda Guerra. Sem nenhuma menção a nada de positivo que o presidente iraniano tenha feito, começa a matéria. Da seguinte forma: “Um abraço caloroso na chegada, três horas de conversas a portas fechadas”, tudo com as devidas imagens de Ahmadinejad com Lula, primeiro o abraço, depois a caminhada lado a lado cheia de sorrisos.

Coincidência? Eu não apostaria nisso. A matéria nitidamente vincula tudo de ruim que se diz do iraniano a uma recepção calorosa da parte de Lula. Conclusão a que se chega: Lula apoia o Irã e acha tudo isso bacana. Mesmo que a relação entre as duas coisas não seja direta, cria, sim, uma visão negativa do governo por ter recebido o líder do Irã.

A passagem da repórter, outro momento importante da matéria, informa novamente que Ahmadinejad vem sendo duramente criticado pela comunidade internacional. Fala em programa nuclear, repressão aos direitos humanos e à oposição, negação do Estado de Israel. Proponho uma brincadeira de adivinhação: qual é a primeira imagem que aparece em seguida? Acertou quem disse Lula. E mais. A frase que sobrepõe a imagem, logo depois dessas críticas todas é “Referindo-se ao presidente Lula como ‘meu bom amigo’…”.

Depois de anunciar que o governo brasileiro recebeu o presidente do Irã, a matéria imediatamente seguinte é sobre os protestos contra Mahmoud Ahmadinejad. São consideradas quatro fontes de informações, sendo que uma delas é uma nota divulgada no site dos Democratas. Três delas, que são também as três primeiras mostradas, são contrárias ao Irã. A última defende Ahmadinejad, e é do PT. A tentativa de vincular a imagem negativa do líder iraniano ao governo brasileiro é inegável. E um comentário extra: mostraram-se grupos judeus questionando a visita. Quando veio o presidente israelense, a recepção midiática foi bem mais simpática, embora Israel também desrespeite os direitos humanos.

As matérias do Jornal Nacional aqui esmiuçadas são só um exemplo do que a imprensa brasileira de um modo geral vem dizendo a respeito. O PIG não sabe mais o que fazer para diminuir a alta popularidade de Lula. Está usando todas as armas de que dispõe.

Postado por Cris Rodrigues

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Debate “Rádios comunitárias – qual o seu papel na sociedade?”

20 Novembro 2009
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O Livro Amarelo do Terminal

19 Novembro 2009

Recentemente terminei um dos tesouros obtidos este ano na Feira do Livro de Porto Alegre: trata-se de O Livro Amarelo do Terminal, da jornalista Vanessa Barbara, editado pela excelente Cosac-Naify.

Repórter da revista Piauí, Vanessa se infiltrou no Terminal Tietê de bloquinho na mão, disposta a captar impressões, dados e histórias do local, sua construção, seus funcionários e as milhares de pessoas que nele embarcam e desembarcam cotidianamente.

Se o uso da expressão “se infiltrou” na frase anterior parece despropositado (sendo o Terminal um bem público), quem lê o livro vê que é bem isso: Vanessa preocupou os departamentos de assessoria de imprensa e Relações Públicas e enfrentou dificuldades, inclusive, por não estar ligada a nenhum grande veículo- tudo isso aparece n’O Livro Amarelo. Os telefonemas a inúmeros departamentos (cada um deles redirecionando a outro departamento), os dados que “são públicos mas são privados”. E, com ironia, a “ficha de geração de matéria automática” da assessoria.

Aparece a história de Marcos, “a voz mais bonita do terminal”, que interrompe conversas pra anunciar pelo rádio a necessidade de comparecimento dos funcionários a um determinado balcão ou uma criança perdida perto do quiosque de informações. E de Rosa, que jura que a Marinha Britânica está vindo para levá-la pra longe do caos paulista. O Natal dos migrantes. A faxineira Augusta. As onipresentes freiras e pranchas de surfe.

Há também algo que se aproxima da reportagem clássica, com farta consulta a arquivos de jornais e documentos, reconstruindo a história novelesca da construção do Terminal Tietê e a imagem popular (remontada a partir de letras de músicas de sucesso à época) desse processo.

Popular, governamental, público, privado, histórico, atual, urbano, rural, factual, imaginário: tudo isso se funde no livro de Vanessa. O tipo de livro que explica por que, com todas as dificuldades que ela apresenta, eu continuo amando a profissão.

Artigo de Luiza Monteiro

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Em discussão, a democracia

18 Novembro 2009

É com base na convicção de que o sistema brasileiro de comunicação não atende aos propósitos de democracia, que estão inclusiva expostos na Constituição, que foi convocada uma Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) pelo governo federal. Ela vai acontecer de 14 a 17 de dezembro em Brasília, com o tema “Comunicação: meios para a construção de direitos na era digital”, mas as etapas estaduais já estão pululando pelas capitais do país. Ontem e hoje (17 e 18) aconteceu a do Rio Grande do Sul, na Assembleia Legislativa do estado. Vale lembrar que ela foi convocada pelo Legislativo porque o governo do Estado não teve interesse e deixou o prazo estourar.

É praticamente unânime em todos os discursos de quem participa das discussões pré-Confecom que ela não vai mudar radicalmente os rumos da comunicação. Afinal, não é deliberativa. Mas é consenso também que ela é um primeiro passo e que esse passo é muito importante. Só que tem que ficar bem claro que a luta tem que continuar depois de dezembro. Um exemplo muito citado é o da área da Saúde. Desde 1988, quando foi lançada a Constituição, é a primeira conferência de comunicação a ser realizada. De saúde, foram 13. Delas, saiu a proposta do SUS, que quem entende do metiê diz que é avançadíssima e muito importante para o Brasil. Ou seja, esse processo não ocorre a toa, temos que aproveitar o momento.

A Confecom é um marco na luta pela democratização da comunicação, é uma reivindicação histórica – e tudo isso foi muito enfatizado nas discussões de ontem e hoje. Vários pontos constitucionais garantem essa democracia, mas ou não são cumpridos ou são muito vagos. É preciso regulamentá-los, criar leis específicas, e atuais. Outros tantos itens importantes nem constam da Carta, e é necessário que passem a ser pauta dos legisladores.

Ou seja, mais do que ficar discutindo a importância do diploma e outras questões afins – importantes, sem dúvida, mas menores -, o que está no cerne da questão é todo o sistema de comunicação. No Brasil ele é praticamente todo comercial. Embora as concessões de rádio e TV sejam públicas, elas são geridas por empresas, com interesses comerciais. O interesse público geralmente nem é questionado na elaboração da programação.

Deve, sim, haver fiscalização sobre os meios privados de produção e distribuição de conteúdo para que ele seja feito com qualidade e fortaleça a cidadania, de forma democrática e participativa. Essas são várias palavras muito usadas como palavras de ordem, mas cada uma delas foi colocada nessa frase pelo seu significado, que é muito importante.

Foram três os eixos da Conferência Estadual: produção de conteúdo, distribuição da produção e cidadania. Eles podem ser traduzidos em quem produz, o que produz e para quem produz. Os meios de comunicação têm que ser vistos como um bem público, de todos. Não é privado porque tem como meta o interesse público e porque a maioria é de concessões públicas. Há uma responsabilidade com o cidadão, que não é respeitada hoje.

Diversas entidades elaboraram propostas para a Confecom, e não vou aqui listá-las porque são muitas e já me excedi no tamanho do texto, mas sugiro a leitura das propostas do Intervozes, da CUT, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço).

Postado por Cris Rodrigues

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Uol Notícias publica reportagem extensa sobre morro Dona Marta

17 Novembro 2009

Os especialistas em internet costumam afirmar que a web precisa, cada vez mais, de textos curtos. Concordo. Porém, ainda que isso seja uma necessidade e uma tendência, existem exceções. Quando li a reportagem da Uol Notícias, indicada pelo Alexandre Lucchese (d’Os Estrangeiros), minha primeira impressão foi: “poderia estar em algum jornal”.

Convenhamos: o texto, de Rosanne D’Agostino, não é nada muito diferente do padrão. Seu trabalho de reportagem, porém, o é. A matéria trata da situação do morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, após a ocupação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Já falamos um pouco sobre isso AQUI.

 

A repórter entrevista fontes de todos os lados, mostrando que os conflitos entre a comunidade e a polícia continuam, como mostrou a matéria de Mario Hugo Mongen no Jornal do Brasil, e que não são apenas por causa do toque de recolher. A proibição dos bailes funk – uma das principais formas de diversão na comunidade – também causa polêmica e desavenças.

Para mostrar esse conflito e a situação geral no morro, Rosanne entrevista moradores; a responsável pela operação policial na favela, capitão Pricila de Oliveira Azevedo; e o presidente da Apafunk (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk), MC Leonardo. Com várias declarações, um texto que apresenta vários fatos e um box com uma entrevista com um sociólogo, a repórter faz um retrato interessante e aprofundado da situação.

Apenas a formatação da reportagem para a internet causa algum estranhamento. O texto é grande, bem grande. Mas esse, se é realmente um problema, é o único. As outras opções gráficas são interessantes. As cinco fotos que estão na página principal possuem, logo abaixo, links para outras fotos da reportagem ou para vídeos relacionados ao assunto. Uma opção diferente e interessante, uma boa solução. Quem se animou a ler o texto até o fim, apesar de alguns erros de revisão, ficou realmente informado e pôde adquirir uma boa noção do que está acontecendo por lá.

* Mesmo censurado, o blog Ponto de Vista, do jornalista Wladymir Ungaretti, continua fazendo bom jornalismo. O post de ontem, segunda-feira, é um bom exemplo. Material fotográfico de gente, que passa humanidade. São fotografias de pessoas tiradas por uma pessoa. Fotojornalismo de qualidade, realidade.

Postado por Alexandre Haubrich

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Kennedy Alencar faz boa entrevista com Lula na RedeTV

16 Novembro 2009

Foi ao ar neste domingo à noite uma entrevista (AQUI, AQUI e AQUI) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu ao programa É Notícia, da RedeTV, apresentado pelo jornalista Kennedy Alencar, que também é colunista da Folha de São Paulo. A entrevista – de quase uma hora – foi bem feita, estruturada de forma a abordar temas diversos com profundidade, e colaborou o fato óbvio de o Lula ser muito bom de entrevista.

Admito que não conhecia – e ainda não posso me considerar um conhecedor – o trabalho do Kennedy Alencar, mas ele se saiu muito bem, ainda que, como notou minha colega de blog, Cris Rodrigues, Kennedy tenha colocado um grande sucesso do Plano Real como obviedade, como senso comum. Ainda que fosse verdade, não é o papel do entrevistador, convenhamos. Por outro lado, nas minhas andanças pela internet atrás do trabalho de Kennedy, achei muitas referências à possibilidade de ele ser petista. E ainda que certamente defensores dos tucanos diriam que, no primeiro bloco, Lula foi favorecido.

Não me parece. O primeiro bloco foi uma retrospectiva muito bem feita da vida pessoal de Lula até seu começo na política. O entrevistador demonstrou grande conhecimento sobre o entrevistado, o que parece óbvio mas não é nada comum. Mostrou-se muito bem preparado. Lula se abriu, chorou, contou fatos que eu pelo menos nunca o tinha ouvido contar.

No segundo bloco, aprofundou-se a questão política, complementada no terceiro. Esse, o último, ainda foi encerrado com perguntas de respostas rápidas, do tipo “cantor preferido, livro preferido”, etc. Ou seja: a entrevista começou com questões pessoais, chegou à política e acabou com mais um pouco da pessoa Lula.

Kennedy apertou Lula na questão do mensalão: chegou a perguntar se “o poder corrompeu o PT?”. As perguntas foram fortes onde deveriam ser, incluindo-se aí alianças políticas, meio ambiente e relação com o ex presidente Fernando Henrique Cardoso.

A entrevista serviu como uma pequena biografia de Lula, com foco em seus oito anos de governo. Estranhei apenas a falta de perguntas sobre sucessão presidencial. Kennedy Alencar conseguiu um equilíbrio difícil de ser alcançado: pressionou o entrevistado sem ser agressivo nem desrespeitoso. Também teve mérito por estar completamente à vontade e seguro em uma entrevista com o presidente da República. É claro que a simplicidade de Lula colabora para isso, mas ainda assim não podemos tirar o mérito do jornalista.

Em uma emissora pequena e de qualidade tão baixa como a RedeTV, o programa É Notícia mostrou que se pode fazer bom jornalismo na televisão. Uma ótima entrevista, atrativa e interessante. Uma entrevista sobre política que consegue ser atrativa a qualquer tipo de público. Merecia mais audiência do que a pouca que certamente teve.

Postado por Alexandre Haubrich