Já vai começar a cobertura do debate “Rádios Comunitárias – qual o seu papel na sociedade?”, com os debatedores Doraci Engel, da Rádio Ipanema Comunitária, e Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro.
Vai começar. Cris fazendo apresentações.
Doraci Engel, diretor da Rádio Ipanema Comunitária, começa falando.
“Temos um universo imenso de um negócio que ninguém sabe bem o que é. Temos mais rádios comunitárias do que comerciais, e estou falando só das outorgadas. Entretando, as pessoas não sabem o que são rádios comunitárias, ou acham que é só aquilo que derruba avião” – Doraci
“O papel das rádios comunitárias é a utopia. A questão é saber o que dessa utopia vai de fato se viabilizar” – Doraci Engel
“Ainda que tenhamos um grande espectro de rádios comunitárias, ocorre um boicote institucionalizado às rádios comunitárias. Precisamos que o país assuma as rádios comunitárias e isso se institucionalize. Esse debate está avançando, como com a Conferência” – Doraci
“Sistema privado, sistema estatal e esse sistema público comunitário precisam de paridade. Mas toda a política de Estado, que nem é uma política propriamente definida, vai no sentido de defender o setor privado. É o único que consegue se viabilizar. O setor estatal está mal e o setor comunitário simplesmente não existe” – Doraci Engel
Vocês podem mandar questões e colocações que, dentro do possível, serão passadas aos debatedores após suas falas iniciais.
“Muitas rádios comunitárias viram picaretagem, por causa do modelo que está aí. Não existe fomento, não existe política, só mercado” - Doraci
Doraci começa a falar sobre a experiência com a Rádio Ipanema Comunitária. Conta o início da rádio, explicando que, como jornalista, vinha acompanhando o debate sobre rádios comunitárias, mas de forma periférica. Após trabalhar na grande imprensa, viu as rádios comunitárias como uma alternativa para retornar ao idealismo que possuía. Diz que foi uma militância tardia. Conta que fez uma carreira e resolveu interromper essa carreira precocemente para se integrar ao movimento comunitário, e depois veio a rádio.
Em 2001, criou o movimento SOS Ipanema, para defender uma área verde em Ipanema. Com o boicote que recebeu da grande imprensa, passou a se articular com outras pessoas para a criação da rádio.
Por coincidência, bem nessa época estava sendo lançado um edital para concessões. Participaram e, em 3 anos, conseguiram. Doraci diz que não houve “apelação” política para conseguir a outorga, apesar das pressões. “Não demos conotação político-partidária”.
Reclama que “nos sentimos muito sós, porque as rádios amigas não possuem outorga. Qualquer coisa que queremos pleitear tem que deixar eles de fora.”
www.ipanemacomunitaria.com.br é o site da Rádio Ipanema Comunitária.
Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro, vai começar a falar.
“O que a gente vêm tentando construir é que a rádio é um instrumento, é um meio de comunicação, que deve ser o mais democrática possível. As mesmas possibilidades que as rádios comerciais têm para criar dinheiro, queremos para criar cultura, educação.” – Leonardo Santos
“Temos que lutar pela complementaridade. 33% para cada um, entre rádios comerciais, rádios comunitárias e rádios estatais. O que os caras querem é monopolizar. Qualquer um que queira ocupar esse espaço vai receber muita pressão desse pessoal que detém 95% do espectro hoje” – Leonardo
“Por que a rádio comunitária é ‘menor’ que a comercial? A maior parte do orçamento das rádios comerciais são de dinheiro público. O problema não está em falta de dinheiro do governo, está na formação de um monopólio” – Leonardo
“Não é um sistema de produção de notícia ou de informação, é um sistema de produção de dinheiro” – Leonardo
“Ainda temos que caminhar para conseguir que as rádios comunitárias fujam dessa ideia, porque muitas acabam se rendendo” – Leonardo
“A proposta tem que ser diferente. Não temos que copiar o modelo comercial. Porque não reproduziríamos só o modelo, mas o que há por trás. As rádios comunitárias podem contribuir inclusive para testar novas formas de comunicação que não seriam testadas em outro lugar” - Leonardo
“A lei como está atrapalha muito. As rádios comunitárias não conseguem se manter e acabam, muitas vezes, reproduzindo o mesmo modelo das rádios comerciais. Acabamos virando mais do mesmo. A lei tem esses dois problemas: não democratiza nada e obriga as rádios comunitárias a seguirem os modelos comerciais” – Leonardo Santos, da Rádio A Voz do Morro
“São 3 mil rádios outorgadas e estima-se que 15 mil que estão esperando outorga ou operando de forma livre”
Lembrando que a cobertura está sendo feita aqui e no Twitter do Jornalismo B – www.twitter.com/jornalismob
“Se a lei não mudar, a tendência é que, como a digitalização, terminem as rádios comunitárias” – Leonardo
Pergunto sobre o governo Lula em relação às rádios comunitárias. Doraci responde: “Um desastre”. Explica, então, que foi o governo que mais fechou rádios comunitárias ao mesmo tempo em que foi o que mais concedeu outorgas.
Doraci: “O governo Lula, em relação às rádios outorgadas :se teve esse tempo todo para construir políticas. Não fez nada. Construir ações, então? Nada. Construir programas? Não construiu nada. Fazer campanhas? Nada. Esse é o governo Lula com relação às rádios comunitárias.”
Leonardo: “A legislação está errada e o governo não fez nada para mudar isso. O que sobra é a repressão, e o governo Lula deixou tudo igual.”
Leonardo: “Não somos ‘rádio livre’, somos uma rádio comunitária, uma rádio voltada para a comunidade”
Leonardo: “Cada povo tem a mídia que merece. No Uruguai já se avançou muito nesse sentido. Na Argentina, temos a nova lei das mídias. Aqui no Brasil nunca ninguém se mobilizou. Os movimentos sociais fazem muito pouco em relação à comunicação. Fica cada um por si”
“RBS percebeu a questão da comunidade e está correndo na frente, e o Locast vai ao encontro disso” – Doraci
Falamos sobre o Locast NESSE post.
Pergunta da platéia: “As rádios comunitárias podem ajudar a integrar ricos e pobres dentro da comunidade e combater o individualismo?”
Doraci responde que sim, que as tradições de integração comunitária começam a se encontrar em torno da rádio. “Em torno da rádio, as coisas começam a se encontrar, e pessoas que jamais teriam contato acabam se conhecendo”
Platéia pergunta sobre a questão da notícia nas rádios comunitárias.
Leonardo responde que “não podemos cair na armadilha que tentam nos colocar de que rádio comunitária é pra cobrir o buraco da esquina. “A ideia de que os grandes veículos têm que cobrir as grandes questões e as rádios comunitárias o buraco da esquina. Temos que pegar grandes questões que não chegam na grande imprensa ou reverter as pautas.”
Pergunto, invertendo a questão central do debate: “Qual o papel da sociedade nas rádios comunitárias?”
Leonardo diz que o papel da sociedade é participar. “A questão do individualismo é complicada, porque as pessoas têm auto-estima muito baixa, então não participam. E muitas das que participam têm um ego muito grande. Então tu lidas com pessoas que acham que não podem mudar nada, e com lideranças que acham que podem fazer tudo por todo mundo. É complicado juntar essas pessoas.”
“É cada vez mais difícil perceber o que é ‘a sociedade’, ‘a comunidade’. A comunidade é uma coisa que a gente tenta contruir” – Leonardo
“Temos que perceber quem são as pessoas que querem construir uma sociedade. Não podemos achar que vai sair todo mundo abraçado. Temos que ver quem são os nossos” – Leonardo Santos
Vamos encaminhando o final do debate, partindo para as considerações finais.
Já avisando. O próximo debate, em dezembro, será no dia 10. Fiquem atentos, compareçam e participem. Logo o tema será divulgado. Queremos o máximo de ajuda possível para construir esse espaço. É importante a participação de todos, das mais diversas formas. Por causa do Natal e do fim do ano, o debate de dezembro será antecipado, então, para o dia 10, às 18h30, aqui mesmo na livraria Letras e Cia.
Leonardo, nas considerações finais, fala que é preciso difundir a necessidade de democratizar a informação. As pessoas devem participar dessa forma. Todos têm o dever de fazer.
Doraci complementa dizendo que esse evento faz parte exatamente desse processo que Leonardo citou.
Doraci: “O papel das rádios comunitárias é existir”.
E amanhã, aqui mesmo no Jornalismo B, a cobertura completa do debate sobre rádios comunitárias, inclusive com as fotos do evento.
Aplausos, acabou.