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Café-com-leite

10 Maio 2008

Na semana que acaba hoje, Carta Capital não foi feliz. Sua matéria de capa, “Vale tudo entre tucanos e petistas”, deixou a desejar. Luiz Antonio Cintra e Rodrigo Martins assinam as seis páginas da reportagem, com a colaboração de Leandro Fortes. Nas duas últimas dessas seis, encerra uma entrevista com o prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel.

A primeira metade da matéria gira em torno da eleição municipal de Belo Horizonte. Tudo o que ela faz é justificar a decisão da Executiva Nacional do PT de não aceitar a união com o PSDB para a candidatura de Márcio Lacerda, do PSB, à prefeitura da capital mineira. Ouve petistas e tucanos, mas o texto é elaborado de tal forma que só mostra as incongruências de um partido de esquerda se aliar com Aécio Neves. Não entro no mérito da questão, nem discuto de quem é a razão no embate político. Avalio, isso sim, uma posição já pré-estabelecida dos repórteres, que se afastam do tema da matéria, que seria mostrar os erros comuns entre os dois partidos, e não as diferenças políticas que os afastam.

No frigir dos ovos, é uma boa reportagem sobre as contradições das negociações e negociatas que os dois partidos estão tramando para as prefeituras de São Paulo e Belo Horizonte em 2008, para os governos dos estados de São Paulo e Minas Gerais e para a presidência da República, em 2010. Está longe de aproximar PT e PSDB em termos de estratégias, como anuncia o título (”Mórbida semelhança”) e a linha de apoio da matéria (”Nas campanhas municipais, petistas e tucanos usam das mesmas armas para ataques recíprocos, de olho em 2010″) e muito menos de dar um panorama geral sobre as suas articulações país afora.

Ou seja, para a reportagem ser realmente interessante, é preciso trocar a capa da revista, o título e a linha de apoio do texto. Fechando mais o enfoque, tem-se uma idéia do que acontece nos bastidores da política do café-com-leite. Aliás, a revista mostra, ao escolher esses dois estados para falar a respeito, que essa velha política ainda está bem viva, apesar de não se ter falado a respeito dessa centralização na matéria. Do jeito que está a reportagem, decepciona o leitor, que vai ler esperando uma coisa e encontra outra.

Postado por Cris Rodrigues

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O público não está preso

8 Maio 2008

O assassinato de uma menina chamada Isabella Nardoni chega cada vez mais próximo de um esgotamento de informações, o que não tira a sede de parte da imprensa brasileira por novas formas de abordar um caso sobre o qual já não há o que noticiar sem que se caia na apelação. A cobertura é de conteúdo tão vazio que começa a saltar aos olhos o fato de que, agora, apenas imagens fazem as notícias.

Na noite de ontem, a Rede Globo interrompeu a transmissão do futebol para transmitir, ao vivo, as imagens da prisão do casal Alexandre Nardoni e Anna carolina Jatobá, à frente de uma narração forçada de William Wack.

No Jornal Nacional de hoje, não é possível que o Bonner realmente tenha achado que o que o casal comeu no café da manhã de hoje na prisão é importante, é realmente de interesse público. Ponho em dúvida até se realmente é de interesse DO público. Creio, sinceramente, que mesmo aquelas pessoas que acompanhavam o caso com fervor desde o seu início, começam a ficar de saco cheio. Voltando ao JN, as outras informações importantíssimas foram que Anna Carolina tem vaso sanitário em sua cela de não-sei-quantos-por-não-sei-quantos metros-quadrados, que Alexandre tomou sol hoje pela manhã, e por aí vai. Se alguma coisa ainda interessa nessa história, é o que levou à prisão do casal e, com todo este espetáculo, isto ficou para segundo plano.

A Zero Hora, o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo desta quinta-feira deram a prova definitiva de que estamos em um momento dessa história em que só tem lugar o show e, assim, a imagem sobrepõe-se flagrantemente ao conteúdo. A ZH traz uma chamada na capa, a única das secundárias em que há foto. A primeira página de polícia, onde está a matéria, tem metade de seu espaço ocupado por uma foto tirada em frente ao local onde Alexandre e Anna Carolina foram presos.

A chamada de capa da Folha também não é a manchete principal. Não há sequer um título sobre o caso. Apenas uma foto, uma grande foto, com legenda. A reportagem traz uma grande - no sentido de tamanho, não de qualidade - cobertura do “acontecimento do ano”, com a participação de três repórteres - Kleber Tomaz, Luís Kawaguti e Cínthia Rodrigues - e uso de três retrancas que cobrem todo o fuzuê em torno da história.

Por fim, o Estadão põe na capa duas fotos, uma de cada um dos possíveis assassinos, com um pequeno texto. Mais uma vez, o predomínio absoluto da imagem. A matéria também é curta, com o factual da prisão.

Não estaria na hora de se começar a pensar se essa cobertura e esse esforço em forçar a barra não está indo longe demais? Tenho um palpite que, mesmo que centenas de desocupados ignorantes ainda se aglomerem em busca de uma visão do rosto de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, o grosso da população não tardará em perder o interesse por essa besteirada toda.

Postado por Alexandre Haubrich

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Sobre um jornalista e uma Poeta

6 Maio 2008

“Você teve relação com os travestis?”, pergunta Patrícia Poeta. “É claro”, responde Ronaldo. Quê? Opa, resposta errada, ele não diz que sim, mas que não, que é heterossexual, que não sabia que eram travestis. Mas peraí, alguém esperava uma resposta diferente?

Pois é, esse foi o tom da entrevista que o Fantástico levou ao ar no último domingo com o Ronaldo “Fenômeno” sobre o escândalo que envolve seu nome ao de travestis. As perguntas são tão previsíveis que ele já responde antes de elas serem feitas, como quando ele falou sobre a reação da namorada à história, antes da Patrícia Poeta sequer citar a moça. Era óbvio que ele seria questionado sobre isso, tanto quanto era óbvia qual seria sua resposta à pergunta que abre esse post.

Ronaldo passou os 15 minutos da entrevista se dizendo arrependido pelo erro que cometera, se mostrando envergonhado e repetindo que estava arrependido e envergonhado. Ele fez isso porque as perguntas levaram a essas evasivas. Perguntas vazias pedem respostas vazias. Agora fica uma outra pergunta: o que essa entrevista acrescentou? Alguma informação nova ou inesperada? Terminou como todas as entrevistas com o Fenômeno, falando de seus planos de terminar a carreira no Flamengo. Inédito, ahn?

Exatas duas semanas antes, no dia 20 de abril, o Estado de São Paulo fez uma entrevista com Pelé, que apresenta semelhanças e diferenças com relação à entrevista de Patrícia Poeta com o craque Ronaldo. Em comum com a do Fantástico, o fato de serem dois ícones do futebol (o Fenômeno e o Rei), dois personagens polêmicos, duas longas entrevistas. Tal como na da Globo, era a primeira vez que o entrevistado falava sobre determinado assunto, nesse caso a conquista da Copa de 1958.

As diferenças pedem um pouco mais de espaço. Em primeiro lugar, o repórter. Daniel Piza, do Estadão, entende de futebol. Eu não o conhecia até ler a entrevista, mas está claro em cada palavra de cada pergunta que ele sabe do que está falando. Ao contrário de Patrícia Poeta, perdida ali sem noção do tema. Os questionamentos ao Rei são inusitados, interessantes, imprevisíveis. Sobre os do Fantástico… Já foram suficientemente comentados. A Rede Globo conta com toda uma equipe de produção de imagem. Não que o Estadão não tenha infra-estrutura, mas já é naturalmente prejudicial a falta de imagem no jornal impresso, em comparação com a TV. Ainda assim, as fotografias de Pelé - com o rádio em que seu pai ouviu as copas de 50 e 58 - são muito mais interessantes do que as imagens nada criativas de Ronaldo.

Apesar de a Copa de 58 ser um tema específico a ser trabalhado, é menos fechado e muito menos novo que o envolvimento de Ronaldo com travestis. E aí o Estadão encontrou duas dificuldades: encontrar perguntas novas sobre um tema já tão insistentemente trabalhado e falar de Pelé de forma tão ampla. As dificuldades muito maiores, além de lidar com uma pessoa mais arrogante e presunçosa, tornaram o trabalho de Daniel Piza quase impossível. E o de Patrícia Poeta fácil. E aí a gente vê a diferença entre um bom jornalista e um medíocre. O bom vai até a cozinha buscar o que deseja, e demonstra se divertir com isso. O medíocre sofre ao jogar fora o que vem trazido na bandeja.

Postado por Cris Rodrigues

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Você não vai entender nada, mas leia mesmo assim

4 Maio 2008

“Serginho segue com chances do ‘scudetto’”, “Rice prolonga entrevistas e não consegue um compromisso de Israel”, “Restrepo propõe dissolução de partidos governistas ligados a paramilitares”, “Brasilienses compram ingressos falsos”, “Marinha diz que barco que afundou estava apreendido”, “Consulado russo facilita vida dos ingleses”, “Mar verde invade a rua Turiassu”.

Você entendeu alguma dessas afirmações? Tem idéia de sobre o que estão falando? Pois é, estas são algumas das chamadas de hoje do plantão da Globo.com.

O problema dessas chamadas persiste há um bom tempo, mesmo tendo melhorado um pouco recentemente. Frases completamente ininteligíveis para quem não está interado no assunto, que acabam, assim, tornando-se desinteressantes, fazendo com que um número muito inferior ao que poderia ser, acesse as notícias completas.

Quem trabalha com internet, especialmente com grandes sites, voltados para um público absolutamente heterogêno, e principalmente em um espaço como o plantão, onde não há editorias, deve ter consciência de que as pessoas não possuem um conhecimento prévio do assunto abordado. A velocidade transforma-se em desleixo e o leitor é quem perde.

Mesmo que as frases tenham que ser curtas, elas não podem fugir de sua obrigação de dar a notícia resumidamente, para que o internauta veja se interessa a ele ou não.

E boa parte das chamadas da Globo.com, infelizmente, não cumprem com essa tarefa, nem de longe.

Postado por Alexandre Haubrich

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Já em campanha?

2 Maio 2008

Um texto leve e gostoso, apesar de nitidamente tendencioso, dá o tom da matéria principal do terceiro número da revista gaúcha , terceira publicação impressa do grupo JÁ Editores. A publicação tem o mérito principal de fazer reportagem sobre o Rio Grande do Sul, algo ainda novo na nossa fraca imprensa. Vem ultrapassando uma série de obstáculos para cumprir com esse objetivo. O principal, falta de dinheiro, atrasou a impressão e distribuição dessa edição. A insistência dos editores fez com que o número chegasse às bancas, mas não sem uma série de problemas típicos de uma publicação recente.

Alguns detalhes são perdoáveis, como erros de digitação e gramática, texto passando por cima de fotos, a falta de assinatura em algumas matérias ou a fraca distribuição das imagens, de forma aparentemente meio improvisada. A capa parece feita por um amador, com imagens jogadas sem um projeto de diagramação. Como a revista demorou para sair, alguns textos ficaram desatualizados. “A expectativa é que seja votado ainda em março”, diz na edição de abril. Outras problemas saltam aos olhos, e fica difícil de justificar com a desculpa de que é recém o segundo número.

A manchete de capa diz “Dilma presidente”. Se pendurada em um poste, a revista pareceria cartaz da campanha petista de 2010. Situação inaceitável para uma revista desse gênero. A matéria, apesar de defender a ministra, é muito bem escrita e passaria sem problemas - até com méritos - caso não viesse acompanhada dessa manchete infeliz. Mas veio.

A reportagem maior, com chamada na capa, é sobre a silvicultura no Estado. A plantação de eucaliptos e outras árvores para a produção de celulose é financiada por três grandes empresas: Aracruz, Stora Enso e Votorantim. A matéria de Elmar Bones vem logo antes de um encarte especial apoiado pela Aracruz. Dessa forma, fica difícil esperar isenção no texto, que de fato pende para a aceitação da silvicultura, embora não tão intensamente quanto o que já estou acostumada a ler na maioria das outras publicações gaúchas. As imagens são em grande parte de integrantes do governo, enquanto as manchetes defendem o ponto de vista das empresas, ambos do mesmo lado da história.

Apesar de todos os problemas, insisto que a revista tem méritos. A entrevista com o cartunista Santiago, por exemplo, criticando a censura na grande imprensa, é um deles, além da matéria sobre os pedágios, com um texto meio burocrático, mas elucidativo. A valorização da cultura está presente em grande número de páginas, por sinal impressas em papel de alta qualidade. Por isso e principalmente pela proposta de um jornalismo aprofundado e sério sobre temas gaúchos que aparenta estar embutida no lançamento da revista, aposto na sua continuação e crescente melhoria nos próximos números. Espero que não precisemos desistir dela.

Postado por Cris Rodrigues

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Divulgando a não-notícia

30 Abril 2008

O que é notícia? Parece que boa parte da imprensa brasileira concordou, mais ou menos, no caso da divulgação de uma pesquisa CNT/Sensus, na última segunda-feira. Boa parte, mas não todo mundo. Enquanto Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, por exemplo, destacavam o apoio da população a um terceiro mandato de Lula e o crescimento da popularidade do presidente, a Zero Hora trazia - na edição de terça-feira, 29 - uma matéria que, durante metade do texto, falava apenas sobre os supostos desejos de Lula de concorrer novamente.

A reportagem da Folha tem como título “3º mandato para Lula tem apoio de 50,4%, aponta CNT/Sensus”, e tem, na linha de apoio, os números de desempenho do governo e do presidente. No lead, Gabriela Guerreiro diz que “Pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem mostra que 50,4% dos entrevistados são favoráveis a um terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A pesquisa mostra que 45,4% dos entrevistados são contrários ao terceiro mandato e 4,3% não responderam”. Em seguida, explica como foi feita a pesquisa e repercute os resultados com políticos do governo e da oposição, além de uma fala do diretor do Instituto Sensus.

O Jornal do Brasil fez um resumão da matéria da Agência Folha, mas ainda assim muito melhor que a matéria da Zero, que tem por título “Ninguém consegue fazer tudo em oito anos, diz Lula”, os primeiros cinco parágrafos nem citam as pesquisas. O lead é absolutamente enganoso, quando diz que “No mesmo dia em que a pesquisa CNT/Sensus indicou que mais da metade da população aprovaria uma medida que permitisse sua segunda reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que ‘ninguém consegue fazer tudo em oito, nove ou 10 anos’”. Em um momento obscuro e rápido, a reportagem - não assinada -, explica que o presidente falava de um possível bom sucessor. Quem só lê o lead - a maioria dos leitores - não ficou sabendo, acha que Lula está babando por um terceiro mandato.

Apenas no fim da matéria, a Zero Hora divulga a verdadeira notícia: a pesquisa.

Brigar com a notícia não é novidade por aqui, mas não dá pra deixar passar uma grosseria dessas.

Postado por Alexandre Haubrich

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Fome de informação

28 Abril 2008

Combate à fome. Esse foi o carro-chefe da campanha que levou à eleição do presidente Lula em 2002. Parecia um discurso meio ultrapassado, talvez fora de contexto. Agora, vê-se que não poderia ser mais atual, diga-se até de visão de futuro, sem entrar no mérito da questão. Em 2008, a fome no mundo é o assunto do momento. O povo está se revoltando e protestando. E os veículos de imprensa não estão deixando esse assunto passar, embora cada qual à sua maneira.

A Carta Capital (aqui, aqui e aqui) dedicou sua capa dessa semana ao tema (matéria de Márcia Pinheiro e Phydia de Athayde). Fez uma ótima análise econômica de tudo que está por trás dessa crise de escassez de comida. É um texto equilibrado, bem estruturado, focado principalmente na questão dos biocombustíveis, mas que não foca no social. Os números e as causas estão lá, mas ficam meio vazios pela ausência de pessoas, a falta de humanismo no texto.

Humanismo é, ao contrário, a palavra chave da matéria “A fúria dos pobres” do jornal alemão Der Spiegel (de Rüdiger Falksohn, Amira El Ahl, Jens Glüsing, Alexander Jung, Padma Rao, Thilo Thielke, Volkhard Windfuhr e Bernhard Zand), traduzida e publicada pelo Estado de São Paulo no dia 19 de abril (não achei no site do Estadão, mas o texto é esse). Um dos jornais mais conservadores do país foi justamente um dos primeiros a lembrar que existe fome no mundo. Um humanismo que chega a doer de tão cruel (”Para muitos haitianos, os biscoitos de barro são seu único alimento”). E antes que se possa pensar, ele já mostra que não veio só se lamentar com palavras de efeito. Trata de macroeconomia e geopolítica e mostra dados concretos que contextualizam uma situação calamitosa e que está sendo desprezada, sem ignorar as causas do problema. Segundo os autores, “uma tigela diária de arroz está quase fora das possibilidades” da maioria dos haitianos.

Arroz. Para variar, a Zero Hora contraria as tendências positivas da imprensa, como essa de discutir a fome, e, portanto, as maiorias mal-tratadas. Aqui no estado, o máximo que o nosso principal jornal faz é escrever uma matéria (de Sebastião Ribeiro) sobre o preço do arroz. “Maior produtor do país, o Rio Grande do Sul celebra a supervalorização do grão que viu seu preço saltar 40% apenas em abril, último mês de uma colheita recorde”, diz a legenda da foto de capa da edição de domingo 27. A inversão no ponto de vista compromete toda a discussão, pois valoriza o aumento de preço dos alimentos em favor apenas dos produtores, na contramão do resto do mundo. Mais uma vez, motivo de vergonha. O verdadeiro e original foco nem é lembrado. É quase uma celebração da fome.

E o Jornal Nacional começou hoje uma série sobre os fatores que convergiram para levar a essa crise. A primeira parte foi bastante completa, partindo do aumento do consumo na China devido ao crescimento da qualidade de vida de alguns milhões dos que vivem lá. Terminou com o preço cobrado pela natureza e a discussão em torno dos biocombustíveis. Colocou vários lados do problema, como a necessidade de energia para produzir alimentos, que leva a uma maior produção de biocombustíveis, que, por sua vez, prejudica o setor alimentício. Deu a catástrofe e ainda finalizou com a versão otimista. Sem contar que esse é apenas o primeiro da série, ou seja, para um assunto complexo, um tratamento abrangente, com a explicação de todas, ou pelo menos várias de suas causas.

Fotos de Sebastião Salgado

Postado por Cris Rodrigues

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O cavalo encilhado passou

26 Abril 2008

A revista Época perdeu uma grande oportunidade, daquelas que não aparecem todo dia. Após um grande furo da Placar, que descobriu que o comentarista da Rede Globo e ex-jogador de futebol Walter Casagrande Júnior está internado em uma clínica de tratamento para dependentes químicos, a Época deu o furo da vez, encontrando Casagrande na Clínica Greenwood e conseguindo uma entrevista exclusiva com o ex-jogador do Corinthians e da Seleção Brasileira, que virou a matéria de capa da última semana.

E aí começaram os erros. A repórter Kátia Mello levou a matéria por um rumo no mínimo esquisito. Talvez a entrevista não tenha rendido o suficiente, mas o que qualquer um sabe que seria mais significativo em um caso como esse seria transcrever o bate-papo, e não escrever uma matéria. Bom, quem sabe não rendeu. Aí, outra possibilidade seria fazer uma retrospectiva da história de Casagrande e focar no dia-a-dia dele na clínica e nas possibilidades de sua recuperação, em como o vício atrapalhou sua vida pessoal e profissional, essas coisas. Mas não foi nada disso o que Kátia fez.

Em um texto absolutamente insoso, tentou apresentar uma perspectiva de como são as clínicas de tratamento de dependentes, e acabou caindo em informações banais e exemplos que não mostram o conjunto. Depois, um depoimento de Casagrande, e nada de explicações sobre como foi dado, se conversando ou escrevendo.

Informações são repetidas no decorrer da matéria, como nas partes em que se fala sobre os hospitais-dia. Em outros momentos, informações - “o crack, antes considerado uma droga ‘de classe baixa’, ganhou muitos adeptos na classe média e alta” - e dados caem da pára-quedas. O bloco de texto que começa com “As clínicas de reabilitação ganharam projeção nos últimos anos”, além de dar a impressão - sem querer - que as clínicas estão em alta e que são o novo point dos artistas, traz uma série de informações que nada tem a ver com o foco da reportagem - se ela tivesse algum foco -, citando exemplos de celebridades que já foram ou ainda estão envolvidas com drogas e foram ou estão internadas. Informações que não acrescentam absolutamente nada.

Enfim, são oito páginas com potencial para constituírem uma das grandes reportagens sobre esporte do ano, baseada em um grande furo, que acabaram em um monte de inutilidades. As perguntas dos leitores não são respondidas, e as informações sobre o caso Casagrande perdem-se em meio a uma enrolação sem sentido e desinteressante. Uma pena.

Postado por Alexandre Haubrich

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Visão de futuro

24 Abril 2008

Nada de economês ou, ao contrário, tudo tão mastigado que a gente se sente burro lendo. Equilíbrio, como em qualquer área, no Jornalismo é mais do que fundamental, é imprescindível. E foi isso que a Carta Capital conseguiu na matéria sobre o fim do neoliberalismo na edição do dia 23 de abril (O neoliberalismo está cercado). Pelo menos na linguagem. O texto é, sim, tendencioso. Mas, apesar disso, objetivo.

É isso que chama a atenção de cara na capa da revista, e o que me levou a lê-la com tanto interesse. Com explicações consistentes e uma retomada histórica, Antonio Luiz M. C. Costa faz um jornalismo crítico, do qual tanto sentimos falta na imprensa nativa. Parte da crise americana para discutir o futuro do neoliberalismo e, mais especificamente, do livre mercado que o sustenta.

O resto da reportagem, dividida em uma matéria de Luiz Gonzaga Belluzzo e em duas entrevistas, uma de Luiz Antonio Cintra e outra de Mauricio Dias, consolida o que diz na primeira parte, mas foge um pouco a esse estilo mais acessível ao grande público. De certa forma, a matéria principal serve como uma introdução para que se possa compreender mais facilmente o economês dos textos subseqüentes.

O principal da reportagem é que ela é inovadora e corajosa, além de ser de grande visão de futuro. É sempre difícil delimitar o fim de uma era antes de outra era já ter tomado seu lugar há tempo suficiente para se criar um distanciamento. Analisar um tempo de dentro dele é bem complicado. Definir isso como uma pauta é realmente ousado.

Postado por Cris Rodrigues

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O futuro está no aprofundamento

22 Abril 2008

Ao final de todos os posts desse blog, duas perguntas fundamentais devem ser feitas: qual o jornalismo que temos hoje? e qual o futuro do jornalismo brasileiro?

Especificando um pouco mais essa questão, quero perguntar agora: qual o futuro do jornalismo impresso? Pois a entrevista concedida pelo novo ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, à própria folha apresenta algumas alternativas e colabora para esse debate, mesmo que não traga muitas coisas exatamente novas. Outras questões são discutidas na entrevista, e não concordo com algumas das posições do jornalista, mas o mote principal da matéria é o que fazer para salvar os jornais.

Mesmo com a ascendência das vendas e da publicidade nos veículos impressos, Carlos se preocupa, e tem razões de sobra para isso. Tudo indica que logo haverá uma forte retração no setor, com a difusão da internet no país, o que ainda não ocorreu. Aí, como ele defende, a solução pode estar em tornar os jornais mais analíticos, aprofundando mais o que é tratado, sem que se preocupe em tratar tudo. Deixar essa parte para a Internet, assim como a velocidade. Tornar-se um meio de leitura realmente edificante, apresentando os pormenores das situações, não apenas o factual.

Exatamente como o entrevistado afirma, temos exemplos históricos de que um meio nunca subsitui o outro, desde que este outro adapte-se e crie novo público. O rádio reposicionou-se para sobreviver à televisão, e conseguiu, assim como o teatro em relação ao cinema e o próprio cinema em relação mais uma vez à TV. Se os donos dos jornais se antenarem, sobreviverão também.

Existem diversas outras opiniões a respeito do futuro do jornalismo impresso no mundo e no Brasil. Compartilho da idéia de Carlos Eduardo: a salvação está no aprofundamento. Não há como disputar em velocidade ou quantidade de conteúdo com a internet. O diferencial tem de ser a qualidade da informação.

Postado por Alexandre Haubrich