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Vem contribuir com a discussão

3 Julho 2009

O Jornalismo B quer pluralizar ainda mais o debate sobre a imprensa brasileira. E a melhor forma de fazer isso é trazer mais vozes para o blog. Pessoas novas, com ideias renovadas, sem vícios, com um texto diferente. Tudo isso sem perder o foco de um jornalismo voltado para a sociedade, com qualidade e vontade.

Que venham as pessoas novas, então! O Jornalismo B está abrindo suas portas pra receber essas novas ideias. E abrindo espaço para publicar teu texto. Então, manda pra gente dois textos de análise da imprensa brasileira, mais um parágrafo falando um pouco de ti, das tuas ideias sobre o jornalismo, sobre o país, sobre ti, o que achares importante destacar. Um dos textos tem que ser factual, analisando um assunto recente. Pode ser uma comparação entre a cobertura de dois ou mais veículos, a análise de uma matéria de TV, rádio, jornal, internet. Qualquer inquietação diante de alguma coisa que viste por aí e que não tens onde comentar. A teu gosto, desde que seja momentâneo.

O outro texto deve tratar de algum assunto da imprensa brasileira que te interessar. Uma avaliação do trabalho de um repórter, uma análise sobre algum veículo, uma crítica de um livro jornalístico. Possibilidades são muitas.

É importante que os textos não ultrapassem o limite de 3.500 caracteres. Se for maior que isso, fica meio pesado para o leitor acompanhar na tela do computador. Manda também duas sugestões de imagens para acompanhar cada um dos textos.

Tem bastante tempo. Podes mandar os textos até o dia 20 de julho, para o e-mail bjornalismob@gmail.com. Qualquer dúvida, entra em contato conosco pelo mesmo endereço.

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Postado por Os Editores

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Ato falho

2 Julho 2009

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Hoje quem entrar na zerohora.com vai ver, como sempre, a suposta edição online do jornal impresso. Mas o estranho é que lá há uma matéria que não está na edição impressa: governo gaúcho simplifica o licenciamento ambiental. Não, não está na edição impressa, apesar de o site dizer que está, indicando até mesmo sua página fantasma. A tal página 19 – onde estaria – tem é um anúncio de cima a baixo do “saldão de balanço” do Carrefour.

Ok. Equívoco como esse acontecem a toda hora. Um errinho de grafia, um cargo trocado de um político, uma matéria que saiu da edição impressa mas esquecerem de tirar da edição online. E a gente aqui percebe isso, mas nunca fala, porque não é intenção do Jornalismo B tirar onda por causa de uma distração ou coisa assim. Particularmente, quando isso acontece até fico feliz, porque às vezes começo a acreditar que o jornal não é mais feito por seres humanos, e nessas horas fico aliviado de ver que não chegamos a esse ponto.

Mas esse errinho de hoje diz muito sobre a tal ZH. É realmente muito porco o serviço que este veículo presta em relação ao meio ambiente. Na verdade, esse equívoco de hoje demonstra de maneira radical como as pautas ambientais valem um pouco menos do que lixo para o jornal. Em primeiro lugar, a matéria entrou na editoria de economia, não de meio ambiente, e tem certo tom de celebração, como se a preservação natural fosse um obstáculo a ser vencido. Nenhum ambientalista foi entrevistado.

Não bastasse o serviço vagabundo da matéria, ela acaba nem aparecendo no jornal. Na hora de tirar matérias para caber um anúncio de página inteira do Carrefour, optaram por tirar esta.

Postado por Ale Lucchese

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Demorou, mas o Profissão Repórter finalmente mostrou a que veio. E muito bem.

1 Julho 2009

profissao reporterEm uma clínica de dependentes químicos, o repórter diz: “A gente não vai mostrar o rosto de ninguém que não quer aparecer”. Essa frase representa o cuidado que o Profissão Repórter teve do início ao fim do programa de ontem (vídeos AQUI e AQUI). O respeito a todos que participaram foi o que mais chamou a atenção dessa edição, que colocou no chinelo QUALQUER matéria que eu já vi sobre o crack. Qualquer uma mesmo. E esse aspecto, sobre o qual eu vou insistir muito no post de hoje, foi o grande diferencial.

Como mostrar um universo cheio de problemas em 30 minutos? Qualquer jornalista sabe que isso é quase impossível, que não tem como mostrar tudo. Então é preciso escolher um recorte. No caso do crack, o recorte mais óbvio é o que todos os veículos fazem, mesmo quando tentam dar um caráter mais humano à situação. Mostrar os índices de prisões, de tráfico, o aumento dos números, todas aquelas estatísticas. Mostrar a polícia prendendo, os conflitos, as mortes. E o mais incrível é que quem assiste o programa não sente falta de nada disso, porque o principal da história está ali. Ela está sendo contado pelo seu lado mais profundo e mais humano, o mais verdadeiro.

A preocupação com a preservação das pessoas é constante. Da menina na rua que não quer que mostrem o rosto e o Caco Barcellos diz para o cinegrafista na mesma hora para abaixar a câmera à não-aproximação no enterro do menino gaúcho que foi morto pela mãe por causa da droga. Em todos os momentos, esse cuidado é explícito. A ponto de o repórter ter a autorização de mostrar a venda da droga, o tráfico, e, num dilema que qualquer jornalista entende, preferir ficar longe, acompanhar à distância porque isso é um crime, e ninguém ali queria prender ninguém. Aliás, falando em crime, foi muito bacana a forma com que a equipe não criminalizou o uso da droga. Os entrevistados foram tratados como qualquer pessoa, nenhum foi visto como criminoso. E ainda assim o programa foi pesado, denso. Porque a parte mais doída da história não é o reflexo para a sociedade, a violência, mas para a vida de cada usuário. E isso foi mostrado.

“Minha mãe fuma pedra desde os 15 anos, ela tem 45, meu pai cheira farinha, minha irmã é garota de programa, minha vida é uma desgraça.”

Caco: “E a sua família?”
Entrevistado: “Que família?”
Caco: “Você não tem família?”
Entrevistado: “Meu irmão, eu fumo crack há 15 anos, então quer dizer q eu tô morto há 15 anos”.

Esses foram entrevistados na rua, na cracolândia paulista, depois de horas de negociação, depois de o carro da reportagem ter levado pedrada, depois de a reportagem ter sido expulsa. E, depois de tudo isso, o Caco ter conseguido se ajoelhar no chão próximo do local onde muitos fumam, onde muitos dormem. Foi a visão do jornalista, de não criminalizar aquelas pessoas, que permitiu essa aproximação. Eles puderam mostrar tudo o que eles perderam na vida deles sem serem taxados de marginais, aquela coisa de que pobre é pobre porque quer, de que eles têm essa vida porque escolheram e ponto. O programa mostrou claramente a degradação daquelas pessoas, a ponto de chocar, de fazer o telespectador quase chorar de tristeza.

Mostrou a dificuldade no tratamento, mas sem taxar ninguém de fraco por ter recaídas. Aliás, muito pelo contrário, mostrando que as recaídas são o caminho mais frequente e que poucos são os que saem das clínicas e conseguem recuperar uma vida decente sem voltar à droga. O repórter passou uma semana dentro de uma clínica, dormiu trancafiado – os que chegam na clínica passam um tempo dormindo em quartos fechados a cadeado -, se afeiçoou aos internos. Quem disse que não pode? E, apesar de tudo isso – ou por causa de tudo isso -, fez uma reportagem excelente.

Como entrevistar uma mãe que, sem querer, matou o próprio filho, dez dias depois do enterro do garoto? Respeitando seus limites, não insistindo, parando onde ela disser para parar. Deveria ser sempre assim, mas não é. Só é quando o repórter tem, na frente da preocupação de ganhar um prêmio com a reportagem, a preocupação de fazer da sua reportagem um trabalho socialmente importante. E só se consegue um trabalho assim quando se respeita as pessoas. Aliás, no fim das contas são esses que ganham os prêmios de verdade, fica a dica.

E o Profissão Repórter de ontem – disparado o melhor que eu já vi – merece ganhar todos os prêmios da categoria. Chocou, fez seu trabalho com competência, e acima de tudo foi socialmente muito responsável, sem criminalizar as maiores vítimas – que são sempre vistos como os bandidos – e respeitando todo o entrevistado, sem exceção.

Postado por Cris Rodrigues

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J.R. Ripper é O Cara

30 Junho 2009

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Ripper (esq.) no Fest Foto PoA – foto de Thais Brandão

ripper3Era um dia cinza, uma chuvinha fina, e fui para o centro de Porto Alegre acompanhar alguma coisa do Fest Foto PoA. Era impossível descobrir os eventos que estavam acontecendo e que horas começavam, os programas não explicavam os lugares de nada, e estavam todos rabiscados com horários atualizados que eram sumariamente desrespeitados.

Eu e minha namorada- amante- companheira seguíamos o público de um lado para o outro, na esperança de que indo com a boiada acabaríamos vendo e ouvindo algo que valesse a pena ser visto e ouvido, até percebermos que outros desorientados também nos seguiam. Então concluímos que talvez estivéssemos seguindo baratas tontas  como nós, ou talvez até mesmo um perigoso serial killer pronto para nos levar até um alçapão que, quando aberto, nos faria afundar em uma piscina de ácido sulfúrico, realizando assim um assassinato em massa de proporções inéditas.

Para nossa própria segurança e daqueles que nos seguiam, resolvemos sentar em um auditório onde fotógrafos dos quais nunca tínhamos ouvido falar falavam de seus trabalhos. Depois de duas horas de relatos que quase nos faziam dormir, subiu ao palco um homem atarracado, de cintura larga e  ombros que avançavam para a frente do peito. Sentado curvado em direção à mesa, seu rosto enrugado e suado completava a fisionomia de um grande sapo. A voz era anasalada e monotônica. “Sono garantido”, pensei. Mas era apenas mais uma lição contra minha arrogância e preconceito.

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Dessa figura saíam os maiores relatos que ouvi de um fotojornalista, uma vida cheia de aventuras, de coragem, de triunfos, de dificuldades, de gentes, de paisagens. Ripper se mostrou um lutador, abrindo lugar para o seu trabalho, procurando clientes no terceiro setor, mentindo para os fazendeiros para conseguir entrar em campos de cana que realizavam trabalho escravo.  E apesar de tanta força, suas fotos eram pura poesia, beleza. Ternura. “Não há nada mais subversivo do que mostrar a beleza onde as pessoas acham que só há barbárie e tristeza”.

João Roberto Ripper trabalhou na Última Hora e Diário de Notícias, cursava jornalismo, mas abandonou um mês antes de sua formatura.  Preferiu seguir por conta própria sua carreira, fazendo foto-documentários sobre direitos humanos.  O trabalho que realizou em carvoarias para denunciar trabalhadores em regime de escravidão serviu como prova judicial na primeira CPI do trabalho escravo do Brasil.

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Quer saber mais? Não vou contar. Corra até uma banca e procure a revista Fotografe Melhor desse mês e leia a excelente matéria que Fabrizia Granatieri fez sobre este “reconhecido-desconhecido”. Ripper é uma das provas da enorme força de vontade que é necessária para se fazer jornalismo de verdade no Brasil, mas que é possível.

*Fora a foto creditada acima, todas deste podt são d’O Cara.

Postado por Ale Lucchese

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RBS mostra que valoriza palavra impressa, mas não muda conteúdo

29 Junho 2009

inauguraçãoA edição de sexta-feira de Zero Hora foi a primeira a ser impressa no novo parque gráfico do Grupo RBS. Inaugurado em Porto Alegre, perto da saída da cidade, é o mais moderno do Brasil, com rotativas suíças que prometem diversas melhorias no jornal. Até o presidente Lula esteve presente na inauguração. O objetivo expresso pela Zero Hora é aumentar a agilidade na impressão e distribuição e a qualidade do jornal. Aumenta o número de páginas coloridas, melhora o acabamento, as próprias máquinas montam os jornais, com os encartes colocados dentro do caderno principal, o que antes era feito manualmente. Junto com isso, veio uma mudança gráfica no jornal, diagramação diferente e algumas pinceladas no conteúdo. Excelente, não?

Pois é, parece realmente um avanço considerável. O prédio em que estão as novas máquinas foi construído especialmente para isso, e é marcado pelo cuidado com o meio ambiente, com o reaproveitamento nos banheiros da água utilizada para impressão, telhado verde e uma série de outros cuidados. Bacana.

E, como o pessoal da RBS é realmente eficiente e competente quando quer, Lula foi surpreendido com a impressão de um caderno especial que circulou junto com a Zero de domingo em que ele aparecia na capa, em foto do evento em que estava. Ou seja, montaram a capa na hora e já imprimiram o caderno. Caderno, aliás, que não diz nada de mais – e cuja capa não foi a foto do Lula. Se o leitor não tiver acesso a ele, não perde muita coisa, são mais curiosidades sobre a estrutura do lugar. São 24 páginas, sendo dez de propaganda e as restantes sem muito conteúdo. Na verdade, era mais propaganda, mas sobre o parque gráfico Jayme Sirotsky. As novas rotativas vão imprimir a Zero Hora, que agora deve chegar mais cedo à casa dos assinantes e às bancas – é o que estão prometendo, pelo menos. As máquinas antigas serão levadas para o parque gráfico para a impressão do Diário Gaúcho, que também vai ter um incremento de qualidade – gráfica, e não de conteúdo, que fique bem claro.

Na Zero Hora.com, está disponível um tour virtual pelo novo parque gráfico. É mais ou menos o mesmo conteúdo do caderno especial que rodou ontem junto com o jornal. Mas no site diz “Faça um tour pela Fantástica Fábrica de Fazer Jornais”. Quem gosta dessas tiradinhas me desculpa, mas é ridículo, de um péssimo gosto. Eu morro e não vejo tudo.

capaMas o mais importante de toda essa história é que a RBS está investindo na palavra impressa enquanto o mundo se volta para a palavra digital. E isso é arriscado, mas muito positivo. Sabe-se de uma série de jornais, principalmente americanos, que estão falindo ou se transferindo de vez para a internet – embora a própria Zero Hora informe que a circulação de jornais impressos pagos diminuiu nos Estados Unidos e na Europa, mas cresceu 1,3% no mundo em 2008, especialmente na América Latina, na África e na Ásia. Em uma iniciativa ousada, de olho no futuro, o grupo gaúcho investe no papel. Para mim, é claro como água que o jornal impresso está muito longe de acabar e que, depois dessa crise inicial, ele vai voltar com força. E não é só a crise do papel que a RBS enfrentou. Em meio ao investimento feito no parque gráfico, apareceu uma crise financeira mundial, que fez muitas empresas retraírem seus investimentos, como destacou o presidente Lula e está estampado na página 4 da Zero Hora de sábado (AQUI, AQUI e AQUI). E ainda assim o grupo seguiu firme e criou uma estrutura desenvolvida para agilizar a impressão do jornal, para que ele chegue antes ao leitor, trazer um acabamento melhor a suas páginas e aumentar o número de páginas coloridas por caderno, das antigas 48 para as atuais 64. Além disso, algumas contracapacoisas mudaram de lugar, como a coluna de opinião da página 3, que foi para a 2, as cartas dos leitores perderam espaço, há chamadas para as colunas na contracapa, que ganhou mais informação e agora tem uma só foto grande. A Lurdete Ertel, antes responsável pelo Informe Econômico, se transferiu para o Informe Especial, na página 3. Essa seria uma mudança importante, e espero que seja de fato, se trouxer mais qualidade para a seção, porque o Informe Especial era uma das piores coisas da Zero Hora, uma das mais vazias de informação e ao mesmo tempo mais reacionárias.

A Zero Hora está de fato mais bonita e atraente para a leitura. Mais colorida, com títulos e antetítulos maiores, ela talvez faça mais gente ler jornal, pelo menos no primeiro mês depois das mudanças. A questão é avaliar se o leitor que pegar o jornal vai encontrar também um conteúdo renovado, ou se essa transformação ficará restrita à parte gráfica.

“A história da imprensa registra também grandes aprimoramentos editoriais com a troca das máquinas de impressão.” A fala é do editor de Arte dos jornais do Grupo RBS, nas páginas centrais da edição de sábado de Zero mudança gráficaHora, que explicam a mudança na apresentação gráfica do jornal. Resta saber agora se a transformação gráfica virá realmente acompanhada de uma mudança editorial. Pela explicação, devem ser mudados os textos – e não só a parte gráfica – no sentido de dar mais agilidade à leitura, evitando repetições e acrescentando infográficos e linhas de apoio mais longas, além dos antetítulos se tornarem mais “analíticos e descontraídos” (ao lado, um exemplo de página com as mudanças). De fato, são mudanças de conteúdo e não só de forma, mas não são, de forma alguma, mudanças significativas na linha editorial do jornal.

E aí, perde o leitor, que está sendo engambelado. Não digo que o parque gráfico não devesse ser inaugurado se não houvesse mudança editorial. Não, acho que essa inauguração é, de qualquer forma, um avanço positivo. Mas afirmar que vem junto uma transformação editorial é mentira. E para continuar mentindo, mas com mais leitores e de forma mais bonita, eu preferia que não houvesse mudança. E o problema é justamente esse: sem mudança editorial, o jornal está mudando de status, ganhando elogios e possivelmente alguns leitores a mais, mas continua com seu conteúdo que todos nós já conhecemos. Um conteúdo que tem alguns destaques positivos de vez em quando, mas que, de um modo geral, é conservador – o que contradiz a modernização gráfica -, de direita e muitas vezes mentiroso. Por exemplo, quando se diz imparcial. A mudança que vimos esse fim de semana pode ser considerada um avanço, mas a Zero Hora só vai melhorar de verdade quando sofrer uma transformação radical na sua forma de ver o jornalismo, quando abandonar o tecnicismo, parar de brigar com a notícia e abrir espaço para uma visão de mundo realmente mais plural.

* Coincidência ou não, hoje recebi um e-mail avisando que o valor da assinatura da Zero Hora vai ser reajustado.

* Parece de propósito. As páginas centrais da Zero de domingo trazem uma matéria sobre a UERGS. Eles descobriram agora – só agora! - que a “Universidade Estadual dá sinais de declínio”. A matéria é péssima, não fala na responsabilidade do governo, horrível. Aliás, nem vincula a UERGS ao governo do Estado. Parece feita para provar que mudou a forma, mas definitivamente não mudou o conteúdo do jornal.

Globo_com* Honduras sofreu um golpe de Estado nesse domingo. O presidente José Manuel Zelaya, de esquerda, foi tirado do poder, detido em sua residência e levado para a Costa Rica por soldados hondurenhos. Tudo isso aconteceu horas antes de uma consulta popular que versaria sobre uma Assembléia Constituinte. O governo do Brasil reprovou o ato, mas a imprensa mal tomou conhecimento dele ontem. Uma matéria foi publicada no portal G1 perto das 15h, mas, às 18h, a capa da Globo.com tinha a Copa das Confederações, Gripe A, a morte do Michael Jackson, Dança dos Famosos e especulações sobre uma suposta gravidez de Gisele Bündchen. Ainda na capa, mas na parte de baixo, sob a cartola Notícias, o título “Brasil condena golpe militar em Honduras”. Ao mesmo tempo, na capa da Zero Hora.com, não havia nenhuma menção ao caso. Hoje a Folha de São Paulo deu a manchete principal ao caso, mas a Zero deu apenas uma chamada na capa, e sem falar o nome do presidente, só referindo-se a ele como “aliado de Chávez”.

Postado por Cris Rodrigues

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Capa e Folha ou Bernardi? Escolha a sua escola

26 Junho 2009

As páginas 64 e 65 da edição desta sexta-feira, 26 de junho, de Zero Hora trazem uma reportagem de Humberto Trezzi sobre uma operação da Polícia Civil que prendeu 227 pessoas, sob o título “A maior ofensiva contra o tráfico”. A linha de apoio explica o que aconteceu: “Durante 24 horas (…) Polícia Civil usou 20% do efetivo para atacar o crime”. Ao lado do texto, o selo da campanha do Grupo RBS, “Crack nem pensaRonaldo Bernardi - Zero Horar”, dando a falsa impressão para algum desavisado de que a ação foi reflexo da campanha. Mas o foco desde post não é esse. As fotos são de Ronaldo Bernardi (uma delas está ao lado), aquele que está processando o jornalista Wladimyr Ungaretti.

Todas – eu disse TODAS – as fotos são de policiais algemando, revistando ou conduzindo presos os supostos traficantes. Nada  – eu disse NADA – de fotojornalismo. Como sempre, Bernardi esteve atrás dos policiais durante toda a operação, durante toda a “reportagem”. Nem para pegar o momento do flagrante, nada disso. Só aproximou-se com os perigosos bandidos totalmente dominados. Fotojornalismo de longe. De bem longe, em que o fotógrafo se esconde atrás da polícia. Robert Capa dizia que “se a sua foto não ficou boa é porque você não chegou perto o suficiente”. Bernardi ou Capa? Escolha a sua escola.

Jorge Araújo - Folha ImagemA falta de qualidade fica ainda mais gritante quando se compara com o trabalho feito por um dos veículos craques do fotojornalismo brasileiro: a Folha de São Paulo. Uma reportagem de meia página, sob o título “Governo vê consumo de crack como endemia”, da repórter Larissa Guimarães. O mesmo assunto, em ZH, teve também meia página, mas bem mais discreta, em cima dos “Anúncios Fúnebres e Religiosos”, com exatamente o mesmo título da matéria da Folha. Release?

Ao lado da matéria da Folha, um pequeno texto intitulado “Tragada em ruas do centro de SP custa R$ 1”. Em duas meias-colunas, a repórter Laura Capriglione fez o que Zero Hora ainda não conseguiu fazer em páginas e páginas da tal campanha. Aproximou-se, viu, e descreveu com força e humanidade o problema de desumanidade causado pelo crack. Não é apenas no fotojornalismo que a proximidade é necessária para ser fazer boas reportagens.

Mas voltemos às fotos. O texto de Larissa Guimarães vem acompanhado por uma ótima foto de Jorge Araújo (acima). Foto humana, real, expressiva, fotojornalismo. A Folha tem uma tradição de excelente trabalho fotográfico, é rara uma edição do jornal sem uma bela foto. As fotografias não são relegadas a segundo plano, são parte fundamental das matérias, não apenas um apêndice ao texto. É nessa tradição que está Jorge Araújo e que está sua foto publicada na página C4 de hoje. Em páginas e páginas, edições e edições, selos e selos, ZH não teve uma foto da qualidade da que a Folha botou em uma matéria de meia página.

* O Jornalismo B foi citado ontem como referência no site do Knight Center for Journalism in the Americas, graças ao nosso post de ontem sobre a cobertura da morte de Michael Jackson. Mais uma demonstração de que seguimos crescendo. Esse reconhecimento nos deixa contentes e estimulados a buscar a melhora constante do nosso trabalho.

Postado por Alexandre Haubrich

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A que horas Michael Jackson morreu?

25 Junho 2009

A morte do Michael Jackson foi marcada, jornalisticamente, pelo cuidado para não dar barrigada. Depois da falsa notícia sobre a morte do Sílvio Santos, todo o cuidado é pouco. Esclarecendo: barriga, no jornalismo, é quando um veículo tem a intenção de dar uma notícia em primeira mão – um furo – mas acaba divulgando uma informação falsa, a barriga. O Jornal Nacional abriu hoje dizendo que Michael Jackson estava em coma e que alguns veículos estavam divulgando sua morte, mas que ela ainda não era oficial e que a CNN ainda não havia confirmado. O cuidado acabou deixando a Globo para trás, embora ela tenha se destacado justamente por essa cautela com a informação prestada. Já a Band iniciou a transmissão de seu telejornal afirmando que o cantor estava morto embora não houvesse a confirmação oficial. Se fosse realmente um boato, teria ficado feio.

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Mais uma vez, a internet aparece como o destaque da cobertura no quesito furo. Não só a internet, mas o twitter. Segundo o Último Segundo, do IG , o site de celebridades TMZ.com e o Los Angeles Times foram os primeiros a dar a informação. Outro a dar em seguida foi a NBC, mas ela correu mesmo pelo twitter. Nesse caso, a disseminação da notícia foi pela rede de microblog. A ponto de nos fazer questionar se o twitter não está confundindo os meios tradicionais de jornalismo.

Para efeito de informação, a morte do Sílvio Santos foi anunciada pelo site de fofocas O Fuxico, do Terra. Segundo Esther Rocha, a diretora de conteúdo do site, ele foi invadido por hackers que plantaram a informação falsa. Depois disso, restou a desconfiança nos meios mais tradicionais de jornalismo. Uma pessoa comentou no twitter: “Só vou acreditar que o Michael morreu quando der 1º página no G1! Me decepcionei com o UOL!”. Isso reflete essa desconfiança e a velha crença de que a coisa só acontece quando dá na Globo. Aliás, é justamente por essa crença – para manter essa credibilidade – que a Globo teve tanto cuidado, e acabou sendo uma das últimas a noticiar.

Às 19h28min, o portal G1 deu que jornais e tvs anunciavam sua morte, mas que ela não era oficial. A confirmação pelo portal veio às 20h35min, mais de uma hora depois. A morte, ainda segundo o site, teria acontecido às 17h07min pelo horário de Brasília. Ela foi anunciada às 19h15min no Los Angeles Times . O Estadão confirmou ainda mais tarde, às 20h48min.

A cobertura completa da morte de Michael Jackson é meio óbvia em todos os veículos. Uma retomada da sua carreira, da sua vida, os aspectos polêmicos, a importância da música, a tristeza dos fãs e por aí vai. O que fica dessa história toda é essa disputa por minutos pela informação em primeira mão, que acontece apenas na internet. É a transformação do jornalismo explicitada em um fato concreto. Hoje em dia, os grandes veículos não brigam mais pelo furo, embora dar uma notícia com um atraso significativo – digamos meia hora – seja quase um pecado. Essa velocidade do jornalismo é um reflexo da velocidade do mundo pós-moderno. Afinal, o que importa a que horas exatamente o cantor morreu? Não é mais importante cuidar para dar a informação com mais qualidade e mais profundidade?

Ok, esse não é um caso de jornalismo investigativo, mas as mudanças estão claras, evidentes. A busca pelo primeiro lugar na audiência passa muito mais pela credibilidade da informação do que pela exclusividade. Pena que a qualidade acabe ficando a desejar tanto nos grandes quanto nos pequenos, tanto na TV quanto na internet ou no jornal impresso.

Postado por Cris Rodrigues

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Exercício cotidiano da frustração

24 Junho 2009

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Nas duas últimas semanas, pipocou por aí em várias discussões uma palavra que me dá coceiras e urticárias. Imparcialidade. Achei que ela já não existia mais entre jornalistas, fizesse parte apenas das estratégias de propanganda enganosa de jornais e revistas. Mas, quando percebi que o maior representante da clase dos jornalistas do Rio Grande do Sul saiu defendendo a obrigatoriedade do diploma para “assegurar a imparcialidade da informação”, meu mundo caiu. Foi a gota d’água: desisti de uma vez por todas de ser jornalista, definitivamente este não é o tipo de gente que quero poder chamar de “colega”.

A busca pela imparcialidade não é apenas um exercício que transforma a maravilhosa profissão do jornalista em um exercício cotidiano de absoluta frustração. Ela não é apenas danosa: é presunçosa e burra. Andei estudando muita narratologia durante esse semestre, e vi que todos os trabalhos de literatura tratam, ao seu modo, a questão da imparcialidade. E nenhum deles concorda com a possibilidade de um narrador não expressar suas opiniões no exercício de contar uma história. Por que os jornalistas podem acreditar que são diferentes?

Vitor Manuel de Aguiar e Silva, em seu “Teoria da Literatura” resume a questão: “Poderá um narrador exilar-se em absoluto da sua narrativa? A nossa resposta a essa pergunta é negativa. Com efeito, mesmo que o narrador evite cudadosamente as intromissões explicitamente marcadas, menos facilmente poderá evitar outros tipos de discurso – por exemplo, o discurso valorativo e o discurso modalizante.” Por modalizante se entende algo ligado à emoção, e por valorativo, juízos de valor.

Para encerrar, deixo vocês com o depoimento do maior jornalista de todos os tempos, Hunter S. Thompson. É o que ele diz tacitamente a respeito do assunto na Rolling Stone de fevereiro de 1972: “com a possível exceção de coisas como quadros de pontuação, resultado de corridas e números do mercado de ações, não existe algo como Jornalismo Objetivo”. Subscrevo.

Foto roubada daqui.

Postado por Ale Lucchese

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Mônica Bergamo e Helô Quebra-Mansão

23 Junho 2009

“Ai, ai, ai, ai, ai, ai/ Para não, tá bom demais/ Ai, ai, ai, ai, ai/ Vem com tudo, eu quero mais/ Tô fervendo, tô no ponto/ Eu dou no primeiro encontro/ Se você for tarado, vem que eu gosto do babado/ Vem com tudo, nesse clima/ Ou me come, ou sai de cima/ Vem por trás, meu cachorrinho/ Também gosto do bichinho/ Se você não me acalmar, baby, a fila vai andar/ Não nasci pra ser noviça/ Então, vê se não me atiça/ Mostra que tu é meu macho/ E sossega esse meu facho/ Tô ficando molhadinha/ Quero ser sua bonequinha/ Ai, ai, ai, ai, ai/ Para não, tá bom demais”.

cachorroEsse é um trecho da bela composição “Dou pra cachorro”, de autoria de Helô Quebra-Mansão, codinome de Heloisa Faissol, uma (nem tão) típica filha da alta sociedade carioca. Pois é, Heloísa meio que rompeu com a família e virou funkeira. Mesmo dentro do funk, causa polêmicas. DJ Marlboro, principal produtor do funk no Rio de Janeiro, não toca as músicas dela, por exemplo. O cunhado de Heloísa / Helô é simplesmente João Gilberto, para quem a garota é louca.

Isso tudo está na coluna da Mônica Bergamo deste domingo, na Folha de São Paulo, sob o título “Funk de butique“. Apesar de os assuntos variarem – o domingo, em especial, costuma ser reservado para matérias mais longas e não tão “perfumantes” – o que Mônica faz na Folha é coluna social. E, em casos como esse, mostra que coluna social pode, sim, fazer bom jornalismo, desde que a preocupação seja com o leitor, e não com as “celebridades”.

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Mônica traçou um ótimo perfil de Heloísa, a partir da relação com a família e com a música, com um texto extremamente sagaz em alguns momentos. A história é muito interessante – renderia um livro, certamente – e foi muito bem contada. A colunista / repórter consegue passar exatamente o cômico da situação, sem deixar de lado o que de sério tem a história – a influência que letras com conotação sexual tão grotesca pode ter em crianças, parte importante do público do funk nas periferias, por exemplo.

Aliás, eu falei ali em cima que a história daria um livro. Essa coluna da Mônica Bergamo me fez lembrar do Joel Silveira e o seu “Eram assim os grã-finos de São Paulo”. Maravilha. Se a Helô Quebra-Mansão dá pra cachorro, eu não sei, mas esse incômodo bom que fica depois de ler um belo perfil como esse é a prova final de que uma reportagem tem qualidade.

* No mesmo caderno Ilustrada, uma divertida e interessante entrevista com o ex vocalista do Stooges, Iggy Pop. Em 15 minutos de entrevista por telefone, um repórter com conhecimento do assunto e perspicácia consegue produzir material de qualidade. Foi o caso de Bruno Yutaka Saito, que assina a tal entrevista.

* Uma crítica que fiz, em meu último post, à matéria da Revista Adverso sobre o processo que o MP de SC move contra o Grupo RBS, merece ser retirada, após a explicação da repórter Naira Hofmeister em nossos comentários. A posição do Grupo RBS não aparece na reportagem porque “a RBS foi contactada uma porção de vezes. Pediu prazo para ver quem seria o entrevistado e depois de mais de um mês comunicou que ‘infelizmente, ficariam de fora dessa edição’”.

* Foto retirada do site da cantora, www.eloisafaissol.com

Postado por Alexandre Haubrich

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Um mergulho na marginalidade

22 Junho 2009

Document2Já ouviu falar no livro Na pior em Paris e Londres? Provavelmente não. Se ouviu, deve ter sido há pouco tempo, depois que a Companhia das Letras resolveu relançá-lo sob o selo de Jornalismo Literário. Por incrível que pareça, esse título quase desconhecido é do mesmo autor de uns outros livros um tanto quanto comentados por aí. Ou tu não conheces 1984 e A Revolução dos Bichos?

No início do século passado, mais especificamente no final dos anos 1920, George Orwell saiu às ruas de Paris e Londres, completamente sem grana, e viveu por lá durante meses, sem nenhuma perspectiva além da busca pela comida e pela cama do dia. Em Paris, viveu em uma pensão barata, dormiu com percevejos, passou fome – inclusive de dias sem comer absolutamente nada – e frio, penhorou suas roupas, trabalhou em lugares esdrúxulos durante 17 horas por dia. Isso quando estava bem de dinheiro.

Em Londres, pulava de abrigo em abrigo, já que a capital inglesa não permitia que se dormisse duas vezes no mesmo abrigo no mesmo mês. Mendigava para conseguir comida. Conheceu tipos interessantes e uma realidade completamente diferente, em que as pessoas perdem sua dignidade e não conseguem mais nem manter uma conversação além das necessidades imediatas. George Orwell se fez passar por pobre para escrever um livro, para denunciar uma realidade. Quer mais jornalismo que isso?

O livro tem 255 páginas, em que o escritor relata o cotidiano de uma vida na miséria. A luta por dinheiro, por comida, por abrigo. Tudo isso, com o estilo de escrita que já começava a se formar no autor que um tempo depois escreveria 1984. Um texto leve, apesar do tema pesado. Um mergulho na realidade, na marginalidade. Uma atitude revolucionária, condizente com as posições que o autor expressaria anos mais tarde.

Muitos anos depois, em 2001, a crítica elogiava o livro Miséria à americana, da jornalista Barbara Ehrenreich, que largou sua vida por alguns meses para viver como pobre nos Estados Unidos e escrever o livro. Mas poucos lembravam do pioneirismo de George Orwell. Merece elogio a iniciativa da Companhia das Letras de buscar obras como essa e publicá-las novamente, trazendo à tona um jornalismo dos melhores, como poucos hoje em dia.

Postado por Cris Rodrigues