A Piauí é uma revista estranha. Antes que me critiquem, isso não é ruim, de forma alguma. Calma, já explico.
Na primeira vez em que eu abri e folheei uma delas, ainda estava meio perdida, é preciso se adaptar ao seu jeito. Afinal, logo no início tem uma matéria que parece grande mas depois se percebe que são várias notas, sobre temas diferentes, sem assinatura, que lotam de letrinhas as grandes páginas um pouco assustadoras de cara. Mas basta começar a ler com mais dedicação e logo se descobre que, epa, essa matéria é boa, esse cara escreve bem. Dá uma vontade de ler mais e mais, apesar de ser surpreendentemente comercializada e distribuída pela Editora Abril.
Não é com uma Piauí que eu vou saber o que está acontecendo na política nem vou ter uma análise dos acontecimentos recentes, da sociedade. Pelo menos não da forma convencional. Lá, posso encontrar o relato de uma história verídica do Maluf (out), de uma conversa do Sarney (out), uma matéria sobre o cara que matou o Che (set) ou o perfil de um policial (out) e de um perito criminal da polícia civil (set), pessoas completamente anônimas. Ou seja, mesmo não tendo um sociólogo comentando, dá para ter uma idéia das nossas estruturas sociais, já que se tem acesso a uma gama de histórias dos que vivem no Brasil, que trabalham aqui e que em meio à cultura tupiniquim formam seus valores.
Algumas dessas histórias são divertidas, irônicas, o que não anula a sua validade. Outras são apenas bem escritas. De qualquer forma, quero terminar, quero saber mais.
Mas eu comecei dizendo que a Piauí é estranha. A edição de outubro me fez ter certeza disso. Quando eu já me acostumei com a idéia de que, apesar do seu jeito irreverente e alegre, ela é uma revista séria, no sentido de que tudo que dela vem é verdade, vem a Piauí e me quebra as pernas. “A crise deflagrada pela nossa reportagem provocou, como se sabe, a renúncia do presidente Lula e seu posterior exílio na Namíbia. Lutamos e conseguimos provar por a + b aos nossos familiares que os interesses da revista estavam tão-somente ligados ao sagrado dever cívico de bem informar, e nada tinham a ver com as manobras (militares) que acabaram levando Onyx Lorenzoni ao Planalto” (Deus nos livre). Esse é um trecho da matéria Dez anos de Piauí, veiculada no 13º mês da revista. Isso sem falar nas cinco páginas do The piauí Harold, que avisa que “O diário mais elegante do Brasil noticia o que acontecerá no próximo ano”, vendido na promoção, de R$ 9,50 por R$ 0,15.
Mas aí é que tá, é mentira? Apesar de ser óbvio que sim, eu acho que não. Não, porque em nenhum momento alguma viva alma pode acreditar no que está lendo, porque a revista deixa claro que é uma farsa, porque tudo indica – e escancara – a não-verdade que ali está. Quando não se engana ninguém, não se mente.
Continuo: a Piauí é estranha. É só olhar para as suas 13 primeiras – e por enquanto únicas – capas para perceber. Nenhuma delas faz sentido. Ao menos não um sentido que tenha a ver com seu conteúdo. Dá a impressão de que o editor escolhe imagens aleatórias para montar uma composição cult. As chamadas não nos mostram de que tratam as matérias, então não nos causam aquela curiosidade tradicional de querer saber mais, mas uma outra, de querer saber o quê. Um exemplo é uma de outubro: “O agente globalizado”. Isso instiga? Eu quero saber do que trata e não mais detalhes de alguma história. Vende menos, pois chama menos atenção. Me parece que a Piauí é muito menos comercial que as outras existentes por aí. Se mantém muito mais pela sua qualidade – e conseqüente credibilidade – do que pelas capas.
Mas o cúmulo das bizarrices é o encarte que vem junto no último mês, o guia da Molvânia: um país intocado pela odontologia moderna, ilustrado com a foto de um velhinho desdentado. Começa a descrição do país com: “Diz um velho ditado que ‘no princípio era o verbo, depois o advérbio e, antes mesmo de criar a crase, Deus fez surgir de uma plantação de beterrabas a ilibada República da Molvânia’” (o negrito é original dos autores). Para quem interessar possa, a Molvânia não existe. É um país fictício, criado por Tom Gleisner, Santo Cilaur e Rob Sitch para o Jetlag Travel Guide e traduzido para o português nesse fascículo da Companhia das Letras. O que eu acharia extremamente idiota se fosse mal feito eu adorei, me diverti um monte lendo.
Ou seja, a Piauí é, sim, uma revista estranha. É estranha porque surpreende, porque nos faz mudar um pouco a direção do olhar e nos põe um sorriso no rosto.
Sabe, acho que estávamos precisando de uma revista estranha para nos fazer revermos nossos conceitos.
E uma curiosidade. A Dorrit Harazim, aquela da matéria boa do Che pra Veja de dez anos atrás, trabalha na Piauí. Para saber quem mais faz parte do time oficial e os que colaboram a cada edição, aqui.
Postado por Cris Rodrigues




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