Todos os dias, às 22h, a Record News coloca no ar uma entrevista, cujo tema pode ser Bastidores da Notícia, Brasil em Discussão, Música, Mundo, Atualidade ou Cultura. Segunda foi a vez do Fórum Social Mundial entrar em debate, na Entrevista Record Mundo, com mediação do jornalista Rodrigo Vianna. Gostei. Teve alguns problemas, mas gostei, sim.
Talvez eu tenha gostado tanto por causa de um saudosismo meu, e não pela qualidade da entrevista, mas a idéia de resgatar a utopia do Fórum Social Mundial – tento analisar de uma forma um tanto fria e distante para não ficar cega – muito me agrada. Utopia, aliás, foi a palavra do programa, que começou com uma matéria do arquivo da emissora com imagens de uma conferência entre Ignacio Ramonet e José Saramago, entre outros. O VT finalizou com o escritor português dizendo que o que move o mundo não é a utopia, mas a necessidade.
A partir daí, o cientista social José Correa Leite e o membro do comitê internacional do FSM, Francisco Whitaker, começaram a discorrer sobre a utopia e sobre a realização do evento, lembrando sempre da sua importância como um movimento político independente diferente de tudo aquilo que temos hoje – ou que tínhamos sete anos atrás, antes da primeira edição.
Chico Whitaker e Leite são de esquerda. Ao mesmo tempo em que meu lado racional diz que deveria haver uma voz contrária, meu lado emocional – mas não irracional – lembra que é difícil uma emissora de TV valorizar opiniões desse lado, e louva a iniciativa. Até porque a voz contrária veio, mesmo que de forma mais discreta e talvez menos justa. A entrevista com o cientista político Wilson Ferreira da Cunha, contrário ao espaço (é assim que os entrevistados tratam o Forum, como um espaço aberto para as diferentes opiniões, idéias e utopias), foi gravada e alguns trechos foram exibidos ao longo do programa. A posição divergente é boa para o debate, mesmo que dessa forma.
Um dos maiores problemas foi que a entrevista, que leva a cartola de Mundo, ficou fechada no Forum de Porto Alegre. O programa foi saudosista como eu, de certa forma, pois se concentrou só naquilo que foi no Brasil, naquilo que viu. Faltou falar mais na Índia e no Quênia, sede da edição desse ano. Faltou mostrar o novo, o que não se viu aqui.
O jornalista Rodrigo Vianna, apesar de apresentar um currículo com ampla experiência na profissão, inclusiva com entrevistas, não parecia dominar a estrutura de mediação de um debate. Me deu a impressão de que ele se esforçava para parecer à vontade, quando não estava. Não chega a dar raiva dele. Dá pena, mas uma peninha boa, de torcer para ele se acertar. Vianna demonstrou, em alguns momentos, não estar totalmente a par do assunto tratado.
Uma falha do jornalista logo no início do programa dá ainda mais certeza de que ele está nervoso com aquilo. Em determinado momento, ele interrompeu os entrevistados para explicar o que é o FSM para os espectadores que não conhecem, a primeira coisa que ele devia ter feito. Me deu a nítida impressão de que ele esquecera mesmo, e estava se lembrando naquele momento.
Mas não adianta, as falhas sempre saltam mais aos olhos. Mesmo com todos esses problemas, a iniciativa de trazer a esquerda para a TV, com a visão da esquerda, é extremamente louvável. O FSM só apareceu por aqui na TV no momento em que ele acontecia em POA, e de forma superficial, sem discussão e com uma visão direitista. Ressucitar a utopia é novidade nos meios de comunicação, algo que eu não esperava. Uma novidade boa.
Postado por Cris Rodrigues





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