Posts de Novembro, 2007

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Uma novidade boa

28 Novembro 2007

logo021.jpgTodos os dias, às 22h, a Record News coloca no ar uma entrevista, cujo tema pode ser Bastidores da Notícia, Brasil em Discussão, Música, Mundo, Atualidade ou Cultura. Segunda foi a vez do Fórum Social Mundial entrar em debate, na Entrevista Record Mundo, com mediação do jornalista Rodrigo Vianna. Gostei. Teve alguns problemas, mas gostei, sim.

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Talvez eu tenha gostado tanto por causa de um saudosismo meu, e não pela qualidade da entrevista, mas a idéia de resgatar a utopia do Fórum Social Mundial – tento analisar de uma forma um tanto fria e distante para não ficar cega – muito me agrada. Utopia, aliás, foi a palavra do programa, que começou com uma matéria do arquivo da emissora com imagens de uma conferência entre Ignacio Ramonet e José Saramago, entre outros. O VT finalizou com o escritor português dizendo que o que move o mundo não é a utopia, mas a necessidade.

A partir daí, o cientista social José Correa Leite e o membro do comitê internacional do FSM, Francisco Whitaker, começaram a discorrer sobre a utopia e sobre a realização do evento, lembrando sempre da sua importância como um movimento político independente diferente de tudo aquilo que temos hoje – ou que tínhamos sete anos atrás, antes da primeira edição.

Chico Whitaker e Leite são de esquerda. Ao mesmo tempo em que meu lado racional diz que deveria haver uma voz contrária, meu lado emocional – mas não irracional – lembra que é difícil uma emissora de TV valorizar opiniões desse lado, e louva a iniciativa. Até porque a voz contrária veio, mesmo que de forma mais discreta e talvez menos justa. A entrevista com o cientista político Wilson Ferreira da Cunha, contrário ao espaço (é assim que os entrevistados tratam o Forum, como um espaço aberto para as diferentes opiniões, idéias e utopias), foi gravada e alguns trechos foram exibidos ao longo do programa. A posição divergente é boa para o debate, mesmo que dessa forma.

Um dos maiores problemas foi que a entrevista, que leva a cartola de Mundo, ficou fechada no Forum de Porto Alegre. O programa foi saudosista como eu, de certa forma, pois se concentrou só naquilo que foi no Brasil, naquilo que viu. Faltou falar mais na Índia e no Quênia, sede da edição desse ano. Faltou mostrar o novo, o que não se viu aqui.

O jornalista Rodrigo Vianna, apesar de apresentar um currículo com ampla experiência na profissão, inclusiva com entrevistas, não parecia dominar a estrutura de mediação de um debate. Me deu a impressão de que ele se esforçava para parecer à vontade, quando não estava. Não chega a dar raiva dele. Dá pena, mas uma peninha boa, de torcer para ele se acertar. Vianna demonstrou, em alguns momentos, não estar totalmente a par do assunto tratado.

Uma falha do jornalista logo no início do programa dá ainda mais certeza de que ele está nervoso com aquilo. Em determinado momento, ele interrompeu os entrevistados para explicar o que é o FSM para os espectadores que não conhecem, a primeira coisa que ele devia ter feito. Me deu a nítida impressão de que ele esquecera mesmo, e estava se lembrando naquele momento.

Mas não adianta, as falhas sempre saltam mais aos olhos. Mesmo com todos esses problemas, a iniciativa de trazer a esquerda para a TV, com a visão da esquerda, é extremamente louvável. O FSM só apareceu por aqui na TV no momento em que ele acontecia em POA, e de forma superficial, sem discussão e com uma visão direitista. Ressucitar a utopia é novidade nos meios de comunicação, algo que eu não esperava. Uma novidade boa.

Postado por Cris Rodrigues

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Jornalismo Preguiçoso

26 Novembro 2007

Belíssima análise do jornalismo, feita por um músico. Bom seria se os jornalistas entendessem o recado. Bom seria se alguns dos jornalistas – em especial dos grandes veículos – entendessem a sua profissão com a mesma clareza que Rodrigo Amarante demonstra. Bom seria se, em nossa imprensa, tirássemos um tempo, de vez em quando, para uma auto-crítica, ou ao menos para ouvir as críticas fundamentadas como a do ex guitarrista da banda Los Hermanos.

Postado por Alexandre Haubrich

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Muitas idéias para pouco espaço

24 Novembro 2007

Fui instigada por meu colega de blog a escrever sobre a Placar, uma revista que eu nunca li sobre um assunto que eu não domino. Para fazer isso, peguei a edição de novembro. Ou seja, vou escrever só sobre o que eu li nesse exemplar. Algumas coisas devem servir para qualquer edição da revista. Outras talvez não.

Uma das primeiras coisas que eu descobri é que a Placar é uma revista mensal e que fala só de futebol, e não de esportes de um modo geral – eu nunca tinha aberto um exemplar mesmo.

A partir daí, pude começar a ler e estabelecer a minha visão sobre ela. A capa desse mês é do Diego Souza, jogador do Grêmio. Uma boa manchete – “Me deixem ficar!” – e mais um monte de informações sobre vários assuntos. Parecia que queriam mostrar na capa tudo o que tinha lá dentro. Mesmo que lá dentro tivesse muito mais coisa.

Bom, comecei a folhear. Bem no início tem uma seção de imagens, com fotos muito boas de uma ou duas páginas e uma pequena explicação. Bela idéia, congela alguns momentos marcantes ou curiosos do futebol.

Depois, a revista é dividida em várias seções, com pequenos textos de no máximo uma página. Tem algumas coisas que me deram vontade de ler, como o já batido, mas que sempre funciona, time dos sonhos de alguém. É a escalação ideal de alguma figura do futebol. Sempre desperta curiosidade. Outra é a formação de times, pelo elenco da Placar, apenas com jogadores formados por cada clube brasileiro. Vi lá que meu Inter seria bem melhor do que é agora, mas também ia ser mais difícil de enfrentar o Grêmio. Opinião de torcedora à parte, voltemos à revista. Charges, perfis, revelações do campeonato completam a parte inicial.

Depois, as reportagens. O que mais me chamou a atenção foi a qualidade x tamanho das matérias. Algum tempo atrás, eu não diria que futebol é um assunto que rende grandes textos, mas fui surpreendida pela qualidade do que vem ali escrito. Não são só táticas ou jogadas, como se poderia pensar. Pelo contrário, trabalham o tema da forma mais inteligente possível, com análises sobre tudo que envolve o mundo do futebol. Tem algumas coisas até de Jornalismo investigativo – embora a expressão devesse ser redundante -, mas que empacam no curto espaço destinado a seus textos. Aí fica difícil desenvolver melhor uma matéria sobre a corrupção no Corinthians, por exemplo.

Dá para notar algumas discrepâncias, o que é meio complicado. O assunto principal da edição, Diego Souza, ocupa quatro páginas, enquanto a transição de Ronaldinho do status de grande estrela do Barcelona para a condição de “apenas mais um” no time ocupa sete páginas. Eu ainda acho que a matéria de capa é a principal, a mais trabalhada e, por isso, merece mais destaque e mais espaço. Parece que a Placar não.

Mas essas sete páginas dedicadas ao Ronaldinho – com o ótimo título “O amigo do Messi” – são o maior espaço que algum assunto ocupa no corpo da revista. Para o resto, sobram uma, duas, no máximo três páginas. Parece que o diretor de redação, Sérgio Xavier Filho – aliás, dono de textos excelentes -, teve muitas idéias e não conseguiu selecionar qual entrava para a edição do mês. Na dúvida, ficou com todas para distribuir nas 100 páginas da publicação. Eu ainda acho que é melhor focar em menos coisa mas trabalhar mais nelas. O resultado sai com mais qualidade.

Um dos maiores méritos da publicação é que não se prende ao núcleo Rio-São Paulo. O Grêmio está na capa, mas não é apenas uma jogada para parecer que trata a todos com igualdade. Dentro da revista estão quase todos os grandes times do Brasil, com igual espaço. É legal que não só permite que leitores de todo o país leiam, mas também abre a discussão, a torna mais rica. E não fecha nem no futebol nacional. Grandes times da Europa, ou de países pequenos ou sem tradição no futebol também têm espaço. Um dos temas mais diferentes da edição é sobre irmãos gêmeos que defendiam a seleção do Iraque e eram torturados pelo filho do Saddam cada vez que perdiam. É uma entrevista com um deles falando sobre suas experiências. Muito interessante, mas, de novo, faltou espaço.

Por fim, as fotos. Muito boas, de um modo geral. A qualidade técnica evoluiu demais e a seleção é muito bem feita. Só que tem umas quantas que são bem parecidas. A ilustração de várias matérias é feita com uma foto de corpo inteiro do(s) jogador(es) ou treinador(es), com uma bola nas mãos ou nos pés e às vezes tirada de baixo, deixando o fotografado maior. Mas as imagens de lances e jogadas são incríveis. Ainda na estética, a diagramação não tem falhas. É dinâmica, como pede uma revista de matérias curtas, bonita e inteligente.

Enfim, a Placar é recheada de idéias criativas – como mostrar a história das chuteiras e outras tantas já mencionadas – e textos bem escritos, que fazem com que a revista supere, pelo menos em parte, essa “deficiência” de aprofundamento em matérias longas.

Postado por Cris Rodrigues

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Comissão de Constituição e Cidadania aprova entrada de Venezuela no Mercosul… jornais não

22 Novembro 2007

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira um requerimento para o ingresso da Venezuela no Merscosul. O fato foi divulgado por todo o Brasil, pelos principais veículos de mídia do país. Cada um pôde mostrar, através do tratamento dado à notícia, algumas posições e algumas características. No conjunto, fica claro como o jornalismo brasileiro está impregnado de sujeira, ideologia, preguiça e mediocridade. Não que todos os jornais possuam esses defeitos todos, mas eles estão presentes por aí.

Vou analisar aqui as matérias publicadas em alguns destes veículos. Reproduzo a seguir os títulos e os lides de 4 dos principais jornais do país e, a seguir, analiso-os (nos links estão as matérias completas). Vamos lá:

Zero HoraComissão da Câmara diz sim à Venezuela
Depois de cinco horas de discussão que envolveu até negociações de cargos com o PMDB, o governo conseguiu ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovar a constitucionalidade da entrada da Venezuela no Mercosul. Foram 44 votos da base aliada a favor e 17 votos contrários de DEM, PSDB e PPS.

Diário Catarinense - Hugo Chávez é aceito no Mercosul
Comissão de Constituição e Justiça aprova parecer de Paulo Maluf
Brasília
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou ontem por 44 votos favoráveis e 17 contrários o parecer do deputado Paulo Maluf (PP-SP) que pede a adesão da Venezuela ao Mercosul. Agora, a proposta será apreciada pelo plenário da Casa.

Estado de São Paulo - Comissão da Câmara aprova ingresso da Venezuela no Mercosul
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou ontem a adesão da Venezuela ao Mercosul. O placar foi amplamente favorável ao governo: 44 votos a favor e 17 contrários. A proposta agora vai ao plenário da Câmara e, depois, ao Senado, onde deve enfrentar resistência maior – a começar pela Comissão de Relações Exteriores, presidida pelo oposicionista Heráclito Fortes (DEM-PI).

Jornal do BrasilCCJ aprova entrada da Venezuela no Mercosul 
A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) aprovou nesta quarta-feira, por 44 votos a 17, a adesão plena da Venezuela ao Mercosul. O projeto ratifica o texto do protocolo assinado em Caracas, em julho de 2006, pelos países que fazem parte do bloco econômico (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), além da própria Venezuela.

Agência BrasilComissão de Constituição e Justiça da Câmara aprova entrada da Venezuela no Mercosul
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a adesão da Venezuela ao Mercosul. No total, 44 deputados votaram pela entrada do país vizinho no bloco e 17 parlamentares, sob orientação do PSDB e do Democratas, rejeitaram a proposta. O relatório favorável à adesão agora segue para votação no plenário.

A Zero Hora foge um pouco da tendência reinante nos outros jornais: bater em Hugo Chávez. Mesmo assim, fica claro que a mira está voltada para o governo. O grande mote da matéria é mais um acordão entre governo e, no caso, PMDB. A tentativa de relacionar a votação a mais uma “negociata” é clara.

O Diário Catarinense é absolutamente tosco, toscamente falando. Já abre a matéria com duas mentiras. Foi a Venezuela, e não Chávez quem pode vir a ser aceito no Mercosul. E no olho já vem o nome de Maluf. Ambas são tentativas de atrair o leitor através de nomes conhecidos, mesmo que uma informação seja mentirosa e a outra desimportante – tanto é que não chega a ser lembrada em qualquer dos outros veículos. E a notícia segue toda por esse caminho de medicoridade, com declarações caídas de pára-quedas no texto – como a de Ivan Valente – e explicações pela metade – vide a frase final.

O Estado de São Paulo tem o melhor resumo da ópera. Explica as nuances da votação e faz uma análise do que pode ocorrer no Senado. Realmente informa. Mesmo assim, não deixa de, no final, deixar sair a velha veia direitista do Estadão. Os ataques dos deputados a Chávez são destacados, mesmo em falas de votantes pró-inclusão. Esquece, o jornal, de apresentar também o outro lado. Não é citado NENHUM dos deputados que defenderam o presidente venezuelano – como Chico Alencar, que se disse estranhado com o partido da ditadura (PFL, atual DEMO) falar em democracia.

Aí vem o JB, e a gente morre de rir – ou de chorar, pode escolher. Ainda que conste a assinatura “Agência JB” logo acima, a matéria não passa de uma versão com cortes do release da Agência Câmara. Veja AQUI. Cada palavra, cada vírgula, está tudo no release. Por favor, né JB… Uma votação importante e não mandam sequer um repórterzinho, um estagiário que fosse. Que preguiça! Que vergonha! E ainda assinaram!

Por fim, a Agência Brasil mostrou como é possível fazer um texto jornalístico sério, isento e apegado aos fatos, resumindo com clareza e sem desvios o que realmente aconteceu. Pena que os jornalões não seguiram seu exemplo.

A cobertura da votação que deu o primeiro passo para o ingresso da Venezuela no Mercosul é apenas um caso, um pequeno exemplo de como nosso jornalismo está deprimido, deprimente, pobre e podre. Atrelado a interesses e visões de mundo únicas e carente de inteligência. Deixemos as opiniões para os colunistas! Não manipulemos! Mudemos! Mudemos, por favor.

P.S.: Outros jornais não foram analisados por não disponibilizarem a íntegra das matérias para não-assinantes.

Postado por Alexandre Haubrich

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Metadiscussão

20 Novembro 2007

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Jornalistas, estudantes, escritores, blogueiros. Ninguém sabe ao certo qual é a linguagem do blog. É Jornalismo? É literatura? É pessoal? Há quem diga que é livre, pode ser o que quiser. Faz sentido, pois é aberto a qualquer um. Mas, se é Jornalismo, onde estão os limites? Não seriam os mesmos de uma publicação qualquer?

A Folha de S.Paulo publicou uma matéria sobre blogs na edição de domingo passado, dia 11, que se não resolve a questão pelo menos nos faz pensar um pouco no assunto. Os repórteres Uirá Machado e Fernando Barros de Mello afirmam, já no título, que “Blogs políticos encenam nova ‘Guerra Fria’”. Citam ali o Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim, de esquerda, e Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, mantenedores de blogs de (extrema) direita. Em cima do muro, Luis Nassif, no blog Projeto Brasil, analisando a situação. Segundo a matéria, os blogs revitalizaram a velha dicotomia típica da Guerra Fria, entre “petralhas” (variação petista dos “Irmãos Metralha”) e membros do PIG (Partido da Imprensa Golpista), “chapas-brancas” e “golpistas” e principalmente entre esquerda e direita.

O grande problema da matéria é que ela esquece que a Guerra Fria não dividia esquerda e direita, dividia Ocidente e Oriente. Se os repórteres consideraram a simples dicotomia, entre qualquer coisa que seja, como a comparação com a situação da Guerra Fria, incorreram em erro mais uma vez. Não é possível estudar a história da humanidade sem as rivalidades extremas. Por isso é tão difícil fugir do maniqueísmo, porque é natural que se assuma uma posição oposta a outra. É fácil. Assim foi na Revolução Francesa, e os blogs não encenam uma nova Revolução Francesa. Por que então a comparação com a Guerra Fria?

A questão é que os blogs viraram o espaço destinado a se exprimir opinião. Para mim, reportagem não cabe em blog. Para fugir dos textos opinativos, só se salvam aqueles íntimos, pessoais, mas servem apenas para um público bem limitado. Então, blog para grande público é mesmo opinativo. Afinal, reportagem, entrevista e afins cabem em um jornal, mesmo que pela internet, na TV, no rádio. O espaço para opinião é que é extremamente limitado. Não só por a opinião esbarrar nos interesses do veículo, mas porque a natureza do Jornalismo não é opinar, é informar – na minha opinião, claro.

Nesse sentido, a discussão bloguística vem bem. Cada um vai buscar blogs que condizem com o seu ponto de vista – ou não, se quiser apenas se informar do que se está dizendo por aí. Se o Paulo Henrique Amorim é bom para mim, lê-lo-ei. Se o cara for o Olavo de Carvalho, idem. O que falta enxergar é que a dicotomia – que é, sim, um problema, porque cega – não vem do blog. O blog é que está se tornando um espaço para expressá-la. Ela existiria igual. Talvez em panfletos, talvez em muros, talvez calada. Mas existiria.

Postado por Cris Rodrigues

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O legista da ditadura

18 Novembro 2007

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Podia ser mais um perfil de um descendente de japoneses bem sucedido na política brasileira. Seria certamente o que algumas revistas fariam. E foi o que o repórter João de Barros disse a Harry Shibata que pretendia fazer quando o procurou em sua mansão para uma entrevista. O que João de Barros não contou é que trabalhava para a Caros Amigos, e que a real intenção era explicar quem foi o diretor do Instituto Médico Legal (IML) na época da ditadura militar. Quem foi o homem que assinou embaixo todas as torturas e os assassinatos cometidos pelos milicos. Harry Shibata foi “o legista da ditadura”.

O que aconteceu foi o seguinte: João de Barros teve três conversas com Shibata, e nas duas primeiras não foi autorizado a gravar ou anotar nada. Apenas na terceira, pôde gravar a entrevista, com a condição – assinada –  de que não perguntasse nada sobre as atividades do japonês quando diretor do IML. E assim foi feito.

Só que João tem memória, e escreveu uma matéria, de três páginas, sobre o que foi conversado nos dois primeiros encontros. Também foi publicada, na seqüência, a entrevista de cinco páginas gravada no último dia.

O resultado é uma excelente matéria, com um excelente texto e uma prova de coragem e ousadia, componentes fundamentais do melhor jornalismo. João expõe todas as contradições desse homem misterioso, que se nega a dar entrevistas há alguns anos e que segue apoiando a idéia de que a ditadura foi algo normal e bom para o país.

Shibata defendeu o tratamento dado aos “subversivos”. Mal sabia ele que estava conversando com mais um deles. E dos piores. Para ele. Dos melhores para o jornalismo.

Postado por Alexandre Haubrich

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Para o seu filho ler e não entender

16 Novembro 2007

Não faz muito tempo eu li em alguns jornais que o Olívio foi incompetente no governo do Estado, pois não conseguiu aprovar seus projetos. Chamaram-lhe, eu li com exatamente essas palavras, de incompetente por não conseguir articular. Aí agora vem essa da Yeda, não só não aprovou o pacote, como aconteceu há alguns anos, mas não aprovou tendo maioria na Assembléia. Isso sim é inédito. Isso sim é incompetência.

Mas aí vou ler a zerohora.com e vejo o Sant’Ana dizendo que “a governadora pode muito bem governar sem essa base”. Ahn? Fiquei meio confusa, porque ela acabou de sofrer uma derrota que demonstra que não consegue governar sem apoio. E o mais estranho é que o Sant’Ana concorda comigo: “o governo Yeda Crusius, por suas vicissitudes estruturais, terminou em escombros”. Nossa, tá difícil de acompanhar o raciocínio. Afinal, consegue governar sem a base ou acaba em escombros?

Mas esse é um blog de opinião. Mesmo contraditório, é o Sant’Ana, já conheço e sei que não posso esperar muito, suas opiniões nada têm a ver com as minhas. Aí fui ler a matéria da Zero Hora mesmo, da edição do dia (de ontem) no site. O corpo do texto até que não é tão tendencioso. Mais conta o que aconteceu do que opina. É bem diferente da postura da imprensa na época em que a Assembléia rejeitou o pacote de aumento de impostos sobre a bebida e o cigarro no governo Olívio, quando caíram em cima criticando o tarifaço e ironizando a incapacidade política do petista. Ali na ZH de ontem isso não acontece. Se fala em derrota do governo, mas daí não tem como escapar. Isso não é opinião, é claro como água que o governo Yeda perdeu essa batalha.

Mas bom, sem mais delongas, o grande problema da matéria é o fim. Ela tem um adendo que eu suponho que seja comum nas matérias da ZH, mas que eu nunca tinha visto. É o tal do “Para o seu filho ler”, que explica o que aconteceu em uma linguagem mais simplificada.

O primeiro parágrafo é assim: “A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, tinha um conjunto de propostas para melhorar a administração do nosso Estado. Algumas dessas propostas tinham por objetivo conseguir mais dinheiro para os cofres do governo. Com esse dinheiro, a governadora pretendia pagar dívidas e investir mais no policiamento das ruas e na melhoria das estradas e das escolas”.

Fiquei comovida com como nós temos uma governadora boazinha. Depois explicam que a Assembléia, composta por deputados “escolhidos por nós”, tem que aprovar o pacote. Por fim, “A maioria desses deputados entendeu que as propostas do governo prejudicariam os cidadãos. Por isso, reprovaram as principais medidas da governadora. Agora, Yeda vai ter de buscar outras alternativas para conseguir mais dinheiro”. Me deu até pena. Claro, os filhos que lerem isso não vão entender o que os deputados não aprovaram. Não tem uma linha sobre o que a Yeda propunha. O que é, aliás, recorrente nas matérias do gênero. E não entendem quando eu falo em jornalismo crítico e contextualizado.

Postado por Cris Rodrigues

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Um dos melhores textos do país

14 Novembro 2007

Além de um excelente jornalista, vejo em David Coimbra um dos melhores textos do jornalismo brasileiro atual. É dos poucos com estilo próprio. E seu estilo muito me agrada. Além de tudo, agora também tem aparecido sua veia política, que parece ser uma veia cheia de sangue, pronta para estourar – e que já tem nos brindado com alguns pingos deste sangue.

David é escritor, editor e colunista de esporte de Zero Hora, e colunista da página 3 do mesmo jornal, semanalmente. Sempre apresentou textos cheios de humor, com algo de nelson-rodriguiano em sua forma de endeusar as mulheres e brincar com o futebol.

Seu amor pelo centroavante só não supera o amor pela mulher do centroavante e a pena que sente do zagueiro. Quase sem exceções, suas crônicas esportivas trazem elementos culturais e históricos muito edificantes e, de uma hora para a outra, mas sem que nos damos conta, relaciona aquilo a algum fato futebolístico.

A capacidade literária de David Coimbra é inegável, mas o que o traz a esse blog é a força que seu discurso vem tendo semanalmente na página 3. Como em um texto em que comparou a Veja de 10 anos atrás com aquela que saiu há poucas semanas com o panfleto anti-Che e anti-inteligência. Mesma coluna em que criticou os principais jornais do país por sua parcialidade e bateu na própria ZH, a quem acusou de não dizer nada.

Há também a crônica – esta publicada no Esporte -, onde fala de Fidel Castro e do sentimento de poder que o líder cubano desperta em seu povo, lembrando o caso do menino ferido nos pulsos que, antes de morrer, escreve o nome de Fidel em um muro com seu próprio sangue.

O que está acontecendo para que se permita a David escrever tais esquerdismos eu não sei. Mas que os leitores ganham muito com isso tudo, ah ganham. Ainda mais quando estas posições vêm calcadas no maravilhoso e envolvente texto deste brilhante escritor/jornalista/cronista.

P.S.: tentei encontrar as duas crônicas citadas neste post para facilitar a vida de você, leitor. Mas, infelizmente, o site da Zero Hora não possui ferramenta de busca. Então, entre no blog do David, linkado lá em cima, e leia tudo o que puder.

Postado por Alexandre Haubrich

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Uma revolta com sentido

12 Novembro 2007

Já tinha até esquecido, mas ontem, vendo o quadro da Regina Casé me lembrei. No domingo da semana retrasada o Central da Periferia mostrou a Paris daqueles jovens de origem árabe e africana que se revoltaram em novembro de 2005 e incendiraram cerca de 600 carros, segundo o jornal francês Le Monde. Ela foi até o subúrbio de Clichy-Sous-Bois, onde a morte de dois jovens pela omissão de policiais deu início à revolta. Foi um dos quadros mais interessantes do Fantástico que eu já assisti.

A Regina Casé foi uma das únicas jornalistas autorizadas pelos moradores locais a entrar na periferia e conversar com os jovens que participaram dos confrontos. Isso tudo porque ela mostrou um vídeo de um Central da Periferia na Cidade de Deus e eles se sentiram identificados. E não só, eles se viram valorizados, por uma jornalista diferente, irreverente e preocupada em mostrar uma outra visão. Ela quer realmente saber como eles vivem, como é sua cultura e o que os leva a fazer o que fazem.

Depois de mostrar o vídeo, os jovens, que antes tinham mandado a equipe desligar as câmeras e perguntavam se estavam com medo, confiaram na jornalista. Fizeram ela descer do carro para mostrar as imagens para os outros moradores, que também estavam interessados. Deixaram a Regina fazer imagens do traficante de lá, que apareceu com a cara coberta no vídeo. E isso mostra a preocupação dela em não entregar ninguém, em ser honesta. Daí vem a confiança e a identificação. Sem precisar insistir muito, ela fez um dos envolvidos com os confrontos contar para as câmeras como se desenrolaram os fatos, na visão dos reprimidos pela polícia e como ele gravou tudo com a sua câmera, pois também é cinegrafista.

É por causa do seu jeito espontâneo que ela inspira confiança em todo o mundo. Mas é por causa de sua visão ampla dos fatos e de sua identificação com o povo que ela consegue fugir do tradicional e mostrar o outro lado sem ser forçado, sem tratar os moradores da periferia como coitadinhos.

E Regina Casé não só mostrou o lado dos “bandidos”, fazendo-nos pensar a respeito e ter cuidado com as conclusões precipitadas, mas também criticou o atual presidente francês, Nicolas SarKozy. O então ministro do Interior defendeu os policiais na televisão, e Regina mostrou, mas não com aquela visão de policial herói. Eles omitiram socorro e mataram dois jovens, isso fica claro. E o presidente da França defendeu os caras. A jornalista deixa claro que a revolta não foi sem motivo, como em geral a mídia mostra. E por causa dessa visão deturpada da maioria ela quase não conseguiu entrar lá. Esse quadro me fez lembrar de um outro, quando o programa ainda era nas periferias do Brasil e ela entrevistava crianças. Mas isso é assunto pra outro post.

Postado por Cris Rodrigues

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Uma nova chance

10 Novembro 2007

Vamos direto ao ponto: a TV Pública tem tudo para ser um grande ganho para o Brasil, e o desespero das grandes emissoras nacionais em relação ao tema é a prova mais concreta disso.

Sim, porque uma emissora de televisão que faça um jornalismo com profundidade, com análise séria, e que dê espaço para 4 horas de programação regional e 4 horas de produtoras independentes, traz enfim o que o país mais precisa em matéria de comunicação.

Com Franklin Martins e Tereza Cruvinel no comando, mais um ponto positivo para a TV Brasil, já em fase final de preparação para entrar no ar daqui a poucos meses. Muitos programas inclusive já estão prontos. A idéia é dar voz a quem não tem, mostrar o Brasil em todas suas culturas e todos seus sotaques, em toda sua diversidade. É, em resumo, botar em prática a tão batida mas tão combatida “democratização da comunicação”.

Como diz Franklin, só o tempo dirá se a iniciativa vai dar certo, mas o governo Lula tem 3 anos para consolidar a TV Brasil como um negócio sério e digno de credibilidade (ao contrário de boa parte de suas ações no poder) e impedir, assim, que o governo seguinte transforme a emissora em um palanque, em uma TV Estatal, e não pública, como se propõe que seja.

Quem sabe a TV Brasil sirva até como propulsora de uma nova realidade dentro da televisão brasileira, em que as emissoras passem a preocupar-se mais com a qualidade de seus programas, e menos com os anunciantes. Que a TV Brasil seja um sucesso! (E que permitam que assim se faça, grandes emissoras, políticos e diretores da nova TV).

 Postado por Alexandre Haubrich