Posts de Abril, 2008

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Divulgando a não-notícia

30 Abril 2008

O que é notícia? Parece que boa parte da imprensa brasileira concordou, mais ou menos, no caso da divulgação de uma pesquisa CNT/Sensus, na última segunda-feira. Boa parte, mas não todo mundo. Enquanto Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, por exemplo, destacavam o apoio da população a um terceiro mandato de Lula e o crescimento da popularidade do presidente, a Zero Hora trazia – na edição de terça-feira, 29 – uma matéria que, durante metade do texto, falava apenas sobre os supostos desejos de Lula de concorrer novamente.

A reportagem da Folha tem como título “3º mandato para Lula tem apoio de 50,4%, aponta CNT/Sensus”, e tem, na linha de apoio, os números de desempenho do governo e do presidente. No lead, Gabriela Guerreiro diz que “Pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem mostra que 50,4% dos entrevistados são favoráveis a um terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A pesquisa mostra que 45,4% dos entrevistados são contrários ao terceiro mandato e 4,3% não responderam”. Em seguida, explica como foi feita a pesquisa e repercute os resultados com políticos do governo e da oposição, além de uma fala do diretor do Instituto Sensus.

O Jornal do Brasil fez um resumão da matéria da Agência Folha, mas ainda assim muito melhor que a matéria da Zero, que tem por título “Ninguém consegue fazer tudo em oito anos, diz Lula”, os primeiros cinco parágrafos nem citam as pesquisas. O lead é absolutamente enganoso, quando diz que “No mesmo dia em que a pesquisa CNT/Sensus indicou que mais da metade da população aprovaria uma medida que permitisse sua segunda reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que ‘ninguém consegue fazer tudo em oito, nove ou 10 anos’”. Em um momento obscuro e rápido, a reportagem – não assinada -, explica que o presidente falava de um possível bom sucessor. Quem só lê o lead – a maioria dos leitores – não ficou sabendo, acha que Lula está babando por um terceiro mandato.

Apenas no fim da matéria, a Zero Hora divulga a verdadeira notícia: a pesquisa.

Brigar com a notícia não é novidade por aqui, mas não dá pra deixar passar uma grosseria dessas.

Postado por Alexandre Haubrich

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Fome de informação

28 Abril 2008

Combate à fome. Esse foi o carro-chefe da campanha que levou à eleição do presidente Lula em 2002. Parecia um discurso meio ultrapassado, talvez fora de contexto. Agora, vê-se que não poderia ser mais atual, diga-se até de visão de futuro, sem entrar no mérito da questão. Em 2008, a fome no mundo é o assunto do momento. O povo está se revoltando e protestando. E os veículos de imprensa não estão deixando esse assunto passar, embora cada qual à sua maneira.

A Carta Capital (aqui, aqui e aqui) dedicou sua capa dessa semana ao tema (matéria de Márcia Pinheiro e Phydia de Athayde). Fez uma ótima análise econômica de tudo que está por trás dessa crise de escassez de comida. É um texto equilibrado, bem estruturado, focado principalmente na questão dos biocombustíveis, mas que não foca no social. Os números e as causas estão lá, mas ficam meio vazios pela ausência de pessoas, a falta de humanismo no texto.

Humanismo é, ao contrário, a palavra chave da matéria “A fúria dos pobres” do jornal alemão Der Spiegel (de Rüdiger Falksohn, Amira El Ahl, Jens Glüsing, Alexander Jung, Padma Rao, Thilo Thielke, Volkhard Windfuhr e Bernhard Zand), traduzida e publicada pelo Estado de São Paulo no dia 19 de abril (não achei no site do Estadão, mas o texto é esse). Um dos jornais mais conservadores do país foi justamente um dos primeiros a lembrar que existe fome no mundo. Um humanismo que chega a doer de tão cruel (“Para muitos haitianos, os biscoitos de barro são seu único alimento”). E antes que se possa pensar, ele já mostra que não veio só se lamentar com palavras de efeito. Trata de macroeconomia e geopolítica e mostra dados concretos que contextualizam uma situação calamitosa e que está sendo desprezada, sem ignorar as causas do problema. Segundo os autores, “uma tigela diária de arroz está quase fora das possibilidades” da maioria dos haitianos.

Arroz. Para variar, a Zero Hora contraria as tendências positivas da imprensa, como essa de discutir a fome, e, portanto, as maiorias mal-tratadas. Aqui no estado, o máximo que o nosso principal jornal faz é escrever uma matéria (de Sebastião Ribeiro) sobre o preço do arroz. “Maior produtor do país, o Rio Grande do Sul celebra a supervalorização do grão que viu seu preço saltar 40% apenas em abril, último mês de uma colheita recorde”, diz a legenda da foto de capa da edição de domingo 27. A inversão no ponto de vista compromete toda a discussão, pois valoriza o aumento de preço dos alimentos em favor apenas dos produtores, na contramão do resto do mundo. Mais uma vez, motivo de vergonha. O verdadeiro e original foco nem é lembrado. É quase uma celebração da fome.

E o Jornal Nacional começou hoje uma série sobre os fatores que convergiram para levar a essa crise. A primeira parte foi bastante completa, partindo do aumento do consumo na China devido ao crescimento da qualidade de vida de alguns milhões dos que vivem lá. Terminou com o preço cobrado pela natureza e a discussão em torno dos biocombustíveis. Colocou vários lados do problema, como a necessidade de energia para produzir alimentos, que leva a uma maior produção de biocombustíveis, que, por sua vez, prejudica o setor alimentício. Deu a catástrofe e ainda finalizou com a versão otimista. Sem contar que esse é apenas o primeiro da série, ou seja, para um assunto complexo, um tratamento abrangente, com a explicação de todas, ou pelo menos várias de suas causas.

Fotos de Sebastião Salgado

Postado por Cris Rodrigues

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O cavalo encilhado passou

26 Abril 2008

A revista Época perdeu uma grande oportunidade, daquelas que não aparecem todo dia. Após um grande furo da Placar, que descobriu que o comentarista da Rede Globo e ex-jogador de futebol Walter Casagrande Júnior está internado em uma clínica de tratamento para dependentes químicos, a Época deu o furo da vez, encontrando Casagrande na Clínica Greenwood e conseguindo uma entrevista exclusiva com o ex-jogador do Corinthians e da Seleção Brasileira, que virou a matéria de capa da última semana.

E aí começaram os erros. A repórter Kátia Mello levou a matéria por um rumo no mínimo esquisito. Talvez a entrevista não tenha rendido o suficiente, mas o que qualquer um sabe que seria mais significativo em um caso como esse seria transcrever o bate-papo, e não escrever uma matéria. Bom, quem sabe não rendeu. Aí, outra possibilidade seria fazer uma retrospectiva da história de Casagrande e focar no dia-a-dia dele na clínica e nas possibilidades de sua recuperação, em como o vício atrapalhou sua vida pessoal e profissional, essas coisas. Mas não foi nada disso o que Kátia fez.

Em um texto absolutamente insoso, tentou apresentar uma perspectiva de como são as clínicas de tratamento de dependentes, e acabou caindo em informações banais e exemplos que não mostram o conjunto. Depois, um depoimento de Casagrande, e nada de explicações sobre como foi dado, se conversando ou escrevendo.

Informações são repetidas no decorrer da matéria, como nas partes em que se fala sobre os hospitais-dia. Em outros momentos, informações – “o crack, antes considerado uma droga ‘de classe baixa’, ganhou muitos adeptos na classe média e alta” – e dados caem da pára-quedas. O bloco de texto que começa com “As clínicas de reabilitação ganharam projeção nos últimos anos”, além de dar a impressão – sem querer – que as clínicas estão em alta e que são o novo point dos artistas, traz uma série de informações que nada tem a ver com o foco da reportagem – se ela tivesse algum foco -, citando exemplos de celebridades que já foram ou ainda estão envolvidas com drogas e foram ou estão internadas. Informações que não acrescentam absolutamente nada.

Enfim, são oito páginas com potencial para constituírem uma das grandes reportagens sobre esporte do ano, baseada em um grande furo, que acabaram em um monte de inutilidades. As perguntas dos leitores não são respondidas, e as informações sobre o caso Casagrande perdem-se em meio a uma enrolação sem sentido e desinteressante. Uma pena.

Postado por Alexandre Haubrich

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Visão de futuro

24 Abril 2008

Nada de economês ou, ao contrário, tudo tão mastigado que a gente se sente burro lendo. Equilíbrio, como em qualquer área, no Jornalismo é mais do que fundamental, é imprescindível. E foi isso que a Carta Capital conseguiu na matéria sobre o fim do neoliberalismo na edição do dia 23 de abril (O neoliberalismo está cercado). Pelo menos na linguagem. O texto é, sim, tendencioso. Mas, apesar disso, objetivo.

É isso que chama a atenção de cara na capa da revista, e o que me levou a lê-la com tanto interesse. Com explicações consistentes e uma retomada histórica, Antonio Luiz M. C. Costa faz um jornalismo crítico, do qual tanto sentimos falta na imprensa nativa. Parte da crise americana para discutir o futuro do neoliberalismo e, mais especificamente, do livre mercado que o sustenta.

O resto da reportagem, dividida em uma matéria de Luiz Gonzaga Belluzzo e em duas entrevistas, uma de Luiz Antonio Cintra e outra de Mauricio Dias, consolida o que diz na primeira parte, mas foge um pouco a esse estilo mais acessível ao grande público. De certa forma, a matéria principal serve como uma introdução para que se possa compreender mais facilmente o economês dos textos subseqüentes.

O principal da reportagem é que ela é inovadora e corajosa, além de ser de grande visão de futuro. É sempre difícil delimitar o fim de uma era antes de outra era já ter tomado seu lugar há tempo suficiente para se criar um distanciamento. Analisar um tempo de dentro dele é bem complicado. Definir isso como uma pauta é realmente ousado.

Postado por Cris Rodrigues

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O futuro está no aprofundamento

22 Abril 2008

Ao final de todos os posts desse blog, duas perguntas fundamentais devem ser feitas: qual o jornalismo que temos hoje? e qual o futuro do jornalismo brasileiro?

Especificando um pouco mais essa questão, quero perguntar agora: qual o futuro do jornalismo impresso? Pois a entrevista concedida pelo novo ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, à própria folha apresenta algumas alternativas e colabora para esse debate, mesmo que não traga muitas coisas exatamente novas. Outras questões são discutidas na entrevista, e não concordo com algumas das posições do jornalista, mas o mote principal da matéria é o que fazer para salvar os jornais.

Mesmo com a ascendência das vendas e da publicidade nos veículos impressos, Carlos se preocupa, e tem razões de sobra para isso. Tudo indica que logo haverá uma forte retração no setor, com a difusão da internet no país, o que ainda não ocorreu. Aí, como ele defende, a solução pode estar em tornar os jornais mais analíticos, aprofundando mais o que é tratado, sem que se preocupe em tratar tudo. Deixar essa parte para a Internet, assim como a velocidade. Tornar-se um meio de leitura realmente edificante, apresentando os pormenores das situações, não apenas o factual.

Exatamente como o entrevistado afirma, temos exemplos históricos de que um meio nunca subsitui o outro, desde que este outro adapte-se e crie novo público. O rádio reposicionou-se para sobreviver à televisão, e conseguiu, assim como o teatro em relação ao cinema e o próprio cinema em relação mais uma vez à TV. Se os donos dos jornais se antenarem, sobreviverão também.

Existem diversas outras opiniões a respeito do futuro do jornalismo impresso no mundo e no Brasil. Compartilho da idéia de Carlos Eduardo: a salvação está no aprofundamento. Não há como disputar em velocidade ou quantidade de conteúdo com a internet. O diferencial tem de ser a qualidade da informação.

Postado por Alexandre Haubrich

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O vaso já quebrou…

20 Abril 2008

Alguém aí já parou para pensar em como o assassinato de uma criança de cinco anos, talvez pelo próprio pai, mexe com a cabeça das outras crianças do país? Pois a Folha de S.Paulo pensou, já há uma semana, e a Zero Hora seguiu o exemplo. A morte de Isabella vem sendo dissecada por todos os veículos da imprensa, mas de forma fria e dura. Agora vem, em boa hora, uma reflexão sobre o assunto.

As duas partem do mesmo pressuposto, de que as crianças ficam assustadas, com medo, ansiosas, e partem para uma orientação sobre como os pais devem agir. O texto da Folha é mais bem escrito, vai direto ao ponto, dá soluções objetivas e aborda o tema de forma mais interessante. Na ZH, um quadro ajuda os pais a saberem o que fazer, em uma matéria mais burocrática, mas ainda assim bem intencionada, embora atrasada.

Nas duas, porém, faltou o principal, a autocrítica. Por que as crianças são incessantemente submetidas a essa violência? Parece simples que a resposta encontra-se exatamente na imprensa, na enxurrada de informações ditas e repetidas o tempo todo em todos os jornais, na TV, na rádio, na internet. Ou seja, quem causa toda essa confusão é justamente quem agora tenta consertar o erro. É como montar com cola um vaso quebrado. A intenção pode ser boa, de recuperar o vaso, mas vem tarde. O ideal, nesse caso, seria olhar antes para o vaso e calcular sua distância e os riscos de ele quebrar. Evitar a queda pode dar resultados bem mais satisfatórios para a sociedade do que colar os cacos.

* A cobertura do casamento da filha da ministra Dilma Rousseff merece uma atenção especial. A matéria do dia seguinte à festa, na edição de ontem da Zero Hora, saiu com a cartola de Reportagem Especial, nas páginas 4 e 5, com todo o destaque na capa. Eu nunca tinha visto uma coluna social tão importante. Porque não foi nada além disso. Vestidos, comidas, mesas, tecidos preencheram as duas páginas, enquanto a importância política que a festa poderia representar, com o apoio de Lula à presidenciável mãe da noiva, foi ignorada. E lá vamos nós com a variedade encobrindo as verdadeiras notícias.

Postado por Cris Rodrigues

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Está no ar, o Jornal do Boris

18 Abril 2008

Estreou nesta segunda-feira o novo Jornal da Noite, na Band. Agora, a apresentação é de Boris Casoy, o mesmo que, segundo a revista Cruzeiro, participou do Comando de Caça aos Comunistas durante a época da ditadura, mesma época durante a qual, segundo se diz à boca pequena, delatou muitos colegas jornalistas. É mais uma guinada à direita nos telejornais de fim de noite, que já contam com a força do Jornal da Globo, de muito boa qualidade, mas extremamente reacionário em certos momentos cruciais.

Boris estreou com o mesmo estilo personalista e egocêntrico de sempre. É o jornal do Boris, não da Noite. Ele dá até a previsão do tempo, com seus imensos conhecimentos de meteorologia. Com seus imensos conhecimentos de tudo, aliás, o sabichão intocável comenta todos os assuntos, desde o assassinato da menina Isabella até a chegada dos celulares à Cuba, sempre demonstrando extremo conhecimento dos fatos, por exemplo quando lembrou que a “ditadura” – palavra repetida umas 10 vezes em 30 segundos de comentário – cubana dura quase 40 anos. E por aí vai.

Boris começa a esquecer palavras em suas falas, e seu bordão “isso é uma vergonha” caiu na rotina, servindo para classificar qualquer bobagenzinha, desde que entre no jornal. Não bastasse a figura patética do apresentador, as matérias também não têm sido boas, tornando o programa infinitamente inferior ao concorrente Jornal da Globo.

Continuamos sem opções realmente interessantes de jornalismo no fim da noite. É melhor ir dormir sem essa.

*Falando em guinada à direita, Lillian Witte Fibe é a nova apresentadora do Roda Viva. É uma pena que um programa dessa qualidade, desse quilate, com essa história brilhante, tenha sido entregue a mãos tão pouco interessantes. Torçamos para que não seja tão ruim quanto se projeta, ou que ao menos os outros entrevistadores segurem o programa. Carlos Eduardo Lins da Silva é agora o novo ombudsman da Folha de São Paulo.

Postado por Alexandre Haubrich

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Custe o que custar, as coisas acontecem

16 Abril 2008

O Custe o que Custar, da Band, mostrou que o que faz é mesmo Jornalismo, com letra maiúscula. Afinal, para que existem os jornais? Até onde se sabe, nasceram para informar e exercer uma função social, ter relevância. Pois é isso que o CQC provou na última segunda-feira que faz. Muda a vida de quem normalmente não tem voz.

O quadro Proteste Já, comentado anteriormente em outro post aqui do blog, não trouxe essa semana nenhum caso novo de protesto, mas a resolução de outros dois de programas anteriores. Foi à Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e verificou se o tratamento de esgoto reivindicado e prometido pelas autoridades no dia 24 de março estava finalmente acontecendo. E estava. Ponto para o CQC.

Na semana seguinte, dia 31, crianças de São Paulo reclamaram no quadro de falta de transporte escolar. Mais uma vez, o repórter Rafinha Bastos explorou magistralmente o caso. Segunda-feira, o jornalista mostrou que aquelas crianças agora têm a van para ir à escola. Bom, não resolveu totalmente, já que só aquelas mostradas no programa foram beneficiadas. Mas voltou a insistir. De repente mude alguma coisa de forma mais definitiva.

A grande sacada do programa não é em tecnologia, grandes somas de dinheiro, uma grande produção. Na verdade, é bem simples. A receita leva criatividade, vontade e coragem. Para pensar numa forma mais interessante de mostrar os problemas às pessoas, querer efetivamente ter seu papel de transformador social e dizer sem medo o que acontece e não interessa às autoridades que venha a público.

Postado por Cris Rodrigues

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Quem tem medo da opinião, da opinião, da opinião…?

14 Abril 2008

Aproximam-se as eleições e começam a surgir questões éticas novas, discutidas apenas porque a tecnologia está aí e a internet serve de espaço para que qualquer um – que possua acesso, é bom lembrar que ainda é uma minoria – expresse suas opiniões quase livremente – os limites existem, mas, por razões óbvias, há muito mais liberdade do que em qualquer outro meio de comunicação.

Neste contexto, chegamos ao ponto: os blogs. Vou citar apenas um exemplo em particular, mas certamente casos parecidos ocorrerão e ocorrem sempre em grande parte dos veículos jornalísticos brasileiros. O jornal A Razão, de Santa Maria-RS, fez com que todos os jornalistas que trabalham para a empresa assinassem um documento em que se comprometiam a não expor suas opiniões políticas em blogs pessoais ou no site de relacionamentos Orkut. Será que isso é censura? Será que não invade, de certa forma, a vida pessoal do jornalista? Acho que sim.

Entendo sinceramente que a empresa possa estar preocupada com possíveis acusações de favorecimento a determinados candidatos. Entendo que seu objetivo possa ser apenas resguardar-se. E entendo que, na prática, a coisa toda não funcione muito bem como na teoria.

Teoricamente, pressupõe-se que todo jornalista – como qualquer pessoa minimamente informada – possua opiniões políticas. A empresa tem o direito de interferir nestas opiniões ou mesmo na defesa destas posições em segmentos particulares? É claro que estas opiniões não podem estar expressas nas matérias do jornal – no caso do A Razão -, mas parece-me conter certa dose de hipocrisia a tentativa de aplacar estes posicionamentos. É querer mostrar ao leitor que seus jornalistas não possuem opinião, o que é apenas algo figurativo para explicar para o povo que o jornal não se posiciona. Figurativo ou hipócrita, diria eu.

Vejo as melhores intenções na atitude dos donos d’A Razão – sem trocadilho -, mas discordo frontalmente da falta de sinceridade, e acho que seria mais honesto com o leitor dizer para ele, sem meias palavras, que seus repórter têm posições, sim, mas que elas não são expressas no jornal. Não deveriam ser, ao menos na teoria, como disse. O leitor entenderia? Acho que não. Mas fazer o quê?

*Alguém aí viu críticas ou mesmo publicidade sobre o fato do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, estar pleiteando um terceiro mandado? Os grandes veículos sequer têm noticiado o caso. Uma notinha aqui, outra ali, nenhuma delas com um décimo da repercussão ou um milésimo da dose de ódio despejada em outros casos. Não estou defendendo nem condenando terceiros mandatos, mas estou sim, condenando quem trata dois assuntos iguais com dois pesos diferentes. Ah, se fosse o Lula ou o Chávez…

*Não falamos aqui de jornalismo internacional, mas cabe uma referência à greve dos jornalistas do francês Le Monde, que protestam contra a possibilidade de demissão de um quarto da redação graças a uma reestruturação da empresa. Será que no Brasil aconteceria algo parecido nos dias de hoje? Que pena. Nossa classe é das mais desunidas do país, infelizmente. (Agradecimentos a jornalista Viviane Mottin, do Estadão, pela sugestão).

Postado por Alexandre Haubrich

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Ética, o que é?

12 Abril 2008

Para ilustrar uma matéria parcial e raivosa, a revista IstoÉ chegou ao ponto de manipular uma foto para omitir informações e distorcer seu conteúdo. Por meio de programas de computador, a revista apagou o “Fora Serra” pichado em uma placa Pare em São Paulo e deixou apenas a referência ao MST, contida na mesma placa. Dessa forma, a placa parece dizer “Pare MST”, mudando o sentido da informação. Assinam a matéria Octávio Costa e Sérgio Pardellas. A foto é de Cristiano Machado, da Folha de S.Paulo.

Toda a matéria gira em torno do suposto radicalismo do movimento, que, teoricamente, teria perdido força nos últimos anos. Com isso, a IstoÉ cria um falso desejo popular de que as suas ações fossem interrompidas.

Na matéria os empresários e latifundiários viram as vítimas das ocupações do MST. Nas três páginas da reportagem no site, em nenhum momento um integrante do movimento é entrevistado, assim como também não aparece a voz do governo federal, acusado de excesso de tolerância e de fornecer dinheiro público. Essa informação, aliás, fornecida sem fontes nem explicação de como isso acontece.

E para coroar esse ótimo exemplo de péssimo jornalismo, vem a foto manipulada, a principal da matéria. Um atentado não só à informação a que o leitor deixa de ter acesso ou à que ele é obrigado a engolir de forma enganosa, mas também uma afronta a todos os outros jornalistas do país, que vêem sua ética escorrendo pela sarjeta. Motivo de vergonha para todos nós.

A denúncia foi feita pelo site Vermelho em 8 de abril.

* Fazendo justiça ao jornal Zero Hora, o jornalista Marcelo Gonzatto assinou ontem ótima matéria de uma página com a visão dos ambientalistas sobre a não-aprovação do zoneamento ambiental. Pena não ter o mesmo destaque da publicada no dia 30 de março.

* Um comentário no meu post do dia 4 de abril me obriga a um adendo. Tem toda razão, Clarice, falha minha, faltou uma informação importante. A foto da Zero Hora é de Adriana Franciosi. Com relação às dos jornais O Sul e Correio do Povo, não encontrei seu crédito.

Postado por Cris Rodrigues