Posts de Maio, 2008

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O Jornalismo acompanha a tecnologia

30 Maio 2008

Quando se pensa em notícia e em rádio, logo vem à cabeça que se trata de uma emissora AM, certo? Ultimamente, errado. Pode-se considerar uma tendência, uma jogada de marketing, o que for, mas o que tem acontecido de uns anos para cá é uma tendência do Jornalismo de se popularizar. A migração, ou simplesmente a sintonia dupla entre AM e FM é um reflexo desse fenômeno.

O exemplo mais recente é o da Rádio Gaúcha, uma das mais – quiçá a mais – importantes emissoras de radiojornalismo do Rio Grande do Sul. Na última quarta-feira, ela inaugurou sua transmissão FM, na freqüência 93,7 MHz. Mas o que motiva essa modernização?

Segundo a Zero Hora, do mesmo grupo da Rádio Gaúcha, o objetivo é estar presente onde está o ouvinte. Como os aparelhos tecnológicos desenvolveram apenas a tecnologia FM, das rádios que rodam principalmente músicas, as rádios AM ficaram ultrapassadas. O problema é que agora não é só o público jovem que tem acesso a aparelhos de MP3 player e celulares com rádio. Os compradores vêm aumentando, e a audiência das rádios AM, diminuindo. Como os grandes grupos não são bobos, correm atrás da tecnologia.

A transmissão FM da Gaúcha é de excelente qualidade técnica. Quanto a isso, não há o menor motivo de reclamação. O conteúdo é o mesmo da AM. Aí, portanto, não há novidade. Mas e por que não? A RBS desenvolveu sua rádio FM alguns anos depois da Band, por exemplo, que atinge uma dimensão nacional com cobertura local – com todas as facilidades e dificuldades decorrentes disso – e, no entanto, não cria conteúdo novo como a concorrente. A Band News, versão FM da Band AM, nasceu com conteúdo próprio. Os repórteres são outros, embora os da AM possam ser aproveitados para a FM e vice-versa. Com isso, a Band já conquistou ouvintes assíduos, que apreciam sua cobertura mais dinâmica e exclusiva para quem a ouve. O que não acontece na Rádio Gaúcha, emissora do maior grupo de comunicação do Rio Grande do Sul.

É uma evolução, sem sombra de dúvida, que acompanha o desenvolvimento da tecnologia e as necessidades dos ouvintes. Mas não é ainda a evolução total, pois não conta com cobertura própria. E é também uma jogada de marketing, pois lida com os interesses dos ouvintes e os benefícios financeiros que essa aprovação vai trazer.

* O CQC, da Band, dobrou sua audiência desde a estréia, em 17 de março. Na última segunda-feira atingiu seis pontos de média e picos de oito pontos, contra três no primeiro programa. Salve Marcelo Tas e companhia. Com isso, marcou posição no terceiro lugar do Ibope. A torcida do blog é para que chegue em breve à primeira posição.

Postado por Cris Rodrigues

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Coragem para tratar do inominável

28 Maio 2008

A Zero Hora mostrou coragem, deu a cara a tapa, foi arrojada, e tudo isso deu muito certo, aliando-se a um repórter competente e de texto elegante e a um diagramador criativo e inteligente. O jornal abordou um tema que quase ninguém aborda. Há uma convenção, na imprensa brasileira, que diz que suicídios não devem ser noticiados, salvo em casos especiais. Pois a ZH mostrou não apenas um caso desse tipo, mas produziu, através do repórter Carlos Etchichury, uma série de reportagens que conseguiram esmiuçar o tema e tratá-lo sem apelação, sem sensacionalismo, unindo responsabilidade, criatividade e boa informação.

A série foi aberta no domingo, ganhando quatro páginas muito bem diagramadas, assim como as páginas das edições de segunda e terça-feira, quando encerrou-se. No primeiro dia, a primeira página (29) trouxe um bom resumo do que seria abordado no decorrer da série, além de destacar estatísticas impressionantes, que mostram como o problema é grave e como sua discussão é fundamental. Aí o primeiro grande mérito do texto de Carlos Etchichury: contei 20 números nessa primeira página, fora as datas. E o texto ficou chato? Nem de longe. Isso porque foi bem escrito, bem amarrado. Nem se sente o enxame de estatísticas.

Ainda no domingo, a página 30 (AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI) tem o primeiro problema: aborda a situação do Rio Grande do Sul, mas aborda mal. Está dividida em quatro pequenas matérias, quase boxes, sendo que apenas um, ESTE, era realmente necessário ou está realmente bem feito. Há ainda um bom quadro, com mais estatísticas interessantes e bem explicadas. Na página seguinte (AQUI também), encontramos um texto que explica bem a omissão do estado. Falta apenas apresentar alternativas mais palpáveis e claras. Quando penso que deveriam falar também da omissão da imprensa, vejo um box intitulado “Tabu na mídia”. Para minha decepção, quando fala da omissão, a justifica e faz juízo de valor quando diz que “a imprensa tem razão em ser cuidadosa ao noticiar casos de suicídio”. Viro a página pensando que gostaria de ver o que é feito em outros países. E lá está, muito bem explicado, com vários exemplos.

No dia seguinte os problemas aumentam, mas não descaracterizam a qualidade incontestável da reportagem. A página 22 - primeira da segunda-feira – fala sobre a Internet na vida dos suicidas em potencial, e traz uma análise interessantíssima feita a partir de uma dissertação de mestrado, sem limitar-se a esta fonte. Tudo muito bem trabalhado. Há ali ainda um glossário muito bem colocado para explicar conceitos do “internetês” e usado como solução gráfica, além de destravar o texto. As soluções gráficas, aliás, são muito bem realizadas em toda a série. Sem foto alguma, consegue fazer páginas – quatro, no primeiro dia – muito fáceis de ler, limpas.

A página 23 desse mesmo dia traz um problema importante: a linha de apoio está absolutamente incompreensível. Uma pequena falha na edição, mas uma falha relevante. Porém, o resto da matéria salva: traz uma história e depoimentos interessantes, bem usados como gancho para mais números e estatísticas, baseados em pesquisas realizadas em Porto Alegre, além de um box com dados sobre outros lugares do país e do mundo. Está lá também um artigo do psicanalista Mário Corso, fonte utilizada demasiadamente na série. O artigo possui seus méritos: faz uma análise completa e complexa, porém totalmente inteligível ao leitor comum, além de mostrar-se sempre esperançoso com relação à vida.

O último dia fecha bem uma série que começou fadada ao sucesso. Mais uma vez é apresentada uma história muito bem contada, que não agride a entrevistada e sua família, entremeada por especialistas. Temos acesso também a um quadro de essencial importância: como buscar ajuda. O único problema está lá embaixo, onde uma retranca chamada “Um tabu na sociedade” cai de pára-quedas, contando uma história que não mostra nada e não possui qualquer interesse para o assunto.

A última das excelentes oito páginas da série traz uma entrevista com pais de um garoto, hoje com 14 anos, que tentou suicídio aos 10. A entrevista é bem conduzida, perguntando coisas importantes sem faltar com o respeito. Acontece apenas um momento tenso, quando o repórter pergunta como eles receberam a notícia de que o filho tentara suicidar-se.

Enfim, depois de tudo isso, o que mais dizer? É claro que o grande público não vai ler, mas vale investir em conteúdo de mais qualidade e menos apelo – a forma utilizada também não tem sensacionalismo algum, com muito texto e muitos números. A quantidade de fontes é grande, a diagramação é muito agradável, o texto de Carlos Etchichury é elegante, leve, gostoso de ler, ao mesmo tempo em que é sério e sóbrio.

Além disso, a responsabilidade do jornal e/ou do repórter na condução das reportagens está clara quando são entrevistados muitos especialistas e poucos pacientes e parentes, o que torna menos chocante e mostra a preocupação em não induzir suicídios, este o grande entrave para matérias sobre o tema. Um belo trabalho, um retrato sério de um problema que, como tudo o que não aparece na mídia, não existe. Pois agora passou a existir.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornalismo na madrugada

26 Maio 2008

Às vezes fica difícil discernir os limites entre jornalismo e entretenimento. De um modo geral, quando isso acontece é porque os jornais se perderam no caminho e viraram bagunça, provavelmente em busca de audiência ou vendas. Mas vez que outra, por incrível que pareça, acontece o contrário: programas de entretenimento largam sua origem sem conteúdo e falam de coisa séria.

Aconteceu no fim de semana. O Altas Horas do Serginho Groisman não só fez jornalismo como falou de jornalismo. Um dos entrevistados do programa foi o jornalista Zuenir Ventura, chamado para falar sobre 1968, um dos anos mais repletos de acontecimentos históricos e sobre o qual ele escreveu o livro 1968: O ano que não terminou.

Sabe-se que a função do jornalismo é levar a informação ao público. Informação, diga-se, de acordo com o interesse e a necessidade desse público. Claro, sempre respeitando o bom senso e o senso crítico do repórter. Pois foi o que o programa global resolveu que faria. Reúne, desde o seu princípio, pessoas anônimas, geralmente universitários, para tirar suas dúvidas sobre determinado tema. Tudo bem que perguntar sobre a vida de uma celebridade não é lá muito instrutivo, mas entrevistar dessa forma um jornalista como o Zuenir Ventura e conversar com ele sobre história não pode ser considerado um papo de bar. Ainda que o tom seja informal.

Entra aí a velha discussão sobre o que é jornalismo. Já falamos sobre isso ao escrever sobre o CQC, da Band. Lá, chegamos à conclusão de que jornalismo pode ser feito com entretenimento. Agora, podemos concluir que existe entretenimento com jornalismo. Vida inteligente. Pena que na madrugada.

Postado por Cris Rodrigues

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A CNN brasileira vem aí

24 Maio 2008

O jornalismo televisivo brasileiro passa por uma fase de transição. A entrada definitiva do bispo Edir Macedo no mercado dá uma nova perspectiva à televisão nacional, especificamente no setor de jornalismo, claramente uma prioridade do mega-empresário da religião e, agora, da mídia.

Depois do crescimento da TV Record e do nascimento da inovadora Record News, agora o papa da Igreja Universal quer criar uma espécie de CNN brasileira. Pelo menos é o que diz a jornalista Mônica Bergamo, em sua coluna de hoje na Folha de São Paulo. Diz ainda que o investimento “gira em torno de US$ 40 milhões”. A TV teria sede em Miami, nos Estados Unidos, e começaria a operar em 2010, podendo ser sintonizada em qualquer lugar do mundo via antena parabólica.

Aquela história de “a Globo que se cuide” está cada vez mais próxima da realidade. Com a queda de audiência de um e a escalada de outro, o jornalismo das duas principais emissoras do país também é influenciado, como toda a programação. Com a chegada da Record News, mais ainda. Agora, com a possibilidade de uma grande retransmissora de notícias brasileiras para o mundo, a Globo internacional também vai ter de começar a se mexer.

É uma pena apenas que, apesar de algumas diferenças – para melhor em alguns casos, para pior em outros -, as essências do jornalismo praticado na Rede Globo e na Rede Record sejam tão semelhantes. Essa nova emissora – caso realmente seja criada – é uma possibilidade de levar ao planeta uma nova visão do Brasil e da América Latina. A questão é se o jornalismo da Record dará ao telespectador essa nova visão ou manter-se-á atrelado aos mesmos posicionamentos de sempre, repetindo exatamente o que já se faz por aqui e o que a CNN faz por lá.

Particularmente, não acredito que a nova TV de Edir Macedo vá fazer diferente. E ainda há o perigo do uso dessa importante ferramenta para a promoção de sua igreja, destruindo completamente qualquer possibilidade de jornalismo sério. Isso não tem acontecido, ao menos por enquanto, nos dois outros canais do bispo, mas só deus sabe o que nos espera.

Postado por Alexandre Haubrich

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Mais do mesmo

22 Maio 2008

Jornal Nacional, 22 de maio de 2008. Reportagem sobre Corpus Christi. Jornal Nacional, 6 de junho de 2007. Reportagem sobre Corpus Christi. Mais de três minutos. Tapetes de serragem, missas, choros. Qual dos dois é esse? Se o telespectador desavisado visse hoje, sem querer, a edição do ano passado, acharia sem dúvidas que se trata de uma matéria atual. Assim é nesse feriado, na Páscoa, no Natal e em qualquer data religiosa e relativamente neutra na opinião pública. Reportagens sempre iguais. Nada de criatividade.

Entrevistas com fiéis construindo o tapete colorido, o nome do padre que celebra a missa, pessoas chorando de emoção, a hóstia. Em qualquer ano, esses mesmos itens são encontrados, sempre. Todos os anos, a novidade da rotina se repete. A cada data comemorativa, se fala na estética, nas demonstrações dos fiéis e se peca em informação. Quem não sabe o que significa Corpus Christi pode passar o dia inteiro em frente à TV assistindo telejornais e vai continuar não sabendo. Vai ver tapetes de sal de todo o Brasil, mas não vai entender por que eles são feitos, além da explicação óbvia de que é representação de fé.

Um país católico como o Brasil pede que se fale sobre as datas mais importantes do calendário religioso e, de um modo geral, se contenta com a mesmice que se mantém ao longo dos anos. Mesmo sem a importância de um evento político, Corpus Christi merece destaque pela importância de um evento religioso e, portanto, cultural, representativo de grande parcela do povo. Mas merece uma cobertura criativa e completa, como não vem sendo desde que eu lembro de assistir telejornais.

Para quem não decifrou a charada, o vídeo aí de cima é da edição do ano passado.

Postado por Cris Rodrigues

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Inspirando e expirando

20 Maio 2008

O caderno Mais! da Folha de São Paulo deste domingo traz, em todas as suas páginas, uma reportagem no velho estilo do new journalism norte-americano. Uma reportagem que faz respirar um pouco em meio a tanta mediocridade na imprensa brasileira. Desde meados de 2007 prestando concurso e buscando inserir-se, o repórter – no melhor sentido do termo – Raphael Gomide entrou no treinamento de recrutas da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e teceu um retrato cru da mentalidade da polícia que mais mata e mais morre no Brasil.

A matéria é completa. Investigação a fundo, coragem, observação apurada, esforço. Não o jornalismo preguiçoso que impera. Além disso, o texto é bom. Simples, sem grandes arroujos, mas bom, informa. E faz um retrato claro, sem photoshop ou distorção. Sem voz de pato. É a própria voz da polícia quem fala através do repórter, e fala com toda a sinceridade possibilitada pela infiltração. Não há sequer juízos de valor, algo muito comum quando se trata de polícia ou bandido.

A polícia carioca está de corpo e alma na reportagem de Raphael Gomide. Mesmo o que não está dito ali toma contornos claros após sua leitura. Altamente edificante, como qualquer matéria deveria ser. Nem sempre se consegue, mas poucas vezes se quer. Raphael e a Folha quiseram e conseguiram. Há salvação. Ainda respira-se.

* A Carta Capital desta semana traz mais previsões pessimistas sobre a imprensa mundial. São números recém divulgados, que mostram nova queda na circulação dos jornais dos Estados Unidos. Para quem acha que a solução é o jornalismo local, comunitário, vale dizer que este tipo de publicação também teve queda – e muito significativa: “O Dallas Morning bNews perdeu 10,6% dos leitores e o Atlanta Journal Constitution, 8,5%”, diz a matéria. Felipe Marra Mendonça, autor do texto, sustenta uma opinião pouco difundida e menos ainda animadora: a solução é migrar mesmo para a Internet. Esse blogueiro que vos fala continua sustentando que o aprofundamento pode salvar a mídia impressa, e que um meio não suplanta o outro, mas faz com que mude em alguns pontos.

Postado por Alexandre Haubrich

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Nem para enrolar o peixe

18 Maio 2008

“O que encontrou, segundo suas próprias palavras, foram ‘marcas de vandalismo e atrocidades difíceis de esquecer’”. Foi como Humberto Trezzi narrou a “retirada dos militantes do MST” da fazenda Southall, dando voz ao ouvidor-agrário do Estado, Adão Paiani, dono das impressões acima citadas sobre o estado em que os “vândalos” deixaram a fazenda. Segundo o integrante do MST, ainda na mesma matéria, opa, não tem fala de integrante do MST. Como assim, não é sobre eles a reportagem?

Pois é, a Zero Hora de hoje deu a capa e o título de Reportagem Especial, nas páginas 4 a 6, aos “Cadernos de luta do MST”. Cadernos que teriam sido encontrados em um acampamento do movimento. As letras redondas da maioria das páginas mostradas, provavelmente uma caligrafia feminina, retratam a organização do movimento. Só isso. Mas a reportagem trata sobre o suposto espírito destruidor e vândalo dos sem-terra.

A partir de trechos do caderno, Humberto Trezzi, nosso já conhecido de tantas outras matérias reacionárias no mesmo jornal (ou seria panfleto?), faz juízos de valor de integrantes de um movimento que luta por um pedaço de terra nesse nosso país de dimensões continentais e cheio de latifúndios. “O ímpeto de controle chega até mesmo ao que os acampados devem fazer com os seus animais: ‘Foi acordado em assembléia que os cachorros têm que ser amarrados’“. Em itálico, um simples trecho de um caderno. Absurdo, não? Definitivamente, não! Juízos de valor fortíssimos, atribuindo aos integrantes do movimento toda a culpa por atos de destruição e criando em torno deles a aura de uma conspiração, em que todos as ações são forjadas, tirando seu caráter social.

Na última página, um breve histórico das “invasões” e destruições do MST e uma descrição do estado em que a fazenda Southall foi encontrada. No fim, sob o título “Sem-terra dizem que BM agrediu”, uma retranca de faz-de-conta, para poder dizer que todos os lados foram ouvidos. Só se deputados do PT, os únicos a defenderem o MST, fizerem parte do movimento, porque assentado não tem nenhum.

Fascista. Essa é a melhor descrição para essa reportagem. Vazia e fascista. Fato não tem. Informação não tem. É um monte de palavras que juntas formam no desavisado que lê um pensamento conservador e reacionário. Se você que está lendo esse texto for um peixeiro, coloca o jornal fora, porque, se enrolar o peixe, intoxica.

Postado por Cris Rodrigues

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Os pés da mulheres

16 Maio 2008

Vírgulas mal colocadas, erros de concordância, frases mal formuladas, confusas, repetições de idéias, barras forçadas em histórias ou detalhes absolutamente sem importância.

Foi isso o que foi feito de uma grande idéia de pauta, de uma boa grana investida e de uma ótima apuração.

O repórter Jones Lopes da Silva foi destacado pela Zero Hora para realizar uma série de reportagens sobre a vida particular dos treinadores de futebol brasileiros e como ela é influenciada por suas mudanças repentinas de emprego e cidade. Excelente idéia. Palmas entusiasmadas para seu autor.

A apuração também foi extremamente competente, não há como não admitir. Jones conseguiu, na série publicada nessa semana, mostrar muitos ângulos com profundidade, muitas histórias interessantes de diferentes tipos de profissionais, com diferentes status e que viveram diferentes situações.

Tudo isso só podia dar em uma grande série de excelentes reportagens, certo? Errado. Errado porque o que pode arrasar uma matéria arrasou uma por uma. Costumo dizer que texto e revisão estão para uma reportagem como pés estão para uma mulher: não salvam uma mal feita, mas estragam outra bem feita. Foi o que aconteceu (reportagens de domingo AQUI, AQUI, AQUI e AQUI; de segunda-feira AQUI e AQUI; de terça AQUI e AQUI; de quarta AQUI , AQUI e AQUI; e quinta AQUI).

A todos aqueles problemas citados no começo desse post, acrescente-se que o repórter se perde ao dar tons variados e um tanto esquizofrênicos a alguns textos, especialmente no que fala da filha de Guilherme Macuglia. Some-se também historietas perdidas, caídas de pára-quedas, como a de Abel Braga no mesmo texto.

Sobre as tais forçadas de barra, Jones insiste em algumas colocações totalmente bestas, especialmente no fechamento das matérias. Diz que Cuca, técnico do Botafogo, “quer parar de ligar a Curitiba para investigar a que horas as filhas chegaram em casa”. Insiste em falar que a esposa de Mano Menezes é executiva, como se isso tivesse qualquer importância. Insiste em chamar Cléber Xavier, auxiliar técnico de Tite de “Xavier, o prudente”, por esse não ter levado a família para os Emirados Árabes. Se apega a escolha de Wagner Mancini de “colocar os filhos em escola de ensino construtivista, pedagogia pela qual o aluno participa ativamente de seu aprendizado”. A matéria sobre Guilherme Macuglia, só lendo mesmo para apreender todos os seus problemas. Mereceria uns três posts para que pudesse listar aqui seus erros de português e avaliação.

Para não parecer implicância, vou destacar também que os textos sobre Muricy Ramalho, técnico do São Paulo, e Ancheta, ex-treinador do Passo Fundo, estão bem melhores, e os erros gritantes praticamente inexistem.

Resumindo, um mau texto e uma péssima revisão/edição estragaram o que poderia ser uma grande reportagem.

Postado por Alexandre Haubrich

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O dilema da capa

14 Maio 2008

Apenas cinco páginas. É uma pena, pois a matéria de capa dessa semana da revista Carta Capital está excelente. Pelo menos a reportagem que estampa a capa da edição gaúcha. Não lembro de isso ter acontecido outras vezes com a Carta, mas essa semana a revista que chegou na minha casa traz foto de Yeda Crusius na capa, enquanto a que foi para as caixas de correspondências dos paulistas, cariocas e demais brasileiros traz a TV digital (“Tevê pública, o dilema”) como assunto principal.

Confesso que me decepcionei um pouco quando descobri que a podridão do nosso governo não é o assunto principal da semana no Brasil, mas entendo a posição da revista. É até simpática com o leitor, ao aproximar dele um tema que supõe ser de seu maior interesse. É natural que os gaúchos procurem mais do que um nordestino um texto desse tipo, pelo simples fato de que a vida daquele é afetada diretamente pelo tema.

Ao mesmo tempo, devem pensar os editores, o que fazer com dois assuntos tão bons, jornalisticamente falando? TV digital é atualidade, é jornalismo, é cultura, é a imprensa discutindo a imprensa. O que, aliás, só a Carta Capital faz. Governo Yeda e todo o esquema de corrupção que vem sendo desbaratado é política, não há como discordar da sua importância. Bela solução. Em qualquer uma das edições, é possível ler qualquer uma das matérias. A diferença é apenas o destaque que elas recebem.

Sobre “A via-crúcis de Yeda”, não há reparações a fazer. Um texto (de Leandro Fortes) crítico, bem articulado e que explica claramente uma história que já se enrola há meses e que nem os gaúchos entendem mais, de tanta informação e pouco conteúdo que nos é apresentado. “Dona de um estilo político duro, aristocrático e em nada carismático, a tucana vive um misto de inferno pessoal e administrativo em que se incluem dívidas estaduais impagáveis, atrasos no pagamento de salários de servidores, popularidade em franca queda, dependência de uma bancada governista para lá de suspeita e, agora, uma CPI capaz de enlamear os portais do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho”. Nessa frase contém um resumo fiel de tudo o que acontece por aqui e que a imprensa gaúcha não tem coragem de mostrar, seja por ideologia reacionária ou por comprometimento político ou financeiro com o governo.

Postado por Cris Rodrigues

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Imprensa reserva para si cota de culpa pela falta de debate

12 Maio 2008

A Zero Hora desta segunda-feira traz sob a cartola de “Reportagem Especial” uma matéria sobre a divisão nas classes artísticas e intelectuais em relação à lei das cotas, divisão essa agravada a partir da divulgação, há mais de uma semana, do documento “Cento e Treze Cidadãos Anti-racistas Contra as Leis Raciais“.

Vamos por partes: para começar, a ZH chega atrasada à discussão. Além disso, eleva à Reportagem Especial uma matéria simples, sem nada demais e sem aprofundamento, fora o fato de não ser sequer assinada. De resto, a reportagem até que não vai mal, apresenta os dois lados igualmente, e talicoisa e coisitali.

Agora chegamos ao que realmente parece-me importante. A questão das cotas, mesmo que tenha sido discutida na imprensa brasileira, é tema de um debate que vem sendo feito de costas para a realidade, sem real preocupação em se chegar a qualquer conclusão. Os argumentos se repetem e são argumentos simplistas. Onde a imprensa entra nisso tudo?

É ela quem estimula isso e é ela quem deixa de estimular um debate sincero e aprofundado, que realmente leve a algum lugar, qualquer que seja ele. Emissoras de TV e de rádio, jornais e sites. Todos são culpados, por serem cúmplices, em um processo que está levando um tema tão importante a cansar o público, muito antes que chegue próximo de se esgotar verdadeiramente.

Postado por Alexandre Haubrich