h1

O público não está preso

8 Maio 2008

O assassinato de uma menina chamada Isabella Nardoni chega cada vez mais próximo de um esgotamento de informações, o que não tira a sede de parte da imprensa brasileira por novas formas de abordar um caso sobre o qual já não há o que noticiar sem que se caia na apelação. A cobertura é de conteúdo tão vazio que começa a saltar aos olhos o fato de que, agora, apenas imagens fazem as notícias.

Na noite de ontem, a Rede Globo interrompeu a transmissão do futebol para transmitir, ao vivo, as imagens da prisão do casal Alexandre Nardoni e Anna carolina Jatobá, à frente de uma narração forçada de William Wack.

No Jornal Nacional de hoje, não é possível que o Bonner realmente tenha achado que o que o casal comeu no café da manhã de hoje na prisão é importante, é realmente de interesse público. Ponho em dúvida até se realmente é de interesse DO público. Creio, sinceramente, que mesmo aquelas pessoas que acompanhavam o caso com fervor desde o seu início, começam a ficar de saco cheio. Voltando ao JN, as outras informações importantíssimas foram que Anna Carolina tem vaso sanitário em sua cela de não-sei-quantos-por-não-sei-quantos metros-quadrados, que Alexandre tomou sol hoje pela manhã, e por aí vai. Se alguma coisa ainda interessa nessa história, é o que levou à prisão do casal e, com todo este espetáculo, isto ficou para segundo plano.

A Zero Hora, o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo desta quinta-feira deram a prova definitiva de que estamos em um momento dessa história em que só tem lugar o show e, assim, a imagem sobrepõe-se flagrantemente ao conteúdo. A ZH traz uma chamada na capa, a única das secundárias em que há foto. A primeira página de polícia, onde está a matéria, tem metade de seu espaço ocupado por uma foto tirada em frente ao local onde Alexandre e Anna Carolina foram presos.

A chamada de capa da Folha também não é a manchete principal. Não há sequer um título sobre o caso. Apenas uma foto, uma grande foto, com legenda. A reportagem traz uma grande – no sentido de tamanho, não de qualidade – cobertura do “acontecimento do ano”, com a participação de três repórteres - Kleber Tomaz, Luís Kawaguti e Cínthia Rodrigues – e uso de três retrancas que cobrem todo o fuzuê em torno da história.

Por fim, o Estadão põe na capa duas fotos, uma de cada um dos possíveis assassinos, com um pequeno texto. Mais uma vez, o predomínio absoluto da imagem. A matéria também é curta, com o factual da prisão.

Não estaria na hora de se começar a pensar se essa cobertura e esse esforço em forçar a barra não está indo longe demais? Tenho um palpite que, mesmo que centenas de desocupados ignorantes ainda se aglomerem em busca de uma visão do rosto de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, o grosso da população não tardará em perder o interesse por essa besteirada toda.

Postado por Alexandre Haubrich

Um comentário

  1. E mesmo considerando a eventual culpabilidade do casal, é no mínimo (dos mínimos) discutível a cumplicidade entre policiais/perícia e imprensa. Ontem, no Jornal da Band, em meio a o quê comeram, o quê vestiam, quando e onde foram empurrados, uma matéria compridíssima, foram apresentadas as peças periciais com as anotações dos peritos, como se fosse quase obra da reportagem. Nada conclusivo, só aquele papo de pegadas, manchas de sangue e tela cortada.

    Mas a questão é que se estas peças oficiais, inclusive com os pontos técnicos destacados pelos peritos, estão sendo divulgadas, é porque alguém deu o relatório para a imprensa. Este documento não é público ou pelo menos não é algo que esteja dando sopa por aí. Se alguém deu, é porque tem interesse que saia. Levando-se em consideração que esse alguém é obviamente a polícia, perícia e/ou promotoria, é de se indagar a razão de tal interesse. Já deixou de ser vontade de aparecer, acho eu.

    Se fosse advogado do casal, os orientava a escrever um livro e lançar daqui a uns meses. Vão ficar ricos, já que são celebridades, agora. Ou quem sabe algum jornalista se aventura a virar ghost writer dos Nardoni? Tem tanta gente aí escrevendo entusiasticamente os obituários dos patrões…



Deixe um comentário