Posts de Junho, 2008

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Pimenta no blog dos outros

29 Junho 2008

Não é só o poder judiciário que tem lutado contra a liberdade de imprensa. Alguns jornalistas também o têm feito, através de recursos como a venda de seu silêncio e, mais recentemente, ameaças a outros jornalistas. Quem narra esse problema é o pessoal do Nova Corja, blog de jornalismo e político, meio de direita, mas com qualidade e competência.

Pois o Rodrigo Alvares, do Nova Corja, publicou como fato um boato que já circula há tempos por aqui, dizendo que alguns ditos jornalistas recebem uma grana alta, através de patrocínios estatais, para não fazerem denúncias e não darem trela a escândalos, como o caso Busatto, no Rio Grande do Sul. Uma espécie de acordão silencioso. Entre esses sujeitos, estaria Políbio Braga, dono de um site patrocinado pelo Banrisul.

E aí, sempre segundo o Rodrigo Alvares, o senhor Políbio, que também é advogado e, segundo sua descrição no próprio site, luta pela liberdade de imprensa, fez ameaças a Rodrigo, por email. Coisas do tipo: “Avisa os teus quatro amigos da equipe e ao responsável pelo lixo, o Valdevino, que todos vão me enfrentar no campo que escolheram. Vamos ver se consigo enfiar vocês todos na cadeia, se o juiz ajudar. No tribunal, segunda-feira, tu, seu calhorda, e teus amigos, terão a oportunidade de provar o que escreveste. E não vai adiantar a ajuda do PT. Vai pedindo ajuda aos advogados do PT, ao Raul Pont e ao Adão Villaverde, teus amiguinhos.”

É claro que as acusações são sérias e Políbio Braga tem todo o direito de se defender, inclusive na Justiça, mas esse tipo de agressão e ameaça é, sem dúvida, mostra de que o objetivo estrapola a simples apresentação de provas, por parte de Rodrigo, das acusações feitas.

Sabe aquela história que as mães sempre falam sobre perder a razão? Geralmente não concordo com isso, mas esse é um caso típico em que os ensinamentos maternos deveriam ser aplicados.

Postado por Alexandre Haubrich

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O Estado da Globo

27 Junho 2008

Quais são os maiores jornais do país? Se me perguntassem, eu não teria dúvida na resposta: Folha de São Paulo e Estado de São Paulo. Agora a minha certeza talvez seja dissipada. O Estadão tem uma história imponente. De tão importante – já foi mais, inclusive -, se tornou mais que um jornal, uma instituição. E parecia que ia continuar sempre assim, naquele mesmo estilo conservador que não muda nunca.

Pois bem, a bomba da semana é que a Globo comprou o Estado de São Paulo. Quem deu o aviso foi o Blog do Rovai, da Revista Forum, e o jornalista Giba Um. A briga entre as grandes está realmente grande. A Globo vem perdendo espaço, e sabe disso. Agora luta pra continuar grande. Em São Paulo, sabe-se que ela nunca teve tanta influência, pelo menos no jornalismo impresso. É forte no Rio, com O Globo, mas patinava na capital dos negócios. Não mais. Investe pesado, e não me parece boa coisa o que vem por aí. É a concentração dos meios de comunicação se intensificando. Monopólio. É a opinião da mesma empresa cada vez em mais lugares. Agora num dos principais jornais do Brasil. Quer dizer, quase isso. A Globo compra o Estadão e busca se fortalecer justamente por causa do crescimento da rival Record.

E as mudanças não são só no poder da empresa. A Globo não pretende apenas lutar pela hegemonia econômica, mas também pela política. O Estadão muda de cara com essa compra. Muda a linha editorial e cerca de 30 jornalistas já estão sendo demitidos, segundo Pedro Venceslau, que ainda trabalha lá. Agora é ver no que dá. Em termos de qualidade técnica, não me arrisco a dar uma opinião. O Globo, do Rio, é muito ruim, mas a emissora de TV é a melhor do país nesse quesito. Mas em termos ideológicos a coisa fica feia. Não que o Estadão fosse progressista, longe disso, mas era honesto.

* A Record está mesmo crescendo na briga. Na final do programa O Aprendiz, ontem, a emissora bateu a Globo na audiência. Foram 17 pontos de Ibope, contra 12 da rival.

* O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) modificou, por 6 votos a 1, a resolução sobre propaganda eleitoral, que impedia os pré-candidatos de darem entrevistas antes de 6 de julho. A discussão sobre isso aconteceu depois que a Folha de São Paulo foi multada por publicar entrevista com Marta Suplicy. Agora, os candidatos podem falar até sobre suas propostas para a prefeitura, caso eleitos, desde que seja respeitado o tratamento isonômico entre os candidatos. Vitória da democracia.

Postado por Cris Rodrigues

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Caros Amigos, ou nem tanto

25 Junho 2008

Uma das publicações mais elogiadas ao longo da curta vida desse blog dificilmente continuará sendo o que foi. Após a morte do fundador e editor Sérgio de Souza, agora uma demissão em massa ameaça o futuro da Caros Amigos.

O que pode ser o início do fim da revista aconteceu quando o substituto de Sérgio, Mylton Severiano, demitiu o secretário de redação Thiago Domenici (já citado nesse blog AQUI), no último dia 13, por telefone e sem aviso prévio, segundo nota divulgada pelos demissionários. A gota d’água foi a edição especial de Meio Ambiente, que teria circulado com mudanças não aprovadas pelos jornalistas. Então, 13 funcionários, entre eles o editor de especial Renato Pompeu, deixaram a revista.

Após mais de onze anos de um jornalismo feito com seriedade e responsabilidade, a Caros Amigos vai fazer falta, em meio à maré de revistas medíocres em que vivemos no Brasil. Mesmo que a publicação continue, dificilmente manter-se-á com a força e a qualidade que sempre teve. Não só pela importância dos jornalistas que saíram, mas também porque perde em credibilidade quando tantos profissionais competentes rebelam-se contra decisões editoriais de um chefe que acaba de chegar.

Especula-se que os demissionários partam para a construção de uma nova revista. Tomara. O jornalismo brasileiro precisa de publicações como a Caros Amigos. Por isso, também esperamos que quem ficou no barco – craques da tarimba de João de Barros e do próprio Mylton Severiano – mantenha – ou recoloque – a revista no caminho certo.

*Mais um caso de censura no Brasil. Depois dos já comentados aqui casos da Folha de São Paulo e da Veja São Paulo, além de muitos outros, agora foi a vez do Jornal da Tarde. A publicação de uma reportagem sobre possíveis irregularidades cometidas no Conselho Regional de Medicina de SP foi impedida por uma liminar. Está na hora de todos nos atentarmos. A coisa está cada vez mais escorregando, como quem não quer nada, para uma política ditatorial no controle da imprensa. Novamente, perde a liberdade de expressão e perde a sociedade.

Postado por Alexandre Haubrich

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Os prefeituráveis

23 Junho 2008

A entrevista da Folha de S.Paulo com a prefeiturável Marta Suplicy parece que rendeu frutos. Depois do imbróglio judicial, o jornal publicou outras entrevistas com outros pré-candidatos de São Paulo. Ainda devem vir mais. A atitude é corajosa, pois poderia render mais processos. Ao mesmo tempo, é a única forma de mostrar que não há predileção por nenhum candidato. A Justiça até poderia multar a Folha por cada entrevista publicada, mas seria uma atitude no mínimo insensata. E a Folha sabe disso, por isso ousou. Além disso, não houve perguntas tão enfáticas como na entrevista com Marta Suplicy, sobre suas propostas de governo.

A entrevista com o ex-prefeito e eterno candidato a tudo Paulo Maluf (PP) chega a ser engraçada. Se poderia dizer que, se não tivesse o papel, a conversa teria sido no soco. A repórter Cátia Seabra é nitidamente hostil a Maluf, o que não é necessariamente condenável, já que ele também é arrogante com ela e, de um modo geral, tem uma postura agressiva com a imprensa – nem questiono seus méritos (?) políticos.

Com Soninha (PPS) a coisa é mais leve. Ela é uma candidata menor, tem apenas 2% das intenções de voto, é simpática – não só com o jornalista Ranier Bragon, mas com os outros candidatos, já que lembra suas qualidades mais que seus defeitos – e não tem grandes pontos polêmicos ou grandes embates. Pelo menos eles não são mostrados na entrevista, o que pode representar uma falha do jornal justamente por esse seu caráter mais despojado, digamos assim.

Com Alckmin (PSDB) a entrevista é bem maior. Na verdade, mais que o dobro da de Soninha. Tem 9.881 caracteres, contra cerca de 4.500 da candidata do PPS e pouco mais de 5 mil de Maluf. Poderia se argumentar que Alckmin é um nome mais forte, é mais provável que seja eleito e, portanto, suas idéias são mais importantes. Mas não cola. Se assim for, os pequenos nunca vão ter nenhuma chance. É claramente um favorecimento ao peessedebista. Aliás, quando da entrevista, Alckmin não era oficialmente candidato do partido, ainda brigava com Serra, que defendia apoio a Kassab (DEM). No entanto, foi tratado o tempo todo como o candidato certo, enquanto ele mesmo se colocava nessa posição. A Folha insistiu em ressaltar a briga interna, tema da maior parte da entrevista, e não deu muito espaço para suas idéias políticas.

No fim o resultado é positivo. As entrevistas são boas e coerentes, apesar da diferença de tamanho. Mostra que a Folha não se rendeu à decisão judicial e decidiu continuar informando a população. Mostra que a confusão valeu a pena, pois gerou discussão e resultado. E mostra que ainda é possível haver algum tipo de liberdade de imprensa. E que a discussão política é jornalismo.

* A Zero Hora lançou ontem um novo caderno de economia, Dinheiro, aos moldes da Folha. A matéria principal da edição de estréia é uma entrevista com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Com 12 páginas, muitas imagens e todas as páginas coloridas, a mudança demonstra um investimento grande do jornal no setor.

Postado por Cris Rodrigues

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Entrando de sola

21 Junho 2008

O jornalismo esportivo brasileiro – melhor seria se fosse chamado “jornalismo futebolístico” – virou um ringue de box onde os socos são desferidos, pior do que com as mãos, com as palavras. E sem luvas.

Antes da partida final da Copa do Brasil, entre Sport e Corinthians, em Recife, parte da imprensa paulista criou um clima de guerra que, por sorte ou milagre, não passou para os torcedores, o que poderia causar uma tragédia de proporções consideráveis. No mesmo dia do jogo, por volta do meio-dia, o narrador da Bandeirantes Luciano do Valle criticou, em um programa de uma emissora de TV pernambucana, seus colegas de transmissão, Neto – ex-jogador, hoje comentarista – e Godói – ex-árbitro, hoje comentarista de arbitragem. Criticou também a imprensa paulista, e sobrou ainda para quem comenta futebol sem diploma de jornalista, caso dos próprios Neto e Godói.

Vamos por partes: não concordo que, para comentar futebol, precise de diploma. O que me parece mais razoável, na verdade, é que se tenha, nas transmissões, dois comentaristas: um jornalista e um ex-jogador. As emissoras costumam usar ex-jogadores como forma de promoção da transmissão, mas acredito que, se for um cara bem preparado, que realmente entenda de futebol – não é o caso do Neto, por exemplo, mas é o caso de Falcão, Caio, etc. -, sua experiência tem muito a acrescentar. Falar de futebol sem nunca tê-lo jogado é complicado, é apenas para os grandes, como Juca Kfouri, Armando Nogueira e mais meia dúzia.

Falou-se muito em falta de ética da parte de Luciano do Valle. É uma questão delicada, admito, mas vejo méritos em sua sinceridade e coragem de criticar colegas, coisa que muitos acham anti-ética mas que eu tenho como corajosa, ao menos até certo ponto.

O caso é que, dias depois, em seu programa, Jorge Kajuru – outro dos grandes – bateu forte em Luciano do Valle, chamando-o de mau-caráter, mau-colega, entre outras variações de xingamentos. E, pior, acusou o narrador de receber dinheiro do governo de Pernambuco para falar bem do Estado e, especificamente, de Recife. Sabe aquela sensação de “isso nunca tinha me ocorrido, mas agora que ele falou…”. Pois é. Agora que ele falou, me soam estranhas algumas coberturas que Luciano fez de eventos em Pernambuco. Vai saber.

É que agora que falou, Kajuru vai ter que provar. Concordo com o Luciano, ao mesmo tempo em que acredito em Kajuru. Ah, o jornalismo futebolístico desse país…

*Menos de uma semana depois do Ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins, criticar a postura pró-PSDB de algumas matérias do jornal, a página C5 do caderno Cotidiano me sai ontem com a seguinte manchete: “Gestão Serra dá reajuste de até 12% para professores” (na versão Online, por algum motivo, “Gestão Serra” foi trocado por “Estado”). Estão de brincadeira, né?

*O Jornal do Brasil publicou na última quarta-feira entrevistas com os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama e John McCain. A forma como as entrevistas foram feitas – aos poucos, com as perguntas feitas um em cada comicio ou em cada encontro com o candidato – torna tudo meio estranho e faz com que nenhuma das entrevistas seja realmente escarecedora. Além disso, o principal: as formas diferentes das entrevistas e as perguntas totalmente distintas impossibilita completamente uma formação de opinião consciente. Legal para o marketing do jornal, mas de pouca – não nenhuma, mas menos do que era de se esperar – utilidade para o leitor. Ressalte-se que os textos introdutórios, de Osmar Freitas Jr., são muito sinceros e bem escritos.

Postado por Alexandre Haubrich

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O limite entre opinião e campanha

19 Junho 2008

No início do mês a Folha de S.Paulo e a revista Veja São Paulo publicaram entrevista com a candidata a prefeita – e ex-prefeita – de São Paulo pelo PT, Marta Suplicy. Alguns dias depois, a promotoria de Justiça Eleitoral considerou propaganda elitoral antecipada e ofereceu representação ao juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo contra a empresa Folha da Manhã e a Editora Abril.

Resultado da quirela: Marta foi multada em 42 mil reais, e a Folha e a Abril devem pagar 21 mil. Vários órgãos de imprensa já se manifestaram contra a decisão, por considerar censura. A Folha diz que a entrevista é material jornalístico, não propaganda, e acrescenta que a lei em que o juiz se baseou é destinada a veículos de rádio e TV e, portanto, a multa seria improcedente.

Na entrevista, Marta criticou Kassab, Alckmin e Serra e, questionada por Renata Lo Prete e Fernando de Barros e Silva, mostrou algumas de suas propostas para a prefeitura. Fez isso lá pelo meio da entrevista, depois de ter falado das disputas políticas para formar a chapa que concorreria à prefeitura e insistir nas questões da campanha – e aí tem que ficar claro a diferença entre falar sobre a campanha e fazer campanha. De resto, falou sobre que prejuízos seus atos passados podem trazer para sua campanha vindoura e criticou, sim, a atuação da prefeitura atual. E terminou respondendo sobre a campanha para presidente e a possibilidade de a ministra Dilma Rousseff ser candidata.

Os limites entre a opinião e a campanha, quando quem fala é um futuro candidato, são muito tênues. De fato, a parte que se pode considerar campanha eleitoral é mínima se comparada ao texto total. Está lá, principalmente em duas perguntas: “Se eleita, qual será a prioridade de sua nova gestão?” e “Qual é a sua proposta?”. E aí é preciso ter cuidado, sim, para não deixar apenas um candidato se manifestar e gerar uma situação de desigualdade na campanha em benefício de um e prejuízo de todos, não só os candidatos, mas principalmente os eleitores. Mas é preciso ter bom senso na avaliação. Nessa entrevista, as perguntas eram parte do contexto, ela não foi claramente montada para privilegiar Marta. Foi uma conversa livre, jornalística, que tem inclusive algumas falhas, como ter partes que apenas paulistanos entendem por se tratarem de problemas locais e não terem explicação. Isso é ruim em um jornal de âmbito nacional, mas esse não é o foco do problema.

Os repórteres poderiam, sim, ter evitado as duas perguntas citadas, de um total de 32 perguntas feitas, mas o resto todo da entrevista definitivamente não caracteriza propaganda eleitoral. Um político não poder falar sobre a atuação de outro é cerceamento das liberdades de expressão. É não levar ao público todos os lados da verdade. No mais, é sabido que a Folha e a Veja não privilegiariam a candidata do PT na eleição. Segundo o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Caputo Bastos, “se começarmos a punir qualquer manifestação de alguém que poderá vir a ser candidato, estaríamos inviabilizando inclusive as notícias, e a Justiça Eleitoral estaria exigindo um mutismo sepulcral dos políticos”.

* A revista Carta Capital tem edição especial essa semana, por ser seu número 500. Quatorze anos de história. Destaque para o editorial do Mino Carta sobre a história da revista. Vale a leitura.

Postado por Cris Rodrigues

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Oi e tchau

17 Junho 2008

Criado em 1985 pelo jornalista Geraldo Canali, o jornal Oi! descaracterizou-se completamente nos últimos dez anos. Essa mudança tirou da população de Porto Alegre um importante meio de defesa de seus interesses.

O Oi! sempre foi um jornal de bairro – foi o mais importante deles -, circulando no Menino Deus e imediações. Mesmo pequeno e com dificuldades, cresceu a ponto de chegar a 30 mil exemplares circulando e a ponto de fazer a grande Zero Hora tremer na base. Mesmo quando cresceu – em alguns momentos, o Oi! foi o único jornal de bairro a ter página na internet, veículo próprio e entregadores com vínculo empregatício; tinha cerca de 20 páginas por edição; a maioria delas colorida – o Oi! continuou com alma de pequeno, crítico, voluntarioso, corajoso.

Nos tempos de Canali – em 1997 o jornal foi vendido para Hélio Gama -, o foco da publicação era a denúncia. A briga intransigente pelos interesses da sociedade pautava cada edição, com textos agradáveis e assuntos polêmicos. A distribuição era gratuita nos bairros atingidos, e algumas bancas mais distantes vendiam os exemplares, mesmo sob pressão da Zero Hora para que os Oi!’s fossem escondidos.

Hoje, o nome é Oi! Porto Alegre, e apenas em cadernos ainda há a referência ao jornalismo comunitário. Um mau jornalismo comunitário, diga-se de passagem. A crítica praticamente inexiste, talvez porque os patrocinadores atuais sejam Banrisul, Assembléia Legislativa e até a Prefeitura de Porto Alegre. Fica difícil criticar. Há dez anos, os anúncios infestavam as páginas – um problema -, mas eram publicidade de comerciantes do bairro. Até nisso o jornal estava integrado à comunidade, ao contrário do que acontece atualmente, quando o Oi! passa desapercebido e o leitor passa desinteressado.

O próprio nome do veículo foi criado com o objetivo de saudar o morador como um vizinho de bairro ao chegar para contar novidades em uma visita. A saudação não está mais na boca do povo.

*Algumas informações foram tiradas DAQUI.

*Mais uma vez, fazemos coro à campanha “CQC no Congresso”. Entre AQUI, assine embaixo, e ajude a luta pela liberdade de impresa, pela verdadeira democracia.

Postado por Alexandre Haubrich

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A palavra liberdade

15 Junho 2008

Circularam pela internet em 2003 denúncias de censura do governo do Estado de Minas Gerais sobre os meios de comunicação mineiros. Quem conta isso é Marcelo Baêta, que se formou em Jornalismo na UFMG em 2006. O então estudante fez um vídeo-documentário-denúncia chamado “Liberdade, essa palavra” (aqui, aqui e aqui) como trabalho de conclusão de curso. O vídeo está na internet e já foi visto mais de 100 mil vezes.

Nele constam entrevistas com jornalistas que trabalhavam na imprensa mineira nos anos de 2003 e 2004, época em que ocorreu a censura, segundo Baêta. Os ex-chefes de jornalismo de alguns dos principais meios de comunicação do estado, como a Globo Minas e o Estado de Minas, denunciaram o cerceamento à liberdade de imprensa no vídeo de Marcelo Baêta. Eles afirmam que na época eram chamados pelos superiores ou advertidos pelo governo para parar de “criar uma insegurança” na população, através de notícias de falta de policiamento, por exemplo.

Todos foram demitidos. A Globo divulgou nota a respeito: “Infelizmente é comum que um profissional demitido procure desculpas além de seu desempenho profissional ou do seu comportamento pessoal para justificar a sua saída”. Segundo o vídeo, o jornalista esportivo Jorge Kajuru foi afastado da Band por uma semana porque falou que os convidados do governador tinham entrada garantida em um jogo de futebol, enquanto os torcedores não conseguiam ingresso.

O vídeo compara matérias de TV e de jornal impresso com informes publicitários do governo do Estado e realmente a semelhança é enorme. Parece que os repórteres estão sendo pagos pelo governo para agir como assessores de imprensa, mas com acesso direto às páginas dos jornais.

O governo do estado divulgou resposta, também em vídeo (aqui e aqui), acusando Marcelo Baêta de mentiroso. Um locutor lê textos que aparecem na tela na maior parte do tempo. A veracidade das informações é, portanto, facilmente contestável. Dois dos jornalistas que apareceram no vídeo do estudante falam nesse outro do governo, desmentindo as afirmações anteriores. O locutor afirma que essas entrevistas não sofreram edição, ao contrário das concedidas a Baêta. No entanto, logo de cara já se vê um corte. Os argumentos são fracos e mostra o tempo todo que é o governo se defendendo, sem acrescentar novas informações.

A questão é gravíssima. Se comprovadas as informações do vídeo de Marcelo Baêta – e parece realmente ser verdade -, o risco que o país corre é grande. Censura dessa forma não é vista no Brasil há mais de 20 anos. Duas décadas e meia atrás, o governo militar impedia que se publicassem notícias desfavoráveis ao general de plantão e aos atos de governo. Aécio Neves está ganhando uma projeção grande no cenário nacional. É visto como um possível futuro presidente do país. Parece um cara tranqüilo, boa praça, mas uma denúncia como essa mostra um lado autoritário inadmissível nas democracias contemporâneas. Inadmissível em qualquer época, mas unanimemente inaceitável hoje.

* Agradeço a indicação de tema a Caio Turbiani.

* Indico um artigo com um texto meio ingênuo, mas que acaba fazendo uma análise interessante da revista-panfleto Veja, por Roberto Efrem Filho. Vale dar uma lida, é curto. Aqui.

Postado por Cris Rodrigues

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A marcha da imprensa

13 Junho 2008

“Confronto entre manifestantes e Brigada Militar leva 12 à prisão”, “Governo do RS reprime ato contra corrupção”. O que tem a ver essas duas afirmações? Embora não pareça, ambas são manchetes sobre um mesmo fato. A primeira é da Zero Hora de ontem. A segunda é da Folha de S.Paulo do mesmo dia. Parece mentira, mas a melhor cobertura da repressão à manifestação de movimentos sociais que ocorreu quarta-feira em Porto Alegre está em um jornal paulista.

O espaço dedicado ao tema é quase o mesmo dos jornais daqui. Tudo bem, eles têm mais espaço, é justificável. Mas a diferença no texto não tem editor que explique. A Folha foi o único jornal que falou que a polícia usou até helicópteros na repressão. Seus repórteres sabem escrever. Mesmo os jornais mais bem intencionados daqui – se é que exista algum – não conseguem transmitir a informação da mesma forma. Ela não divide o texto em duas partes, a primeira destinada a um lado e a segunda a outro lado. Esse tipo de coisa, se sabe, induz o leitor a formar uma determinada opinião, pois muitos não lêem a matéria até o fim. Ao longo de todo o texto, mostra os diferentes pontos de vista. Não perde espaço com informações desnecessárias e não deixa de dizer nada de importante. E dá chamada na capa, o que demonstra que os editores consideram a informação, apesar de distante, relevante.

Na Zero vê-se os mesmos problemas ideológicos de sempre. Para não generalizar, digamos de quase sempre. O uso de ironia só serve para provar o quão mal-intencionados estavam os repórteres. Omite informações importantes, como a de que a polícia usou gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra os manifestantes. Mas fala que com esses foram apreendidos “centenas de porretes, paus, pedras e simulacros de foice”. Se coloca claramente ao lado do governo. Essa escolha ideológica aparece mais na retranca da matéria, cujo título é “Governadora elogia a ação policial”, embora o texto não condiga com esse título.

O Correio do Povo vem com o mesmo texto truncado e duro já conhecido, mas não tem grandes problemas ideológicos, mostra os dois lados. No entanto, apresenta preciosismos desnecessários, como os minutos exatos dos acontecimentos, o que tranca o texto. O melhor exemplo da (falta de) qualidade do texto é o trecho que diz “O presidente do (sic) Federação dos Metalúrgicos do RS, Milton Viário, definiu o episódio: ‘Estou muito surpreso e surpreendido pelo contingente e pela violência empregada contra os movimentos sociais’”. Fico realmente surpresa (ou surpreendida?) com a falta de definição dessa fala.

O Sul não sabe a diferença entre lead e chamada de capa. O texto é o mesmo, apenas com algumas palavras omitidas na legenda da foto da capa, para tornar o texto mais sucinto. Um claro problema editorial. Mas entra no time dos que não têm dilemas ideológicos. O texto é fraco, mas é isento. É um daqueles bem intencionados, mas incompetentes.

O Diário Gaúcho não deu uma nota sequer sobre o acontecimento.

A partir desse cenário, a conclusão parece óbvia. Apesar de idolatrado por aqui, o jornal do grupo RBS é apenas o de maior qualidade técnica que o estado possui. Como se não bastassem os problemas nesse sentido, até mesmo de má formação dos repórteres, o maior veículo do Rio Grande do Sul não busca uma isenção ideológica. A Folha de S.Paulo tem opinião. Inclusive sobre os movimentos sociais. Expressa, aliás, no editorial de ontem, o mesmo que publicou uma matéria isenta e honesta. Talvez não falte apenas qualidade aos jornais gaúchos. Talvez falte honestidade.

* Na final da Copa do Brasil, o jogo entre Corinthians e Sport foi transmitido por mais de um canal da TV aberta. Quem viu pela Band, percebia a torcida do Sport comemorando, afinal, era grande maioria. Quem assistiu pela Globo, só ouvia os gritos do Corinthians. Apesar de um jogo de futebol ser uma transmissão jornalística, a Globo distorceu os fatos e ampliou o áudio do microfone focado na torcida do Corinthians, ao mesmo tempo em que baixou o geral do estádio, para garantir a audiência da maior torcida do Brasil, em São Paulo. É uma informação deturpada que o espectador recebe. É mentira.

Postado por Cris Rodrigues

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O assunto mais importante de todos os tempos da última semana

11 Junho 2008

Diga aí. Qual o fato mais importante da última semana para o leitor brasileiro? Veja bem, a pergunta refere-se ao interesse público, não ao interesse do público. Se você respondeu que é a descoberta de “Como o seriado Sex and The City inventou a mulher moderna”, pode considerar-se um leitor em potencial da revista Época. Se respondeu a candidatura de Obama, é um feliz (?) leitor da Veja. Se você acha que o fato mais importante da última semana para o interesse público da sociedade brasileira é mais uma velha acusação sem provas contra Dilma Roussef, corra para a banca mais próxima e compre a isto É. Agora, se você concorda que a comprovação do esquema de corrupção no governo gaúcho é o fato mais relevante, corra e vá comprar a Carta Capital. Não necessariamente na banca mais próxima, infelizmente.

Isso porque essas são as capas das principais revistas semanais do país. E porque a própria Carta Capital errou no ponto, ao dar a capa nacional para uma reportagem – excelente, por sinal – que poderia ser publicada hoje ou daqui a um mês, a chamada “matéria de gaveta”. Apenas a edição gaúcha da revista trouxe a governadora Yeda Crusius na capa.

A Época confirmou novamente sua decadência, e estampou na capa uma matéria besta, sem qualquer interesse para quem quer que seja, excetuando os cinco fãs do seriado Sex and The City que costumam comprar a revista.

A Isto É trouxe um assunto importante, mas que sequer chega perto da gravidade do que aconteceu no Rio Grande do Sul, mesmo porque a denúncia contra Dilma não é novidade nem comprovada, como a do caso Busatto/Feijó. Mas não é fácil dar destaque à corrupção nos partidões da direita, né? Com PP, PPS, PMDB, PFL e PSDB envolvidos, o negócio é acusar a ministra mesmo.

A Veja é aquilo, né. Não adianta. Nunca daria na capa uma matéria que contraria os partidos para o qual panfleteia.

Por fim, a Carta Capital apresentou na capa nacional uma ótima matéria sobre o crescimento das classes C e D, representada pelos investimentos maciços da Nestlé em produtos e serviços voltados para essas classes. Porém, é uma reportagem atemporal, ou ao menos com uma margem maior de tempo para publicação. Ao contrário da capa da revista que chegou ao Rio Grande do Sul, estampando o principal assunto do momento, tratado tão mal e porcamente pela grande imprensa do centro do país: a corrupção no governo gaúcho.

* Apoiamos a campanha do CQC para entrar no Congresso e fazer perguntas de verdade para aqueles que deveriam ser nossos representantes, mas que proibem a parte da imprensa que os interroga de entrar no lugar onde deveria ser a “casa do povo”. Mais informações, entre em www.cqcnocongresso.com.br e assine embaixo.

Postado por Alexandre Haubrich