Posts de Julho, 2008

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Imprensa poderia contagiar-se por “espírito olímpico”

31 Julho 2008

A cobertura dos Jogos Olímpicos de Pequim tem sido como a de qualquer outra Olmpíada. Com uma pequena grande diferença. De quatro em quatro anos, é mais ou menos a mesma coisa: modalidades bizarras, a preparação dos atletas, os pré-olímpicos. E as cidades, a cultura do país-sede, a expectativa da população. É exatamente esse último ponto que tem sido tratado pela grande imprensa brasileira – e mundial – de forma nova.

Muito pouco da cultura chinesa, da riquíssima história do enorme país. Só se fala – em matéria de reportagens “extra-esportivas” – em ditadura, falta de liberdade de expressão, repressão, descumprimento de direitos humanos. E a China não é só isso. Tem isso, sim, mas não apenas. E mesmo nessas questões, os grandes veículos esquecem-se de mostrar o lado – pasmém – da China.

Deve haver um cuidado para que as questões ideológicas não contaminem o noticiário olímpico – principalmente quando o assunto foge da questão esportiva. Parece que tudo na China é ruim, tudo é repressão e tristeza. É isso. A China tem sido mostrada apenas como um lugar triste, tenebroso.

É claro que o meio político dos países-sede de qualquer Jogos Olímpicos deve ser tratado na imprensa, mas não da forma como tem ocorrido. Aliás, discutiu-se esse tipo de coisa em Atlanta, Sydney ou Atenas? Mesmo alguns jornalistas bem intencionados têm caído na conversa de boa parte da grande imprensa e pintado este quadro negro da China sem mostrar suas luzes.

Com o início dos Jogos na próxima semana, a cobertura vai intensificar-se. Torçamos, enquanto torcemos por nossos atletas, para que essa Olimpíada não seja mais uma a servir a interesses políticos, como acontece quase sempre desde Berlim-36. Nem interesses do governo chinês, nem nenhum outro, seja lá qual for.

* No próximo post, novidade no Jornalismo B.

Postado por Alexandre Haubrich

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Um mundo estranho demais

29 Julho 2008

Sexta-feira, meia noite. Momento bastante propício para um programa de terror. Ou para assistir a uma entrevista feita pelo Zé do Caixão. Seria, se o programa fosse bem feito. Desde 25 de abril no Canal Brasil, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” vai ao ar também na madrugada de sábado para domingo, à 1h30min e na madrugada de quarta para quinta, às 3h30min. Zé do Caixão conseguiu se superar na baixa qualidade do “talk show” que comanda.

Ele apresenta o programa sentado em uma poltrona em cujos braços repousam dus mulheres que não fazem absolutamente nada. Ficam olhando sérias para a câmera com uma cara que mais assusta do que atrai. Zé do Caixão chama de reportagem um passeio tosco em que só ele fala e não acrescenta informações ao telespectador. Só vê coisas que interessam a ele e só fala nele.

Na parte em que José Mojica Marins responde a cartas do público, ele parece mais um louco dando conselhos sem-noção sobre histórias sobrenaturais. Pelo menos aí ele chega mais perto do que se espera dele; conversa sobre fenômenos inexplicáveis, morte e afins.

Há uma sessão de resgate de alguma atividade sua do passado. A marchinha de Carnaval que ele buscou nos anos 80 mostra como o programa gira ao redor do Zé do Caixão, sem maiores novidades, apenas explorando uma imagem de estranheza que sequer é confirmada ao longo do programa.

Na parte da entrevista, o auge do programa, Mojica continua explorando suas esquisitices no jeito de falar, mas faz perguntas óbvias, nada criativas, durante boa parte do tempo. Ao Paulo Ricardo, na semana passada, perguntou como começou sua carreira, que bandas brasileiras e internacionais ele gosta, se a fama muda a cabeça… Coisas que qualquer jornalistazinho em início de carreira perguntaria para combater a sua própria insegurança. Poderia-se ver as mesmas perguntas feitas por Danilo Gentili como repórter inexperiente no CQC, na Band. As únicas questões diferentes são se o cantor teve alguma experiência sobrenatural, se ele acha que existe vida após a morte e se ET’s existem. Todas elas se identificam com o entrevistador, não com o entrevistado. Qualquer repórter poderia perguntá-las para o Zé do Caixão, e elas já seriam esperadas em uma entrevista com qualquer pessoa feita por ele. Ou seja, até no original, Zé do Caixão é óbvio.

No final ele aparece de novo com as duas mulheres com cara de tédio para encerrar o programa de tal forma que, se a TV estivesse no mudo, se acreditaria ser um apelo para que não se voltasse a sintonizar naquele canal.

* No primeiro post do mês de agosto, vem novidade por aí no Jornalismo B. Aguardem.

Postado por Cris Rodrigues

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Na boca da sociedade

27 Julho 2008
Há quase dez anos uma Organização Não-Governamental gaúcha tenta dar voz – mesmo que em poucos suspiros – a quem nunca é ouvido. A Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Comunicação) desenvolve muitos projetos, entre eles o jornal Boca de Rua.

O Boca é um jornal trimestral, produzido quase inteiramente por moradores de rua. A jornalista Rosina Duarte é a responsável pelo projeto, e conta com uma equipe de mais três jornalistas. A impressão é na gráfica da Zero Hora, e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho apóia, faça-se justiça.

As 28 edições até agora do Boca de Rua têm méritos incontáveis. Por exemplo: os assuntos abordados são de interesse de quem nunca tem seus interesses observados. O Boca faz com que a sociedade reflita sobre essas questões, com a possibilidade de passar a enxergá-las pelo outro lado, pelo lado de fora da janela do carro.

Outra qualidade: dá ocupação a quem não tem muito o que fazer, ocupa a cabeça e os esforços de desempregados desalojados. Também faz com que eles exercitem sua comunicação e consigam transmitir suas idéias. Além disso, apresenta uma alternativa de renda a essas pessoas e uma sensação de pertencimento, de importância, que certamente a maioria nunca experimentou.

O Boca de Rua é um meio fundamental de inclusão social, como de democratização da informação. E democratização de uma intensidade muito grande, radical. É a chegada da imprensa a pessoas que só tinham contato com informação através de seus “lençóis” e “cobertores” de papel.

* No primeiro post do mês de agosto, vem novidade por aí no Jornalismo B. Aguardem.

Postado por Alexandre Haubrich

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E os próximos 200?

25 Julho 2008

Desde o começo da semana e até a próxima terça-feira, o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre, recebe uma mostra sobre os “200 Anos de Imprensa no Brasil”.

Desde o fim do século passado, o Dia Nacional da Imprensa é comemorado em 1º de junho, data que marca o lançamento, em 1808, do Correio Braziliense, editado em Londres mas circulante no Brasil.

Hipólito José da Costa, que nomeia o museu, foi quem fundou o jornal, com o objetivo de criticar a corte portuguesa que acabava de estabelecer-se por aqui. Além de editado em Londres, o fato curioso da história do primeiro jornal brasileiro é que sequer seu dono era daqui: Hipólito nasceu na Colônia de Sacramento, atual território do Uruguai.

A exposição é interessante. Traça uma linha do tempo em que estão presentes características dos primeiros jornais que surgiram no Rio Grande do Sul. Não entra em muitos detalhes, não aprofunda a história, mas nem por isso deixa de ser válida para que se compreenda ao menos superficialmente o que aconteceu. É, no mínimo, um estímulo para que se busquem informações mais aprofundadas e importantes, como a linha editorial de algumas dessas publicações, a linguagem utilizada, etc.

Sobre a data, especificamente, foi insituída baseada em negociações políticas e de puxação de saco. Mas, à primeira vista, parece-me que este é realmente o dia mais adequado para a comemoração. Tudo bem que o fundador do jornal não era exatamente brasileiro, e a edição era feita do outro lado do Oceano Atlântico, mas as informações eram de nosso interesse e a circulação era aqui – manifestem-se, historiadores, corrijam-me, se necessário.

A grande questão envolvida nisso tudo é que a comemoração dos 200 anos de uma instituição fundamental como a imprensa não teve publicidade alguma. Poderia e deveria ter servido para que se debatesse e se pensasse para onde estamos indo. O presente não é o melhor que se pode esperar, e o futuro, sem debate, sem que a imprensa olhe para si, não é nada promissor.

*E aguardem que vem novidade por aí no Jornalismo B

Postado por Alexandre Haubrich

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O orelhudo já é velho conhecido

23 Julho 2008

Na Carta Capital do dia 05 de outubro de 2005, Mino Carta encerra seu editorial perguntando “E que dizer dos colegas que, nas mais distintas publicações, candidatam Daniel Dantas à beatificação? E que dizer de quem apresenta Naji Nahas como empresário-modelo?”. Essa pergunta é uma pequena parte da campanha em que a revista já vinha trabalhando há algum tempo para desmascarar o banqueiro. É a primeira citação que eu encontrei a Dantas no meu arquivo pessoal da Carta Capital. Desde esse dia, foram pelo menos mais 33 as revistas que se referiram da mesma forma a Dantas e eventualmente a Naji Nahas e Celso Pitta.

Já em 1998, o banqueiro aparecia na capa. Situação que se repetiu outras 19 vezes até hoje. Apenas duas delas depois de estourar a operação Satiagraha. Por conta disso, a revista foi acusada de perseguição. A insistência era tanta que se criou um clima quase de intimidade entre a revista e Dantas. Ele passou a ser chamado apenas de “orelhudo”. Muitos dos fatos agora dados como “furos” por outros veículos foram antecipados por Carta Capital há meses ou anos. E isso não é perseguição, como agora fica provado. Na verdade, se chama isenção.

Não foi de graça. Mino Carta amargou um processo movido por Daniel Dantas contra ele. O banqueiro perdeu, mas essa foi apenas a forma mais agressiva que ele usou para tentar controlar a imprensa. A grande maioria dos veículos de comunicação, se não estava envolvido, estava comprado ou comprometido de alguma forma. Não todos, evidentemente, mas muitos. Quando DD aparecia em outras revistas, era para mostrar suas denúncias envolvendo o governo Lula, nunca falando de suas tramóias com o Opportunity. Mesmo aí, Carta Capital se antecipou e mostrou a ligação de Dantas com José Dirceu e outros nomes do PT. Em 2006. A diferença é que os outros veículos mostravam apenas isso, ou seja, só o que interessa. O “orelhudo” não era criminoso, era genial, injustiçado, coitado. Eles não se contentavam com apenas não denunciar suas falcatruas, tinham que babar ovo. Enquanto isso, Carta Capital denunciava. Colaborou, inclusive, para que Dantas fosse chamado a depor na CPI dos Correios, o que contribuiu para a existência da Operação Satiagraha.

Nas duas últimas edições da revista, a cobertura é intensa. Chega a quase 20 páginas. Não é exceção, como já foi dito; ali é a regra. Mas não se contenta em aprofundar o caso, simplesmente, ou contribuir para a discussão dos assuntos mais relevantes concernentes ao tema, o que já seria bastante. Ela se dá ao luxo de publicar duas matérias, uma em cada edição, criticando seus pares (AQUI e AQUI). Mostra o que ela fez e o que os outros não fizeram. Como ela denunciou o que muitos se corromperam para ignorar. Merece essas duas matérias. Depois de fazer seu trabalho ingrato durante 11 anos e provar que tinha razão, a Carta Capital merece tripudiar. Merece denunciar quem faz mau jornalismo. Gabar-se do trabalho realizado. Da isenção. Da insistência. Carta Capital merece esse reconhecimento.

Postado por Cris Rodrigues

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Os agentes secretos que só a Zero Hora viu

21 Julho 2008

Quem acompanha a cobertura da operação Satiagraha com certeza já discutiu o habeas corpus dos acusados, a prisão deles, o uso de algemas, o afastamento do delegado Protógenes Queiroz e os crimes que levaram a isso tudo. Todas essas questões se tornam relevantes no debate do tema, até mesmo o uso de algemas, já que o foco do problema virou esse durante alguns dias da semana passada. Mais um truque para desviar o assunto.

Mas o que ninguém comentou por aí foi o papel de integrantes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) nas investigações. Claro, esse é um detalhe, mas bem detalhe mesmo. Não interfere, de modo algum, no cerne da questão: a corrupção, o tráfico de influências, a formação de quadrilha e todos esses crimes financeiros. Pois a Zero Hora, na falta do que dizer, apelou para a Abin. Não só deu duas páginas da edição dominical, como deu as duas páginas mais importantes, a 4 e a 5, com a cartola de Reportagem Especial e o título “Por dentro da Abin, a CIA brasileira”.

Não nego que uma reportagem sobre a “CIA brasileira” pudesse ser interessante. Uma matéria aprofundada, a partir da leitura da qual o leitor saísse informado e compreendendo o funcionamento do órgão, além de ter formado uma visão crítica sobre ele. Não é o que acontece. O texto, de Adriana Irion e Humberto Trezzi (de novo ele), é fraco e não acrescenta quase nada ao leitor.

A primeira página tenta, sem sucesso, explicar como as coisas acontecem dentro da Abin e qual a sua ligação com a operação Satiagraha. Nenhuma das duas informações é transmitida satisfatoriamente. Ao terminar a leitura, não se sabe ao certo quando a Abin pode participar de investigações, pra que ela foi criada, que tipo de trabalho ela faz e pra quem ela trabalha. Sabe-se o que ela não faz, apenas, e nem isso fica completamente claro.

A página 5 é um recorte tosco das atividades da Abin. São 12 subtítulos, mais um textinho em forma de ícones e um box em apenas uma página. Informações resumidíssimas, que não dizem nada. A idéia é mostrar a Abin como um órgão de inteligência daqueles que se vê nos filmes, como se fosse um brinquedo, para chamar a atenção. No fim, não faz nem uma coisa nem outra, mas, à primeira vista, parece que falou muito e desvendou todo o serviço secreto brasileiro. Com certeza atrai uma matéria como essa. Atrai e desvia dos assuntos mais importantes. Foge da questão e não discute o que é realmente de interesse público e não apenas de interesse do público.

Para coroar a “discussão”, a página 7 vem com a manchete “Tem um 007 perto de você”, logo depois de uma matéria sobre Daniel Dantas.

Postado por Cris Rodrigues

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O mordomo é sempre o assassino

19 Julho 2008
A Zero Hora de amanhã, domingo, traz como matéria principal o que deveria ser a história do início do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI). O MST teria nascido a partir da derrota em um confronto com índios Kaingang – grafados caingangues pela Zero – na região de Encruzilhada Natalino, no Norte do Rio Grande do Sul.

É incrível como até mesmo a heroização dos indígenas é aceitável desde que se possa bater no sem-terra. Não são muitas as reportagens de ZH em que os índios não sejam tratados de forma preconceituosa. Nesse caso, eles são os mocinhos, é claro. A banditização dos movimentos sociais admite até mesmo a defesa dos índios. São quatro páginas em que praticamente não se ouve a voz do sem-terra. Apenas indígenas são entrevistados – para não ser injusto, há um filho do único morto no conflito, um agricultor, na última página da matéria.

A criminalização já começa na capa e no título da reportagem, que liga, para variar, o MST à palavra “guerra”. O texto, fraco, consegue tornar demonstrações de coragem e força atos sempre descritos como demoníacos e dignos de vândalos quando são cometidos por integrantes do MST. No caso, quem mata animais a paulada ou incendeia escolas são os índios, e Carlos Wagner faz com que tudo pareça normal. Isso sem falar nas foto-legendas intituladas “Os Guerreiros, 30 anos depois”, que contam onde estão três dos índios que venceram os monstros do MST.

Fique claro: nada contra os índios. Não estou dizendo que eles são os bandidos. O negócio é que, possivelmente, nenhum dos lados é de bandidos. Os dois lados são de excluídos e, em uma reportagem como essa, há a necessidade – não suprida nessa matéria – de demonstrar como a situação desses dois grupos chegou a tal ponto que fez com que entrassem em conflito.

Seria realmente interessante ler uma matéria séria que recontasse essa história esquecida. Dessa forma, porém, presta-se um serviço apenas à desinformação e à formação de preconceitos. A luta contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra continua encabeçada por parte da mídia, e parece não haver limites para a formação de imaginário opositor no leitor.

* A mesma edição da Zero Hora contém uma interessante matéria de Carlos Guilherme Ferreira e Diogo Olivier. Foi o único grande jornal que destinou um certo espaço à discussão sobre a diferente arbitragem de Leandro Vuaden no jogo Palmeiras x Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro. O árbitro gaúcho apitou ao estilo sul-americano ou europeu, muito diferente da enjoada mania brasileira de marcar faltas a cada encontrão. A reportagem trouxe opiniões de ex-árbitros e um bom panorama do que aconteceu, além de uma boa entrevista de quase uma página inteira com Vuaden. Vale agora ver se a Zero continuará acompanhando o desenrolar dessa história. Na rodada de hoje do campeonato, parece que tudo voltou a ser como antes. Espero que a ZH não esqueça o assunto.

Postado por Alexandre Haubrich

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Um programa acidentado

17 Julho 2008

A última terça-feira deixou claro um problema que infelizmente vem acontecendo já há um certo tempo. O Profissão Repórter, apesar de todo o esforço dos jornalistas participantes, está se perdendo um pouco mais a cada programa. O último foi sobre “as imprudências dos motoristas que bebem antes de dirigir”. A idéia, pelo que pareceu nas chamadas e na abertura do programa, era mostrar como a nova lei, apelidada de “Lei Seca” influenciou na atitude dos motoristas e nos acidentes no trânsito.

O problema é que apenas uma pequena parte do programa tratou essa questão, bem no fim. Todo o resto do tempo foi dedicado a acidentes de trânsito envolvendo bebidas de um modo geral. A diferença pode parecer sutil, mas é uma diferença. Veja bem, em vez de tratar do que mudou com a nova lei, a reportagem falou de acidentes envolvendo motoristas alcoolizados, que poderiam acontecer em qualquer época, antes ou depois do endurecimento da lei.

Além disso, ao acompanhar o movimento de uma das estradas mais perigosas do Brasil, a equipe de reportagem comandada por Caco Barcellos assiste a uma série de acidentes causados por curvas perigosas, uma estrada mal-conservada e diversos outros problemas, entre os quais está a bebida, como em qualquer outro lugar. Ao atribuir os acidentes à combinação entre álcool e direção, os jornalistas podem incorrer em um erro grande, de veracidade da informação transmitida.

É, pois, um erro de foco. É comum na maioria dos programas de reportagem televisiva, devido à dificuldade de montar uma estrutura que envolva, sonora, passagem e, o que é mais difícil, a construção de offs em cima de imagens. Montar isso tudo seguindo uma ordem lógica não é fácil. A equipe do Profissão Repórter, no entanto, conseguiu isso em seus primeiros programas e quando era ainda apenas um quadro do Fantástico. Espera-se que voltem pro caminho e aproveitem o espaço que a emissora disponibilizou devido à qualidade do trabalho desenvolvido.

Postado por Cris Rodrigues

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O outro tabu

15 Julho 2008

Eu poderia simplesmente buscar nosso post do dia 9 de março, copiá-lo e colá-lo aqui. O assunto se repete porque o problema se repete. Mais uma vez, a Igreja Universal processa a Folha de São Paulo. Mais uma vez, a falta de respeito ao debate de opiniões faz com que se apele na tentativa de criar um clima de censura prévia na imprensa brasileira.

Tal qual o suicídio, a questão religiosa sempre foi cercada de pudores no nosso país. Não se pode criticar ninguém, não se pode proceder o debate, não se pode questionar nada.

Há alguns anos, quem mais melindrava as redações brasileiras era a Igreja Católica. Hoje, a Universal chega perto de equiparar-se à ela. Os processos movidos contra a Folha e os jornais Extra, O Globo e A Tarde no início do ano foram a primeira ação mais clara. Agora a decisão da Igreja Universal de cercear a liberdade de expressão e o livre debate sobre o uso da religião toma forma definitivamente.

Além da questão do tabu em volta da discussão sobre religiões, é claro que os interesses de expansão da tal igreja, muito baseado em ações midiáticas – o investimento em televisões, jornais e emissoras de rádio pelo Brasil afora é prova disso -, contribui para a tentativa de calar a imprensa que faz esse questionamento.

A Rede Record tem crescido, especialmente na área de jornalismo, mas dali certamente não sairá esse tipo de discussão. Chegará o momento em que a religião será tratada como um tema relevante para a sociedade, sem medos, sem pudores, sem medo de ser perseguido? A atitude da Folha não pode mudar. Não se pode esmorecer frente à negativa do livre debate pela imprensa.

Postado por Alexandre Haubrich

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A droga da epidemia

13 Julho 2008

A cada jogo da Seleção Brasileira, milhões de pessoas sabem exatamente qual seria a convocação ideal e o melhor esquema tático. Esse exemplo talvez seja o mais óbvio e mais duradouro, mas todos os dias todo o mundo forma opinião sobre os principais assuntos do momento, mesmo sem nenhum conhecimento de causa. Um deles é o crack. É conhecido como droga de pobre, por ser barato, e todos sabem por que começou a “epidemia” e o que fazer para acabar com ela. Todos sabem, mas ninguém sabe.

As informações são bastante desencontradas, e fica difícil formar uma opinião realmente consistente. Essa semana, a Zero Hora publicou uma série de reportagens sobre o assunto, chamada “A epidemia do crack”, que ajuda bastante a entender o problema (ver matéria principal de cada dia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Foram sete dias, com pelo menos três páginas por dia, o que significa uma quantidade enorme de informação. De um modo geral, a série cumpre com folga com as expectativas. Tem uma apuração muito completa, que mostra um esforço bem grande para a realização de um bom trabalho. Vários casos de viciados e familiares foram apresentados, de como lidaram com a droga, opiniões de especialistas foram mostradas, viagens ao interior foram feitas, estudos recentes foram buscados. Para coroar esse trabalho, um texto bem escrito e envolvente fecha o trabalho sobre um tema tão importante e polêmico.

O principal pecado dos repórteres Itamar Melo e Patrícia Rocha foi cometido no primeiro dia da série, domingo passado. Conhecido por ser droga de pobre, o crack é apresentado logo de cara como um problema de todas as classes. Esse tema poderia ter sido abordado em outro dia da série, e não na abertura, que precisa de uma explicação mais ampla para que se compreenda todo o universo do problema. Além disso, é contraditório: primeiro dá a entender que é quase impossível se livrar do crack e depois mostra vários casos de ex-drogados que conseguiram abandonar o vício.

Avançando um pouco na leitura, perece que a reportagem vai cometer o erro de mostrar que o grande problema da existência de pobres viciados é a violência que isso causa, enquanto o da existência de ricos dependente é a desestruturação familiar que eles sofrem, em uma atitude preconceituosa. No fim das contas, isso é bem remediado nos dias posteriores, e essa impressão some. A que fica mais forte é de que o problema é realmente muito grande e o efeito absurdamente avassalador. Dá uma sensação de medo e impotência no leitor.

Outro problema grande é a presença da coluna diária de Manoel Soares, repórter da RBS e colunista do Diário Gaúcho. Ele apela na linguagem exagerada e sensacionalista, que empobrece o trabalho tão bem realizado dos dois jornalistas. Mas que não tira o seu brilho, ainda assim.

O último dia mostra o exemplo dos EUA como a solução do problema. Ela inclui principalmente a repressão e a punição rigorosa, no lugar de medidas sociais. Na última página, no entanto, uma entrevista com um pesquisador americano relativiza a situação, afirmando que o problema está bem longe de ser resolvido por lá e que se deve investir em prevenção e tratamento, e não apenas em repressão. Apesar de a primeira impressão ser de que a repressão é o melhor remédio, foi encontrada uma solução inteligente para não dar uma resposta absoluta.

Apesar das críticas, a reportagem foi extremamente bem executada e merece grande atenção da comunidade e das autoridades. É o jornalismo fazendo seu papel social. E fazendo bem.

Postado por Cris Rodrigues