Posts de Agosto, 2008

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De volta para o futuro

30 Agosto 2008

Sei que o assunto chega aqui atrasado, e sei que dizem por aí que jornalismo é momento. O caso é que erramos não tendo feito esse post antes, mas não tenho compromisso com o erro e voltarei atrás. Faça, pois, de conta, que as Olimpíadas de Pequim terminaram ontem.

Quase todos concordam que a participação do esporte brasileiro ficou muito aquém do que deveria – não digo do esperado, porque esperava-se isso aí mesmo. Agora, aquém do esperado esteve a transmissão dos Jogos na TV aberta daqui. A única modalidade que teve as imagens geradas por uma televisão brasileira, o vôlei de praia pela Rede Globo, mostrou que técnica nós temos. Mas os narradores e comentaristas…

A cobertura esportiva nesse sentido foi terrível. Não vou ficar aqui enumerando os problemas do Galvão Bueno, todos sabemos. Mas a ignorância de todos os narradores de TV aberta sobre praticamente todos os esportes foi de arrepiar. Mesmo Cléber Machado, excelente narrador de futebol, demonstrou não ter-se preparado suficientemente. Luciano do Valle, Silvio Luiz e Álvaro José deram show de desconhecimento. Nivaldo Prieto até que se saiu bem, foi o único. Luiz Roberto, outro global, outro reconhecidamente limitado, especialmente graças a sua mania de imitar Galvão.

As pérolas foram muitas. Cléber reclamando das regras do boxe olímpico em vez de narrar a luta, Sílvio meio que secando o time de handebol, Galvão torcendo mais pelo Michael Phelps do que jamais torceu por algum atleta brasileira. Mas nada superou as indisposições de Álvaro José, que o fizeram arrotar – sim, arrotar – pelo menos duas vezes em transmissões de provas da natação.

Entre os papelões da vez estão também as tentativas da Globo de dar a entender que seus narradores realmente estavam lá – com exceção da estrela maior, não estavam – e de simular transmissões ao vivo quando as provas já tinham sido transmitidas pela Band. Ou Galvão perguntando, sem saber que ouvia-se sua voz, o que a Band estava passando naquele momento.

Sobre os comentaristas, as duas emissoras investiram em ex-atletas, em sua maioria, o que coloca novamente a discussão sobre diploma para esse pessoal. Para mim, o problema nem é esse papelzinho, mas a falta de vocação de alguns desses ex-atletas para a comunicação, o que tornou toscas algumas transmissões.

É claro que teve muita coisa boa também. O próprio Galvão Bueno falou bonito ao criticar, por diversas vezes, a falta de estrutura para o esporte olímpico brasileiro. Entre as reportagens, só para não deixar passar o registro, fomos premiados com maravilhas feitas por Ernesto Paglia, só para citar um exemplo.

Fica a expectativa do que acontecerá daqui a quatro anos, quando a Rede Record terá os direitos exclusivos sobre as Olimpíadas de Londres. Que faça melhor, os telescpectadores sem TV a cabo agradecem.

Postado por Alexandre Haubrich

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Eucaliptando

28 Agosto 2008

Teve lugar nessa semana mais um capítulo da defesa intransigente da silvicultura pela imprensa gaúcha. E dessa vez, tenho que admitir, a forma foi requintada.

A Zero Hora publicou uma série de reportagens, de domingo até quarta-feira, dizendo explicar os diversos lados da plantação de eucaliptos no Rio Grande do Sul. O excelente texto é de Sebastião Ribeiro, e as fotos, tão bonitas quanto, de Mauro Vieira, e não há nenhum tipo de ironia nesse elogio. Realmente, ZH mandou dois de seus repórteres mais capacitados para essa missão. Os textos e as fotos são realmente ótimos, o problema está na carga ideológica do conteúdo, totalmente favorável á silvicultura. Que a Zero Hora posicione-se a favor do que quiser, tudo bem, mas não deveria disfarçar essa posição em reportagens.

A organização das matérias já dá indícios do que acaba confirmando-se. No domingo, algo parecido ao new journalism, contando a epopéia dos trabalhadores braçais da silvicultura. A reportagem de segunda-feira demonstra como as empresas do eucalipto fazem bem à economia, como movimentam uma região antes abandonada. Terça-feira laparecem as questões polêmicas – danos ao meio-ambiente, posicionamento do MST e discussão sobre a região de fronteira -, dissolvidas uma na outra e sem qualquer aprofundamento. No último dia da série, as novas oportunidades para os jovens trazidas pela silvicultura.

Os títulos vão de encontro às mesmas idéias, à mesma proposta. “A batalha do plantar”, domingo; “Economia Adubada”, segunda; “Polêmicas semeadas”, terça; e “Cultivo de Oportunidades”, quarta. Novamente, trocadilhos inteligentes e criatividade, mas a serviço sempre do mesmo lado.

Especificamente sobre o conteúdo dos textos e das fotos, no domingo há a “glamouralização” da situação dos trabalhadores braçais. Na segunda, a reverência ao crescimento econômico, recheada de exemplos de pessoas que ganharam e ganham muito dinheiro graças aos eucaliptos. Terça-feira, as chamadas “polêmicas” estão dissolvidas, não ganham destaque, a junção de umas às outras as descaracteriza, tira força do conteúdo e desmobiliza a reportagem. Finalmente, quarta-feira, a comemoração pela oportunidade de futuro dada pelas empresas de celulose aos jovens. Ao menos, ao fim da matéria sobre a discussão no MST, há a referência ao fato de os integrantes do movimento terem sido procurados e não quererem manifestar-se. Como outros pontos, demonstra que a série foi feita com responsabilidade, com qualidade.

Sei que esse assunto começa a ficar batido, mas é um mal necessário. Se insistem em defender sempre o mesmo lado, temos de continuar debatendo essa atitude. Por fim, é uma pena que um excelente texto como o de Sebastião e um excelente olho como o de Mauro Vieira sejam desperdiçados em busca de peças publicitárias1.

Postado por Alexandre Haubrich

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O lado africano de Obama

26 Agosto 2008

Quais são os antecedentes do possível futuro presidente da maior potência do mundo? Barack Obama tem uma história diferente da que se costuma ver em quem entra na disputa em que ele se meteu. Se isso é bom ou mau, não cabe a nós julgar. Mas há de se conhecer. Pois a Carta Capital fez isso, mandou um correspondente para o Quênia para entender o Obama a partir da ótica africana, da tribo onde ele nasceu e publicou “Obama visto do Quênia”.

O texto vai e volta. Acompanha um motorista do Quênia, fala de Obama nos Estados Unidos, do Quênia e de Obama de novo. Mas não é confuso. Mostra, isso sim, claramente a história como ela aconteceu. Nos faz entender a trajetória do filho de pai queniano que concorre à presidência dos Estados Unidos. O retrato da situação no Quênia parece, à primeira vista, dispensável. Ledo engano. O contraste entre uma pobreza e uma desigualdade extremas e a situação aonde Obama chegou revela muito, ainda que seja no campo das subjetividades.

A matéria nos dá o material para interpretar a personalidade do candidato democrata. Nos mune com informações, mas não impõe impressões. Apenas expõe contrastes. Apenas mostra.

Uma entrevista com o irmão mais velho de Obama dá uma idéia de quão diferentes eles são, e relativiza o papel da cultura queniana na criação do irmão ilustre. Ao mesmo tempo, uma escola chamada Senator Obama, na vila Kogelo, onde tem a casa da família Obama, mostra uma influência grande no sentido inverso. Obama seria uma esperança para aquele povo? Talvez, mas a revista se apressa em relativizar: “Em Kogelo, todos sabem que a eleição de Obama não vai mudar isso (criminalidade e pobreza)“.

Resumindo, tenta explorar um pouco a fascinante história de um candidato negro, de origem africana, de família muçulmana, mas rico, articulado, americanizado. Coisa que deveria ser feita lá pelos States, se a eles interessar verdadeiramente a democracia.

Postado por Cris Rodrigues

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Por mais debate e menos preconceito

24 Agosto 2008

Já foi tratada aqui no blog a série da Zero Hora sobre o crack, a droga que mais se espalha por aí e que está se tornando tema para discussões em vários lugares e motivo de preocupações de pais. Pois hoje o mesmo jornal fala de um comprimido que todo mundo já ouviu falar, mas que não se sabe muito bem como atua no corpo e como se dissemina ou se controla a sua distribuição. Associado a ele, só se sabe que estão as tais raves, que também são um mistério para muita gente. Pois a tal bolinha se chama ecstasy, que ganhou quatro páginas da editoria de Geral, da 40 à 43 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Letícia Duarte e Maicon Bock foram a uma rave e observaram que lá os comprimidos rolam soltos. Já no início, mostra alguns dados sobre a disseminação da droga, conversa com alguns policiais. Revela que os traficantes de ecstasy são, em sua maioria, jovens da mesma classe social dos consumidores, que carregam poucas doses, o que dificulta sua apreensão. Na página 41, um infográfico bem completo mostra o que se sabe dos efeitos do ecstasy no organismo e revela o que poucos imaginam que possa existir: a droga pode provocar overdose de água. O texto explica bem como isso acontece.

Nos cantos de três das quatro páginas, um mapa das raves, essas festas compridas de música eletrônica que geralmente acontecem em fazendas, para grande quantidade de pessoas. No fim das contas, dá para entender bem o contexto em que a droga se dissemina, como ocorre o tráfico – de onde a “bala” vem -, como cresceu o público e como funciona – ou não – a prevenção.

Faltam algumas coisas para a matéria ficar completa. Em uma entrevista com um “traficante” – que não se considera assim, pois compra para revender para os amigos, sem lucro -, se fala rapidamente sobre o vício. Mas não fica claro se o comprimido causa dependência, um ponto bem importante para entender o tamanho do problema. Nenhum consumidor ajudou a compor a matéria. Apenas algumas citações de pessoas que tomam ecstasy estão em olhos ao longo do texto.

Mas o que falta mesmo é uma discussão maior sobre o consumo da droga. Uma coisa mais ampla, que fugisse do lugar comum. Na mesma entrevista com o “traficante”, ele sugere que a “bala” deveria ser liberada. Segundo o cara, álcool e cigarro são mais danosos que ela. Essa afirmação poderia ser o mote para debater sobre o que é mais importante nessa história. Será que talvez fosse mais interessante liberar seu uso com algumas restrições? Seria mais seguro? O que dá a entender é que de fato o comprimido não é grande causador de mortes ou dependência. Tem prejuízos, sim, como o cigarro, talvez. Talvez, porque eu não sou médica e não posso atestar. E não descobri ali nenhuma informação mais concreta que pudesse tirar essas dúvidas, ninguém mais abalizado para falar sobre o assunto. Os repórteres deviam ter ido para a rave de coração aberto, para simplesmente ver o que acontece, e não com aquele olhar inquisidor, que procura o criminoso para denunciar o crime. Como acontece, aliás, quase sempre. Uma discussão mais ampla e menos preconceituosa seria mais útil para a sociedade.

* Destaque para uma matéria da Folha de São Paulo sobre a importação de agrotóxicos vetados no exterior. O texto é muito bom e denuncia algo que não poderia acontecer, mas que afeta bastante a vida dos brasileiros. A Zero Hora não deu nada sobre isso.

*Também na Folha, saiu uma pesquisa com empresários que mostra que o jornal impresso ainda é o meio de comunicação de maior credibilidade e mais buscado pelos executivos. Aqui.

Postado por Cris Rodrigues

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Entrevista com Juca Kfouri

22 Agosto 2008

José Carlos Amaral Kfouri, o Juca Kfouri, é uma das grandes estrelas do jornalismo esportivo brasileiro, e nos concedeu, por email, a entrevista que segue. Curta, por causa da falta de tempo que assola a todos, mas com conteúdo. Com passagens marcantes pelas revistas Placar e Playboy e por emissoras como a Globo, o SBT e a ESPN Brasil, Juca também esteve por alguns anos no diário Lance!. Atualmente, é colunista da Folha de São Paulo e possui o Blog do Juca.

 

Jornalismo B - Qual a função do jornalismo, para ti?

Juca Kfouri - Incomodar, botar o dedo nas feridas, fazer oposição, mexer nas coisas para mudar para melhor.

Jornalismo B - A imprensa brasileira atual cumpre essa função? 

Juca - Nem de longe…

Jornalismo B – O jornalismo esportivo vem sendo praticado com qualidade no Brasil?

Juca - Em alguns momentos, na TV fechada e nos meios impressos, sim.

Jornalismo B – Quem se destaca positiva e negativamente no jornalismo esportivo brasileiro? Por quê?

Juca - Negativamente a Tv aberta que se associa à cartolagem e os seus comunicadores que são garotos-propaganda, empresários de atletas, promotores de evento etc.
Positivamente a imprensa escrita sempre que investiga bastidores e tra à tona a miséria da cartolagem que nos assola.

Jornalismo B – O jornalismo esportivo brasileiro muitas vezes acaba sendo, na verdade, simplesmente uma cobertura dos times de futebol. Isso é bom ou ruim? Quais as consequências dessa opção?

Juca - Essa é a solução mais cômoda, que faz de conta que está tudo bem quando está na cara que não está. Faz muito mal à credibilidade do jornalismo.

Jornalismo B - Em jogos de futebol, vôlei, tênis, etc., muitos ex-atletas têm ocupado lugares que seriam, teoricamente, reservados a jornalistas. De que modo tu vês esse fenômeno?

Juca - Com absoluta naturalidade quando o cara não atropela a última flor do lácio, inculta e bela. O Tande certamente fala melhor de vôlei do que eu. E o Tostão de futebol.

Jornalismo B - Qual o limite entre informação e especulação? De que forma a especulação faz parte do jornalismo esportivo?

Juca - Especulação não é jornalismo. É especulação.

Jornalismo B - Qual o futuro do jornalismo brasileiro?

Juca - É igual ao futuro do Brasil. Qual? Não sei, mas devemos fazer para que seja o melhor possível, sem desesperar jamais.

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A credibilidade e os leitores

20 Agosto 2008

Está acontecendo o 7º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ). Ontem, nesse congresso, foi divulgada uma pesquisa que aponta, entre outras coisas, que os leitores associam jornais a confiabilidade, profundidade e “detalhamento e abrangência de informações”.

No mesmo dia, o especialista Randy Convigton, palestrante do mesmo congresso, concedeu entrevista à Folha de São Paulo, na qual afirmou que um dos caminhos para a sobrevivência dos jornais impressos é ligar-se mais ao leitor.

Hoje, na cobertura do desastre aéreo espanhol, os sites da Globo, da Folha e da Zero Hora pediam ajuda aos leitores para conseguirem informações exclusivas. É exatamente aí que se encontra o problema de conciliação entre os sintomas expressos nos dois primeiros parágrafos: como manter a credibilidade e ao mesmo tempo “associar-se” ao leitor?

Sim, porque que credibilidade, que confiabilidade possuem as informações que provêm destas fontes? Caso essas informações fiquem apenas na Internet, não influenciam diretamente nos jornais impressos – mesmo que estes jornais estejam obviamente ligados aos respectivos sites.

As alternativas que o entrevistado da folha propõe são todas elas ligadas à Internet, um meio problemático exatamente por sua falta de credibilidade. Como incluir o leitor sem que se descambe para o amadorismo? Fica a pergunta.

Agora, um pequeno comentário. A associação dos jornais à credibilidade só é realmente possível se eles forem comparados a outros meios de comunicação, principalmente à Internet e à televisão. Com honrosas exceções entre os principais jornais, a confiança cega passa perto da ignorância, e a falta de crítica – absolutamente recorrente entre nós – faz formar idéias distorcidas sobre os fatos mais corriqueiros.

Postado por Alexandre Haubrich

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Autocensura

18 Agosto 2008

Os torturadores estão a solta, mas, embora vetada pelos militares e por setores do governo, a discussão sobre o tema também está. Depois de o ministro da Justiça, Tarso Genro, propor que os crimes da ditadura sejam tratados como crime comum, a Carta Capital dedica a capa ao tema. O título já incita uma reflexão: “Tortura, tema proibido?”.

O texto é claramente favorável à abertura dos arquivos da ditadura e à punição dos militares criminosos. O repórter Gilberto Nascimento praticamente só conversou com quem poderia pregar essa abertura, mas falou com os melhores. O juiz Baltasar Garzón, que condenou o ditador chileno Augusto Pinochet à prisão, mereceu uma entrevista de duas páginas. Infelizmente ele não tinha muito conhecimento sobre o caso brasileiro, e o repórter Daniel Pinheiro não soube explorar os pontos positivos dessa conversa.

A matéria é baseada em casos de outros países latino-americanos, em que Espanha e França interviram para conseguir o julgamento por crimes contra cidadãos europeus. Busca, na verdade, incentivar que aconteça a mesma coisa por aqui. Já que o governo brasileiro não se mexe, a Carta Capital pede que os europeus façam alguma coisa.

Apesar de parcial, a matéria é bem estruturada, e, assim como o título na capa, faz com que reflitamos. É uma visão diferente da que temos em outros veículos brasileiros, e portanto muito válida. Vale, inclusive, uma crítica ao resto da imprensa, que fecha os olhos diante de discussão tão importante. A ditadura acabou, mas parece que a censura continua. Mas agora é autocensura. O objetivo não é que se forme a opinião de ninguém, mas que se dê armas para o público entender a situação e ter a sua própria interpretação do tema. Merece espaço na mídia o debate, sempre.

* Uma equipe de jornalistas da Globo foi seqüestrada no Líbano, por integrantes do Hezbollah, quando faziam matéria sobre uma lanchonete com tema de guerra. Os correspondentes Marcos Losekann e Paulo Pimental foram interrogados por cinco horas. A câmera foi devolvida sem a fita, mas as imagens da matéria haviam sido gravadas em uma fita já retirada do equipamento. Foram exibidas no Jornal Nacional de hoje.

Postado por Cris Rodrigues

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Da cobertura da posse de Fernando Lugo

16 Agosto 2008

A posse do novo presidente paraguaio, Fernando Lugo, recebeu da imprensa brasileira a cobertura merecida. É o primeiro presidente em 61 anos que não está vinculado ao direitista Partido Colorado, além de o Paraguai ser um país de fundamental importância estratégica para o Brasil. Esse último item, explica-se por dois motivos: a usina hidrlétrica de Itaipu, e os chamados “brasiguaios”, ruralistas brasileiros que moram no Paraguai.

É claro que, entre os principais jornais impressos daqui, a Folha de São Paulo foi quem fez a melhor cobertura, desde os dias que anteciparam a posse. A enviada a Assunção foi a colunista Eliane Castanhêde, dona de uma grande capacidade de percepção do que é importante e de um texto limpo e agradável. Essas qualidades gritaram nas matérias que enviou, em especial na publicada hoje, com uma reconstituição precisa da cerimônia. Fez com que o leitor se sentisse lá, o que caracteriza um bom texto desse tipo.

Esta e as outras reportagens da Folha explicaram a linha de Lugo, a complexidade política do Paraguai e o que pode acontecer em cada setor da sociedade de nosso país vizinho. Matérias completas, com entrevistados de todos os lados ou de lado nenhum, como uma boa entrevista com o ex-presidente Lino Oviedo. Retranca, box e recursos gráficos para as questões que interessam diretamente ao Brasil, com explicações claras sobre o que pode resultar das negociações sobre Itaipu, por exemplo.

O Estado de São Paulo também deu destaque às lutas que o novo presidente diz que travará contra a corrupção e a miséria – 40% da população paraguaia é pobre, sendo que 20% está abaixo da linha da pobreza. Em uma retranca, Lula e Itaipu.

Apenas a Zero Hora fez diferente, e para pior. O foco das matérias de Daniel Scola foi sempre a relação do novo presidente com o Brasil. É óbvio que isso também é de grande importância, mas ficar apenas nisso, dando uma ou duas linhas para o contexto político paraguaio, é ser provinciano, tacanho, atrasado. Os textos de Scola estão bons, mas o foco está totalmente desviado. Como diria um sábio jornalista, é “brigar com a notícia”, erro que a Folha e o Estadão não cometeram. É ignorar a mudança à esquerda em mais um país da América Latina.

Além disso, a Zero investe muito na história dos ruralistas, transferidno para o Paraguai sua velha luta em defesa dos latifundiários. Outro problema da cobertura de Daniel Scola, desde sua chegada a Assunção, é o tal “Diário de Assunção“, uma coluna mesquinha, cheia de bobagenzinhas que tiram o foco da importante reportagem. Podia ser bacana até, mas está tão fora de lugar que beira o bizarro.

A diferença já fica clara nos títulos. Enquanto a Folha traz “Lugo assume e promete combater a pobreza” e o Estadão “Na posse, Lugo promete lutar contra a corrupção”, a ZH apresenta “No Paraguai, Lula ouve povo gritando por Itaipu”.

Postado por Alexandre Haubrich

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A cidade nos meios de comunicação

14 Agosto 2008

Cidade é a pauta do momento. A discussão sobre o planejamento urbano e todos os problemas concernentes às cidades brasileiras encontra-se nos veículos mais sérios na banca mais próxima. Essa semana é possível ler uma excelente matéria na Carta Capital sobre as principais capitais do país, Porto Alegre incluída. O texto abrange a questão habitacional, o saneamento, a violência, o trânsito. Uma matéria muito bem apurada, que dá uma dimensão bem concreta dos problemas urbanos brasileiros. Os dados expostos em pequenos quadros desmistificam a falsa impressão sobre diversas situações tidas como certas no cenário nacional. O exemplo fica a cargo da segurança. Na revista, fica-se sabendo que o Rio de Janeiro tem um índice de homicídios na média das outras grandes capitais, ou até menor. Comparando com Recife, pode-se quase dizer que o Rio é uma cidade segura.

Com um outro caráter, muito mais opinativo, mas não menos interessante, aparece a edição de agosto da revista Le Monde Diplomatique Brasil (a última edição disponível no site é a de junho), com diversos textos sobre as razões da crise metropolitana. Na página 10, o primeiro desses artigos, assinado por Raquel Rolnik, mostra o mapa da exclusão nas cidades brasileiras, com a grande presença de assentamentos irregulares. Nota-se que Raquel não é jornalista. Ela é uma especialista na área e escreve como tal. Não consulta fontes, já que ela própria tem conhecimento de causa suficiente e escreve um texto de opinião, portanto independente de outros pontos de vista sobre o mesmo assunto.

Na página 12, quem assina é Luiz César Queiroz Ribeiro, também profissional da área, sem formação jornalística. Ele trata do espaço urbano como fonte de conflitos sociais. Ele analisa a política urbana através de questões como o transporte e questiona por que não se faz praticamente nada a respeito. Esses textos citados não tem o mesmo nível de facilidade de compreensão de um texto escrito por um jornalista. Afinal, os profissionais não foram treinados na área da comunicabilidade. Não é para qualquer tipo de público, portanto. Quem lê esse tipo de texto provavelmente tem interesse direto no assunto tratado ou tem um alto índice de leitura. No caso de um material opinativo, o fato de não ser produzido por jornalistas não é um demérito, muito pelo contrário. Merece crédito a revista que abre espaço para esse tipo de intervenção, que estimula o debate.

O terceiro texto sobre o tema da capa é nitidamente diferente na sua construção. Já do começo – a primeira frase é “Faz quase 50 graus à sombra” – nota-se que quem digitou aquelas palavras é um profissional das letras. Assina Akram Belkaïd, enviado especial e jornalista. Essa é uma matéria, de fato, com pesquisa e apuração, refletidas nas citações. Ele trata de 15 complexos urbanos que vão se estruturando no mundo, como grandes cidades de países árabes. Elas são o centro da discussão, por seu caráter de construções intensas e muito concreto por todos os lados. O crescimento. São também grandes influências para as grandes – ou nem tanto – cidades do planeta. Arrisco a dizer, sem querer forçar uma situação favorável para os comunicadores, que esse é o texto mais agradável e que informa melhor sobre o tema que trata, justamente por prender mais a atenção e falar de forma mais leve sobre o assunto.

Por fim, o Movimento Nossa São Paulo fecha a série com uma página partindo do debate eleitoral da maior cidade do país e uma das maiores do mundo. Explora a participação do movimento na sociedade para defender suas idéias. Mostra o que tem sido feito e o que está planejado para o futuro.

O debate fica aberto e amplamente enriquecido por essas publicações de excelente qualidade. Vale a pena espiar para pelo menos se colocar a par de um dos principais assuntos da atualidade, que atinge diretamente a vida de grande maioria da população brasileira, que atualmente vive nas cidades.

Postado por Cris Rodrigues

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Entrevista com Marcelo Coelho

12 Agosto 2008

Prosseguindo nossa série de entrevistas, conversamos por email com Marcelo Coelho, membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo. Escritor e jornalista, Marcelo é um dos blogueiros mais visitados do jornal paulista. Escreve para o caderno cultural da Folha, o Folha Ilustrada. Daqui a cinco postagens, teremos uma nova entrevista. Aguardem.

 

Jornalismo B – Qual a função do jornalismo, para ti?

Marcelo Coelho – Acho que se trata de relatar os fatos de interesse público com o máximo de precisão e isenção possível, de modo compreensível e atraente para o leitor.

Jornalismo B – A imprensa brasileira atual cumpre essa função?

Marcelo – Não no que diz respeito a “atraente” e “compreensível”.

Jornalismo B – Onde (veículo, estado, mídia…) se faz atualmente o melhor e o pior jornalismo do país?

Marcelo – Não conheço os jornais de muitos estados; tive péssima impressão do que li na Bahia.

Jornalismo B – Quem faz jornalismo cultural precisa dominar completamente todas as áreas da cultura (artes plásticas, cinema, literatura…)? Até que ponto a especialização é imprescindível e até que ponto ela é uma realidade?

Marcelo – Acho que não há como dominar todas as áreas. Não acho a especialização imprescindível, exceto na crítica. Mas um bom jornalista sem especialização pode realizar ótimos perfis de artistas, por exemplo, que respondam ao interesse do leitor leigo, sem ser especializado na área do artista.

Jornalismo B – Qual a mídia mais propícia para o debate cultural? A internet surge com força nesse sentido?

Marcelo – A internet é insuperável em muitos aspectos. Permite você ilustrar com fotos, trechos de filme e de música o seu texto, e oferece uma interatividade incomparável com o leitor. Ao mesmo tempo, sua tendência à superficialidade e à rapidez diminuem o âmbito do debate.

Jornalismo B – Nos 18 anos em que escreves na Folha Ilustrada, a cobertura de cultura mudou muito, na Folha e no jornalismo brasileiro de modo geral?

Marcelo – Acho que melhorou muito no que diz respeito a serviços, e piorou no que diz respeito à profundidade.

Jornalismo B – Os editorias ainda cumprem sua função de transmitir a opinião do jornal? Essa opinião não vem cada vez mais maquiada por interesses publicitários?

Marcelo – Acho que cumprem a função, sim,e não vejo influência nenhuma de interesses publicitários neles.

Jornalismo B – Qual o futuro do jornalismo brasileiro?

Marcelo – Acho que terá um perfil de leitores mais semelhante ao que hoje é atendido pelo jornal “Valor”.