Sérgio Xavier Filho já trabalhou no Estado de São Paulo, na Agência Dinheiro Vivo e na IstoÉ, sempre como jornalista de economia. Foi em 1995 que assumiu o posto que o fez reconhecido no país inteiro, e onde permanece até hoje: editor da revista Placar. Por telefone, entre uma reunião e outra, Sérgio concedeu ao Jornalismo B a seguinte entrevista:
Jornalismo B – Qual a função do jornalismo, para ti?
Sérgio Xavier Filho – É uma pergunta difícil porque o jornalismo tem várias funções. Eu considero que a mais óbvia é informar, tentar interpretar o mundo pro leitor, pro ouvinte, pro telespectador. Mas acho que tem outras funções que a gente vai somando e quanto mais a carreira vai caminhando, mais a importância dessas funções vai aumentando. Uma delas é a preocupação que a gente tem que ter em ajudar o leitor, o ouvinte e o telespectador a crescer, a melhorar. Às vezes injetar novas palavras nas conversas, às vezes apresentar temas que nunca foram apresentados a eles. Essa é uma das funções mais importantes. E aí a gente vai entrar num outro aspecto da profissão que é a função do jornalista dentro da empresa jornalística, e aí existe uma função também comercial. Quem trabalha num jornal tem que saber que o jornal dele não pode dar prejuízo, porque se não o dono do jornal, o patrão, simplesmente acaba com o negócio. Então tem essa responsabilidade econômica também do jornalista.
Jornalismo B – A imprensa brasileira tem conseguido cumprir todas essas funções?
Sérgio – De um modo geral, a imprensa brasileira ficou bem mais madura. Ela passou muito tempo em uma queda-de-braço, em uma briga política, resquícios da ditadura, e eu acho que essa função primordial que é informar, interpretar, foi esquecida. O jornalista muitas vezes acaba enxergando só a função política. “Nós precisamos bater no governo, precisamos estimular a democracia”. São assuntos importantes, mas não são únicos. A gente têm às vezes coisas muito mais prosaicas pra fazer. No jornalismo comunitário se falar, por exemplo, do buraco da rua, que é um assunto importantíssimo. A iluminação que não funciona no lugar onde se mora, e por aí vai. Então eu acho que a imprensa, com o distanciamento desse período de exceção, de ditadura, começou a assimilar melhor todo o seu papel. A imprensa está melhor.
Jornalismo B – O jornalismo esportivo no Brasil é extremamente voltado para o futebol. Como tu vês isso?
Sérgio – Isso é uma consequência dessa nossa característica mono-esportiva. O futebol aqui é completamente dominante. A imprensa é só uma consequência disso. Não vejo a imprensa como causa.
Jornalismo B – Quais são as diferenças de abordagem entre as diferentes mídias no jornalismo esportivo?
Sérgio – O assunto é geralmente o mesmo. Falando de jornalismo esportivo, é o futebol, são os jogadores, são os jogos. Agora, a gente pega uma mídia nova, nesses últimos anos, que é o celular. Você tem que ser curto. Tem um SMS, uma mensagem curta de cem toques, e tem que informar em cem toques, não pode passar disso. Uma revista tem o dever de aprofundar, de contar a história com mais calma, com fôlego, como se o leitor tivesse um tempo grande para fazer isso. Então tem que aproveitar esse tempo e aprofundar. E assim vai. Cada mídia tem a sua velocidade. É mais velocidade do que qualquer outra coisa.
Jornalismo B – Onde se faz o melhor jornalismo esportivo do país?
Sérgio – O jornalismo gaúcho é bem diferenciado. Temos um nível de redação muito bom e um defeito de origem complicadíssimo, que não é só do jornalismo esportivo, que é o auto-centrismo. O gaúcho é muito auto-centrado. Vê o Brasil e o mundo através do umbigo gaúcho. É difícil virar uma imprensa cosmopolita com esse vício. Agora: sim, eu acho que o jornalismo gaúcho é um dos melhores. O carioca é mais divertido, mais animado. O paulista é um pouco sério demais, sisudo. Estamos falando dos três principais.
Jornalismo B – A Placar tem uma linguagem diferenciada, mais descontraída. O público do jornalismo esportivo impõe essa linguagem diferente?
Sérgio – Sim. A Placar tem essa obrigação de ser revista, de aprofundar mais e, ao mesmo tempo, de entreter mesmo. Essa é uma característica de revista de futebol. Tem que ter bom-humor, tem que ter descontração, tem que ter essa linguagem diferente.
Jornalismo B – A especulação e o factual estão muito presentes no jornalismo esportivo brasileiro. Como fazer diferente e com qualidade?
Sérgio – O importante na especulação é não ser vazia. Tem que ter fonte. Tem que ter gente dizendo pra onde vai. Essa especulação cerebral, que só sai da cabeça do jornalista, é muito ruim. E, ao mesmo tempo, você tem um jornalismo factual muito chato, muito sem graça, que é contar um fato sem interpretar. Encontrar o meio do caminho entre a interpretação e o factual é o caminho mais interessante para o jornalismo esportivo.
Jornalismo B – Estamos vendo uma polêmica grande entre alguns jornalistas esportivos como Jorge Kajuru, Luciano do Valle… Tu vês necessidade de um jornalismo esportivo ter diploma de jornalista?
Sérgio – Não. Não vejo. Acho que é importante um diploma universitário, uma passagem universitária para dar um pouco mais de cultura para todo mundo, mas não esse diploma. E também acho essa uma falsa polêmica, porque por trás dessa discussão sobre o diploma tinha brigas pessoais etc. É mais um péssimo momento do jornalismo em que cronistas, colunistas, começam a achar que são mais importantes que os objetos em questão: futebol, jogador, campo de jogo etc.
Jornalismo B – Qual o futuro do jornalismo?
Sérgio – Acho que o futuro do jornalismo vai ser mais segmentado. A gente vai ter menos gente falando sobre tudo e mais gente com foco nos assuntos que realmente sabe. Estamos vivendo uma explosão dos blogs, em que todo mundo fala sobre tudo. É uma fase que acho que não pode durar muito, porque não é assim que funciona. A gente tem que ter um pouco mais de propriedade sobre o que fala. Para isso, tem que ter conhecimento, estudo, etc.