Posts de Outubro, 2008

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Programas de debate funcionam na Internet. Por que não na TV aberta?

31 Outubro 2008

Entre os dias 20 e 25 deste mês, o Brainstorm 9, em sua “televisão”, a Braincast TV, veiculou uma série de conversas com o jornalista Marcelo Tas e a jornalista e política Soninha (AQUI, AQUI, AQUI e AQUI). Esses bate-papos foram postados em quatro blocos, de cerca de 10 minutos, e trazem discussões sobre como as eleições foram tratadas pela mídia, como os candidatos se posicionaram durante a campanha, a lei eleitoral – em especial no que diz respeito à internet -, jornalismo na internet, blogs, e por aí vai.

Não pretendo aqui discutir esses assuntos especificamente, mas o próprio debate. A troca de idéias entre referências no assunto é absolutamente necessária à heterogeneidade de opiniões, que possibilita, por sua vez, um avanço cultural na população. A internet tem servido cada vez mais a esse tipo de conteúdo, e a possibilidade de se explorar diversas mídias dentro de uma só, e a custos baixíssimos, estimula esse tipo de iniciativa.

Ao que me parece, tem dado certo. Não tive qualquer esforço em assistir aos 40 minutos de entrevista. Por que não ter também esse tipo de programação na televisão? A TV paga até traz algumas coisas nesse sentido, mas sua audiência é extremamente restrita. Será que não haveria espaço na TV aberta para debates de alto nível, para entrevistas sobre temas da atualidade? O máximo que temos nas grandes emissoras é o Canal Livre, na TV Bandeirantes, escondido no fim da grade de programação e que trabalha com uma linguagem, um formato e temas que atraem apenas uma audiência muito limitada. O programa do Jô, por exemplo, está no outro extremo, tratando quase exclusivamente de banalidades.

Chegar a um formato que congregue discussões edificadoras e inteligentes com assuntos interessantes, debatidos de forma solta, como é costumeiramente feito na internet – caso desses episódios da Braicast TV -, pode sim dar resultado na TV aberta. A questão, além da coragem de apostar, é: interessa aos magnatas das comunicações estimular o pensamento crítico, o debate livre?

* Belíssima foto da capa da Folha de São Paulo de hoje, com Henrique Meirelles. Momento preciso, informação e sensação, fotojornalismo da melhor qualidade. O fotógrafo é Lula Marques.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornalismo de qualidade em blogs

29 Outubro 2008

Blogueiro é jornalista? Essa discussão já passou por aqui, mas, acreditando que alguns fazem jornalismo, sim, falo um pouco sobre eles. Ando visitando com certa freqüência uma meia dúzia de blogs gaúchos que fazem críticas. São opinativos, mas não deixam de fazer jornalismo. Muitos dos posts são mais ou menos o que nós pretendemos aqui no Jornalismo B, uma crítica à imprensa. Mas esse não é o propósito de nenhum desses veículos. Esses comentários passam por ali porque seus autores são jornalistas e estão antenados.

Alguns deles fazem observações do que acontece por aí. Digamos, um jornalismo opinativo, às vezes de humor. É o caso da Nova Corja, por exemplo, sempre ácido. Não é porque é na internet que a opinião e o humor deixam de fazer parte do jornalismo, certo? Vale cuidar a atualização praticamente diária das imagens, também elas uma avaliação da sociedade, dos acontecimentos recentes.

Outros fazem algo mais parecido com a reportagem, e de alta qualidade, com uma visão mais marginal, no sentido literal da palavra, ou seja, mostra o que não está no centro, não está em todo lugar. Cito o RS Urgente, um dos blogs mais lidos do Rio Grande. Ele tem atualização constante, várias vezes ao dia. Coisa difícil em um meio que não dá grana quando não tem patrocínio, caso do blog em questão. Trabalho admirável de amor à causa do Marco Aurélio

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Afundando com elegância

27 Outubro 2008

Todos os sábados abro a ZH no suplemento de Cultura como quem vai sempre ao estádio para dar apoio mesmo sabendo, no fundo,  que seu time vai perder do novo. Não aconteceu diferente essa semana. Mas pelo menos dessa vez escalaram um virtuose da bola, ainda que na posição errada: décadence, como sempre, porém finalmente avec élegance.

Quem entrou pra arrasar foi Moisés Mendes, uma espécie de coringa, o repórter polivalente da ZH. Aquele que sabe fazer a melhor matéria de qualquer editoria, mesmo não estando em nenhuma. O cara que sabe entender todas as limitações do veículo em que trabalha e as tira de letra, sem se esforçar pra ser menos inteligente por estar ali. Ao seu lado, Gabriel Brust, repórter que vem se destacando no Segundo Caderno, sabendo casar opinião e informação de maneira ímpar, de alma e texto invejável.

Os dois se debruçaram sobre o tema da mídia em relação à violência, aproveitando o caso da menina Eloá e do documentário a respeito do Ônibus 174 – em cartaz essa semana em Porto Alegre. Há abundância de fontes, no entanto o texto não soa declaratório, flui com facilidade. Há interpretação de uma realidade, busca de profundidade. Enfim: uma não tão longa, mas linda e corajosa reportagem (aqui), sem poupar a responsabilidade dos veículos de comunicação.

É uma reportagem que está no meio do caminho entre uma pauta de segurança pública e de televisão. Mas o que ela está fazendo então num caderno de Cultura? Parece que o jornal virou um espaço tão burocrático e redutivo que qualquer coisa que possa realmente conseguir desvelar uma realidade não óbvia já não cabe mais dentro dele. Sendo assim, o aparecimento de uma reportagem – ainda que breve – é um “corpo estranho”, algo que não parece mais pertencer àquele universo. O que fazer com ela então? Jogá-la no enorme guarda-chuva que abriga um saco de gatos que é o conceito de “cultura”.

Quem sabe daqui uns tempos eles façam um caderno mensal intitulado “jornalismo de verdade”, de umas quatro ou oito páginas, com o trabalho que deveriam fazer diariamente. E o resto? Ah, diria o poeta, “o resto é secos e molhados!”.

*Que tal os militantes do Fogaça descendo a lenha no repórter da Folha de São Paulo? Se você ainda não espiou, veja aqui e aqui.

Postado por Ale Lucchese

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A ilha no caos

25 Outubro 2008

Na última semana ocorreu, em Amsterdã, Holanda, a 11ª Conferência da Associação Mundial de Jornais. Um dos discursos que alcançaram mais repercusão – ao menos por aqui – foi o de William Powers (AQUI o discurso completo), jornalista americano, colunista de mídia da revista The Nation. Mas e daí, esse não é um blog sobre jornalismo brasileiro? Sim, e há duas explicações para falarmos aqui do tal discurso. Primeiro, esse é o tema da “Carta do Editor” da Zero Hora deste domingo. Em segundo lugar, e mais importante, as idéias lançadas por Powers têm direta relação com uma questão que, como a todo o mundo, afeta o jornalismo brasileiro.

O tema básico da fala foi como os jornais impressos devem posicionar-se frente ao avanço da internet – tema debatido mais de uma vez aqui no Jornalismo B. Powers trouxe, porém, noções que, ao menos até onde me consta, são novidades. O jornalista lembrou que a mídia impressa possui qualodades inalcançáveis em outros meios, e que, muitas vezes, essas características são esquecidas em benefício da análise das qualidades dos meios eletrônicos, em especial a internet. Um exemplo é trazer uma maior abertura para que o leitor “pense”, analise. O fato de os jornais terem início e fim, diferentemente da inesgotável fonte de informações das mais diversas que é a internet, forma leitores mais críticos, que conseguem assimilar melhor o que lêem. “O papel ainda é um ponto de passagem para a consciência, uma fuga da sobrecarga infinita de coisas da tela”, diz.

Defende, por fim, que os jornais são “uma ilha no caos” de informações, de tecnologias, de incrementos diários. Caos esse que vivemos tanto na internet quanto em nossas formações sociais atuais, cada vez mais pautadas pelo imediatismo e pela velocidade não-pensante.

Os jornais talvez sejam o último reduto do jornalismo na acepção tradicional da palavra, do jornalismo como forma de informar com qualidade e precisão, do jornalismo como forma de fazer a sociedade refletir sobre seus problemas e suas qualidades, como forma de modificação, de mudança. O raciocínio de quem lê, de quem se informa, é fundamental na constituição de uma sociedade que realmente funcione, e ponto fundador de a que deve servir o bom jornalismo. A internet, como o rádio e a televisão, trabalham de outras formas – que podem também tornarem-se pilares de reflexão, desde que bem utilizadas -, mas nada como o papel para trazer base a um pensamento crítico e duradouro.

Postado por Alexandre Haubrich

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Falta auto-crítica

23 Outubro 2008

O caso da menina seqüestrada em Santo André já chegou ao fim – pelo menos sua parte trágica – e agora começam as investigações sobre o que de fato aconteceu por lá. Toda a imprensa está falando na ação da polícia, criticando, fazendo conjecturas, como sempre. A única isenta de culpa é ela própria, mas chegaremos a isso mais adiante.

O fato é que o questionamento do papel da polícia é extremamente válido, mas temos que avaliar a forma como ele deve ser feito. Todo mundo está dizendo que os policiai de fato erraram e foram co-responsáveis pela morte da menina Eloá – essas palavras mais fortes não são usadas por todos os veículos. Muito bem, a função do jornalista é criticar a sociedade, mostrar as coisas que acontecem da forma exata como elas acontecem, gerando discussão e tal.

Mas e a discussão? É só entrar em qualquer roda de conversa em algum bar que todos dizem “Eu acho que a polícia errou”, ainda mais com o depoimento ontem da outra menina baleada, a Nayara. Ponto para a imprensa, que fez as pessoas refletirem. Mas calma lá… Elas estão de fato refletindo. A imprensa não está aproveitando o caso reente para fazer uma análise mais ampla e profunda do aparelho policial brasileiro, como deveria fazer. Essa história deveria ser um ponto de partida para uma discussão maior. O que está acontecendo com a polícia? O salário é baixo? O treinamento é ruim? São poucos profissionais? Está tudo indo bem? Não sei, não é dito em lugar nenhum.

E o papel da imprensa nesse caso específico? Não me refiro à cobertura específica, se os fatos mostrados estavam corretos, mas à forma com que eles foram tratados. A situação do seqüestro virou um circo. Jornalistas 24 horas de plantão, transmitindo tudo ao vivo, criando um verdadeiro espetáculo. E o menino – sim, porque o seqüestrador era um menino também, mesmo que desequilibrado ou sei lá o quê – estava lá, assistindo tudo. Da janela ou pela TV mesmo. Tem que se repensar o papel do jornalismo por aqui. Como a mídia influenciou o desfecho do caso? O seqüestro teria durado tanto tempo sem essa influência? A polícia teria errado tanto? A menina teria morrido no final? Várias perguntas, mas sem nenhuma resposta. Afinal, a auto-crítica não é coisa muito usada por essas paragens. Principalmente nos meios de comunicação.

Postado por Cris Rodrigues

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Dois anos de Rolling Stone no Brasil

21 Outubro 2008

Infelizmente ou felizmente, não sei falar nada da Rolling Stone brasileira que não parta de um ponto de vista pessoal. A revista sempre me intrigou e jamais consegui me desvincilhar e pensar de maneira objetiva algo como “mas afinal, o que são essas páginas, a quem servem?”. Tanto melhor, ponto para as pedras rolantes. Faço esse pequeno nariz de cera para explicar o quanto egoísta parecerá esse post aos que não estão acostumados a este imenso ego.

A verdade é que fiquei imensamente desconfiado quando vi uma Rolling Sone com chamadas em português nas bancas. Vasculhei meus papéis e descobri que só fui comprar a revista em sua sétima edição. Mas como foi boa a surpresa dessas páginas! Lembro de as ter emprestado a várias pessoas, algumas até leram, deu para perceber quando me devolveram, coisa rara quando se empresta textos. O fato era que não tinha como não ler. Uma revista com a Marisa Monte na capa, entrevista com Aerosmith, uma longa e bela reportagem a respeito dos “diamantes de sangue” do Brasil – prova de que até um filme meia boca pode render boas pautas – não passaria dias dormindo numa cabeceira. E a melhor das surpresas: uma matéria intitulada “coronelismo eletrônico”, que, entre outras coisas, trazia um imensa lista dos parlamentares com concessões públicas de rádio e televisão. Quanto tempo iria durar uma publicação com tamanha coragem e cara-de-pau? Sei lá, mas já se foram dois anos.

Mas o mais incrível era que uma matéria como essa não era a capa, e nem parecia querer as luzes dos holofotes. Medo de ser o centro da atenções? Creio ainda hoje que não. Ao contrário, vi – e ainda vejo – essa decisão editorial como um imenso desprezo a essa piada cada vez mais sem graça que virou nossa democracia. Falar sobre política? Ok, é necessário, falaremos. Falar sobre amor, arte, moda & poesia? Fundamental, só se for agora! Era como Rimbaud mijando nos poemas parnasianos: era preciso escarrar neles, c’est vrai, mas sem lhes dar muito mais que dois minutos de nossa atenção: mais urgente é sair do salão e ganhar a rua praticando o amor e todas as outras coisas que afloram de um coração espontâneo.

E agora? Como andam as coisas? Pelo visto, do mesmo jeito. É claro que a revista passou por momentos mais e momentos menos inspirados, mas a esfinge ainda continua viva. Comprei ontem a edição comemorativa com o Gilberto Gil na capa, mais grossa, cola ao invés de grampos, e um prateado na capa que não deve ter sido nem barato nem fácil de fazer. Tintas e papéis jamais são ecologicamente corretos, ainda mais com tamanho esbanjamento. Além disso, mil anúncios, uma peça melhor que a outra, coceira de consumo. Mas e daí? Ver o ex-ministro de peito nu na capa – com adornos que rementem à imagem de um Xérxes, à imagem de um imperador onírico e jocoso de uma nação por descobrir que ainda canta o canto espontâneo dos tempos da criação – definitivamente não tem preço.

Sinceramente, não li a matéria com o Gil, e nem vou ler. Suas sete páginas para mim não passam de um mero – e extremamente justificado – pretexto para se ter a imagem da capa de pé em cada banca desse país, pelas esquinas, zombando dos transeutes desatentos . “Gil fugiu à consciência de vocês!”, dizia um indignado Caetano Veloso contra o público feroz em um festival no qual seu amigo fora vaiado, algumas décadas atrás. Agora é Gil quem persegue as consciências pelos cantos das cidade: drible espetacular da publicação, e se apenas a primeira fila do estádio é que acompanhou a jogada, azar de quem perdou o gozo.

*Todas as bençãos do mundo ao Coletivo Catarse pelo conquista do prêmio Vladimir Herzog em função da participação no documentário interativo “Nação Palmares”, da Agência Brasil. Momentos como esse quase fazem a gente acreditar quem nem tudo está perdido nessa merda.

Postado por Ale Lucchese

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Jornalista precisa de diploma?

19 Outubro 2008

O assunto do momento – e dos últimos vários anos – na área jornalística é a discussão sobre a obrigatoriedade ou não do diploma para o exercício da profissão. A tendência entre a esquerda é claramente condenar o diploma, e a da direita, exigi-lo.

Eu, por minha vez, tendo muitas características que seriam chamadas “de esquerda” – prefiro não me limitar a rótulos -, vejo essa briga toda com olhos céticos e de camarote. A princípio, parece-me que sim, o diploma é necessário. Concordo com a frase de Lucídio Castelo Branco, “o jornalismo é uma técnica”. Essa técnica inclui qualidades humanas, é claro, mas isso também se aprende – ou se deveria aprender – na faculdade.

Porém, não vejo a questão com qualquer radicalismo. Comentaristas esportivos, por exemplo, podem perfeitamente trabalhar sem diploma. Comentaristas em geral, aliás, não precisam, na minha opinião, ter uma faculdade, menos ainda que essa faculdade seja necessariamente de jornalismo. Especialistas nos mais diversos assuntos devem ter espaço para opinar, para participar ativamente dos debates, assim como toda a população. Não se pode restringir aos jornalistas o debate público, mesmo que apenas dentro dos meios de comunicação.

É claro que, para determinadas atividades jornalísticas, o diploma me parece indispensável. Bem ou mal, na faculdade temos contato com recursos e ensinamentos muito maiores que a simples prática cotidiana do jornalismo. Uma universidade que realmente forme cidadãos e jornalistas críticos e conscientes de suas responsabilidades é de suma importância para que a imprensa brasileira possa ser repensada.

Outros artigos sobre a questão do diploma, mais aprofundados ou não, virão ainda por aí, conforme as coisas corram e as notícias andem.

Postado por Alexandre Haubrich

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Ao lado dos agressores

17 Outubro 2008
Poucas vezes escrevemos aqui sobre fotojornalismo. Não por não darmos a devida importância ao assunto. O problema é que nosso conhecimento sobre o assunto é extremamente escasso, não há como não admitir. O caso de hoje é diferente, pois o problema é gritante e recorrente.

A agressão da polícia militar do Rio Grande do Sul (Brigada Militar) aos manifestantes da Marcha dos Sem, na tarde de ontem, no Centro de Porto Alegre, foi assunto de capa do jornal Zero Hora. As fotos denunciam claramente do lado de quem o jornal posiciona-se. Na matéria da página 40, mais uma vez. As duas fotos, de Ronaldo Bernardi, mostram um fotógrafo escondido atrás dos gladiadores da BM. Não havia nenhum fotógrafo de ZH acompanhando a Marcha ao lado dos manifestantes. O jornal mostra compartilhar a visão do coronel Mendes, o Mussolini gaúcho: todo e qualquer cidadão que proteste é um baderneiro. Essa postura tem sido constante nas matérias desse tipo em Zero Hora. Fotógrafos sempre atrás da polícia, nunca junto aos verdadeiros protagonistas do dia: os manifestantes. Sempre ao lado dos agressores, nunca dos agredidos.

Além disso, nenhuma das duas fotos das agressões mostram… as agressões! É possível isso? O pior é que é. Na mesma página 40, fala-se sobre o outro conflito deflagrado pela Brigada na capital gaúcha no mesmo dia. E aí – talvez não houvesse nenhum fotógrafo da RBS no local – a foto, menor do que a de Ronaldo Bernardi, traz no crédito “Sindicato dos Bancários”, e é a única que mostra as pancadas da polícia nas pessoas.

Esse enquadramento de ZH e Ronaldo Bernardi fica ainda mais claro quando, no mesmo dia, a Folha de São Paulo cobre um conflito semelhante na capital paulista, entre Policiais Civis em greve e Policiais Militares. Como na Zero Hora, fotografia na capa. Ao contrário do jornal gaúcho, uma belíssima foto – de Moacyr Lopes Jr. -, estética e jornalisticamente falando. Visão do alto, imagem aberta, os dois lados da confusão. Na matéria, capa do caderno Cotidiano, três outras fotografias: uma de trás da PM – de Alex Almeida -, uma de trás da PC – de Diego Padgurschi -, e uma de um manifestante sangrando – aliás, onde em ZH há uma imagem de algum dos muitos feridos resultantes do combate do Centro?

Se sozinho o problema das fotos de Zero Hora já salta aos olhos, é um murro na cara comparar com a qualidade do que fez a Folha de São Paulo em uma situação semelhante. Qualidade, honestidade e precisão na abordagem dos fatos. Faltou num jornal, sobrou no outro.

* O seqüestro da menina de quinze anos pelo ex-namorado teve hoje um final trágico. Atingida por um tiro na cabeça, a garota corre grande risco de morte. Momento de a imprensa achar culpados. Ela própria talvez seja o maior deles. Criou um espetáculo em torno do caso – apenas um das dezenas de seqüestros que estão em trânsito nesse momento no país -, e a super-exposição levou a atitudes precipitadas, tanto do seqüestrador quanto da polícia.

* Mesmo que façamos algumas críticas, o Jornalismo B apóia o CQC, da TV Bandeirantes, e acredita que o jornalismo praticado por Marcelo Tas e sua gangue é da mais alta qualidade e da mais alta importância social.

Postado por Alexandre Haubrich

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Sobre nudez, mas sem tranparência

15 Outubro 2008

Foi Pedro Cardoso quem jogou ao ar lotes e lotes de calcinhas e cuecas para vestir os atores do cinema brasileiro. As editorias de cultura correram até o interruptor e fizeram girar rapidamente as pás de seus gigantescos – e até então dormentes – ventiladores. E agora estão todos juntando as roupas íntimas, nem que seja para atear fogo em jocosas fogueirinhas.

Popular pelo papel de Agostinho Carrara no seriado “A grande Família”, Cardoso expôs seu manifesto contra a nudez em discurso no Festival do Rio, durante a semana passada. Entre outras coisas, disse que a nudez é exigência de pornografia e não de cinema, e que os diretores e produtores de hoje abusam dela apenas para fazer bilheterias. Exagero? Talvez. Mas de alguma forma despertou um tema pouco trabalhado na mídia: o clichê de que “filme brasileiro é tudo sem-vergonhice e mulher pelada”.

Aqui na província, fiquei sabendo da discussão apenas dia 13 de outubro, através do Segundo Caderno do jornal Zero Hora (aqui). Mas descobri pela internet que a Folha de São Paulo já tinha publicado alguma coisa sobre o fato no dia 10, com suporte maior também no dia 13. Mas esse atraso foi o menor dos problemas das coberturas.

A maioria – dizer “todas” seria meio arriscado, mas acredito estar bem próximo disso – das matérias que você encontrar trará um razoável número de fontes (algumas repetidas) dando seu parecer sobre o tema. Depois de ler os depoimentos jogados parágrafo abaixo de parágrafo, a única certeza que se tem é de que ler uma tabela do excel seria bem mais excitante do que ler as matérias da ZH, da Folha e de outros veículos que visivelmente as copiaram.

Cara, mas afinal, o que está acontecendo? Isso é moralismo? E se é, de onde vem? E mais: Pedro Cardoso afirma que diretores fazem sessões privês para amigos com materiais das filmagens que são cortados dos filmes. Isso procede? Quem faz isso? As atrizes se sentem mesmo desrespeitadas se isso acontece? Muitas perguntas sem resposta. O jornalismo cultural poderia ser um pouco mais investigativo e um pouco menos declaratório.

Ficar sem roupa é apenas um dos recursos banalizantes do corpo humano dos quais a indústria cultural faz uso para vender seus produtos. Talvez o mais suave deles. Por que não aproveitar o momento para questionar esses recursos? A quem interessa perder o momento para trazer algo realmente interessante? Por que não uma – pelo menos uma, umazinha – reportagem de verdade sobre o assunto?

Postado por Ale Lucchese

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Duas caras

13 Outubro 2008

Já faz algum tempo que começou um quadro novo no CQC, da Band. Não fez muito sucesso, tanto que no início tinha um tempo enorme e agora ficou bem curto. Claro, o cara é sem-graça, o quadro é monótono e tal, mas isso não vem tanto ao caso nesse momento.

O caso é que Warley Santana encarna o assessor de imagem do CQC. Ou melhor, do “Em foco”, um programa inexistente inventado para enganar os entrevistados. Warley diz que quer ajudar a melhorar a imagem das pessoas, geralmente políticos, e para isso sugere todo um teatro em que os entrevistados fingem não saber de diversas situações combinadas anteriormente. Além disso, Warley sugere frases e induz a pessoa a repeti-las.

A idéia é mostrar que o pessoal é influenciável. No fim das contas, todo mundo acaba se deixando levar. Mas Warley não diz que a entrevista é pro CQC. Falando francamente, ele mente para os entrevistados. A entrevista de hoje foi com Agnaldo Timóteo, ex-cantor e atual vereador, mas o caso mais emblemático foi com o petista José Genoíno. É fato consumado que o Genoíno não fala com o CQC, ele simplesmente ignora, como fez hoje, por sinal. Warley foi até a sua casa e disse para o deputado que era de outro programa e foi muito bem recebido. Quis mostrar, com isso, que o petista tratava de formas diferentes dois veículos de imprensa e que se deixava influenciar, não era tão convicto assim de suas idéias.

Mas peraí, por mais que o Genoíno seja arrogante com o CQC e eu não concorde com o seu temperamento, ele tem direito de tratar de formas diferentes pessoas que o abordam de formas diferentes. E assim é com todos os entrevistados. Em uma discussão a respeito, fui questionada sobre se isso é jornalismo. Não importa muito, na verdade, porque Warley se diz jornalista. Nesse momento, ele assume uma ética inerente à profissão. Quer dizer, as pessoas acreditam que ele assuma essa ética.

Quando Warley Santana se apresenta como sendo do programa “Em Foco” e dá a entender que as encenações que depois vão ar ficariam apenas nos bastidores, ele assume uma postura antiética perante o seu entrevistado. Ele induz a pessoa a agir de determinada maneira a partir de uma mentira. Ele quer levar as pessoas a uma contradição que ele não tem moral para julgar. Cobrar ética com uma postura antiética, bacana. É muito diferente do que fazem os outros repórteres do CQC, que falam abertamente com os entrevistados, que ironizam na cara mesmo. Acho que entendo por que não está fazendo sucesso…

Postado por Cris Rodrigues