Um galã de novela mexicana com um vice figuraça; um bonecão de borracha que sempre aparece ao lado da patroa; um senhor que apresenta propostas na frente de um girassol; quatro mulheres candidatas, uma até bem pegável – sim, eu sou machista, e tu com isso?; um outro bem sério com uma caaaara de bebum… Com essa galeria de preciosidades, o debate de ontem só poderia, então, ser um sucesso. Rá! Nada é um sucesso nessa terra, caro amigo.
Não vou comentar o desempenho dos candidatos, porque não é a isso que o blog se
destina. O patético da coisa foi a estrutura montada pela RBS. Mais especificamente, a presença do público no debate. Pra que convidar aquele mundaréu de gente e depois ficar pedindo silêncio?! Pô, Lasier, deixa o povo urrar! Deviam até ter estimulado o uso de faixas e cartazes, talvez até de sinalizadores e cornetas. Ainda sonho com um debate com avalanches de torcida, olés, um placar, e – é claro – show do Reginaldo Rossi no intervalo. Obviamente, isso está muito além da compreensão do Grupo, imagino algum executivo de gênio – gosto de trabalhar com a hipótese de isso exista -proponde esta idéia e, ato contínuo, recebendo o contra-cheque e uma camisa-de-força.
No entanto, dentro do esquema estabelecido nos veículos mainstream, a RBS conseguiu fazer alguns trabalhos bem interessantes nestas eleições. Digo isso pensando na série de entrevistas com os candidatos no jornal Zero Hora. Publicadas entre 22 de setembro e 01 de outubro, as entrevistas revelaram, de um lado, a inteligência e o preparo de alguns dos jornalistas do Grupo e, de outro, as estruturas viciadas e conservadoras do veículo.
Foi uma surpresa muito boa ver a Maria do Rosário ser questionada respeito da militância do PT, que não
está mais nas ruas. ZH pergunta “Onde está a militância do PT?”. Rosário enrola. ZH insiste: “Mas por que não existe mais o mar de bandeiras que caracterizava as eleições passadas?”. Esse é tipo de atitude digna de jornalista preparado e que não se acanha de perguntar em cima de respostas que não satisfazem o leitor.
Também foi bonito ver ZH perguntando à Manuela D’Ávila “O que o PC do B ainda tem de comunista?”. Manu responde que tem ideologia, que o partido acredita no bem comum, essas coisas. ZH não se contenta e joga: “Mas não é o que todos os partidos defedem?”.
Aconteceram outros casos semelhates, com a Luciana Genro, por exemplo, sendo questinada sobre as doações da Gerdau. Mas é bom deixar claro que essa insistência nas perguntas não se estendeu a todos os candidatos. A entrevista com Fogaça foi branda, no entanto, dizer se isso foi ou não pré-determinado já é uma especulação na qual não me atrevo a aprofundar aqui. Pelo menos não neste momento.
O que disse anteriormente a respeito das estruturas viciadas e conservadoras do Grupo é outro papo, e não se trata de especulação, está bem explícito. Quer dizer, explícito para quem quiser enxergar. Por exemplo, na entrevista com Fogaça, o repórter pergunta “Um dia teremos uma cidade sem pichações?”. Na boa, eu pelo menos não quero uma cidade sem pichação, acho mais é que temos que tomar o espaço público e transformá-lo, nem que seja escrevendo o nome da namorada no muro do vizinho. E, pode acreditar, não é apenas eu que penso assim. Não estou dizendo aqui que tenho razão ou que esta seja uma discussão simples, estou apenas dizendo que é inadmissível um veículo formador de opinião não respeitar ou não querer enxergar além do seu umbigo e de suas próprias opiniões. Poderia pelo menos reformular a questão em “O que o senhor acha das pichações?”, já seria menos mal.
Visualiazamos isso também na pergunta de Fernanda Zaffari à Manuela D’Ávilla: “O que você diz para o jovem que não acredita em política?”. Atrás da pergunta percebemos uma convicção de que só a política eleitoral e partidária pode ser chamada de “política”. Será que o tal “jovem” não está fazendo política ao baixar mp3 de graça e distribuir pros camaradas no colégio? Ou então ao pichar o muro aquele que o repórter quer limpar? Mais uma vez: pode dizer que eu não tenho razão, mas não faça o leitor não ter o previlégio desta dúvida.
Não seria um espetáculo com placar, olés, avalanches e show do rei do brega; mas já seria bem melhor do que é.
Postado por Ale Lucchese

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