Foi Pedro Cardoso quem jogou ao ar lotes e lotes de calcinhas e cuecas para vestir os atores do cinema brasileiro. As editorias de cultura correram até o interruptor e fizeram girar rapidamente as pás de seus gigantescos – e até então dormentes – ventiladores. E agora estão todos juntando as roupas íntimas, nem que seja para atear fogo em jocosas fogueirinhas.
Popular pelo papel de Agostinho Carrara no seriado “A grande Família”, Cardoso expôs seu manifesto contra a nudez em discurso no Festival do Rio, durante a semana passada. Entre outras coisas, disse que a nudez é exigência de pornografia e não de cinema, e que os diretores e produtores de hoje abusam dela apenas para fazer bilheterias. Exagero? Talvez. Mas de alguma forma despertou um tema pouco trabalhado na mídia: o clichê de que “filme brasileiro é tudo sem-vergonhice e mulher pelada”.
Aqui na província, fiquei sabendo da discussão apenas dia 13 de outubro, através do Segundo Caderno do jornal Zero Hora (aqui). Mas descobri pela internet que a Folha de São Paulo já tinha publicado alguma coisa sobre o fato no dia 10, com suporte maior também no dia 13. Mas esse atraso foi o menor dos problemas das coberturas.
A maioria – dizer “todas” seria meio arriscado, mas acredito estar bem próximo disso – das matérias que você encontrar trará um razoável número de fontes (algumas repetidas) dando seu parecer sobre o tema. Depois de ler os depoimentos jogados parágrafo abaixo de parágrafo, a única certeza que se tem é de que ler uma tabela do excel seria bem mais excitante do que ler as matérias da ZH, da Folha e de outros veículos que visivelmente as copiaram.
Cara, mas afinal, o que está acontecendo? Isso é moralismo? E se é, de onde vem? E mais: Pedro Cardoso afirma que diretores fazem sessões privês para amigos com materiais das filmagens que são cortados dos
filmes. Isso procede? Quem faz isso? As atrizes se sentem mesmo desrespeitadas se isso acontece? Muitas perguntas sem resposta. O jornalismo cultural poderia ser um pouco mais investigativo e um pouco menos declaratório.
Ficar sem roupa é apenas um dos recursos banalizantes do corpo humano dos quais a indústria cultural faz uso para vender seus produtos. Talvez o mais suave deles. Por que não aproveitar o momento para questionar esses recursos? A quem interessa perder o momento para trazer algo realmente interessante? Por que não uma – pelo menos uma, umazinha – reportagem de verdade sobre o assunto?
Postado por Ale Lucchese

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