Um texto emotivo, daqueles que arrepiam a gente logo no início, abriu a Reportagem Especial da Zero Hora de hoje. Essa carga de emoção pode prejudicar a cobertura jornalística, mas nesse caso não tem muito como fugir dela. É claro, deve-se falar das causas, das conseqüências, do passado, do futuro. Mas a abertura vai inevitavelmente ser carregada de emoção: no fechamento da edição já eram 109 mortes. Ele intercala diversas histórias de vítimas, de desabrigados, o que dá esse caráter mais sentimental, mas que confunde um pouco até que conheçamos melhor os personagens. A vantagem é que o texto faz com que insistamos na leitura. É como em um romance: no fim, já sabemos quem é quem e fica fácil de entendermos. O texto é atraente e fácil. E repito, comovente. No alto das duas primeiras páginas aparece uma espécie de uma retrospectiva dia a dia das mortes confirmadas. Parece meio mórbido – e de fato é -, mas como tratar uma situação assim?
A matéria é a maior de todas – realmente grande para os padrões jornalísticos atuais -, e quem a assina é Carlos Etchichury e Itamar Melo. Eles dão uma idéia muito clara de como evoluiu a coisa ao longo do tempo. Entrevistam uma profissional da Defesa Civil e não só colocaram o seu relato dos acontecimentos, mas também contaram um pouco de sua história e de como ela foi afetada pela tragédia. Termina-se de ler com uma visão muito clara e estarrecedora do que aconteceu por lá. Nós sentimos a tragédia. Terminamos tristes.
A segunda matéria também é grande, embora não tanto quanto a primeira. Ela não é assinada, mas não é difícil descobrir que é a continuação do texto anterior. É como se a história fosse escrita em capítulos. Ali, o capítulo final, sabemos como terminou a história dos nossos personagens. O título chama muito para a leitura: “Acabou, Chico. Todos morreram”. Dessa vez, as histórias já conhecidas pelo leitor são intercaladas com as versões oficiais dos fatos. A visita de Lula ao estado aparece nesse texto. O tom ainda é de uma tristeza profunda e, mesmo com esses fatores teoricamente mais frios, o texto continua extremamente humano.
Ao sabermos da vida de algumas pessoas, a tragédia não é mais um número. Saber que uma criança de quatro anos morreu comove, mas saber que a menina Ester, de quatro anos, que ia para o colégio ano que vem, que brincava com o irmão, morreu, dá uma idéia muito maior de que cada um dos mortos e desabrigados têm – ou tinham – uma vida.
Para quebrar um pouco esse clima tão pesado deixado pelas duas primeiras matérias, a terceira trata de aspectos um pouco mais técnicos. É mais próxima porque trata do Rio Grande do Sul, mas é mais distante porque fala de planejamento e números, e não de pessoas. Ainda assim, esses dados também são importantes, e muito. No caso, a idéia foi boa: mostrar de que forma uma tragédia desse nível teria atingido o nosso estado, avaliar se estamos preparados para isso. Ela responde os anseios dos leitores que se preocupam com uma possível ocorrência na porta de sua casa, que atinja a sua família. Marcelo Gonzatto assina esse texto, que é mais curto, mas cumpre o seu papel. O que faltou nesse mesmo tipo de abordagem foi uma avaliação da situação de Santa Catarina. Essa é uma fal
ha grave – não da matéria, mas de toda a Reportagem Especial -, que prejudica bastante o resto do trabalho. Faltou avaliar como estava preparado o estado, suas estratégias de prevenção, o mapeamento de suas áreas de risco etc. É claro que uma catástrofe natural não é culpa de ninguém, mas a forma de ação quando se prevê a chegada da catástrofe e depois que ela já veio é muito importante para evitar uma tragédia maior. E saber como estava a situação lá faz com que possamos atribuir a responsabilidade a quem lhe é de direito.
O mais perto que se chegou disso foi na matéria “Defesa Civil confirma 109 mortes”, mas ainda assim faltou bastante para uma abordagem realmente ampla e eficiente. Esse texto dá uma geral do que a Defesa Civil está fazendo, mas não chega nem perto de mostrar as reais condições do órgão e as condições do estado em termos de prevenção, planos de ação, resgates, alojamentos.
A matéria seguinte, um texto curtinho, “Chuva no início do sábado” não diz nada. A idéia era só mostrar como anda o tempo por lá agora, mas nem nisso foi satisfatório. O box que acompanha o texto não tem muito a ver com o texto em si. Explica o que são os desabamentos, como acontecem, como evitá-los e o que se pode fazer se eles estão por vir. É um mini-guia, não muito necessário para os leitores da Zero Hora, mas que satisfaz as pessoas que têm medo de que a tragédia possa chegar por essas paragens. Em seguida, um texto menor ainda, de serviço, sobre um hospital que voltou a funcionar. Nada a destacar jornalisticamente.
Para finalizar, a Zero Hora publicou um infográfico (para
acessar a versão online, é preciso clicar no link do multimídia no fim do texto, que abre um pdf) explicando passo a passo o que aconteceu em Santa Catarina. Ali estão os aspectos ambientais, um mapa com o número de vítimas em cada cidade, o nível das águas, um mini-calendário dos acontecimentos e a situação das rodovias. Tudo bem resumido e bem didático.
A cobertura teve algumas falhas bem importantes. Destaco a falta de avaliação da situação dos governos e da capacidade de cada cidade e do estado como um todo de lidar com uma catástrofe. Tudo bem que uma tragédia desse porte nunca acontecera por lá, mas até onde eles estavam preparados para ir? Ainda assim, os dois primeiros textos – disparado os melhores – salvaram a cobertura pela sua grande qualidade. Eles foram trabalhados com cuidado, nota-se. E funcionam muito bem no seu propósito, que é o de mostrar claramente o que está acontecendo em Santa Catarina a partir de algumas histórias-exemplo.
Postado por Cris Rodrigues




















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