O Jornal Nacional iniciou hoje uma série de reportagens que visa fazer uma radiografia da violência no Brasil, tendo sempre em vista a desnaturalização do problema, e considerando de antemão que ela tem sido vista pela sociedade cada vez mais como uma banalidade. Esse é um bom ponto de partida, sem dúvida. A banalização da violência parece-me – não sou um especialista no assunto, é bom deixar claro – o principal problema, causador da profusão do que aparece na vida prática do brasileiro.
As reportagens são de Brás Vieira e Delis Ortiz. Hoje, foi apenas a segunda repórter, competente como sempre. O começo da matéria de quatro minutos foi uma geral do tamanho da complicação no país. Mostrou que a violência não está só nas grandes tragédias, sempre lembradas, mas nas pequenas atitudes cotidianas. O confrontamento das duas situações foi muito bem feito, e conseguiu mostrar que estes fatos aparentemente banais são também parte da questão, uma das partes iniciais. Os números que vieram a seguir, de 50 mil mortes violentas em 2006, contra 34 mil no Iraque, deram a dimensão da coisa toda. Um consultor de segurança pública explicou ainda que o Brasil tem 3% da população mundial, e entre 10 e 12% dos assassinatos.
A variedade de fontes, inclusive, merece outro elogio. Além desse consultor, ainda apareceram na matéria, sempre trazendo informações relevantes, um psicólogo, alguns populares, um promotor do Ministério Público e uma pesquisadora do Centro de Estudos sobre Bullying. Bullying foi, após esta panorâmica de início de série, o foco da reportagem de Delis Ortiz.
A repórter foi a Governador Valadares, Minas Gerais, e, no primeiro capítulo da série de reportagens, mostrou o nascedouro da violência entre adultos: a violência infantil. Tomando um caso de brincadeira violenta em uma escola particular da cidade como fio condutor, Delis falou dos exageros cometidos por crianças violentas, e da falta de preparo dos profissionais na hora de lidar com esses casos. A matéria pediu apoio às vítimas e punição aos agressores. Porém, não fala de como deve ser feita essa punição, faltando ao serviço de informar. Falando de crianças e adolescentes, nesse caso, o que se sugere? Prisão? É claro que não. Expulsão dos colégios? De pouco adianta. É preciso, então, explicar que tipo de punição deve ser adotada – tratamentos psicológicos, quem sabe.
Outra falha da reportagem é ater-se a um caso de classe média, sem lembrar que a violência entre crianças menos abastadas, faveladas, por exemplo, têm ainda muitos outros fatores, ligados a problemas familiares causados pela falta da presença do Estado. Esse, obviamente, não é o caso das crianças que freqüentam colégios particulares. Talvez, espero, esse tema – as causas primárias da violência, relacionadas ao Estado – seja abordado em outra das matérias.
Apesar dessas falhas, a reportagem foi muito boa, como sempre que Delis Ortiz está lá. O mote, a banalização da violência, é uma sacada brilhante do JN. Faltava alguém abordar com seriedade e profundidade esse ângulo da questão. Vejamos os capítulos seguintes.
* Bem fraca a cobertura da Folha de São Paulo do título brasileiro do São Paulo. Focos dispersos, textos cansativos, nem a tradicional riqueza de imagens da Editoria de Esporte da Folha esteve lá. Faltou empolgação na cobertura. Além disso, algumas informações erradas sobre o que aconteceu em Porto Alegre, problema recorrente nas redações esportivas do centro do país.
* Grande idéia da Zero Hora de acompanhar o trajeto de galões de água doados por um gaúcho para Santa Catarina. O tipo dme reportagem que verdadeiramente estimula as doações, prestando, assim, um serviço social, função básica do jornalismo.
Postado por Alexandre Haubrich