Posts de Dezembro, 2008

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Uma pausa para as festas

20 Dezembro 2008

Este é o post de número 200, nesse ano e um pouco de Jornalismo B. E é o último post de 2008. Entramos em um rápido recesso, a partir daqui, até dia 5 de janeiro, quando voltaremos com um post especial sobre a cobertura do cinqüentenário da Revolução Cubana.

Encerramos agora um ano muito bom para o blog. Nossos leitores se multiplicaram, a fidelidade deles (vocês) aos nossos textos também. A participação, através dos comentários, também só faz aumentar. Dessa forma, nos aproximamos mais alguns milímetros do objetivo de nosso trabalho: colocar em discussão o jornalismo brasileiro, impulsionar o debate, a reflexão, o questionamento sobre o que nossa mídia tem de bom e de ruim.

A partir do próximo ano, o Jornalismo B aparecerá com mais novidades. O aprimoramento do que fazemos é indispensável, e depende também da participação cada vez mais intensa dos leitores. Seguimos no caminho de discutir o jornalismo do nosso país e, através da postura crítica, contribuir de alguma forma para uma sociedade mais consciente.

Aproveito para lembrar de nossa comunidade no Orkut, na qual faremos, a partir do ano que vem, promoções com os leitores do Jornalismo B.

Boas festas e até 5 de janeiro!

Postado por Os Editores

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O jornalismo impresso está em crise

18 Dezembro 2008

new-york-times-2004Canais de notícias 24 horas norte-americanos registraram recordes de audiência. A internet mostrou-se importantíssima na eleição do futuro presidente dos EUA, Barack Obama. É o que informa reportagem da revista Carta Capital dessa semana.

O problema é o que está acontecendo com as rádios e, principalmente, com jornais e revistas. O título da matéria é “A crise impressa”, o que já dá uma idéia da dimensão da coisa. A crise vai tão longe que atinge o The New York Times, principal jornal do mundo, que hipotecou seu prédio. Pelo menos ele continua funcionando. A Tribune Company, do Los Angeles Times e do Chicago Tribune, pediu falência. A corporação pública de rádio dos EUA, a NPR, fechou duas timeemissoras e cortou pessoal do resto.

Com as revistas a situação não é muito mais animadora. A Newsweek prepara uma remodelação em que vai diminuir o número de páginas e o de reportagens, que gastam mais, e dar mais espaço para artigos de opinião e fotos. Ela já perdeu 21% dos anúncios, enquanto a Time já não conta com 17% dos anunciantes que tinha um ano atrás. Algumas publicações estão tendo relativo sucesso fazendo seus leitores migrarem, aos poucos, para a internet. É o caso do Washington Post. Alguns estão investindo em reportagens exclusivas para o meio eletrônico, e já contam com um Prêmio Pulitzer para elas.

the_washington_post3Mas todos esses exemplos são um reflexo de um fenômeno que vem alarmando jornalistas no mundo inteiro. O dono do Pasadena Now, um jornal local de Los Angeles, James Macpherson, afirmou que “a mídia impressa dos EUA vive seu momento GM, com a agravante de que não haverá plano de resgate do governo”. Um relatório divulgado pela firma Fitch Ratings diz que “diversas cidades americanas perderão seus diários até 2010, com o fechamento de jornais e a debacle de conglomerados de mídia impressa por conta de um aumento nas quedas de circulação e publicidade ao mesmo tempo que os custos de produção tendem a aumentar”. A previsão é de que os jornais locais sejam os primeiros a sentir o baque. O problema é que até os grandes já estão sentindo, então podemos acreditar que a coisa está preta.

Essa crise nas publicações prejudica o jornalismo sério, investigativo, e traz grandes prejuízos para a sociedade. Muitos setores da sociedade ainda vêem o jornalismo como não totalmente necessário. Em momento de crise, se corta no supérfluo, ou seja, na comunicação. Diminuem os anunciantes, as pessoas compram menos jornal e ficamos sem informação de qualidade, um direito humano fundamental. A questão agora é avaliar de que forma essa crise vai atingir o jornalismo brasileiro e o do resto do mundo. A esperança é que, por mais improvável que seja, a crise diminua a força dos grandes meios de comunicação e abra espaço para os menores, multiplicando as vozes.

Postado por Cris Rodrigues

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Esquecendo o Barão

16 Dezembro 2008

aaaO Barão de Itararé é uma dessas figuras históricas simpáticas, folclóricas, que despertam curiosidade. Mas sei lá por que está tão distanciado das nossas referências de jornalismo. Nunca estudei o Barão em aula alguma sobre jornalismo, lembro vagamente de ter ouvido alguma menção numa palestra ou coisa assim, mas estou ciente de que posso estar alucinando. O fato é que este é uma das únicas grandes referências de jornalismo de humor brasileiras, e que infelizmente anda meio subjugada pela nossa história.

Apparício Torelly, como sua mãe achava que seria conhecido, nasceu em Rio Grande, no final do século dezenove. Tentou cursar medicina, desistiu e se mandou para o Rio de Janeiro na década de vinte. “Tudo, de varrer a redação a dirigir o jornal. Creio não haver muita diferença”, teria respondido ele a Irineu Marinho quando este lhe perguntou o que poderia fazer pelo jornal O Globo quando foi lá pedir emprego. Dizem que foi imediatamente contratado. É óbvio que não acredito nessa história, mas ela ilustra o quão mitológica é a figura do Barão.

Aliás, o apelido pelo qual Torelly ficou conhecido também vem de uma de suas peripécias. A batalha de Itararé seria o ápice da “Revolução de 30″, se acaso tivesse acontecido. Seria o esperado choque entre os legalistas de Washington Luís e os revolucionários de Getúlio Vargas. O barão narra que todo mundo fez um acordo e se deu bem onde era pra dar briga, e só ele ficou chupando dedo. Então resolveu dar-se o título de Duque de Itararé em homenagem ao “confronto”. Mais tarde, “como prova de modéstia”, rebaixou-se a Barão.

Enfim, há mihares de historietas envolvendo o homem. Foi perseguido e tarareapreso, lutou contra o nazi-facismo,  abriu e fechou várias vezes o próprio jornal, colaborou em outras publicações, foi verador pelo PCB no Rio de Janeiro…

Há também mihares de trocadilhos infames e piadas sem graça criadas por ele. Mas o que mais espanta é a falta de referências, há pouquíssimas interpretações que possam nos levar no caminho para entender até quanto o homem foi infame ou genial. Ou se o truque genial era justamente ser infame. Padecemos de um esquecimento generalizado, falta memória para resgatar. Temos calhamaços traduzidos, e não temos nossas próprias traduções.

Para quem quiser conhecer o Barão, ainda que de maneira super superficial, clique aqui e aqui.

Postado por Ale Lucchese

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Denunciando o trabalho escravo

14 Dezembro 2008

boliviaO Sportv Repórter da última semana trouxe uma grande reportagem sobre um tema invisível. Com narração de Sérgio Chapelin, o mesmo do Globo Repórter – um craque da narração em off -, e reportagem de Lúcio Castro, outro craque, o programa denunciou a exploração de imigrantes bolivianos como escravos no Brasil e na Argentina. O que isso tem a ver com esporte? É que a única brecha de vida normal a que esses imigrantes escravos têm direito é jogar uma partida de futebol no domingo, como parte de uma liga organizada pelos próprios imigrantes. Acontece exatamente da mesma forma no Brasil e na Argentina.

Em quase uma hora de programa, a variedade e qualidade de fontes foi algo impressionante. Passando por Eduardo Galeano, por assistentes sociais, obviamente por imigrantes, chegando a advogados, jornalistas…

O primeiro bloco foi feito no Brasil, mostrando a situação desses imigrantes quando já chegaram por aqui, mais especificamente em São Paulo. Convidados, através de anúncios, a trabalhar em oficinas de costura por salários muito maiores que o que recebem n Bolívia, são trancafiados ao chegarem aqui, não têm liberdade para sair, trabalham das 7 da manhã à meia noite, e nunca vêem os salários prometidos. O bloco é todo articulado por depoimentos de duas imigrantes, a mais presente delas chamada Maria Eugênia. A voz do repórter mal aparece, o foco é todo na figura sofrida que narra sua história com dor e coragem. A edição é muito bem feita, e o depoimento fica, ao mesmo tempo, tocante, forte e claro. O telespectador consegue visualizar claramente a história.

No segundo bloco, Lúcio de Castro vai a Bolívia, entender o início de tudo isso. Conversa com homens prestes a embarcar para o Brasil e, com um microfone escondido e a câmera longe, pergunta a uma organizadora de uma caravana como é o esquema para chegar ao Brasil, tanto para imigrantes ilegais como para legais.

bolivia2Depois, é a vez da Argentina. O mesmo repórter foi ao país vizinho acompanhar a situação dos imigrantes bolivianos que estão lá na mesma situação que os de cá. Tudo isso entremeado pelas partidas de futebol, pelas histórias pessoais de alguns imigrantes, por uma excelente trilha sonora – parte fundamental do clima da reportagem – e por imagens que complementam esse clima.

Alguns problemas, obviamente, o programa teve. As partidas de futebol, por exemplo, caíram de pára-quedas algumas vezes na história. Não houve explicação sobre como é permitido que os imigrantes saiam para jogar, o porquê de eles não fugirem nessas oportunidades, etc. Em alguns momentos parece que o futebol aparece simplesmente para justificar o programa ser veiculado no Sportv. Outro problema é a falta de soluções claras, pouco se fala dos motivos que levam a essa situação tão triste ou do que pode ser feito – e quem deve fazê-lo – para mudar isso.

Fora isso, o grande mérito desse Sportv Repórter – entre outros muitos méritos, fique claro – é a denúncia. Infelizmente, esse é um assunto que nunca aparece na mídia, exceto quando grandes tragédias acontecem – caso de um incêndio em uma oficina de costura argentina, onde morreram crianças que estavam presas trabalhando. O Sportv Repórter cumpriu uma função – de denúncia, de grito – que todo programa jornalístico deveria cumprir, e com qualidade.

* Na última semana, o Jornalismo B foi citado no Observatório de Imprensa, em um artigo de Ronaldo Martins Botelho. O assunto do qual ele trata será comentado aqui mais para a frente, mas agradecemos desde já a referência.

* A partir do dia 20 de dezembro, o Jornalismo B entra em um rápido recesso de fim de ano, que durará até o dia 5 de janeiro, quando voltaremos com um post especial sobre a cobertura dos 50 anos da Revolução Cubana.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornal Nacional e a violência (2)

12 Dezembro 2008

As últimas duas reportagens da série sobre a violência, feita pela repórter Delis Ortiz ao Jornal Nacional e cuja primeira reportagem foi abordada pelo Jornalismo B, continuam com a mesma edição ágil e atraente, impactante. Como já dito aqui, a primeira parte foi muito bem trabalhada, abordando a banalização da violência no cotidiano e o Bullying, agressão física, verbal ou psicológica feita por crianças a outras crianças.

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Na terça-feira, segundo dia, a repórter busca as causas da violência. Ela mostra que a tendência a atos agressivos vem da nossa origem animal, mas deixa claro que não é só isso. Avalia os aspectos genéticos e sociais, trabalhando com toda a complexidade que o tema exige. Mostra que, em São Paulo, apenas 1% dos criminosos têm doenças mentais. O crack é apontado como outro fator causador da violência, mas de forma muito mais ampla. Delis Ortiz não fala abertamente, mas fica implícito que a violência é um sintoma dos tempos modernos.

Mas ela instiga a sociedade a assumir sua responsabilidade. Afirma que a maioria dos casos está ligada à educação. Mostra duas situações diferentes e o papel dos pais dos agressores em cada uma. Na primeira, o pai acha um absurdo a prisão do filho por espancar uma empregada doméstica. Exatamente, para ele é a prisão do agressor que não está certa, não o ato agressivo. No outro caso, o pai não quis saber de pagar fiança para não “passar a mão na cabeça” do rapaz. De um extremo a outro, Delis deixa claro o papel da família na explosão da violência no Brasil. Mostra como a inversão de valores causa tantas mortes. Faz o que o jornalismo deveria sempre fazer: informar, sim, mas fazer refletir, tentar mudar a sociedade.

“Se fossem cumpridos todos os mandados de prisão no país, haveria o dobro de gente na cadeia.” É com essa linguagem simples e direta que Delis Ortiz continua chocando os telespectadores na última reportagem da série. Essa, sobre impunidade. Todos os dados da repórter são sobre São Paulo, mas servem de exemplo para entender bem a dimensão da coisa. E, afinal de contas, representam o que acontece em todo o país. Ela estarrece ao mostrar que apenas 1% das ocorrências policiais da zona sudoeste da maior cidade do país foi a julgamento. Quer dizer, com dados bem concretos, a repórter deixa claro que tem alguma coisa errada.

brasil8Delis mostra as conseqüências da falta de impunidade: crescimento da violência e medo da população, que se tranca dentro de suas casas. Outro fator importante é o papel do sistema carcerário, a importância não apenas da punição, mas da recuperação do criminoso.

Nas três reportagens, chama a atenção a grande quantidade de fontes. Apenas uma vez uma fonte é repetidada em dois dias diferentes. Mas não só a quantidade como a variedade devem ser exaltadas. Delis conversou com pessoas comuns, especialistas de diversas áreas, mães de vítimas, pais de criminosos, ex-presidiários. Só assim é possível fazer reportagens com profundidade e qualidade.

Mesmo em três reportagens de cerca de quatro minutos, é impossível abranger com profundidade todos os aspectos de um tema. Delis escolheu mostrar como a sociedade está violenta de um modo geral, quais são as causas desse comportamento e como a impunidade contribui para piorar o problema. Dessa forma, ela não isolou a responsabilidade no governo ou em determinados setores, ela jogos para as mãos de todos. Faltou, porém, um aspecto sabidamente importante, que mereceria uma quarta reportagem ou que, não sendo possível, deveria ter sido encaixado de alguma forma, com destaque. É a questão da desigualdade social como promotora da criminalidade.

E outra coisa legal. Na globo.com tem um vídeo de pouco mais de um minuto em que a Delis Ortiz explica o que o motivou a fazer a série e os motivos dos temas de cada reportagem. Bacana a iniciativa.

* Saíram os finalistas do 50º Prêmio ARI de Jornalismo. Fora os mais ou menos óbvios, tem umas coisas bizarras. A série Vida de Treinador, de Jones Lopes da Silva, que saiu na Zero Hora em maio e foi criticada pelo Jornalismo B, concorre na categoria Reportagem Esportiva. A também criticada Pampalipto – uma nova paisagem nos campos do Sul, de Elmar Bones na revista Já de abril, concorre na categoria Reportagem Econômica. Detalhe que, apesar de criticada, a reportagem trata do assunto por diversos ângulos, inclusive o social e o ambiental. Eu não a classificaria como econômica. De resto, já se imagina quais vão ser os resultados.

Postado por Cris Rodrigues

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La del pirata cojo

10 Dezembro 2008

09_12_pirataSaiu hoje uma pequena notícia aqui sobre uma rádio fechada no município de Taquara. A matéria fala em rádio “pirata” e em um suposto “dono”. Não encontrei mais informações na internet sobre o caso, mas essa falta de informação também diz muita coisa.

Em primeiro lugar, por que algumas rádios comunitárias podem ser chamadas de “comunitárias” e outras são “piratas”? A rádio pirata, se não for uma falcatrua de zé mané, geralmente é uma rádio comunitária, porém sem outorga – permissão legal para funcionar. A maioria das outorgadas começa justamente na ilegalidade e fica batalhando para ser reconhecida. Ou seja, se você quiser abrir uma rádio no seu bairro, muito dificilmente não vai ficar ilegal por um bom tempo.

Outra coisa, mesmo emissoras dentro da legalidade correm o risco de serem fechadas. A lei trabalha no sentido de não deixar o fenômeno acontecer, e, quando acontece, tenta entravar o funcionamento. Exigências em relação ao alcance do sinal, por exemplo, são muito difícies de contornar, e acabam sendo desculpa para chegarem na estação e lacrarem todo o material.

O governo federal que aí está é o maior perseguidor de rádios comunitárias de toda nossa história. De outro lado, o setor se organiza e tenta tenta aumentar seu espaço: exemplo disso é a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária do RS (Abraço RS), que defende os direitos desses comunicadores e busca o tempo todo melhorar o conteúdo veiculado através de cartilhas e promoção de atividades. Já ouvi falar em conseguir fazer o Estado destinar uma fatia de suas verbas de comunicação para as rádios outorgadas. Acho bem justo, por que a RBS pode receber grana do Banrisul e a rádio que eu ouço não? Mas essa vai ser uma briga que ainda queremos ver.

O espectro de ondas para o rádio é um bem público. Em tese, não poderíamos ter “donos”. Se alguma comunitária tiver dono, sim, é falcatrua. Agora, o que dizer de todas as rádios comerciais por aí, todas elas com dono? Qual é o policial de Taquara que vai fechá-las?

*Esse nominho “comunitária” é todo politicamente correto. Sou muito mais pelo “pirata”. Nós vamos invadir sua praia!

postado por Ale Lucchese

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Jornal Nacional e a violência

8 Dezembro 2008

ato-violencia-poster01O Jornal Nacional iniciou hoje uma série de reportagens que visa fazer uma radiografia da violência no Brasil, tendo sempre em vista a desnaturalização do problema, e considerando de antemão que ela tem sido vista pela sociedade cada vez mais como uma banalidade. Esse é um bom ponto de partida, sem dúvida. A banalização da violência parece-me – não sou um especialista no assunto, é bom deixar claro – o principal problema, causador da profusão do que aparece na vida prática do brasileiro.

As reportagens são de Brás Vieira e Delis Ortiz. Hoje, foi apenas a segunda repórter, competente como sempre. O começo da matéria de quatro minutos foi uma geral do tamanho da complicação no país. Mostrou que a violência não está só nas grandes tragédias, sempre lembradas, mas nas pequenas atitudes cotidianas. O confrontamento das duas situações foi muito bem feito, e conseguiu mostrar que estes fatos aparentemente banais são também parte da questão, uma das partes iniciais. Os números que vieram a seguir, de 50 mil mortes violentas em 2006, contra 34 mil no Iraque, deram a dimensão da coisa toda. Um consultor de segurança pública explicou ainda que o Brasil tem 3% da população mundial, e entre 10 e 12% dos assassinatos.

violenciaA variedade de fontes, inclusive, merece outro elogio. Além desse consultor, ainda apareceram na matéria, sempre trazendo informações relevantes, um psicólogo, alguns populares, um promotor do Ministério Público e uma pesquisadora do Centro de Estudos sobre Bullying. Bullying foi, após esta panorâmica de início de série, o foco da reportagem de Delis Ortiz.

A repórter foi a Governador Valadares, Minas Gerais, e, no primeiro capítulo da série de reportagens, mostrou o nascedouro da violência entre adultos: a violência infantil. Tomando um caso de brincadeira violenta em uma escola particular da cidade como fio condutor, Delis falou dos exageros cometidos por crianças violentas, e da falta de preparo dos profissionais na hora de lidar com esses casos. A matéria pediu apoio às vítimas e punição aos agressores. Porém, não fala de como deve ser feita essa punição, faltando ao serviço de informar. Falando de crianças e adolescentes, nesse caso, o que se sugere? Prisão? É claro que não. Expulsão dos colégios? De pouco adianta. É preciso, então, explicar que tipo de punição deve ser adotada – tratamentos psicológicos, quem sabe.

Outra falha da reportagem é ater-se a um caso de classe média, sem lembrar que a violência entre crianças menos abastadas, faveladas, por exemplo, têm ainda muitos outros fatores, ligados a problemas familiares causados pela falta da presença do Estado. Esse, obviamente, não é o caso das crianças que freqüentam colégios particulares. Talvez, espero, esse tema – as causas primárias da violência, relacionadas ao Estado – seja abordado em outra das matérias.

Apesar dessas falhas, a reportagem foi muito boa, como sempre que Delis Ortiz está lá. O mote, a banalização da violência, é uma sacada brilhante do JN. Faltava alguém abordar com seriedade e profundidade esse ângulo da questão. Vejamos os capítulos seguintes.

* Bem fraca a cobertura da Folha de São Paulo do título brasileiro do São Paulo. Focos dispersos, textos cansativos, nem a tradicional riqueza de imagens da Editoria de Esporte da Folha esteve lá. Faltou empolgação na cobertura. Além disso, algumas informações erradas sobre o que aconteceu em Porto Alegre, problema recorrente nas redações esportivas do centro do país.

* Grande idéia da Zero Hora de acompanhar o trajeto de galões de água doados por um gaúcho para Santa Catarina. O tipo dme reportagem que verdadeiramente estimula as doações, prestando, assim, um serviço social, função básica do jornalismo.

Postado por Alexandre Haubrich

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O maior da América Latina

6 Dezembro 2008

folhaTá lá, bem na capa: 2.670.250 exemplares. O semanário Folha Universal é o jornal de maior circulação da América Latina. Você não conhece? Bem, te apresento. Já conhece? Fica por aqui igual, é sempre boa a companhia.

A Folha universal (FU), já tem 16 anos de história, e até coleciona alguns bons causos para contar, como o processo que tomou da apresentadora Xuxa pela publicação de uma matéria sobre seu suposto pacto com o tinhoso. Acho bacana essas tretas, mas só cito isso para dar uma idéia de como a FU pode ser combativa, às vezes contra a Rede Globo, às vezes promovendo a Record – não é segredo que os pastores da Universal são donos desta última. Mas o jornal também atua em outra frente: provoca e põe abaixo certas tabus católicos.

Na edição dessa semana que passou, é bem fácil perceber isso. Sob um recurso gráfico que diz “é um absurdo!”, aparece a matéria “Opção punida”, que trata de 1,5 mil mulheres que poderão ser processadas no Mato Grosso do Sul por terem praticado aborto. O título já deixa claro que abortar ou não deve ser uma opção, e desce a lenha na polícia que investiga essas mulheres e já indiciou 150 delas. Sem dúvida, é um jornal apaixonado, não banca imparcialidade, assume posturas dignamente. Não há nenhum tipo de provocação direta ao Papa ou instituições que são contra “a opção”, mas, convenhamos, não precisa. A matéria em si já parte do pressuposto de que toda essa gente não merece crédito.

Também há uma matéria sobre o Dia Mundial de Combate à Aids. Como todos os texto do jornal, é bastante simples, dá um apanhado geral e usa de abortomuitos recursos gráficos. Comovente é o mapa com a percentagem de soropositivos nas populações de diferentes regiões do mundo, vale a pena olhar. E o texto trabalha sem pudor algum a necessidade do uso de preservativos: mais uma boa pancadinha no catolicismo.

Tem outras matérias bacanas, nenhum primor, mas não é de se jogar fora. De resto, o jornal tem notas mais curtas, uma padrão meio “almanaque”, com curiosidades, fatos banais mas curiosos que aconteceram pelo mundo. Aliás, deu pra perceber que esta é uma dificuldade editorial: com circulação nacional, tentar abarcar tudo o que aconteceu no Brasil em uma semana dentro de 24 páginas é meio complicado mesmo. Ainda tem o encarte “Folha IURD”, com oito páginas, mas este conta com assuntos mais diretamente ligados à Igreja Universal do Reino de Deus.

Pra quem gosta de reclamar desse mundo machista, a FU também é um prato cheio. Tem uma sessão chamada “olhar feminino”, com receitas e dicas de beleza. Tem só uma página, e metade dela é publicidade.

Enfim, quando você passsar pela frente de uma Igreja Universal, não reprima a curiosidade, o FU custa só um pila. Às vezes eles até distribuem de graça por aí como ação evangelizadora – eu mesmo ganhei o meu da mão de uma senhora simpática, atirado bem tranquilo  num domingo bucólico na Redenção. Pode ser que tu não encontre nada de muito interessante lá dentro, na verdade é bem provável que isso aconteça; mas pelo menos vai sacar o que passa pelos olhos de mais ou menos dez milhões de brasileiros por semana – essa é a estimativa de circulação. Num país tradicionalmete visto como não-leitor, este é um fenômeno interessante de acompanhar.

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Contra o oligopólio

4 Dezembro 2008

rbs_logoParece mentira, mas alguém tomou coragem e vai processar a RBS por oligopólio. Quem traz a notícia é um jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Zero. A matéria é, na verdade, uma entrevista com Celso Tres (em pdf), procurador do Ministério Público Federal em Tubarão (SC), que move a Ação Civil Pública junto com outros procuradores.

Tres conta na entrevista aquilo que nós já sabemos, mas continua sempre do mesmo jeito: a RBS controla, no RS e em SC, “18 emissoras de televisão, dezenas de estações de rádio, uma dezena de jornais”. A propriedade de mais de dois veículos pela mesma pessoa não é permitida, então a RBS se escapa com um jeitinho: cada um na família é dono de uma parte, tudo dentro damonopoly2 lei. O procurador contesta a legalidade dessa situação: “Se é da mesma família e tem a mesma programação é uma fraude ao objetivo da lei. Não teria sentido proibir que alguém seja proprietário de mais de dois meios de comunicação e permitir que esse meio de comunicação transmita a mesma programação, tenha a mesma linha editorial etc”.

Celso Tres coloca a questão da forma como ela deve ser tratada. Não importa quem efetivamente é o dono, quem registrou, importa o conteúdo de cada emissora de TV ou rádio e de cada jornal. Se o conteúdo é o mesmo, é monopólio. Se é o mesmo em todos os veículos importantes do estado, é oligopólio da comunicação. Não parece óbvio? E isso fica muito claro por um aspecto que o procurador nem citou: é só dar uma olhada no ClicRBS, que se descreve como “Portal de conteúdo gaúcho que contempla as subsidiárias da RBS”. Ali há links para os jornais A Notícia, Diário Catarinense, Diário de Santa Maria, Diário Gaúcho, Jornal de SC, Pioneiro e Zgruporbs_aero Hora, além das sete rádios e, em TV, o Canal Rural e um link para a RBS de um modo geral. Além disso, ela se auto-intitula “Grupo RBS”. Grupo! Pra mim isso prova a ilegalidade da coisa.

É interessante que Tres não coloca a responsabilidade apenas na RBS. Ele critica o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), por ter permitido a compra pelo grupo do jornal A Notícia. O CADE também entra como réu na ação, junto com as pessoas físicas da RBS, cada “emissora” e a União.

Fora que a lei manda que haja programação local, mas ela não é cumprida. Portanto, a ação visa pedir que o jornal A Notícia seja repassado pro antigo dono ou vendido para outro; que a RBS só controle duas emissoras; e que se implemente a programação local. Nota-se que a ação não está no âmbito da lei da mídia. A coisa é tão gritante que a RBS vai ser processada por descumprir a lei que regula a atividade da economia de um modo geral, que não permite o oligopólio. Uma fábrica de calçados não pode ter oligopólio, imagina uma empresa de comunicação, que tem influência direta na sociedade.

E ah, é bom deixar claro, o Jornalismo B apóia essa iniciativa, muit6813794_rbs2o antes de ela ser comentada por aí e de ser chamada de autoritária e chavista (lembram de quando o Chávez fechou um canal de TV na Venezuela e foi duramente criticado? A situação era bem parecida) por quem não quer que ela vá a termo.

* Desde a ditadura militar, é a primeira vez que o jornal Tribuna da Imprensa deixa de circular. O motivo alegado é falta de dinheiro para pagar dívidas contraídas em função da perseguição sofrida durante a ditadura. O Tribuna foi fundado em 1949 por Carlos Lacerda e, como o dono, era um ferrenho opositor ao governo de Getúlio Vargas, chegando a pedir sua renúncia pouco antes do suicídio do presidente. No Observatório da Imprensa, o editorial completo, assinado por Hélio Fernandes, de suspensão das atividades. Mais informações são encontradas no Estadão.

Postado por Cris Rodrigues

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Eduardo Galeano em entrevista exclusiva a Globo News

2 Dezembro 2008

galeanoO programa Milênio, da Globo News, entrevista a cada semana uma personalidade importante do pensamento mundial. Um intelectual, pesquisador, e por aí vai. Na noite de ontem, o entrevistado foi o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Já falamos AQUI de uma entrevista que Galeano concedeu a Zero Hora cerca de um mês atrás.

No referido post, eu disse que é fácil entrevistar um gênio como Galeano, que brinca com as palavras com uma facilidade quase risível. Pois a entrevista dele ao Milênio quase me desmentiu. Mais uma vez, Galeano foi brilhante, falou com desenvoltura dos mais diversos assuntos, mas aí já apareceu o primeiro pecado da entrevistadora, a experiente e competente jornalista Elizabeth Carvalho. As perguntas foram muito gerais, fizeram Galeano passar pelos quatro cantos do mundo sem aprofundar-se em nenhum, nenhuma pergunta foi em cima de respostas do entrevistado, Elizabeth pareceu não fugir da pauta um segundo sequer.

Assim como em relação aos locais, o tempo também variou de forma esquizofrênica durante a entrevista. Passado, presente e futuro atropelaram-se, tornando a conversa vazia e efêmera. Algumas perguntas foram também longas em demasiado, a repórter chegou a ler trechos do novo livro de Galeano, Espelhos. E, pior, esses trechos apareceram fora de contexto, o próprio escritor chegou a reclamar disso em determinado momento. Infelizmente, Elizabeth Carvalho, uma repórter experimentada, com cacife, parece não ter se preparado suficientemente para a entrevista, e não aproveitou satisfatoriamente uma grande oportunidade, como uma entrevista com o grande Eduardo Galeano.

A edição também deixou a desejar, com cortes estranhos e abruptos e uma câmera, atrás da repórter, que atrapalhava a visão do telespectador. A Globo News, sempre tão competente, tropeçou. As falas de Galeano, mesmo atrapalhadas por tudo isso, ainda valeram a pena, como sempre.

Postado por Alexandre Haubrich