Posts de Janeiro, 2009

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Um olhar sobre o lado fraco

29 Janeiro 2009

A cobertura da crise econômica mundial pouco tem fugido da mesmice. Uma mesmice que também é importante, fundamental, fique claro. Empresas em dificuldade, pacotes econômicos, projeções, culpados. Em meio a isso tudo, esquece-se, muitas vezes, de pensar como ficam os trabalhadores comuns em meio a toda essa confusão. Os reflexos para o consumidor já começam aos poucos a serem sentidos, mas a imprensa brasileira pouco dá atenção a esse lado da crise – sua face mais tenebrosa e injusta.

Nesta quinta-feira, o jornal O Pioneiro, de Caxias do Sul, fugiu à regra, e trouxe uma reportagem sobre como a derrocada da economia mundial tem afetado os recicladores de lixo na cidade da serra gaúcha.

A repórter Valquíria Vita mostra com clareza, em um texto sério e objetivo, as perdas de postos de trabalho e de renda no setor. Muitos números, preços, comparações, dados, e mesmo assim, graças ao bom texto de Valquíria, o leitor não cansa e, mais, entende. A repórter usa os números como aliados na demonstração do problema, não como base da matéria.

Contrariando a tendência de aumento da preguiça entre os jornalistas durante o verão, Valquíria entrevista diversas fontes, busca a situação de equilibristamais de uma associação de recicladores e do órgão da prefeitura responsável pelo assunto. Traz, ainda, o que a prefeitura pretende fazer para resolver o problema, ou ao menos para diminuir os efeitos da crise.

Na editoria de Economia, Valquíria Vita fez uma reportagem sobre pessoas. Com visão, aguçou o olhar do leitor, obrigou-o a enxergar um lado da crise para o qual pouco se olha. Mais do que os engravatados, quem realmente sofre com qualquer crise econômica são os mais fracos de sempre.

*Imagem de madeiraviva.blogspot.com

Postado por Alexandre Haubrich


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Todo o jornalismo é empresarial

27 Janeiro 2009

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- Ah, você trabalha com jornalismo empresarial, é assessor de imprensa então!?

- Não é bem isso. Eu faço publicações para empresas… pra divulgar o que acontece para o público externo e interno.

- Ah, saquei, tu é tipo um relações públicas então!?

Explicar o que você faz para ganhar o pão às vezes é uma batalha árdua. E irritante. Mas não pensem que era assim comigo. Tirava de letra. Uma vez trabalhava numa pesquisa sobre periódicos científicos. Geralmente tinha que explicar o que era uma pesquisa acadêmica, e depois, aí sim, o que eram os ditos periódicos. Explicar o que fazia no jornalismo empresarial parecia a maior das mumunhas depois desse trampo.

Mas é claro que, como todo bom jornalista, estou mentindo. Era fácil explicar sim, mas só pra esgotar o assunto e cair fora de uma vez, não ficar falando de trabalho nas sagradas horas de folga. Na verdade, quem geralmente estava certo eram meus interlocutores: jornalismo empresarial não deixa de ser relações públicas, mas também não é só isso.

Tudo começa quando uma entidade qualquer, seja  uma empresa, uma federação, uma associação, seja lá o que for, decide fazer uma revista para deixar seus colaboradores e público cientes do que está acontecendo em torno dessa organização. Eles contratam um jornalista, ou uma equipe destes, para fazer o tal material. Mas, vejam como são as coisas, estes caras que encabeçam a organização decidem as pautas junto com estes jornalistas.

Sim, tudo já começa direcionado. Mas termina pior. Termina com a aprovação da dita chefia dizendo: “tá ok, pode levar pra gráfica!”. Tudo bem, nada de mal nisso, é até honesto, já que quem pega para ler uma revista de uma empresa já saca de antemão que aquilo é um olhar filtrado das notícias, direcionado pelas lentes de quem quer valorizar seu grupo. Sim, chega a ser um trabalho quase santo se comparado com os jornais de grande circulação que pregam isenção, imparcialidade e todo aquele blabláblá  que (quase) todo mundo sabe que é impossível de alcançar.

Pois é. Mas não consigo chegar à conclusão de que isso não seja jornalismo. Pelo contrário, percebo uma única possibilidade de conclusão a partir dessas coisas todas: a de que  todo jornalismo é empresarial. Sim, somos meros relações públicas de nossas “tribos”, a gente abre canais sonoros e visuais e audiovisuais para que? Para encher de publicidade da nossa tribo. Lemos o mundo para um público, e colocamos ali todas as subjetividades de nossas tribos.

Talvez exista sim uma “função social” do jornalismo, tal como dar conhecimento dos fatos relevantes à grande população. Mas cada tribo se estapeia pra dar a versão oficial. Todas como grandes empresas, organizações, federações, seja lá o que for. Às vezes falta franqueza para admitir “eu sambo desse lado”, e por isso alguns ficam assim, como anjos apáticos e assexuados, perdendo todo o tempo que têm fingindo não escorregar de um muro de não-vida que simplesmente nunca existiu. Aliás, só para lembrar, anjos também não existem – muitos menos apáticos e assexuados.

Postado por Ale Lucchese

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Contra o quê, cara pálida?

25 Janeiro 2009

tgO cara tem sido um sopro de vida nas páginas cada vez mais viciadas de Zero Hora, e é por isso que já viemos há algum tempo acompanhando os passos de Gabriel Brust (aqui, e aqui) em suas andanças pela editoria de cultura.  Mas parece que não foi só nós que percebemos as flamejantes e iluminadas pegadas: a própria ZH confiou no rapaz e lhe deu capa e duas páginas centrais de seu caderno Cultura para discutir um tema realmente espinhoso – uma suposta tendência gaúcha de ser “do contra”.

Tema espinhoso, subjetivo. Difícil isso dar certo em duas páginas. Fiquei ainda mais certo do desastre quando vi a assinatura da matéria. Lá estava o nome reluzente de Brust. “Ai meu deus, isso é precipitado”, pensei. Estava correto.

O tal texto “Do contra” já nasce derrotado. Afinal, o que é ser “do contra”? A partir de que ponto de vista? É uma pauta que já nasce carregada de juízos de valor. Mas vamos a eles, os principais exemplos de atitudes gaúchas “do contra”  segundo Gabriel Brust, todos rebatidos por este pretensioso blogueiro:

A proposta para revitalizar a área do antigo Estaleiro Só foi rejeitada sem que se aprove uma substituta – a perspectiva é de que permaneça sendo um lamaçal inacessível à população por muitos anos“: cara, em relação a isso, aprovar o projeto seria ir contra a própria lei do município – esta sim seria uma puta atitude “do contra”, ein… e uma proposta substituta simplesmente não foi apresentada pelos empresários donos do pedaço. Por outro lado, se a população tomasse a área que agora é privada para alguma ação de interesse coletivo, a ZH certamente seria a primeira a classificar a atitude que acabaria com o “lamaçal inacessível” em “vandalismo” e “invasão”. Não é ser “do contra”, é falta de opção mesmo.

… a construção de um teatro próprio para a Ospa não sai do papel desde 2002, com adiamentos motivados (…) principalmente pela rejeição de grupos comunitários e movimentos ambientalistas“: há uma hipótese mais palpável do que simplesmente uma vontade em ser “do contra” nesse caso. Música erudita já não faz o mínimo sentido pra tanta gente por aqui, conseguiu se afastar tanto do público. Não adianta citar mutirões europeus para a construção de teatros. Lá talvez essa cultura ainda esteja viva. Aqui não. Não tentem empurrar goela abaixo o que vocês acham que é bom, e ainda reclamar depois que a gente não está feliz por receber.

… a metáfora do balde de caranguejos: quando um tentava sair dele – o que na vida real correspondia a um artista fazer sucesso ou ganhar um reconhecimento além-província –, outro caranguejo logo o puxava para dentro novamente“: esse sentimento de que os artistas locais “nos pertencem”, e um certo sentimento de ciúme quando eles nos escapam, não é exclusividade gaúcha. Mas isso o próprio jornalista descobre no decorrer da matéria. Menos mal.

Enfim, quanto às causas do suposto comportamento “do contra”, temos aí uma lista de achismos. Alguns são mais elaborados, enquanto outros lembram a mais pura filosofia de mesa de bar. Não vale a pena perder tempo com eles.

O que vale mesmo a pena é deixar registrado que aquele rapaz que vinha se destacando nas categorias de base foi jogado direto numa final de campeonato da Série A. E sem nenhum craque com quem pudesse tabelar. “Tu não é bom? então entra e resolve o jogo sozinho”, disse o técnico. Não poderia dar certo. Não deu. Não por falta de talento, e sim por falta de estratégia. Ou quem sabe por desespero de quem não tem mais time pra botar em campo. Esperamos que não tenha sido traumático. E que ainda possamos ver uns bons dribles por aí.

Postado por Ale Lucchese

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De costas para o mundo

23 Janeiro 2009

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O primeiro decreto do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, determinou o fechamento, em até um ano, da prisão de Guantánamo. A repercussão do fato em Zero Hora ocupou metade do espaço da editoria de mundo desta sexta-feira, 23 de janeiro: uma página.

ZH investe pouco em jornalismo internacional. A editoria de mundo é quase sempre relegada a segundo plano. Ganha pouco espaço no jornal e, dessa forma, mesmo os fatos mais relevantes têm suas coberturas feitas apenas no factual, no momentâneo, e muitas vezes atreladas a agências de notícias.

As comemorações dos 50 anos da Revolução Cubana, logo no primeiro dia de 2009, mereceram apenas uma nota no canto de uma página par. Enquanto os principais jornais do país estampavam em suas capas fotos enormes da bárbaria israelense na Faixa de Gaza, Zero Hora trazia fotos sem sal na contracapa e, no miolo do jornal, matérias que, novamente, limitavam-se ao factual e pouco acrescentavam à real compreensão da questão pelo leitor médio. A eleição de Obama foi uma exceção a isso, é verdade, mas nada que anule os outros problemas.  Fique claro que este post não é uma crítica à editoria de mundo de ZH, mas um comentário sobre o pouco espaço e a pouca importância destinada a ela.

Sob a cartola de “Reportagem Especial”, muito raramente aparece uma reportagem internacional, mais raro ainda é que algum repórter seja enviado para fora do Brasil. Não acredito que faltem recursos para tanto. É uma questão de opção editorial, obviamente, e há de ser respeitada. Mas é uma pena que o jornal mais influente do sul do país praticamente ignore o que acontece fora das fronteiras do Brasil. Se já relega a segundo plano – seja isso bom ou ruim – o que acontece além do Rio Grande do Sul, esticar o olhar até um pouco mais longe parece inimaginável, mas não precisa ser, e é uma pena que assim seja por hora.

Postado por Alexandre Haubrich

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A importância do Jornalismo

21 Janeiro 2009

obamaiPensei em escrever hoje uma comparação entre os principais jornais do Brasil na cobertura da posse do Obama. Mas olho pra eles e vejo algumas diferenças na foto, algum tom de manchete mais pra cá, um lead mais pra lá. Mas fora isso está tudo muito igual. Então decidi falar um pouquinho de outra coisa que me chamou a atenção.

Ontem à tarde, eu não tinha acesso à TV a cabo, só aos canais abertos, e olhe lá. Tinha comigo também um rádio, por onde eu já vinha acompanhando a cobertura da posse no carro. Queria ver, ter uma idéia da multidão, enxergar o clima, enfim. Afinal, tudo que o Lasier fazia na Gaúcha era descrever os vestidos. Pra ter esse tipo de cobertura, pelo menos na TV eu enxergo os vestidos. Cheguei bem faceira à frente da TV, eu tinha visto em algum lugar que a SBT e a Band não iam dar muita bola pra cerimônia, então sintonizei na Globo, já reclamando dos outros canais. Coloquei lá e enxerguei a Carolina Dieckmann discutindo a relação com o Erik Marmo. Vale a pena ver de novo.

Tudo bem que a novela deve dar mais audiência e é disso que as emissoras vivem. Mas o episódio serve a uma análise da mídia e a importância que ela dá ao Jornalismo. Quanto mais a um Jornalismo de qualidade. A posse do Obama, independente do que ele fizer daqui pra frente, de sua postura mais ou menos conservadora, é cercada de simbolismos e é de uma importância histórica fundamental. Como andam repetindo por aí, não faz muito tempo que um negro tinha que ceder seu lugar aos brancos nos ônibus. A eleição de um presidente negro, com nome muçulmano, é resultado de muitas transformações sociais, inegáveis. E isso é um prato cheio pro Jornalismo. Isso É Jornalismo, tem que ser tratado de acordo com a sua relevância.

E a Globo estava passando novela na hora do discurso mais comentado dos últimos tempos. O discurso que hoje construiu as cartoon-mediamanchetes de todos os grandes jornais brasileiros. Não há como negar, isso representa que pra Globo a audiência é de fato o único fator a orientar a sua grade de programação, a ponto de ela não poder sacrificar um capítulo de uma novela em um único dia. Infelizmente, é com esse tipo de Jornalismo que temos que lidar no Brasil hoje, porque esse não é um privilégio da Globo (está lá na Zero Hora: Globo, Band, SBT e Record passam flashes da posse e fazem a cobertura apenas nos jornais). Esse é o Jornalismo com o qual lidamos e o qual temos que transformar, para podermos fazer alguma coisa de útil pelas pessoas. Afinal, a função social de cada profissão deve vir em primeiro lugar. Especialmente em uma profissão tão enraizadamente social como essa.

Postado por Cris Rodrigues

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Quando cobertura vira evento

19 Janeiro 2009

circo2Hoje a globo.com publicou aqui uma história mal contada sobre agressões aos jornalistas que cobriam as buscas no templo desmoronado da Igreja Renascer. A matéria fala de um grupo de “supostos fiéis” que teriam erguido o cotovelo contra os jornalistas. Em outras matérias, é possível entender que fiéis e membros da comunidade, de maneira solidária, fizeram de mão dadas um cordão de isolamento para manter longe o trânsito e os jornalistas e enfim deixar os bombeiros trabalharem em paz.

A técnica de narração direta disfarça, mas não consegue esconder uma certa dor no coraçãozinho sensível dos repórteres do G1. Eles foram escorraçados pelas fontes, cadelinhas que geralmente lhe abrem as pernas ao estalar os dedos. Pois bem, dá até pra entender, poque o padrão nunca parece ter sido esse.

Lembremos do mais recente espetáculo jornalístico brasileiro: a transmissão ao vivo do sequestro da menina Eloá. A televisão teve uma participação tão grande que chegou a entrevistar ao vivo o sequestrador no programa A Tarde é Sua, da RedeTV.  Aquilo que deveria ser cobertura acaba se transformando em evento, tudo em nome do única moeda corrente do mercadão: o espetáculo. Se não for circo, não vale nada. Justamente o país da bossa nova e da candura, vai entender…

Na esteira de quem manda e consegue até mudar o horário do futebol pra depois da novela, vêm aqueles que parecem um pouquinho diferente, mas que no final das contas se encantam com o brilho da ilusão de poder docirco1 mesmo jeito. Foi o caso do CQC ao se encantar com o discursinho do candidato a prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, que prometia mudar sua agenda e dar a primeira entrevista depois de eleito aos rapazes de Marcelo Tas. Não deu. Bem feito.

Sim, o CQC lambendo o Eduardo Paes foi importante para cativar o eleitorado mais jovem. Sim, a negociação com o sequestrador da Eloá não seria a mesma se não tivesse toda aquela gentarada em volta e o produtor do A Tarde é Sua ligando para o rapaz como um rockstar. E sim, os jornalistas podem mesmo ter atrapalhado o trabalho dos bombeiros. Se foi mesmo assim, bom terem levado umas joelhadas mesmo. E tomara que o CQC tenha aprendido com a pancada do prefeito, visto que são uma esperança no meio dessa mesmice e caretice toda. E quanto ao A tarde é Sua, bom, desse eu não tenho esperança que tenha aprendido alguma coisa.

Postado por Ale Lucchese

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O caso Cesare Battisti

17 Janeiro 2009

cesare_battisti1A imprensa brasileira mais uma vez está se manifestando sobre um caso polêmico, criando uma opinião, forçando a barra. Agora o alvo da vez é o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o italiano Cesare Battisti, condenado na Itália a prisão perpétua.

A questão é a seguinte: Battisti pertencia a um grupo de esquerda que optou pela luta armada na década de 70. Ele foi acusado de quatro assassinatos, negou todos e foi condenado à revelia. O ex-presidente francês François Mitterrand deu asilo político ao italiano. Com a eleição de Jacques Chirac, Battisti perdeu o asilo e fugiu de novo. Veio parar no Brasil, para quem a Itália pediu sua extradição, negada essa semana.

E o jornalismo com isso? Na hora de escrever uma matéria a respeito, é muito simples, é só contar a história do cara, depois dar voz a ele, ao governo italiano, às supostas vítimas, ao governo brasileiro. Enfim, como em toda boa reportagem, ouvir todos os lados da questão. Acontece que não é isso que é feito por aqui. O asilo político que foi concedido a Cesare Battisti é duramente criticado. Basta entrar no site da Folha de São Paulo e escrever “Cesare Battisti” na ferramenta de busca. A imensa maioria das citações, com exceções, são nesse sentido, criticando a postura do ministro Tarso Genro. Praticamente todos os comentaristas caem em cima de Tarso (aqui um exemplo). Digamos que o cara seja mesmo tudo isso, que assassinou quatro pessoas por motivos pífios. Por que diabos então o ministro negou a extradição? Poucos dizem. Ou melhor, poucos o deixam falar.

O Jornal Nacional, que não tem comentarista, não coloca sua opinião nesses termos, mas deixa implícito que não concorda com a decisão do ministro. Na reportagem de ontem, por exemplo, Ilze Scamparini fala da condenação sem a presença de Battisti, conversa com um italiano que concorda com o asilo político concedido pelo Brasil, mas começa a reportagem e conta o caso através da história de uma vítima da esquerda armada, supostamente atingida por Battisti. Apesar disso, as reportagens de Ilze sobre o caso estão bastante completas, ao contrário da maioria. Poucos são os que explicam de fato o que está acontecendo. É difícil alguém contar a história de Cesare Bettisti. Só vi em a Caros Amigos dizer que os crimes já teriam prescrito hoje em dia. E mesmo ela, que procura aprofundar um pouco mais, carrega de opinião a sua reportagem de dezembro, intitulada “Brasil não deve extraditar Cesare Battisti”.

Quem trabalhou melhor com a história foi a Piauí, que publicou, em agosto de 2007, muito antes que o assunto virasse moda, um perfil enorme do italiano e foi quem melhor lidou com a questão da opinião – a gente sabe que não tem como esquecer o que a gente pensa de uma história na hora de contá-la, mas também sabe que tem que ser o mais fiel possível à verdade factual.

A imprensa brasileira fez com esse caso o mesmo que faz com todos os outros casos polêmicos: assumiu uma posição e defendeu-a de início ao fim, foi superficial, fez panfletagem em vez de jornalismo.

Postado por Cris Rodrigues

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Um diálogo entre o jornalismo brasileiro e o internacional

15 Janeiro 2009

digitalizar0001A revista britânica The Economist publica todo fim de ano uma edição de perspectivas para o ano seguinte, The World in …. No ano passado, ela decidiu publicar uma versão brasileira e, segundo o editorial da revista que chegou às minhas mãos, foi a The Economist que escolheu a Carta Capital como parceira. O resultado é O Mundo em 2009, que começou a ser vendido no Sudeste em dezembro, mas chegou às paragens gaúchas esse mês (não encontrei link para nenhuma das versões).

Das 194 páginas da revista, 26, tirando as de índice, são de responsabilidade da Carta Capital. As páginas são poucas – o que é compreensível, já que só a parte britânica já é enorme – e dedicadas quase que exclusivamente a entrevistas com empresários. Uma pena, poderia ser melhor explorado com textos mais analíticos do cenário político e não só do econômico, com entrevistados da área das humanas, talvez.

Mino Carta escreveu o editorial brasileiro, e afirmou que a parceria aconteceu devido às semelhanças entre as duas revistas: “A primeira diz respeito à prática do melhor jornalismo, baseado na fidelidade canina à verdade factual, no exercício desabrido do espírito crítico e na fiscalização diuturna do poder onde quer que se manifeste. A segunda está na busca de um público capacitado a receber a melhor informação e bem alicerçados elementos de juízo”.

Mesmo depois de todas essas considerações, fica difícil não pensar que uma revista de previsões é meio perfumaria. Não parece uma coisa muito séria ficar adivinhando o que vai acontecer nos próximos 12 meses, como se o jornalista tivesse uma bola de cristal. A questão principal é como fazer isso. No caso em questão, mais do que previsões, são feitas análises. Os jornalistas – tanto os de The Economist quanto os de Carta Capital – baseiam seus textos na situação atual, no que vem acontecendo nos últimos tempos. Com base nessa análise, são feitas projeções de por onde os fatos indicam que vai seguir a política dos países, a economia, o meio ambiente. São indicados caminhos, em suma, e não acontecimentos.

A parte britânica é dividida em regiões do mundo, de forma a explorar os quatro cantos do planeta. Muitos textos, algumas entrevistas e alguns artigos, incluindo um do presidente Lula, na parte de América Latina. Além disso, um resumo da situação política de todos os países do mundo, bem sintético, mas que ajuda a situar o leitor.

É interessante notar que, apesar do orgulho demonstrado por Carta Capital por conta da parceria e da rasgação de seda à revista britânica, ainda sobrou espaço para o tão falado espírito crítico da publicação tupiniquim. Na matéria sobre a América Latina, Antonio Luiz M. C. Costa, editor da Carta, questionou a isenção de Michael Reid, jornalista da The Economist, que prevê o declínio de Hugo Chávez, “como fez na maioria dos especiais de fim de ano”. E continuou: “Qualquer um tem suas prevenções e é difícil impedir que elas turvem sua bola de cristal. Difícil de justificar é a recomendação ‘pode esperar que ele desenterre mais complôs fictícios de golpe’, quando ao menos uma dessas conspirações foi bem real e quase custou a vida ao Comandante e milhares de seus seguidores”. Diante disso, fica ainda melhor de ler a revista inteira, sabendo que a brasileira continua preservando seu modo de analisar e criticar, mesmo quando o alvo é uma parceira bem maior.

Postado por Cris Rodrigues

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Sobre a migração

13 Janeiro 2009

As migrações de pessoas entre os municípios do Rio Grande do Sul e as conseqüências dessa movimentação são o tema de uma série realizada pela Zero Hora que começou domingo e vai até amanhã. O jornal partiu de dados que mostram um encolhimento da maioria das cidades do interior, especialmente as que vivem da agricultura, e o crescimento de alguns polos, notadamente Caxias do Sul, para explorar as causas desse fenômeno e o que ele acarreta. O mote é interessante e pouco abordado de forma aprofundada pela imprensa.

No domingo, Itamar Melo e Sílvia Lisboa descreverem o que está acontecendo, sem maiores análises (AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI). Mas a forma de fazer isso foi criativa: eles embarcaram em um ônibus de Santana do Livramento – cidade que vem perdendo habitantes – a Caxias do Sul – uma das que mais cresce. Contaram a história de vários passageiros, formando um retrato dos migrantes gaúchos. Os que não estavam voltando de visita aos pais, estavam indo visitar os filhos que se mudaram para a Serra. Os textos contam histórias de famílias para ilustrar a situação, enquanto um box dá os dados do fluxo migratório.

No segundo dia da série, os repórteres mostram as perspectivas de quem vive em cidades pequenas que estão cada vez menores (AQUI, AQUI e AQUI). Mostram que eles saem porque não há alternativa na cidade de origem além da roça. E que essas cidades estão ficando cada vez mais abandonadas, com menos gente e com uma população cada vez mais velha.

Hoje o foco está nas cidades que cresceram, de um lado, e nas que encolheram, de outro, e em suas indústrias, na geração – ou não – de emprego (AQUI e AQUI). Na primeira página, conta quais foram as cidades de maior crescimento e dá um panorama de seu setor industrial. Na segunda página, avalia a possibilidade de emprego reduzida a uma ou duas empresas nas cidades pequenas e o impacto do fechamento de algumas fábricas. Mais uma vez, trabalha com os dados, abre o cenário ao leitor, mas não analisa suas conseqüências a longo prazo, para a economia do estado, para o uso da terra e tantos outros fatores. A única coisa que faz é mostrar que as perspectivas são de as pequenas cidades continuarem encolhendo, já que ninguém quer investir em lugares em decadência. O infográfico revela a situação de Turuçu depois que o curtume que empregava a maioria dos habitantes da cidade fechou.

A reportagem de amanhã já está no site e trata da inversão que transformou Porto Alegre em cidade-dormitório para trabalhadores da Região Metropolitana (AQUI). A matéria é interessante, porque muita gente ainda está acostumada com a idéia de que o emprego estava na capital e não ao contrário. A leitura da matéria abre a visão do leitor, mas não acrescenta muitas informações ao cenário de migração do estado e continua não analisando como o estado vai sofrer ou se beneficiar com ela.

A série é rica em mostrar a situação dos migrantes e de suas famílias. De certa forma, até exalta a migração, porque afirma constantemente que nas cidades pequenas não há oportunidades. O que faltou foi mostrar quais as conseqüências dessas migracao12migrações para as cidades e para o estado. Não se fala em um crescimento desenfreado das cidades-polo, que atraem a maioria dos jovens migrantes. Não se fala do prejuízo para a agricultura nem se comenta que a migração do campo para a cidade aconteceu de forma muito intensa no século passado e agora esse fenômeno se repete. Faltou uma abordagem mais ampla, que fugisse apenas de histórias e previsse o que essa migração descontrolada pode acarretar. Faltou, enfim, uma análise do acontecimento, como geralmente acontece nos jornais diários. As reportagens especiais, como essa, deveriam ser o espaço onde os jornalistas se permitissem fazer um aprofundamento maior dos temas. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

Postado por Cris Rodrigues