
Os 50 anos da Revolução Cubana esvaziados por nossos jornais
5 Janeiro 2009
A idéia de um post diferenciado sobre a cobertura, pelos jornais brasileiros, das comemorações dos 50 anos da Revolução Cubana, foi por água abaixo. Foi afundada exatamente pelos principais jornais brasileiros, que aproveitaram para se afundarem juntos. A cobertura foi pífia.
Zero Hora deu uma notinha em um canto de página par. O Jornal do Brasil ficou apenas com uma fotolegenda, também em página par. O Globo publicou uma pequena matéria, bem pequena mesmo. O Estado de São Paulo - sempre o melhor na parte internacional – apareceu com meia página. Apenas a Folha de São Paulo deu um destaque msaior, com uma página quase inteira (uma matéria e um artigo).
Sob o título “Uma discreta festa de 50 anos”, ZH enfatizou a ausência de Fidel Castro nas comemorações, e disse que a causa da comemoração ser tão pequena é resultado da crise que Cuba enfrenta, em especial por causa dos furacões que andaram por lá. Nem uma palavra sobre embargo, nenhum aprofundamento em coisa nenhuma – nem na história da Revolução, nem na situação atual, nem em quem compareceu às comemorações.
O Jornal do Brasil apresentou uma foto que não diz nada, encimando uma legenda que fala apenas da ausência de Fidel. Destaque nenhum. No O Globo, o destaque maior foi para a (nem citada nos outros jornais) fala de Raúl Castro pela TV, antes do pronunciamento oficial do presidente cubano. Trouxe citações e comentou-as, com sobriedade. Mesmo também não aprofundando-se em uma reportagem de verdade, ao menos O Globo deu um destaque um pouco maior ao fato.
No Estado de São Paulo, o foco foi outro. O Estadão e a Folha foram, importantíssimo lembrar, os únicos a mandarem correspondentes a Santiago de Cuba, onde foi realizada a maior parte das festividades. Lourival Sant’Anna foi pelo primeiro, Flávia Marreiro pela segunda. Em ambos, o mote principal da matéria foi o ambiente à espera das comemorações. Lourival Sant’Anna entrevistou vários estrangeiros que se mandaram para Cuba. Argentinos e brasileiros foram maioria. Nas declarações, opiniões sobre o momento cubano, as impressões da ilha e as motivações para ir até lá.
Tanto na Folha quanto no Estado, textos mais densos, reportagens, realmente. Jornalismo, enfim. A Folha de São Paulo ainda trouxe um artigo do americano Samuel Farbier, um professor de ciência política, que critica a política externa cubana. Meio fora de lugar, mas ao menos dá espaço para o assunto e faz uma abordagem histórica, mesmo que por um ângulo um tanto estranho ao assunto do momento.
Mesmo que os dois jornais de São Paulo tenham feito coberturas de qualidade, o espaço destinado por eles e pelos outros aos 50 anos da Revolução Cubana, foi muito pequeno. O dia 2 de janeiro deveria ter sido o momento de uma enxurrada de Cuba, Cuba e Cuba. Os ataques de Israel na Faixa de Gaza, óbvia e corretamente, ocupou a maior parte do noticiário internacional. Ainda assim, cadernos sobre a data histórica deveriam estar sendo feitos há muito tempo. Esvaziaram a importância de um fato de importância incontestável – apóie-se a Revolução ou não.
Postado por Alexandre Haubrich



A ZH deu duas páginas numa edição de domingo. Dá uma olhada lá.
Bom, essa é a primeira resposta a comentários que temos aqui no Jornalismo B. Agora, com esse novo recurso do wordpress, faremos isso sempre que acharmos necessário para explicações, esclarecimentos, etc.
Isma, a postagem era só sobre o dia seguinte da comemoração. Assim como a Zero, alguns dos outros jornais acompanharam durante alguns dias a preparação para a festa, principalmente com artigos de opinião sobre o governo cubano.
Abraço
Olá,Alexandre.
Gostei de seu senso crítico.:D
Acho difícil esperarmos q jornais de tendências capitalistas exaltem a Revolução Cubana.Vc percebe bem a diferença com a posse de Obama.Fato tão divulgado e enaltecido pelos meios de comunicação q mais parecia q um semi-deus estava assumindo a presidência norte-americana.;)
Ao iniciar a leitura de seu artigo,pensei no momento:”Q bom até q fim irei ler algo sobre os 50 anos da Revolução a que tanto admiro!”.No entanto,vc criticou,mas terminou não escrevendo nada a respeito.
É notável a pouca importância remetida aos 50 anos de revolução, afinal, não existe muito o que comemorar.
Eu e meu marido estivemos em Havana nesta última semana e só deparamaos com pobreza, destruição e a inafastável tristeza no semblante dos cubanos.
É muito simples se discutir socialismo e igualdade entre todos em mesas de botecos e no romantismo dos livros.
entretanto, viver isso tudo é bem diferente.
A miséria é manifesta e como disse uma cubana em Havana: temos escola, comida e saúde, mas não precisaríamos tanto da saúde se comêssemos melhor.
Os turistas são aliciados a todo instante, seja para dar uma calça jeans, um gloss, ou mesmo um caramelo.
Bem, como os coerentes exaltariam 50 anos de uma revolução?