A revista britânica The Economist publica todo fim de ano uma edição de perspectivas para o ano seguinte, The World in …. No ano passado, ela decidiu publicar uma versão brasileira e, segundo o editorial da revista que chegou às minhas mãos, foi a The Economist que escolheu a Carta Capital como parceira. O resultado é O Mundo em 2009, que começou a ser vendido no Sudeste em dezembro, mas chegou às paragens gaúchas esse mês (não encontrei link para nenhuma das versões).
Das 194 páginas da revista, 26, tirando as de índice, são de responsabilidade da Carta Capital. As páginas são poucas – o que é compreensível, já que só a parte britânica já é enorme – e dedicadas quase que exclusivamente a entrevistas com empresários. Uma pena, poderia ser melhor explorado com textos mais analíticos do cenário político e não só do econômico, com entrevistados da área das humanas, talvez.
Mino Carta escreveu o editorial brasileiro, e afirmou que a parceria aconteceu devido às semelhanças entre as duas revistas: “A primeira diz respeito à prática do melhor jornalismo, baseado na fidelidade canina à verdade factual, no exercício desabrido do espírito crítico e na fiscalização diuturna do poder onde quer que se manifeste. A segunda está na busca de um público capacitado a receber a melhor informação e bem alicerçados elementos de juízo”.
Mesmo depois de todas essas considerações, fica difícil não pensar que uma revista de previsões é meio perfumaria. Não parece uma coisa muito séria ficar adivinhando o que vai acontecer nos próximos 12 meses, como se o jornalista tivesse uma bola de cristal. A questão principal é como fazer isso. No caso em questão, mais do que previsões, são feitas análises. Os jornalistas – tanto os de The Economist quanto os de Carta Capital – baseiam seus textos na situação atual, no que vem acontecendo nos últimos tempos. Com base nessa análise, são feitas projeções de por onde os fatos indicam que vai seguir a política dos países, a economia, o meio ambiente. São indicados caminhos, em suma, e não acontecimentos.
A parte britânica é dividida em regiões do mundo, de forma a explorar os quatro cantos do planeta. Muitos textos, algumas entrevistas e alguns artigos, incluindo um do presidente Lula, na parte de América Latina. Além disso, um resumo da situação política de todos os países do mundo, bem sintético, mas que ajuda a situar o leitor.
É interessante notar que, apesar do orgulho demonstrado por Carta Capital por conta da parceria e da rasgação de seda à revista britânica, ainda sobrou espaço para o tão falado espírito crítico da publicação tupiniquim. Na matéria sobre a América Latina, Antonio Luiz M. C. Costa, editor da Carta, questionou a isenção de Michael Reid, jornalista da The Economist, que prevê o declínio de Hugo Chávez, “como fez na maioria dos especiais de fim de ano”. E continuou: “Qualquer um tem suas prevenções e é difícil impedir que elas turvem sua bola de cristal. Difícil de justificar é a recomendação ‘pode esperar que ele desenterre mais complôs fictícios de golpe’, quando ao menos uma dessas conspirações foi bem real e quase custou a vida ao Comandante e milhares de seus seguidores”. Diante disso, fica ainda melhor de ler a revista inteira, sabendo que a brasileira continua preservando seu modo de analisar e criticar, mesmo quando o alvo é uma parceira bem maior.
Postado por Cris Rodrigues

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