Posts de Abril, 2009

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Sobre a Lei de Imprensa

30 Abril 2009

Estou acompanhando aqui a votação pela manutenção ou revogação da Lei de Imprensa. Quem está fazendo o minuto-a-minuto é a RW Mídias pelo Twitter. E está dando conta do recado – valeu pela dica, Haubrich! Nesse exato momento a RW me avisa que a sessão fará um intervalo. Que sem graça…

Mas não importa, já são seis ministros votando pela extinção da lei. A grande pimenta da sessão é o ministro Joaquim Barbosa, que se materializou quando a maioria dos seus colegas acreditava  que ele não daria as caras – parece que alguns até torciam para que ele não viesse. Barbosa esteve essa semana nas bancas, na capa da Carta Capital. Talvez pudesse falar melhor do assunto, mas eu não li a matéria porque a Carta Capital me dá muito sono – é triste não haver nenhuma revista semanal que concorra com ela e com a Veja.

Enfim, já fazem 33 minutos que se deu o intervalo, e nada do minuto-a-minuto avisar que os ministros voltaram. Mas que lei mesmo está sendo votada? Ah sim, a Lei de Imprensa foi criada durante a ditadura militar, e expõe os jornalistas à censura prévia e à apreensão de publicações; assim como, por outro lado, dá garantia à população de coisas importantes como o direito de resposta – aquele que permite que o atingido injustamente pela imprensa se defenda com igual ou maior exposição dentro do próprio veículo que o tratou com leviandade. Alguns ministros defendem a manutenção parcial da Lei, para que não se abra mão de tais grarantias.

Pois olha, quando foi a última vez que vimos direitos de resposta como esse aí em baixo? Se não assistiram, assistam, é histórico:

A verdade é que a Lei de Imprensa já não é mais levada a sério – e ainda bem, não gostaria que o Jornalismo B passasse por censura prévia. O problema é que, sem ela, como um juiz vai se sentir amparado para dar um direito de resposta? Qual será o seu parâmentro? É meio complicado não haver nenhuma regulação direta a respeito de calúnia, difamação e injúria para os meios de comunicação. Agora um veículo de grande circulação pode ser leviano ao tratar de uma figura pública ou até anônima e se sentir seguro pois a Lei não conseguiria atingi-lo? É, seria mais ou menos isso.

Ao mesmo tempo, uma das figuras importantes que discursou a respeito da defesa da manutenção destes dispositivos da Lei é o ministro presidente do STF, senhor Gilmar Mendes, o homem que há cerca de um ou dois meses atrás mandou tirar do ar um programa da TV Câmara. Sim, mandou, por telefone, nada de julgamento, tribunal, meios legais, nada disso: apenas ordenou diretamente.

Então, pessoal, quando vejo uma votação como essa, vejo apenas uma piada e um assunto a mais para escrever aqui no blog. O ministro Gilmar Mendes zomba da Lei ao passar por cima dela, desmoraliza a Constituição, invalida o denominador comum legal de todos os cidadão brasileiros, e apesar disso – ou talvez até por isso mesmo – é presidente do Supremo Tribunal Federal. E é esse homem que sai em defesa da Lei de Imprensa.

Já parei de acompanhar a transmissão, só faltavam três ministros, tudo indica que a Lei será revogada.  De qualquer forma, a Constituição agora é apenas um pedaço de papel. Salve-se quem puder. Desculpem o tom alarmista, mas no fundo você sabe que há muita verdade nisso. É hoje que vou fumar aquela bomba. Esqueçam um pouco isso e curtam o feriado.

Postado por Ale Lucchese

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A Amazônia, um rio, um escritor e um repórter multimídia

29 Abril 2009

euclides20da20cunhaEm 2009 completam-se 100 anos da morte do escritor, historiador, sociólogo, engenheiro e repórter Euclides da Cunha. O que pouca gente sabe é que o autor de Os Sertões pretendia fazer com a Amazônia o mesmo que fez com a caatinga. Em 1905, Euclides cruzou o rio Purus, que vai até a Amazônia peruana. Em seguida, começou a escrever um livro – que seria intitulado “Um Paraíso Perdido” – sobre o assunto. Não passou da primeira parte, “À Margem da História”. Morreu em um duelo com o amante de sua mulher.

Pois agora O Estado de São Paulo resolveu refazer o caminho de Euclides pela Amazônia. O repórter Daniel Piza e o fotógrafo Tiago Queiroz embarcaram em um barco e cruzaram o rio Purus, fazendo mil quilômetros em dez dias de viagem, entrevistando personagens da História da região e tentando mostrar aproximações e diferenças entre a Amazônia vista por Euclides da Cunha e a atual. A ideia é ótima, ideia de quem quer fazer jornalismo sem preguiça, jornalismo que realmente contribua para a formação de uma sociedade mais consciente de sua História e, assim, de seu momento.

Mas o mais interessante disso tudo é o seguinte: enquanto a travessia era feita, no início de março, Piza contava detalhes e curiosidades em um blog. Desde suas impressões sobre os índios da região ou sobre a cidade de Rio Branco (de onde partiu), até a repercussão do primeiro gol de Ronaldo pelo Corinthians entre os ribeirinhos e os integrantes do barco. No dia 5 de abril, o Estadão publicou um caderno especial com toda a cobertura da viagem. Finalmente, ontem, terça-feira, a TV Estadão (no site do jornal) apresentou um documentário, feito pelo Daniel Piza, com a história documentada em áudio e vídeo. Tudo feito com uma câmera amadora e sem microfone. Mesmo assim, de alta qualidade jornalística.

Nas três mídias em que trabalhou essa pauta, Piza fez trabalhos de excelência, coisa para se ensinar em faculdades mas, principalmente, para se ensinar em outros veículos que andam por aí. O documentário, por exemplo, não deixa a desejar para nada do que é feito na TV aberta brasileira com equipamentos de outro mundo. Vale registrar que a direção foi de Felipe Machado e a edição de Alexandre Mesquita.

rio-purusO repórter e o fotógrafo viajaram junto com integrantes do Projeto Cidadão, do governo federal, que tenta registrar os moradores de regiões afastadas. O primeiro depoimento do documentário é de Padre Paulino, um missionário que há 40 anos sobe e desce o rio levando a religião e remédios aos ribeirinhos. As comparações entre aqueles tempos e os atuais nortearam a conversa. Depois, quem falou foi chefe da expedição, o desembargador Aquilau de Castro Melo. Ele falou sobre a situação do Acre – disse que é o Estado com o maior número de analfabetos no país) e sobre a trajetória de Euclides da Cunha.

Depois são ex-seringueiros quem fala. Através das entrevistas de “Seu” Carlito e Seu Deco, temos um retrato claro da decadência da região. A exploração desenfreada da borracha, com os chefões ávidos por lucro, levou ao trabalho quase escravo os seringueiros e ao esgotamento o recurso natural. Hoje, a maior parte dos habitantes da região sobrevive graças à agricultura de subsistência e ao auxílio do governo federal, através de programas sociais como o Bolsa Família e o Funrural. As doenças, em especial a malária – da qual Euclides foi acometido mais de uma vez em suas andanças pela região – também foram assunto. Atualmente, essa questão continua igual àquele tempo.

Em uma bonita homenagem a um dos mais importantes escritores brasileiros, Daniel Piza e Tiago Queiroz mostraram um pouco da História do país, um pouco de sua cultura e mais um pedaço de sua realidade. Mostraram tudo isso com simplicidade e inteligência. Seu trabalho – tanto no blog, quanto no caderno especial do Estadão, quanto no documentário –, deveria servir de exemplo.

Postado por Alexandre Haubrich

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Doença vira objeto de campanha na imprensa

28 Abril 2009

dilma-rousseffEstava eu lendo as atualizações do twitter – um pouco antigas já, tenho entrado pouco na internet – e vi a Soninha dizendo: “Soube agora do linfoma da Dilma. Impressionante a frieza c que se discute seu impacto na sucessão. Força aí, ministra. De coração”. Bom, o que interessa nessa twittada é a parte da frieza. Ela não diz quem trata, mas fica claro: a mídia, sempre ela. E Soninha tem razão, a imprensa tem tratado o linfoma da provável candidata do PT como um simples problema tático. Será que vai atrapalhar ou ajudar na eleição? Se fala mais nisso do que qualquer outra coisa, tirando a gripe suína, que veio tirar os holofotes do assunto.

Eu estava vendo o início do Estúdio i, na Globo News, hoje de tarde, e a apresentadora Maria Beltrão comentava que era crueldade usar a doença da ministra na campanha eleitoral, seja a favor ou contra. Mas não falou nada sobre o papel da imprensa nessa história. Aliás, me arrisco até a dizer que quem levou a discussão a esses termos foram efetivamente os meios de comunicação. A prova de que as coisas não estão certas é a matéria da Folha: “Após doença, futura candidatura de Dilma em 2010 divide opiniões”. Todo o texto gira em torno de saber se a doença é boa ou ruim para a candidatura. Entrevista diversos políticos, que se posicionam a respeito. Mas antes de eles falarem, alguém estava perguntando “e aí, Quércia, a ministra sai mais forte ou mais fraca pras eleições”. Porque mesmo que eles tenham pensamentos mesquinhos, esse é o tipo de coisa que as pessoas não saem falando por aí, fica feio, pega mal.

Mas perguntar não ofende, né? E também não pega mal, afinal, o que sai na matéria é a resposta, que está na boca de outra pessoa, e não a pergunta do repórter. O fato é que tudo vira motivo para especulação. Mal explicaram o que Dilma tem e já partem para esse jogo de vai ou não vai. Não há outra palavra que descreva melhor. Frieza é exatamente o tom das matérias que a gente vê por aí. A Folha foi a citada ali em cima, mas não é só ela, não, muito pelo contrário. Tem Estadão, o Globo, Zero Hora, JB… Fora TV, rádio, todos mesmo. E o mais esdrúxulo: o jornalista Klécio Santos, da Zero Hora, afirmou que “o primeiro reflexo da doença de Dilma Rousseff na corrida presidencial será uma humanização das campanhas”.

Agora me diz… E a ética, fica onde?

Postado por Cris Rodrigues

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Trips de Dylan, praias e MST

27 Abril 2009

Duvido que a semana poderia ter começado melhor. No final do domingo tripc1mesmo, ligo o rádio e sou comovido por uma enxurrada de raios e trovões. “Peraí, esse aguaceiro todo só pode ser o Bob Dylan, e se é o Bob Dylan a essa hora, só pode ser o programa do Marcelo“. E era: “você ouve aqui no Teorema a pré-estreia de ‘Together through life’, o novo ábum do Bob Dylan!”. E com o Bob Dylan de disco novo, quem pode ficar pensando em jornalismo? Apenas imbecis como eu e… você.

Mas não foi apenas o programa da Ipanema que mostrou que existe sim gente atinada em buscar o que é verdadeiramente notícia para trazer do melhor jeito possível aos nossos sentidos. Mais uma vez surfando as ondas kármicas e ácido-desoxirribonucleicas de Porto Alegre, consigo encontrar – até que enfim! – a edição de abril da Trip.

Justiça seja feita: a Trip nunca apareceu aqui no Jornalismo B, mas é a única revista que este egocêntrico colunista consegue ler do início ao fim. A Trip tem uma fórmula muito simples: texto criativo, fotos em profusão de quantidade e qualidade, e sempre uma bela mina pelada no meio da revista para recorrer quando nossos olhos se cansam da leitura – se você for me chamar de machista, vou te chamar de mal-comida: passe aqui em casa que te dou um trato ou vá ler a TPM.

Por falar nisso, as fotos de nu da Trip são mesmo um descanso para os olhos. Ninguém vai atrás dessas imagens pra garantir a punheta da semana. Não é disso que se trata. São sim um belo trabalho de fotografia, uma combinação das modelos certas com os fotógrafos certos nas páginas certas. As fotos celebram a beleza natural, não importa quem é a fotografada. Diferente da Playboy, que tenta provar que toda mulher tem um preço e que todas caem aos pés da publicação por um belo cachê, a Trip não quer provar nada. E é por isso que o ensaio nunca deixa de ser deliciosamente ingênuo e provocativo ao mesmo tempo.

Outra sessão que sempre vale a pena são as “páginas negras”. Sim, elas tiram uma onda com as páginas amarelas da Veja, são as entrevistas que sempre abrem as edições. A publicação sempre cava um entrevistado interessante e vai fundo nas perguntas, querendo saber não apenas de trabalho, mas também da vida, histórias sobre obstinação, alma e visão que toda a pessoa que vale a pena ser entrevistada tem para contar. Neste mês a vítima é o empresário e ex-surfista profissional Fred D’orey. Não decepciona.

A revista de abril tem como tema o litoral. Destaco aqui a matéria “Nós vamos invadir sua praia“, de Caio Ferreti, com fotos de Fernando Cavalcanti. É uma prova de que um grave problema social pode ser pauta de maneira original, descontraída e profunda. A equipe ficou dois dias dormindo em um acampamento litorâneo do MST para fazer a reportagem. A busca por este tipo convivência, por ir fundo e conseguir compartilhar a complexidade humana de suas fontes com seus leitores é uma constante nas edições. E muitas vezes eles chegam lá.

Postado por Ale Lucchese

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Jornalismo e Literatura, por Antonio Olinto

25 Abril 2009

antonioolintoNa última quinta-feira, terminei de ler “Jornalismo e Literatura”, de Antonio Olinto. É um livro de 1954, cuja última edição havia sido em 1968. No fim do ano passado, a JÁ Editores relançou a obra, prestando um ótimo serviço aos estudantes de jornalismo – não apenas aos de faculdade, mas a qualquer um que queira estudar o jornalismo. A JÁ Editores, por sinal, tem feito isso. “Visão do Pampa”, de Rivadávia Severo, por exemplo, foi outro clássico ressuscitado por eles. Mas o assunto desse post não é a JÁ Editores, mas o livro de Antonio Olinto. Então vamos ao assunto que nos traz aqui.

Olinto, importante pensador do jornalismo brasileiro, traça neste livro um paralelo entre a literatura e o jornalismo, como se pode perceber pelo título. Porém, enquanto todos tentam encontrar a fronteira entre os dois “ramos”, o autor vê a questão de forma diferenciada. Para ele, o jornalismo nada mais é que um tipo de literatura. Diz ele que a principal semelhança está exatamente na matéria prima: a palavra. A diferença estaria na forma como se usa as palavras. Aí conclui: o poema, em relação ao conto, e os dois em relação ao romance, não estariam na mesma situação? É claro que sim. Portanto, o jornalismo é um tipo de literatura, sim senhor.

Outra ideia interessante de Antonio Olinto é sobre a fugacidade do jornalismo. Ele acredita que o jornalismo fugaz é o mau-jornalismo. O bom jornalismo seria o exatamente o que perdura. Sem querer, faz uma aproximação entre jornalismo e História, que me parece totalmente correta. A partir disso, há uma crítica aos textos que se acomodam na rotina. Diz Olinto que o jornalismo só se torna transitório quando se acomoda na rotina, e aí torna-se mau-jornalismo.

Essas e muitas outras ideias deveriam ser estudadas em cursos de jornalismo. O livro de Antonio Olinto, curto e de fácil leitura, é material básico para quem quer entender um pouco mais do que é o jornalismo atual. E entender, sobretudo, que ele não precisa ser assim. É dessa forma simplesmente porque deixamos que seja. A essência jornalística está em outro lugar.

* A primeira sessão B do Cine F levou mais de 30 pessoas ao auditório da Fabico nessa sexta-feira. A partir de agora, todos os meses exibiremos lá filmes que estão fora do circuito comercial, em parceria com o Cine F. O primeiro foi um documentário sobre a vida de Hunter S. Thompson, inédito no Brasil. Agradecemos quem compareceu e esperamos que tenham gostado. Sugestões para o próximo?

Postado por Alexandre Haubrich

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Sobre a confusão nos comentários desta sexta-feira

25 Abril 2009

Acho que o objetivo de todos que entraram nessa discussão é exatamente esse: construir um país melhor.

Tche, parem com essas agressões idiotas. Como a Flavia disse, e como eu disse, o objetivo de todos aqui é o mesmo. Pra que isso?

Porra, que discussão idiota, cara. Cada um tem o direito de votar como quer. Quer votar nulo? Vota. Quer votar no PT? Vota. Quer votar no PSOL? Vota. Quer votar no PFL? Vota.

Eu duvido que qualquer uma dessas pessoas que comentou aqui não tá no mesmo embalo de fazer alguma coisa pro bem. Então parem de se xingar e vão pensar, tche!

A gente tá aqui discutindo a imprensa brasileira porque acha que mudar a forma como a informação chega nas pessoas e a forma como elas recebem pode mudar alguma coisa na consciência da sociedade.

Eu, particularmente, acho que só assim se pode mudar alguma coisa. Não é com voto nem com não voto. É fazendo as pessoas pensarem no que elas tão fazendo, pensarem se tão pensando certo. É mudando a cabeça das pessoas que se mudam as coisas.

Percebo que vocês são interessados. Mas, se as pessoas interessadas agem dessa forma, não sei mais por onde começar.

Não consigo não me colocar frente a um caso que eu considero tão desestimulante. A gente tem tido várias coisas que têm nos estimulado a dar mais força pro blog…o sucesso do debate que a gente promoveu, o sucesso do filme que a gente passou hoje, um monte de gente bacana valorizando o nosso trabalho…mas um troço como o que aconteceu hoje dá vontade só de largar tudo isso e desistir das pessoas. Como eu disse, se gente esclarecida, com posição e que tá, no fim das contas, do mesmo lado, age assim, pra que isso tudo?

Eu estou tentando, a gente está tentando, mas o mundo tem que colaborar. Pelo menos um pouco. Pelo menos as pessoas que têm um mínimo de senso crítico têm que colaborar. Pelo menos um pouco.

Isso é o que eu penso e aqui não falo em nome do Jornalismo B, mas em nome de um cara que cansou de ver gente que quer a mesma coisa brigando por bobagem.

Postado por Alexandre Haubrich

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Voando para longe da questão principal

23 Abril 2009

aviaoOs deputados estão viajando pelo mundo às nossas custas. Eu sei, todos nós sabemos. Estamos, aliás, cansados de saber. O problema é o que está por trás disso. A imprensa gaúcha tem tratado dos casos de deputados e senadores que representam o nosso estado. Claro, está certo. Aí, vejamos, temos de um lado a passagem que o gabinete da Luciana Genro, do PSOL, cedeu ao delegado Protógenes Queiroz para ele participar de um ato contra a corrupção em Porto Alegre, e, de outro lado, as viagens que a família do Ruy Pauletti, do PSDB, usufruiu às nossas custas. Nos jornais, vemos que temos dois deputados cedendo passagens de sua cota a outrem. A mesma coisa? Parece, mas não é.

Certo ou errado, não há como negar, os casos são bem diversos. A passagem cedida ao Protógenes teve fins políticos, enquanto o passeio da neta de Pauletti é apenas um passeio, e não temos nada a ver com ele, exceto pelo fato de o termos pagado. Repito, independente do juízo de valor, é nítido que os casos são diferentes. Mas, para os jornais, eles são iguais, são metidos no mesmo balaio. E, quando isso acontece, quando a gente mistura os bons com os maus – não quero aqui apontar mocinhos e bandidos, ok? -, quando são todos tratados como iguais, quem ganha são os maus.

E, conhecendo a nossa imprensa como a gente conhece, não dá pra acreditar que isso esteja acontecendo por acaso, sem querer, dá? Eu desconfiaria das intenções por trás disso tudo. Mesmo que não seja estritamente contra a Luciana Genro, que seja alguma coisa mais ampla. Afinal, o que a grande maioria da grande mídia, do Brasil inteiro, está fazendo é uma campanha contra o Legislativo. Que há corrupção, que as coisas estão erradas, não dá pra negar, é fato. Mas colocar todos no mesmo balaio não condiz com a verdade, e não ajuda nem um pouco. Aliás, disse o Verissimo na sua crônica de hoje da Zero Hora: “Não ajuda muito generalizar e demonizar toda uma classe política”. Afinal de contas, há políticos que se salvam e, mesmo os corruptos, fomos nós que elegemos.

Falta de fato uma discussão mais ampla, como sempre. Acabamos sempre no raso, no superficial. Por que essas distorções acontecem no Brasil? O problema é dos políticos, que são corruptos, e só eles são culpados? O problema é da sociedade, que é pouco politizada, que elege políticos corruptos? O problema é do sistema, que leva a essas situações grotescas? Pois bem, se o problema é esse, qual o sistema ideal? O que se pode fazer para mudar o que está errado? Não vi essas discussões por aí. Ninguém questionando o que fazer, por que as coisas acontecem. Tudo o que se vê são entrevistas com deputados perguntando se a filha viajou com o dinheiro do povo. Ok, temos que cobrar, está certo, mas não podemos ficar apenas nisso.

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Postado por Cris Rodrigues

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Guaíba: a polêmica que nem começou

22 Abril 2009

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- O prefeito de Porto Alegre deveria ir a Brasília para cobrar medidas que protejam o Guaíba!

- O projeto de urbanização do Pontal do Estaleiro abre um precedente para que a área em torno do Guaíba seja transformada com prejuízos ambientais sérios.

- Porto Alegre não precisa de prédios enormes para provar que é uma cidade grande e desenvolvida! Podemos ser exemplo ao respeitar e viver em equilíbrio com nossos recursos naturais.

As frases acima não são de um candidato a vereador travestido de ambientalista, muito menos de um polemista amargo e inconsequente. As frases acima foram ditas hoje por um dos mais respeitados geólogos do Brasil, coordenador do Atlas Ambiental de Porto Alegre, uma das pessoas que mais tive prazer em conhecer e entrevistar: o professor Rualdo Menegat.

Encontro Menegat perplexo em seu gabinete no Campus do Vale. Ele não tenta esconder que está aborrecido por ter sido atirado em uma polêmica que vê pouco sentido em existir. Há pouco tempo o engenheiro Henrique Wittler divulgou pela internet uma espécie de dossiê no qual sustenta que o uso da nomenclatura “lago” para o Guaibão encobriria uma “farsa”. Essa “farsa” faria com que políticos lobistas e empresários do setor imobiliário pudessem explorar a orla de maneira mais lucrativa, já que a área de preservação em torno de corpo d’água poderia ser cerca de dez vezes menor se ele fosse considerado “lago” ao invés de “rio”.

Wittler argumenta que um dos intrumentos que sustentariam esta farsa seria o Atlas Ambiental de Porto Alegre. Sim, a publicação que o Rualdo coordenou. E por causa disso dois defensores da causa ambiental e verdadeiros apaixonados pela cidade de Porto Alegre parecem agora dois desafetos. Mas, bem no fundo, os dois buscam uma coisa só: preservar o tal Guaíba, seja rio ou lago, nosso maior patrimônio ambiental metropolitano.

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Pois bem, não foi isso que li na Zero Hora de ontem. Não, a Zero Hora de ontem publicou quase meia página com uma entrevista de Menegat, e não há nenhuma frase como as que abrem essa matéria. Nenhuma. Será que Menegat não disse coisas assim para o repórter? Duvido muito. E, se não disse, foi porque o repórter não soube fazer as perguntas certas. Não soube. Não colocou o bem público em primeiro lugar, e não respeitou a máxima do poeta: “jornalismo é encontrar diferenças onde só se vê semelhanças e semelhanças onde só se vê diferenças.”

E digo mais: a matéria-entrevista com Menegat tem cinco parágrafos, e apenas o último versa sobre a importância de garantir a preservação do Guaíba. E é esta a discussão importante! A discussão importante não é escolher entre um substantivo ou outro, a discussão importante é que uma área está prestes a ser urbanizada de maneira agressiva e hostil ao meio ambiente. E por que esconder essa discussão em um parágrafo final, desviando o holofote?

O fato é que a tese de que o Guaíba é um rio não se sustenta. Ele não é. É um lago. E não devemos fingir que ele é um rio para garantir sua preservação. Ele deve ser preservado independente de categorias – segundo Rualdo, os lagos são ainda mais sensíveis e precisam de áreas de preservação maiores que os rios, coisa que infelizmente a lei não garante.

Os interessados em lucrar às custas dos terrenos próximos ao Guaíba vão tirar muito proveito dessa polêmica. Ficando provado que o corpo d’água é um lago, o sinal estará verde para grandes construções. A discussão estará aparentemente encerrada. Diz o editorial da ZH de hoje: “Rio ou lago? Impõe-se que tal definição seja encontrada, evitando que a polêmica se eternize com prejuízos para Porto Alegre ou para o meio ambiente.” Não, encontrada a definição, os prejuízos continuarão imensos. A verdadeira polêmica – aquela que realmente vale a pena – ainda nem começou. Até quando nossos jornais vão conseguir fugir dela?

*fotos de Thais Brandão

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Postado por Ale Lucchese

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Jackson Lago no Gaúcha Atualidade – enfim o Maranhão

21 Abril 2009

O Gaúcha Atualidade tem o costume chato – e óbvio – de contar com apresentadores que defendem sempre o mesmo lado, e um lado moralmente discutível, de forma moralmente discutível. Diversidade de opiniões? Nada. Mas os últimos dois programas tiveram momentos de brilho.

jackson_lago22A cobertura da história das passagens dos deputados, nessa segunda-feira, foi excelente. Rosane de Oliveira não se furtou de apertar, espremer o deputado Ruy Pauletti, do PSDB. Por incrível que pareça. Hoje, mais uma dentro: boa entrevista com o governador deposto do Maranhão, Jackson Lago, feita por Rosane e por Daniel Scola.

No Twitter do Jornalismo B, ainda hoje eu criticava a cobertura da situação do Maranhão (não) feita pelos jornais gaúchos. E o Atualidade de hoje, especialmente na condução da Rosane, deu o espaço merecido à questão. Lago falou sobre o domínio de anos dos Sarney, fez uma retrospectiva rápida. Falou sobre sua falta de confiança na Justiça. Até a Globo ele criticou. E em momento algum foi cortado por algum dos entrevistadores.

O Gaúcha Atualidade, ao dar espaço para a discussão de um tema tão importante – ignorado pelos jornais do Rio Grande do Sul – fez jornalismo, informou com qualidade, agregou conhecimento. Rosane e Daniel, na condução da entrevista, completaram o quadro de um bom programa jornalístico. Podia continuar assim.

Postado por Alexandre Haubrich

gonzo

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Informação de qualidade para os jovens

20 Abril 2009

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Se tu tens uns 15, 16 anos, um pouco mais, um pouco menos, sabes que tem diversos suplementos por aí feitos para atender um público da tua idade, certo? Fora as revistas, tem sempre uns cadernos nos principais jornais. Não parece às vezes que te tratam como um idiota, como se em vez de adolescente tu fosses desprovido de cérebro?

Pois bem, a Folha de São Paulo não é exceção a esses grandes jornais, e tem o Folhateen, destinado ao público jovem. Pois fica sabendo que ela não é igual aos outros suplementos idiotizantes. Pelo menos não foi hoje na sua matéria principal. Fiquei realmente impressionada com a maturidade com que escolheram um tema e o trataram (tudo bem, os repórteres são adultos e não são idiotas, mas às vezes, nesses cadernos, parece que eles têm cinco anos). Falar da prisão de Guantánamo para jovens não é fácil. Sabe-se que a abordagem tem que ser diferente, pelo menos para fazer jus à existência do suplemento.

E olha que eles conseguiram fazer essa abordagem diferenciada de um jeito inteligente. São três páginas – o suplemento não é do tamanho do jornal, mas um pouco menor que um tablóide – falando sobre jovens que são mantidos presos em Guantánamo, em Cuba, pelo governo dos Estados Unidos, há diversos anos, desde que ainda eram menores de idade. O texto, não tão grande quanto uma reportagem especial no caderno principal, é de Juliana Cunha e Tarso Araujo, e conduz o leitor através de exemplos de casos de jovens detidos. É bem construído e dá um panorama geral do que está acontecendo do ponto de vista daqueles adolescentes – ou adultos jovens, já que alguns já estão lá há seis anos. A imagem principal é a que ilustra esse post, excelente. É de Ricardo Mazalan, da Associated Press.

A questão principal é essa: a função de um suplemento para jovens não é simplificar demais os assuntos, a ponto de não abordar direito ou pressupor que o leitor não consegue absorver um conteúdo mais complexo. A função principal é tratar os assuntos do ponto de vista dos jovens, para que eles se identifiquem com o tema, se interessem realmente. Se se evitar política ou temas mais árduos para que o jovem – supostamente não interessado – leia o suplemente, só vai se estar afastando ainda mais o adolescente desses temas. Inútil. A questão é trabalhar de forma a tornar a coisa mais interessante para a faixa etária a que se destina, sem desmerecer o leitor.

Em seguida da matéria principal, na terceira página sobre o tema, há uma entrevista com a autora do livro Guantánamo Boy, da inglesa Anna Perera. Tudo a ver com a matéria principal, o livro trata de um garoto – a história é fictícia – que foi enviado à prisão em Cuba com seus pais, inocentemente. Depois de ler a matéria e se indignar com a história dos garotos presos, a entrevista estimula o jovem a se interessar pela leitura do livro. Muito bacana.

* O mandato do ombudsman da Folha foi renovado por mais um ano. Carlos Eduardo Lins da Silva ocupa o posto desde abril do ano passado. Pena que o jornal não o ouça muito…

* A audiência média do Fantástico de ontem ficou em 19 pontos na Grande São Paulo, a mais baixa da história do programa, segundo Lauro Jardim, da Veja. Ou seja, ainda podemos ter esperança!

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Postado por Cris Rodrigues