A edição de sexta-feira de Zero Hora foi a primeira a ser impressa no novo parque gráfico do Grupo RBS. Inaugurado em Porto Alegre, perto da saída da cidade, é o mais moderno do Brasil, com rotativas suíças que prometem diversas melhorias no jornal. Até o presidente Lula esteve presente na inauguração. O objetivo expresso pela Zero Hora é aumentar a agilidade na impressão e distribuição e a qualidade do jornal. Aumenta o número de páginas coloridas, melhora o acabamento, as próprias máquinas montam os jornais, com os encartes colocados dentro do caderno principal, o que antes era feito manualmente. Junto com isso, veio uma mudança gráfica no jornal, diagramação diferente e algumas pinceladas no conteúdo. Excelente, não?
Pois é, parece realmente um avanço considerável. O prédio em que estão as novas máquinas foi construído especialmente para isso, e é marcado pelo cuidado com o meio ambiente, com o reaproveitamento nos banheiros da água utilizada para impressão, telhado verde e uma série de outros cuidados. Bacana.
E, como o pessoal da RBS é realmente eficiente e competente quando quer, Lula foi surpreendido com a impressão de um caderno especial que circulou junto com a Zero de domingo em que ele aparecia na capa, em foto do evento em que estava. Ou seja, montaram a capa na hora e já imprimiram o caderno. Caderno, aliás, que não diz nada de mais – e cuja capa não foi a foto do Lula. Se o leitor não tiver acesso a ele, não perde muita coisa, são mais curiosidades sobre a estrutura do lugar. São 24 páginas, sendo dez de propaganda e as restantes sem muito conteúdo. Na verdade, era mais propaganda, mas sobre o parque gráfico Jayme Sirotsky. As novas rotativas vão imprimir a Zero Hora, que agora deve chegar mais cedo à casa dos assinantes e às bancas – é o que estão prometendo, pelo menos. As máquinas antigas serão levadas para o parque gráfico para a impressão do Diário Gaúcho, que também vai ter um incremento de qualidade – gráfica, e não de conteúdo, que fique bem claro.
Na Zero Hora.com, está disponível um tour virtual pelo novo parque gráfico. É mais ou menos o mesmo conteúdo do caderno especial que rodou ontem junto com o jornal. Mas no site diz “Faça um tour pela Fantástica Fábrica de Fazer Jornais”. Quem gosta dessas tiradinhas me desculpa, mas é ridículo, de um péssimo gosto. Eu morro e não vejo tudo.
Mas o mais importante de toda essa história é que a RBS está investindo na palavra impressa enquanto o mundo se volta para a palavra digital. E isso é arriscado, mas muito positivo. Sabe-se de uma série de jornais, principalmente americanos, que estão falindo ou se transferindo de vez para a internet – embora a própria Zero Hora informe que a circulação de jornais impressos pagos diminuiu nos Estados Unidos e na Europa, mas cresceu 1,3% no mundo em 2008, especialmente na América Latina, na África e na Ásia. Em uma iniciativa ousada, de olho no futuro, o grupo gaúcho investe no papel. Para mim, é claro como água que o jornal impresso está muito longe de acabar e que, depois dessa crise inicial, ele vai voltar com força. E não é só a crise do papel que a RBS enfrentou. Em meio ao investimento feito no parque gráfico, apareceu uma crise financeira mundial, que fez muitas empresas retraírem seus investimentos, como destacou o presidente Lula e está estampado na página 4 da Zero Hora de sábado (AQUI, AQUI e AQUI). E ainda assim o grupo seguiu firme e criou uma estrutura desenvolvida para agilizar a impressão do jornal, para que ele chegue antes ao leitor, trazer um acabamento melhor a suas páginas e aumentar o número de páginas coloridas por caderno, das antigas 48 para as atuais 64. Além disso, algumas
coisas mudaram de lugar, como a coluna de opinião da página 3, que foi para a 2, as cartas dos leitores perderam espaço, há chamadas para as colunas na contracapa, que ganhou mais informação e agora tem uma só foto grande. A Lurdete Ertel, antes responsável pelo Informe Econômico, se transferiu para o Informe Especial, na página 3. Essa seria uma mudança importante, e espero que seja de fato, se trouxer mais qualidade para a seção, porque o Informe Especial era uma das piores coisas da Zero Hora, uma das mais vazias de informação e ao mesmo tempo mais reacionárias.
A Zero Hora está de fato mais bonita e atraente para a leitura. Mais colorida, com títulos e antetítulos maiores, ela talvez faça mais gente ler jornal, pelo menos no primeiro mês depois das mudanças. A questão é avaliar se o leitor que pegar o jornal vai encontrar também um conteúdo renovado, ou se essa transformação ficará restrita à parte gráfica.
“A história da imprensa registra também grandes aprimoramentos editoriais com a troca das máquinas de impressão.” A fala é do editor de Arte dos jornais do Grupo RBS, nas páginas centrais da edição de sábado de Zero
Hora, que explicam a mudança na apresentação gráfica do jornal. Resta saber agora se a transformação gráfica virá realmente acompanhada de uma mudança editorial. Pela explicação, devem ser mudados os textos – e não só a parte gráfica – no sentido de dar mais agilidade à leitura, evitando repetições e acrescentando infográficos e linhas de apoio mais longas, além dos antetítulos se tornarem mais “analíticos e descontraídos” (ao lado, um exemplo de página com as mudanças). De fato, são mudanças de conteúdo e não só de forma, mas não são, de forma alguma, mudanças significativas na linha editorial do jornal.
E aí, perde o leitor, que está sendo engambelado. Não digo que o parque gráfico não devesse ser inaugurado se não houvesse mudança editorial. Não, acho que essa inauguração é, de qualquer forma, um avanço positivo. Mas afirmar que vem junto uma transformação editorial é mentira. E para continuar mentindo, mas com mais leitores e de forma mais bonita, eu preferia que não houvesse mudança. E o problema é justamente esse: sem mudança editorial, o jornal está mudando de status, ganhando elogios e possivelmente alguns leitores a mais, mas continua com seu conteúdo que todos nós já conhecemos. Um conteúdo que tem alguns destaques positivos de vez em quando, mas que, de um modo geral, é conservador – o que contradiz a modernização gráfica -, de direita e muitas vezes mentiroso. Por exemplo, quando se diz imparcial. A mudança que vimos esse fim de semana pode ser considerada um avanço, mas a Zero Hora só vai melhorar de verdade quando sofrer uma transformação radical na sua forma de ver o jornalismo, quando abandonar o tecnicismo, parar de brigar com a notícia e abrir espaço para uma visão de mundo realmente mais plural.
* Coincidência ou não, hoje recebi um e-mail avisando que o valor da assinatura da Zero Hora vai ser reajustado.
* Parece de propósito. As páginas centrais da Zero de domingo trazem uma matéria sobre a UERGS. Eles descobriram agora – só agora! - que a “Universidade Estadual dá sinais de declínio”. A matéria é péssima, não fala na responsabilidade do governo, horrível. Aliás, nem vincula a UERGS ao governo do Estado. Parece feita para provar que mudou a forma, mas definitivamente não mudou o conteúdo do jornal.
* Honduras sofreu um golpe de Estado nesse domingo. O presidente José Manuel Zelaya, de esquerda, foi tirado do poder, detido em sua residência e levado para a Costa Rica por soldados hondurenhos. Tudo isso aconteceu horas antes de uma consulta popular que versaria sobre uma Assembléia Constituinte. O governo do Brasil reprovou o ato, mas a imprensa mal tomou conhecimento dele ontem. Uma matéria foi publicada no portal G1 perto das 15h, mas, às 18h, a capa da Globo.com tinha a Copa das Confederações, Gripe A, a morte do Michael Jackson, Dança dos Famosos e especulações sobre uma suposta gravidez de Gisele Bündchen. Ainda na capa, mas na parte de baixo, sob a cartola Notícias, o título “Brasil condena golpe militar em Honduras”. Ao mesmo tempo, na capa da Zero Hora.com, não havia nenhuma menção ao caso. Hoje a Folha de São Paulo deu a manchete principal ao caso, mas a Zero deu apenas uma chamada na capa, e sem falar o nome do presidente, só referindo-se a ele como “aliado de Chávez”.
Postado por Cris Rodrigues