
MP de Santa Catarina processa a RBS
19 Junho 2009No meio do turbilhão de discussões e brigas sobre a obrigatoriedade do diploma para jornalista, pessoas que acreditam lutar contra as mesmas práticas colocam-se em lados opostos. O resultado disso é que questões que nunca foram discutidas de verdade continuam deixadas de lado. Estudantes se mobilizam para protestar contra a decisão do STF, mas por que eles não estavam nas ruas ou em qualquer lugar gritando contra os oligopólios na comunicação ou contra emissoras de rádio e TV que operam com concessão vencida? Defendem o diploma e calam contra essas distorções em defesa de seus empregos?
Pois um veículo que publica sempre reportagens de qualidade é a Revista Adverso, ligada ao Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior de Porto Alegre (Adufrgs). E a Adverso, em sua edição de junho, traz uma bela reportagem sobre um assunto em relação ao qual não se ouve qualquer gritaria, qualquer sussurro que seja. O Ministério Público de Santa Catarina está processando a RBS por formação de oligopólio de comunicação no Estado. O assunto não é novo – a ação foi ajuizada em novembro de 2008 –, mas é preciso lembrar que temos outras discussões a fazer além do diploma, e a reportagem, com entrevista com o autor da ação, acaba de sair, em um momento em que a RBS acaba de lançar um jornal em Canoas e, diz a reportagem, planeja a aquisição de três novos diários no interior do Rio Grande do Sul.
A matéria é de Naira Hofmeister, e é delineada através de declarações do procurador da República no Estado de Santa Catarina, Celso Três. Faltam declarações da RBS, o que não chega a descaracterizar a informação. A reportagem, através das falas de Três, faz um panorama muito claro da situação, sem meias palavras, demonstrando por A mais B a situação clara de ilegalidade em que se encontra a RBS, além dos prejuízos que isso traz à sociedade em relação à qualidade e à pluralidade de informações que esta recebe, além do prejuízo político que uma voz com domínio tão ostensivo causa aos Estados em que atua.
O fato de os veículos do grupo usarem familiares e laranjas como donos oficiais não anula o caso, segundo Três. Além disso, há desrespeito à Constituição Federal que afirma que 30% da programação das emissoras deve ser local, quando o próprio site da RBS afirma que 85% da grade é destinada a Rede Globo. Não há regulamentação para esse artigo, “a legislação está trancada no Congresso – o que é uma vergonha”, como diz Celso Três. Mas isso não invalida a possibilidade de a justiça estabelecer esse critério.
A reportagem traz ainda outros dados e informações sobre a situação do grupo RBS em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, apresentando diversos lados em que as leis, a moralidade e a ética são descumpridas.
A expectativa é que a ação seja julgada até o fim do ano. Me parece improvável que a RBS seja punida – o pedido é que o grupo abra mão de um de seus cinco diários que circulam em SC e de quatro entre as seus emissoras de TV do Estado. Ainda assim, é fundamental que essa discussão seja feita, que a classe se mobilize – o que nunca vi acontecer – que os Sindicatos, as Associações, os estudantes e todos os que gritam a favor ou contra o diploma percebem que, debaixo do nosso nariz, existem aberrações como essas e parem de pensar apenas em seus empregos. Pensem na comunicação do país e na função que o jornalismo deveria cumprir, e em como se pode chegar a melhoras nesse sentido. Jornalismo não pode ser apenas uma profissão, um emprego. Precisa cumprir uma função social, caso contrário não tem razão de existir.
Postado por Alexandre Haubrich
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Genial saber do processo. Essas notícias precisariam ser mais difundidas. Quanto à questão do papel social do jornalismo, concordo plenamente. Um colega meu- que aliás estava, assim como eu, presente no debate de segunda-feira- diz isso, que nós estudantes tínhamos que olhar além do nosso umbigo no mercado de trabalho e atentar para uma função social mais ampla ao invés de nos conformarmos em “defender o que é nosso” (aliás, o que seria isso?). São palavras sábias.
“studantes se mobilizam para protestar contra a decisão do STF, mas por que eles não estavam nas ruas ou em qualquer lugar gritando contra os oligopólios na comunicação ou contra emissoras de rádio e TV que operam com concessão vencida? Defendem o diploma e calam contra essas distorções em defesa de seus empregos?”
não posso tolerar essa apelação.
O ASSUNTO PREFERIDO NOS CURSOS DE JORNALISMO É PAU NA RBS.
todo mundo sabe, todo mundo vê, todo mundo fala. Colocar em oposição isso em relação à discussão do diploma, me perdoa, é pura demagogia barata.
Amigos, como vão?
Não cheguei a comentar no post sobre o fim do diploma de jornalista porque meus dias estão meio pesados ultimamente. Mas em breve vou colocar minha opinião.
Sobre o assunto do processo, já teve um artigo publicado no Observatório da Imprensa, com entrevista do mesmo Celso Três. Esse processo começou quando a empresa comprou o jornal A NOTÍCIA, de Joinville, tendo assim um periódico influente nas cidades interioranas mais conhecidas de SC (Blumenau e Joinville), mais um jornal popular e outro “sério” (cópias de ZH e DG, diga-se de passagem) que abrangem todo o Estado.
Sobre as faculdades de jornalismo terem como pauta principal “sentarem o pau na RBS”, não acho que isso seja de todo verídico. Ao menos na Região Metropolitana, com exceção da Fabico, todas as outras faculdades possuem convênio com a empresa ou com a Caldas Júnior. Não só isso: possuem o currículo mais próximo possível do que a empresa quer dos profissionais que contratam. E por fim, vários de seus empregados dão aula em faculdades como a Famecos e a Unisinos (Daniel Scola e Júlio Cordeiro, por exemplo).
Pra mim, com exceção da Fabico, nenhuma outra faculdade leva esse “assunto preferido” como consenso. Ao menos nunca ouvi colegas de profissão, quando trabalhava lá dentro, falarem que seus professores sentam o pau na RBS. Um tanto pelo contrário.
Eu e a Naira conversamos muito sobre esse assunto. O Grupo RBS não se manifesta sobre o processo publicamente. Talvez, tenha faltado essa informação na reportagem, ou foi suprimida de propósito.
Abraço!
Dois comentários. O primeiro, explicativo, de que a RBS foi contactada uma porção de vezes. Pediu prazo para ver quem seria o entrevistado e depois de mais de um mês comunicou que “infelizmente, ficariam de fora dessa edição”. Talvez estejam dispostos a participar de uma próxima…
Outra: apenas uma reflexão para contrapor o comentário do Luis Felipe. Um oligopólio significa, entre outras coisas, a redução do mercado de trabalho. Ano passado, o veículo de destaque do Prêmio ARI foi o zh-ponto-com. A editora que foi agradecer e receber o troféu falou mais ou menos isso: “esse prêmio é para os jornalistas da radio gaúcha e do jornal zero hora, pois são eles que fazem o site existir”.
Naira, que honra tu por aqui
Fico feliz que tenha vindo à tona o motivo de a RBS não ter aparecido na matéria. Obrigado pelo esclarecimento. No meu próximo post, completarei a informação, então, já que nem sempre os comentários são lidos pela mesma quantidade de leitores que lêem os posts.
Apareça mais!
Naira, eu não deixo de corroborar as mais sensatas críticas ao grupo RBS.
Agora, é uma hipocrisia saltitante dizer que isso não se discute nas faculdades de jornalismo, em prol da discussão do diploma. O estudante de jornalismo que se presta a discutir a questão do diploma está exercendo a sua consciência de classe. Por favor, mais respeito.
Aliás, silêncio, vai falar Marcelo Trasel: http://trasel.com.br/blog/?p=183
[...] Uma crítica que fiz, em meu último post, à matéria da Revista Adverso sobre o processo que o MP de SC move contra o Grupo RBS, merece ser [...]