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Exercício cotidiano da frustração

24 Junho 2009

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Nas duas últimas semanas, pipocou por aí em várias discussões uma palavra que me dá coceiras e urticárias. Imparcialidade. Achei que ela já não existia mais entre jornalistas, fizesse parte apenas das estratégias de propanganda enganosa de jornais e revistas. Mas, quando percebi que o maior representante da clase dos jornalistas do Rio Grande do Sul saiu defendendo a obrigatoriedade do diploma para “assegurar a imparcialidade da informação”, meu mundo caiu. Foi a gota d’água: desisti de uma vez por todas de ser jornalista, definitivamente este não é o tipo de gente que quero poder chamar de “colega”.

A busca pela imparcialidade não é apenas um exercício que transforma a maravilhosa profissão do jornalista em um exercício cotidiano de absoluta frustração. Ela não é apenas danosa: é presunçosa e burra. Andei estudando muita narratologia durante esse semestre, e vi que todos os trabalhos de literatura tratam, ao seu modo, a questão da imparcialidade. E nenhum deles concorda com a possibilidade de um narrador não expressar suas opiniões no exercício de contar uma história. Por que os jornalistas podem acreditar que são diferentes?

Vitor Manuel de Aguiar e Silva, em seu “Teoria da Literatura” resume a questão: “Poderá um narrador exilar-se em absoluto da sua narrativa? A nossa resposta a essa pergunta é negativa. Com efeito, mesmo que o narrador evite cudadosamente as intromissões explicitamente marcadas, menos facilmente poderá evitar outros tipos de discurso – por exemplo, o discurso valorativo e o discurso modalizante.” Por modalizante se entende algo ligado à emoção, e por valorativo, juízos de valor.

Para encerrar, deixo vocês com o depoimento do maior jornalista de todos os tempos, Hunter S. Thompson. É o que ele diz tacitamente a respeito do assunto na Rolling Stone de fevereiro de 1972: “com a possível exceção de coisas como quadros de pontuação, resultado de corridas e números do mercado de ações, não existe algo como Jornalismo Objetivo”. Subscrevo.

Foto roubada daqui.

Postado por Ale Lucchese

Um comentário

  1. Ler este blog é como ler minha Capricho. Me identifico tanto com vocês. Sei que tá piegas, mas é a mais pura verdade.

    “desisti de uma vez por todas de ser jornalista, definitivamente este não é o tipo de gente que quero poder chamar de “colega”.”
    Terminei meu curso, sou jornalista formada, mas agora estudo para concurso. Também não quero viver nesse meio e ter que chamar essas pessoas de “colegas”.

    Minha monografia tratou sobre a relação autor-personagem no livro A Sangue Frio e passa também pelo assunto objetividade x subjetividade.

    Infelizmente no meu curso quase não ouvi falar do Hunter Thompson.

    Abraços e bom trabalho! ;)



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