
J.R. Ripper é O Cara
30 Junho 2009Ripper (esq.) no Fest Foto PoA – foto de Thais Brandão
Era um dia cinza, uma chuvinha fina, e fui para o centro de Porto Alegre acompanhar alguma coisa do Fest Foto PoA. Era impossível descobrir os eventos que estavam acontecendo e que horas começavam, os programas não explicavam os lugares de nada, e estavam todos rabiscados com horários atualizados que eram sumariamente desrespeitados.
Eu e minha namorada- amante- companheira seguíamos o público de um lado para o outro, na esperança de que indo com a boiada acabaríamos vendo e ouvindo algo que valesse a pena ser visto e ouvido, até percebermos que outros desorientados também nos seguiam. Então concluímos que talvez estivéssemos seguindo baratas tontas como nós, ou talvez até mesmo um perigoso serial killer pronto para nos levar até um alçapão que, quando aberto, nos faria afundar em uma piscina de ácido sulfúrico, realizando assim um assassinato em massa de proporções inéditas.
Para nossa própria segurança e daqueles que nos seguiam, resolvemos sentar em um auditório onde fotógrafos dos quais nunca tínhamos ouvido falar falavam de seus trabalhos. Depois de duas horas de relatos que quase nos faziam dormir, subiu ao palco um homem atarracado, de cintura larga e ombros que avançavam para a frente do peito. Sentado curvado em direção à mesa, seu rosto enrugado e suado completava a fisionomia de um grande sapo. A voz era anasalada e monotônica. “Sono garantido”, pensei. Mas era apenas mais uma lição contra minha arrogância e preconceito.
Dessa figura saíam os maiores relatos que ouvi de um fotojornalista, uma vida cheia de aventuras, de coragem, de triunfos, de dificuldades, de gentes, de paisagens. Ripper se mostrou um lutador, abrindo lugar para o seu trabalho, procurando clientes no terceiro setor, mentindo para os fazendeiros para conseguir entrar em campos de cana que realizavam trabalho escravo. E apesar de tanta força, suas fotos eram pura poesia, beleza. Ternura. “Não há nada mais subversivo do que mostrar a beleza onde as pessoas acham que só há barbárie e tristeza”.
João Roberto Ripper trabalhou na Última Hora e Diário de Notícias, cursava jornalismo, mas abandonou um mês antes de sua formatura. Preferiu seguir por conta própria sua carreira, fazendo foto-documentários sobre direitos humanos. O trabalho que realizou em carvoarias para denunciar trabalhadores em regime de escravidão serviu como prova judicial na primeira CPI do trabalho escravo do Brasil.
Quer saber mais? Não vou contar. Corra até uma banca e procure a revista Fotografe Melhor desse mês e leia a excelente matéria que Fabrizia Granatieri fez sobre este “reconhecido-desconhecido”. Ripper é uma das provas da enorme força de vontade que é necessária para se fazer jornalismo de verdade no Brasil, mas que é possível.
*Fora a foto creditada acima, todas deste podt são d’O Cara.
Postado por Ale Lucchese



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Tem tb o trabalho de formação de novos fotógrafos que o ripper comanda no complexo de favelas da maré.