Posts de Julho, 2009

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Nós, os blogs

31 Julho 2009

Quando entrei aqui no Jornalismo B não precisei receber muitos toques do que fazer. Era um vaidoso leitor do blog: a hora que me liberaram pra entrar no jogo já tinha em mente que papel poderia ocupar e fui batendo minha bolinha, batendo e apanhando, errando e acertando, essas coisas. Dentre as poucas regras que precisaram ser explicadas, lembro de uma em especial: não falar a respeito de veículos nos quais estivéssemos trabalhando. Coisa sempre achei coerente e justa.

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Hoje encerro meu ciclo neste espaço, publico este que é meu último post aproveitando o momento para, é claro, quebrar essa regra. Mas esta pequena traição se justifica: vou falar do Jornalismo B, veículo que daqui a uma hora e meia estarei oficialmente desligado. Além do mais, estar caindo fora impede que Cris e Haubrich me expulsem por este delito, visto é impossível ser expulso de onde não se está. Ora, creio que não fariam isso de forma alguma; e, neste caso em especial, talvez até gostem da atitude.

Em primeiro lugar, preciso sai em defesa do blog em uma das críticas que eu mesmo fazia e encontrava coro. Não, a crítica do Jornalismo B aos meios de comunicação não é menos legítima por seus mebros não serem nem formados ou não trabalharem naquela entidade abstrata que alguns de seus adoradores chamam com certo orgulho babão de “o mercado”.

Ao contrário do que pensava, isto não deixa a visão dos jornalistas B embaçadas, e sim menos viciada. O constante exercício comparativo entre diferentes jornais, revistas, programas de tevê, rádio, sites e outras mídias, é o que embasa e fortalece o trabalho do blog, pois seu foco são realmente estes objetos. Os melhores críticos de cinema não são cineastas. Os melhores críticos de música não são músicos. Os melhores críticos de jornalismo não são…

E não é apenas o Jornalismo B que está comprovando esta tendência. Existem aí dezenas de blogs de não-jornalistas ou de jornalistas fora do mercado oferecendo aos leitores um poderoso arsenal para desmitificar o que a população consome como notícias.

E – mais importante – estes blogs muitas vezes prestam um serviço fundamental para gente que nem os lê. Sim, quando jornalistas da imprensa percebem que tem gente deixando público na rede seus desserviços e cascatas é hora de ficar esperto e não pisar na faixa.

Embora creia que todos nós blogueiros estejamos atrasados, talvez o Jornalismo B já tenha se dado conta de uma coisa: blogs não são apenas blogs. Ou pelo menos não devem ser se querem crescer e conseguir um lugar ao sol do tamanho que merecem. Blogs são pontos de encontro, são esquinas, intersecções desta grande rede.

Eventos como debates e encontros fortalecem este caráter de identidade. Mas é preciso mais. Como bom anarquista detesto dizer isso, mas é preciso se organizar. Não muito, uma organização mínima, só a ponto de ficarmos mais livres para sermos o que realmente somos. É preciso um portal, uma grande rede, que faça a gente se encontrar fisicamente de vez em quando, e que centralize em algum lugar único na rede todos nossos veículos juntos, captando e trocando leitores. E com isso – por que não? – levantar recursos para fazer o que já fazemos como digno ganha-pão.

Está perto da hora de dar esse passo, seja encabeçado pelo Jornalismo B ou por qualquer outro veículo. Caso contrário, estagnamos aqui ou minguamos até o ponto de não existir mais. A jornada é longa, não existem grandes saltos, mas caminharemos de verdade quando percebermos que todos as caravanas estão indo para o mesmo caminho. Ninguém vai conseguir atravessar este deserto sozinho.

*Agradeço Cris, Haubrich e todos os leitores por todos esse tempo que passamos juntos. Mesmo apartados, estamos juntos! Calorosos abraços!

Postado por Ale Lucchese

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A Conferência Invisível

30 Julho 2009

Este é mais um artigo que recebemos através da campanha para participação dos nossos leitores. Agradecemos muito a imensa contribuição que a Claudia nos dá com os esclarecimentos que o artigo dela possibilita.

Apesar da I Confecom – Conferência Nacional de Comunicação – ter sido decretada em 16 de abril de 2009 pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e agendada para os dias 1º, 2 e 3 de dezembro em Brasília, ainda são poucas as pessoas que tem notícias deste processo conferencial. Por quê? Porque mídia não discute mídia, através de seus veículos mais populares: televisão, rádio e jornal. E, se não discute mídia, muito menos anuncia a I Confecom que, em suma, tratará do tema “a mídia que temos e a mídia que queremos”.

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Mas, antes, precisamos refletir: por que é importante uma conferência de comunicação? Esta é uma pergunta crucial, pois propõe um problema à população. Exige que a gente pare para pensar num assunto que não se aprofunda. É certo que as pessoas se queixam do conteúdo da programação (“baixarias“), queixam-se de só assistir “tragédia” pela TV, “brigam” com âncoras das mais variadas editorias, enviam cartas à redação de jornais reclamando de algo. Mas pensar que a comunicação tenha se transformado em conferência, é um dado novo. Requer um outro olhar sobre aquilo que nos rodeia o tempo todo!

Em nossas casas, temos aparelho de TV. Jornais populares ampliam a sua circulação. Celulares disponibilizam Internet, foto, vídeo e rádio. Coletivos tem TV a bordo. É grande o número de famílias com computador em casa e acesso a Internet. Podemos afirmar, sem erro, que vivemos numa sociedade “midiada”. Então, como não parar para discutir sobre os meios e as instituições que tratam de comunicação? Precisamos desconstruir a lógica, de que mídia é um assunto para “especialistas”, uma vez que a comunicação é de todos nós. Mais do que um direito humano, ela é vital! E, só por essa razão, justifica-se a realização da Confecom.

E a Conferência é o espaço privilegiado para tratar de assuntos de interesse público, a fim de viabilizar políticas públicas [leis] para benefício da sociedade. É uma construção coletiva, onde representantes dos diversos segmentos da sociedade se reúnem para debater temas específicos e criar consensos, ou, em última instância, partir para a disputa dentro de um processo democrático. No caso da I Confecom, tratar-se-á de discutir a “Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital”.

A Portaria 185 constituiu a Comissão Organizadora Nacional – CON – da I Confecom e as Portarias 315 e 337 publicaram a nominata dessa Comissão. E os trabalhos da CON estão atrasadíssimos, em função das divergências que surgiram desde a 1ª reunião em 1º de junho de 2009. O segmento empresarial quer fazer, do Regimento Interno – RI -, a própria Confecom. Esse Regimento, que deveria estar pronto em 1º de julho, e que é o ponto de partida para os Governos Estaduais convocarem as suas etapas, não está pronto, pois não se avança: i) no quorum interno para a votação dos itens que não são consensuados; ii) no temário da Confecom; iii) na proporção para os delegados estaduais; iv) no nº de delegados por estado/distrito federal.

sociedadeJá foi consensuado, apesar do RI não estar pronto: i) as etapas municipais são mobilizadoras para a estadual e as propostas são encaminhadas a esta etapa; ii) a etapa estadual faz delegados/as; iii) a realização de conferências livres com propostas para a etapa estadual; iv) a convocação da etapa estadual deve ser feita pelo Governo Estadual, mas, se este não a chamar em X dias, a competência é da Assembleia Legislativa e, se esta não a convoca em X dias, é a CON que se responsabiliza pela etapa estadual.

E, em relação ao orçamento da Confecom, inicialmente de 8 milhões de reais, houve um corte, em maio deste ano, passando para R$1.600.000,00. No entanto, o Presidente Lula ordenou a recomposição orçamentária, que será por decreto ou por Projeto de Lei, a confirmar na próxima semana.

Este é um resumo do processo da I Confecom, uma conferência invisível, que não está na pauta das empresas privadas de comunicação, grande parte concessionária de radiodifusão. Não se trata de contradição: trata-se de uma disputa política entre grupos privados de comunicação e movimentos sociais que lutam pela democratização das comunicações no Brasil, mediada pelo Poder Público. Aliás, esta conferência é fruto da luta histórica desses movimentos, que pressionou o Governo Federal, a ponto do Presidente Lula anunciar a sua realização no FSM 2009. E as empresas de comunicação querem evitar, em última instância, a discussão do atual modelo de negócio nessa área, altamente oligopolizado, na Confecom.

Cabe a nós, então, a tarefa de nos aproximarmos das Comissões Pró-Conferência organizadas em 23 estados, a fim de participar da I Confecom. Mais informações sobre o assunto em www.proconferencia.org.br/. No RS: www.rsproconferencia.blogspot.com.

Claudia Cardoso é membro da Executiva Nacional da Campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania“, coordenadora do Comitê RS do FNDC, membro da Comissão RS Pró-Conferência Nacional de Comunicação e dona do blog Dialógico.

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#forasarney e a imprensa brasileira

29 Julho 2009

SarneyUm grupo de jornalistas foi contratado apenas para, usando identidades falsas, melhorar a imagem de Sarney na internet. A informação é de uma coluna do Correio Braziliense de ontem, assinada por Flávia Foreque e Ricardo Brito. Segundo os dois, os profissionais foram contratados sem saber qual seria seu trabalho. Eles trabalham em um shopping, a dez quilômetros do Senado, em uma espécie de bunker, fazendo uma clipagem de tudo o que andam falando de José Sarney na imprensa e soltando informações positivas do presidente do Senado.

A coisa é muito absurda. Os 15 jornalistas da equipe recebem em dinheiro vivo pra não deixar rastros, usam nomes comuns que eles mesmos inventam para comentar defendendo Sarney, trabalham até em fins de semana e ganham míseros 1,8 mil reais. O mais impressionante é eles se submeterem a esse tipo de trabalho. E, se a coisa for séria, parece que não para por aí. A ideia é ampliar a equipe (eles foram contratados até novembro) e fazer um verdadeiro mutirão pela internet, especialmente no orkut e no twitter, mais focados no Maranhão e no Amapá.

Essas ferramentas de relacionamento online, como o orkut, os blogs, microblogs, todas essas (nem tão recentes) novidades, se prestam a diversos fins. Foi através do twitter que se encorpou a campanha do “Fora Sarney” – ou, na linguagem do veículo, #forasarney. Da mesma forma, possibilita que o oposto aconteça. O engraçado é que a defesa do senador é feita por profissionais contratados, pagos. E gente que se diz jornalista.

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Esse caso serve para avaliar a forma com que a informação pode ser manipulada. E o caso Sarney é um bom exemplo de que existe uma grande manipulação na transmissão dos dados para a sociedade. É uma bela oportunidade para refletir como a imprensa está lidando com a pressão sobre o presidente do Senado. Apesar do twitter ter agido de forma importante no processo, quem efetivamente criou esse clima anti-Sarney foram os grandes veículos – bem alimentados, é claro, com alguns fatos que apareceram por aí. A questão é que, independente de existirem fatos ou não, casos semelhantes são tratados de formas muito diferentes. E aí entra a manipulação. Ela é inevitável, sim, aquela coisa toda de a imparcialidade não existir e tal, mas a informação pode ser transmitida de forma a se defender um interesse coletivo, público, social, ou de forma a defender interesses particulares. Nesse caso, me parece, como na maioria dos casos existentes por aí, está se defendendo interesses particulares.

Não venho defender José Sarney – fica até complicado defender o indefensável, e esse não é meu papel -, mas a mídia brasileira foi extremamente hipócrita ao tratar todo esse caso. Os jornalistas vestiram a camiseta de uma ética que eles nunca defenderam. Uma ética que não existiu quando a Globo encobriu o escândalo da reeleição no governo FHC, por exemplo. A crise é do Senado, é do Sarney, é das instituições políticas, mas se trata da coisa de uma forma muito isolada. Em vez de pressionar Lula para que ele pare de defender um político corrupto – sem avaliar as consequências que a renúncia de Sarney teria para o governo, que quase ninguém contextualizou -, os veículos poderiam pressionar Lula para que haja uma reforma política que mudasse todo o sistema, que se sabe que não está funcionando.

A mídia nunca questiona o contexto da coisa. Nesse caso não é diferente. É importante deixar claro que José Sarney é corrupto, que ele não merece estar onde está, mas que o problema é muito mais amplo. Tratando como um caso isolado, a imprensa – e não vou citar um veículo ou outro, porque é toda a grande imprensa que faz isso – perde uma importante oportunidade de fazer uma reflexão com a sociedade. Aliás, ela sempre perde todas as oportunidades para refletir. Deveria se pensar no que levou ao que está acontecendo, por que as coisas aconteceram desse modo, como funciona a política brasileira. Essa seria a grande oportunidade para a imprensa forçar uma transformação política, mas discutindo com a sociedade, incorporando a sociedade nas decisões.

Infelizmente, não há interesse para que isso aconteça. Para que, se está tudo indo tão bem para Globo, Record, Band, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo etc. etc. etc.?

Postado por Cris Rodrigues

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O livro da Continental

28 Julho 2009

Foi difícil, precisei pesquisar em três livrarias, para depois ceder e comprar o livro numa megacorpração que vende livros com fins decorativos. Mas, pelo menos em parte, valeu a pena. Continental: a rádio rebelde de Roberto Marinho é muito mais que um livro, é uma iniciativa que recupera a memória político-cultural  de toda um geração

A Continental – 1120 AM – era um espaço de vanguarda em termos musicais e de comportamento durante os anos 1970 em Porto Alegre. A chamada Superquente tocava os rocks que estavam despontando pelo mundo, trazendo à Porto Alegre o universo contracultural que estava se popularizando através da música. Além disso, a rádio fazia um jornalismo corajoso e por vezes até debochado em relação ao regime ditatorial. E a Continental também foi o palco  eletromagnético no qual Wladymir Ungaretti teve o áureo privilégio de matar Jorge Mautner.

Fazer uma rádio como essa na Porto Alegre dos anos 1970 deve ter sido uma fodástica empreitada. E parece ter sido mesmo. É sobre essa empreitada que trata o livro de Lucio Haeser. Diz o Lucio, na abertura de seu livro, que ficou seis anos escrevendo esse tomo. Sem dúvida, é um esmerado trabalho. É doloroso dizer, mas em boa medida esse trabalho é ameaçado pelo texto durango de Lucio. Muitas vezes o excesso de detalhismo de nomes, datas, manchetes de jornais, etc., mais serve para confundir o leitor do que para auxiliá-lo a mergulhar naquele louco contexto.

Mas, como disse antes, Continental, a rádio rebelde… é muito mais do que um livro. Além de um cedê com uma seleção de músicas que tocavam na rádio que acompanha o volume, há um site muito caprichado onde você pode ter acesso a essa memória – clique aqui e confira.

Apesar de não ser a coisa mais agradável do mundo de ser lida, é preciso reconhecer que o trabalho de Haeser é de uma pesquisa invejável. E sua veiculação multimídia é uma das mais acertadas que vi.

Postado por Ale Lucchese

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O lado bom do David Coimbra

27 Julho 2009

a arlesianaQuando um bom repórter com um bom texto ganha uma boa pauta e resolve fazer um bom trabalho, uma boa reportagem é o único resultado possível. Elogiado aqui no Jornalismo B tempos atrás, David Coimbra foi subindo de posição dentro do Grupo RBS e deixando de lado a qualidade de seus textos, assim como a sua importância social. Na edição do último domingo de Zero Hora as páginas 4 e 5 trouxeram o melhor David de volta, na reportagem especial sobre a exposição “Arte na França 1860 – 1960: O Realismo”, que está no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), em Porto Alegre.

Uma das grandes dificuldades do jornalismo cultural é atingir o público médio sem cair em pautas bobas e linguagem simplista. Outro desafio é fazer diferença. Falar de cultura para quem está acostumado com livros, teatro, exposições, é fácil. Difícil é incluir. A reportagem “Por trás dos quadros”, de David Coimbra, parece próxima de alcançar esses objetivos.

pobre pescadorO texto liso, limpo, agradável de David já é um grande passo. Além disso, a organização do texto foi feita no capricho. Humaniza quadros que muitas vezes podem parecer mesas para algumas pessoas. Consegue mostrar – é claro que não em sua totalidade – a importância das obras que estão em exposição no Margs. Aproxima o público dos pintores, de suas obras, do espaço do museu, aproxima da cultura e, assim, do conhecimento, da consciência. A forma como o texto é costurado, com as vidas de artistas misturando-se às histórias dos quadros e de outros artistas, é brilhante. David lembra que tudo isso pode ser visto no Margs.

As duas retrancas (AQUI e AQUI) mostram as impressões de três crianças que visitaram a exposição. Mais uma forma – inteligente, não apelativa – de aproximar a população da arte, de mostrar como todo mundo pode curtir, à sua forma, a cultura. Quando um bom repórter com um bom texto ganha uma boa pauta e resolve fazer um bom trabalho, quem ganha é a sociedade, e o jornalismo presta o serviço que deve prestar.

*Em meio à histeria com relação à gripe A, a Folha de São Paulo fez o que todo jornal deveria fazer: mostrou a verdade, deixando de lado o sensacionalismo. Enquanto pipocam manchetes que tentam causar comoção e acabam causando caos e ignorância, a Folha apresentou na capa do Caderno Cotidiano de sábado a reportagem “Gripe comum mata em São Paulo 17 pessoas por dia”, comparando os números com os da gripe A e mostrando que não há nenhum motivo para pânico.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornalismo marginal em debate

24 Julho 2009
Post atualizado às 22:09 de 24 de julho.
2009.07.23 - Debate mídia alternativa 005Bem no finzinho do debate de ontem, uma das pessoas presentes comentou que o que estava sendo discutido ali naquela livraria não era jornalismo alternativo, mas jornalismo marginal. Em seguida, Rosina Duarte emendou: “no bom sentido do termo, né?”, ao que o outro respondeu: “eu não reconheço um mau sentido para marginal”. Com muito orgulho, identificamos que escolhemos as pessoas certas para participar. Jornalismo tem que ser feito para quem está à margem da sociedade, e esta tecla foi batida durante as duas horas de conversa que tivemos.

O tema era “Mídia alternativa: como fazer a diferença?”. O lugar, a livraria-café Letras & Cia. A temperatura em Porto Alegre, gelada. Mas os debatedores não desistiram e foram até a Osvaldo Aranha defender que a mídia alternativa é aquela feita para os que não têm voz na mídia corporativa, para quem não é elite. Leonardo Santos, da rádio comunitária A Voz do Morro, montou seu equipamento e transmitiu ao vivo o debate. O áudio está disponível online, AQUI. Cláudia Cardoso, do blog Dialógico, abriu os trabalhos já entrando de sola, como deve ser: a mídia alternativa, segundo ela, deve representar um embate com o capital. E o que diferencia esse tipo de mídia da corporativa é a pauta. Mais tarde, Rosina Duarte, do jornal Boca de Rua, que é um projeto da Alice (Agência Livre para informação, cidadania e educação), diria que não é só a pauta, mas também a forma com que as experiências são geridas que fazem a diferença.

Cláudia citou diversos casos emblemáticos da mídia corporativa para exemplificar o que é feito de errado. Afinal, para ela, o jornalismo alternativo deve ter o papel de anunciar o que a mídia faz e de denunciar que as coisas não são bem assim. Os exemplos citados por ela foram o caso em que os jornais omitiram o acidente com um avião que matou centenas de pessoas para mostrar as fotos do dinheiro de um suposto dossiê contra o PSDB, que incriminaria o PT às vésperas das eleições; e o blog da Petrobras – que publicou respostas a perguntas feitas por jornalistas de grandes veículos antes que eles publicassem suas matérias, evitando, assim, que as informações fossem deturpadas -, caso em que a mídia alternativa ganha força.

Citou, em seguida, o papel da internet, que vem ganhando acessos das classes C e D, e afirmou que o desafio da mídia alternativa é criar credibilidade e público. Um dos pontos principais, defendidos por todos os debatedores e já levantado por Cláudia, é que ela deve trabalhar com os grupos criminalizados pela mídia. A mídia alternativa incomoda, perturba, e esse é o seu papel. Para defender essa posição, falou na importância da Conferência Nacional de Comunicação, que vai acontecer em dezembro em Brasília. “Eu acredito na utopia”, disse, e acrescentou: “como a história está sendo, nós temos a capacidade de transformá-la”. Para concluir, afirmou: “Mídia é poder, mas comunicação é um direito”.

“Estou revisando esse conceito de que comunicação é um direito. Comunicação é vital”, Rosina Duarte começou dizendo a partir do gancho deixado por Cláudia. Usou o exemplo do filme Johnny vai à guerra para enfatizar que temos que arranjar um meio de nos comunicarmos, não importa como, e disse que a rede de nanicos que se formou durante a ditadura fez isso. “A questão é como se faz uma reforma agrária desse latifúndio da comunicação”. Para Rosina, o jornalismo hoje é o espelho de três ou quatro grupos de elite. E insiste: “o resto da sociedade sumiu, não existe”. Rosina Duarte questiona, mas sua própria experiência diz que é possível: o Boca de Rua existe há mais de 8 anos para nos dar esperança. “O leitor do Boca tem o privilégio de espiar pelo buraco da fechadura uma realidade a que ele nunca teria acesso”. E o Boca aparece como uma ação afirmativa, não reativa, como a maioria da comunicação alternativa. A questão, segundo ela, é descobrir todo e qualquer tipo de nicho e criar algo.

bocaderuaRosina encerrou sua participação falando do logotipo do Boca. No início e no final, ele tem o símbolo da igualdade. No centro, onde se lê o “de”, de Boca de Rua, aparecem os tridentes do diabo, pois a população que vive na rua é demonizada pela sociedade e pela mídia corporativa. A boca que aparece na primeira palavra não está cantando ou bocejando, está gritando. Ela contou que esse logo foi feito por um menino chapado em um minuto, num banco de praça, e não poderia ter sido mais representativo. Encerrou com Paulo Freire, que lhe concedeu uma de suas últimas entrevistas: “O mais difícil não é começar. O mais difícil é continuar”.

Leonardo Santos, da rádio comunitária A Voz do Morro, finalizou o debate mantendo o alto nível observado até então. Sua fala foi marcada pelas posições firmes. Primeiro, sobre a questão do diploma. Disse que seria ótimo para a sua rádio ter um estagiário de jornalismo, mas que não há interesse, que as universidades – inclusive as públicas – não incentivam esse tipo de envolvimento. Em seguida, parte para as rádios comunitárias. Já começa afirmando que a maioria das que solicitam a legalização não tem seu pedido nem analisado e que boa parte das rádios comerciais estão com a outorga vencida. É o caso da Atlântida, da Gaúcha – do grupo RBS -, da Rádio da Universidade, entre tantas outras. “Cada estudante da UFRGS que senta na rádio da Universidade para fazer uma transmissão está fazendo um ato ilegal”.

2009.07.23 - Debate mídia alternativa 013Outro caso emblemático levantado por Leonardo é a compra da Guaíba pela Record. Por se tratar de uma licença concedida pelo governo, ela não pode ser vendida. Ou seja, a compra é ilegal. Pode-se comprar os aparelhos, o espaço, não o direito de transmitir. Outra grande questão apontada em sua fala é algo a ser analisado por espaços como o Jornalismo B, o Dialógico, o Boca de Rua, A Voz do Morro, todos esses independentes que fazem esse trabalho de formiguinha. “A mídia alternativa ainda é muito dispersa. Precisamos unir para conquistar o espaço que as grandes empresas já têm”.

Leonardo encerra e abre-se para o público fazer perguntas. O número de pessoas presentes é bem reduzido – cerca de dez -, afinal faz cerca de 5ºC na rua. Mas a internet possibilita que a haja participação de pessoas de qualquer parte. E ela não decepciona. O Twitter do Jornalismo B está abarrotado de questionamentos e manifestações de encarangados que não tiveram coragem – com razão, diga-se – de enfrentar o frio.

Para finalizar, fica a recomendação de que quem tiver interesse participe da Conferência Nacional de Comunicação. As reuniões são semanais, todas as quintas-feiras, no quarto andar da Assembleia Legislativa. Mais informações, AQUI.

* A Zero Hora vem falando há muito tempo na possível venda do jogador Nilmar, do Internacional, para o futebol europeu. Hoje, quando Nilmar foi finalmente vendido, a Zero foi furada pela revista Trivela, que deu a notícia em primeira mão no Twitter e, em seguida, no seu site.

Postado por Cris Rodrigues

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Debate “Mídia Alternativa: como fazer a diferença?”

23 Julho 2009

Daqui a pouquinho, às 18h 30min, começa aqui a transmissão ao vivo do debate “Mídia Independente: como fazer a diferença?”, diretamente da livraria Letras e Cia, em Porto Alegre.

Presença dos debatedores Cláudia Cardoso, do blog Dialógico, Leonardo Santos, da rádio comunitária A Voz do Morro, e Rosina Duarte, do jornal Boca de Rua.

Daqui a pouquinho começa a transmissão do debate “Mídia Independente: como fazer a diferença?”. Pessoas vão chegando…

Teremos transmissão ao vivo do debate também pela rádio que pode ser acessada pelo site www.avozdomorro.com

Apresentações do blog e dos debatedores. Umas 10 pessoas no público. Vai começar.

Cláudia Cardoso, do blog Dialógico, começa falando sobre o que é mídia alternativa.

Cláudia; Há dificuldade para explicar o que é “alternativa”.

O que é ser alternativo? Pode ser independente, pode ser livre, mas tem que fazer o embate com o capital.

A população não entende que comunicação é um direito humano. Mídia alternativa tem que promover um embate ao capital na pauta.

“O que a mídia corporativa faz com os movimentos sociais e com as rádios comunitárias? Criminaliza. É isso o que temos que contrapor. A minha pauta tem que contrapor isso”.

“A minha pauta tem que contrapor isso. Anunciar como a mídia corporativa está trabalhando, e denuncia que  não é assim”.

Exemplo do Jornal Nacional, no caso das fotos do dinheiro dos aloprados do PT, omitindo pauta.

Cláudia fala que um segundo momento em que a mídia alternativa ganha força é com o surgimento do blog da Petrobrás.

“Onde está se passando o debate sobre a questão da orla? Na mídia alternativa, através da internet.”

“Um problema é como sobreviver. Se fazemos embate com o capital, não vamos ter anúncios da Gerdau e desse tipo de empresa”.

Exemplo da Ditabranda da Folha, que desqualificou quem criticou o editorial. A denúncia dessa atitude da Folha foi na internet.

“Hoje temos âncoras-celebridades, porque eles representam a empresa para a qual eles trabalham.”

“Precisamos desmistificar o conceito de que a mídia corporativa é que tem credibilidade. Os âncoras-artistas são parte desse processo”

“Dizem que a internet é só pedofilia e porcaria, e tiram a credibilidade, criam preconceitos”

“Dizem que blog só tem opinião. Por favor, nos jornais temos opinião desde o título”

“Alguns dos desafios da mídia alternativa são conseguir público, conseguir credibilidade”

“Uma estratégia importante é a troca de links, criando vínculos entre a mídia alternativa na internet, através de afinidades”

“Além da Globo e da Folha, tem o caso do Estadão que também tentou desqualificar a internet, através de peças publicitárias”

Cláudia está explicando o caso do blog da Petrobrás. (procure na nossa ferramenta de busca, temos um post sobre o assunto)

Cláudia; “Como a história não é, mas está sendo, temos condição de transformá-la”

Rosina Duarte, do Boca de Rua, começa sua fala.

Rosina fala dos grupos sociais que são descriminados pela grande mídia.

“Às vezes parece que a mídia são só esses 5 ou 6 grandes grupos, mas existe todo um grupo subterrâneo que defende o direito à comunicação”

Fala de um filme sobre um combatente no Vietnã que vai para a guerra e perde os movimentos nos membros, a visão, a fala e a audição.

Mas continuava com todas as sensações. Até que um dia uma enfermeira percebe que ele batia sempre da mesma forma a cabeça.

Batia a cabeça em código morse, e ele pedia para morrer. Esse filme é uma demonstração: temos que encontrar um meio de comunicar.

“Um exemplo é a época da ditadura. Se não fossem os nanicos, não saberíamos do que aconteceu.”

“Temos que fazer a mesma coisa agora, mostrar o que acontece no nosso tempo, encontrar esse espaço.”

“Precisamos de um jeito de fazer a reforma agrária do espaço de comunicação”

“É basicamente a pauta que diferencia a mídia que propomos, mas também a forma como gerimos essas iniciativas. Caso contrário, estaremos criando uma mídia alternativa, mas não uma mídia livre”

“Precisamos de uma nova forma de relação humana”

“Sou a favor do diploma, mas a comunicação é nossa, é de todos. O jornalista não é o dono da comunicação. Mas as pessoas têm voz, isso não se pode tirar delas”

“O jornalismo hoje é o espelho de 3 ou 4 grupos, os ricos, as celebridades, os excêntricos. Se daqui a cem anos um historiador tentar entender quem é o cidadão de hoje, vai procurar onde? Na mídia oficial, não.”

Rosina segue sua fala, lembrando que não se trabalha a comunicação como algo que pode ajudar a organizar os direitos, o questionamento…Um dos grandes desafios é a aproximação com os movimentos sociais, de forma que eles se conscientizem que a comunicação é fundamental”

“A mídia alternativa não pode apenas ser reativa, tem que ter a ação”

Rosina: “A grande questão é descobrir todo e qualquer nicho e criar algo e, aí sim, se conectar”

“São 3 momentos: criar algo, conseguir sustentar esse algo, e fazer com que isso seja parte de algo maior”

“Eu vou imitar a Cláudia, e encerrar com Paulo Freire. Pouco antes de ele morrer, fiz uma entrevista com ele, e ele me disse uma coisa que fez toda a diferença nesse tempo: ‘Rosina, o mais difícil não e começar. É continuar.”

Leonardo Santos, da rádio comunitária A Voz do Morro, começa sua fala comentando a questão do diploma: “Se for depender de um jornalista responsável para rádio comunitária funcionar, não tem rádio comunitária, porque se desenvolvem estudantes que só querem estagiar na RBS, no Correio do Povo…”

“Uma boa parte das rádios comunitárias que entraram com pedido de legalização não tiveram seu pedido nem analisado. Muitas rádios comerciais estão com as outorgas vencidas. A Atlântida, a Gaúcha, a Rádio da Universidade…e ninguém faz nada.”

“A rádio comunitária já é ilegal pela própria classificação técnica da Anatel. Essas rádios,mesmo legalizadas, são cercadas pela legislação. Tem uma série de mecanismos que impedem as rádios com. de estarem no ar. Isso é usado para atrapalhar o surgimento de novas rádios”.

“Em cidades do interior, as rádios comunitárias chegam a ter 80% de audiência.”

“Uma boa parte das rádios comerciais se utilizam da influência política para aprovar suas rádios no Congresso. Se a gente não tem acesso a nenhum político, NUNCA vamos ter outorga”

“Esses grupos, então, se utilizam dessas rádios para fazer campanhas políticas ou para programação religiosa”

“A compra da Guaíba pela Record é ilegal. Eles podem comprar o equipamento, mas não a outorga, o direito de transmitir”

“A mídia alternativa ainda é muito dispersa. Precisamos unir para conquistar o espaço que as grandes empresas já tem”

“Muita gente que poderia financiar a mídia alternativa acaba financiando grandes empresas, mas acham que ngm ouve rádios comunitárias,  acham q ngm lê jornais independentes. Aí financiam a imprensa que ataca eles próprios, como é o caso dos professores”

Leonardo está acabando. Aí vamos para as questões.

“Estamos em um beco sem saída, mas temos que ir juntos até a luzinha no fim do túnel. Temos que fazer comunicação com os instrumentos que temos, e potencializar isso através da integração”

Um senhor do público começa a falar. “Não vejo uma contrapartida daquela parte institucionalizada dos progressistas, que são os partidos”

“Passo o dia todo denunciando a RBS nas minhas charges, e aí vejo o Tarso e o Lula na inauguração do parque gráfico da RBS”

Tempo estourando. O tal senhor do público deu pau e pau no governo, e foi-se o tempo. Tem mais um querendo falar, mas não sei se vai dar tempo. Cláudia falando sobre a Conferência de Comunicação.

Ah, o senhor esse é o Eugênio, das charges que colocamos aqui nos últimos dias. Ah, a internet, que não nos deixa conhecer pessoalmente nem quem colabora com a gente…

Cláudia: “O Lula não é o Chavez, não é o Morales…não vai se portar dessa forma com a imprensa…infelizmente…”

Público fala que não é mídia alternativa, é mídia marginal. Rosina complementa: “no bom sentido da palavra”. Público diz que não reconhece sentido negativo.

Colocações finais, agradecimentos, Leonardo Santos diz que não podemos delegar questões estratégicas para o Hélio Costa, para o inimigo

Claudia fala da Conferência de Comunicação: www.proconferencia.org.br

Aplausos. Acabou.

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O interior abandonado pela imprensa

22 Julho 2009

DSC02875Estive por alguns dias em São José dos Ausentes, norte do Rio Grande do Sul, a cidade mais fria do Estado mais frio do país. Entre paisagens inacreditáveis, uma acolhida inacreditável na pousada onde fiquei e outras muitas coisas inacreditáveis, encontrei um problema que sei que assola boa parte das pequenas cidades brasileiras: a falta de imprensa.

São José dos Ausentes é uma cidade de pouco mais de três mil habitantes, cerca de dois terços deles vivendo na área rural. E é aí que está o principal problema. A rádio local é a Rádio Nevasca FM, de São Joaquim, cidade catarinense – ou seja, está em outro Estado – a 60 quilômetros do Centro de Ausentes. Essa rádio, como se pode perceber, não é exatamente local. Além disso, não pega na área rural.

Jornal? Nem pensar. Há também um jornalzinho local, que também não chega aos locais mais distantes, ao interior da cidade, onde moram mais de duas mil pessoas. Os maiores jornais do Rio Grande do Sul – Zero Hora, Correio do Povo, O Sul… – também não chegam na parte rural de São José dos Ausentes.

A pousada onde fiquei tem uma antena da Sky e uma parabólica. E estes são os únicos canais de comunicação com o resto do mundo. De certa forma, isso é ótimo, pois os moradores destes locais não sofrem com a enxurrada de informações, desinformações, mentiras, publicidade, etc. que tornam os moradores dos grandes centros urbanos máquinas idiotizadas. Por outro lado, demonstra uma falha no alcance dos meios de comunicação, um isolamento social – talvez os isolados sejamos nós mesmos, isolados do mundo real, isolados do que realmente é uma vida digna, não sei.

E esse não é o caso apenas de São José dos Ausentes, obviamente. Rincões por todo o Brasil têm casos idênticos. Considero o mais grave a falta de jornais locais, o que dificulta a integração entre os indivíduos da comunidade. As cidades do interior um pouco maiores também sofrem com esse tipo de problema. Mesmo as que possuem jornais locais sofrem com a falta de qualidade destes. O interior não pode ser deixado de lado.

*O Jornalismo B chega aos 100 mil acessos, em menos de dois anos. O crescimento do blog e da repercussão do nosso trabalho é um grande estímulo para continuarmos na luta, ainda que seja árdua e, muitas vezes, ingrata. Os comentários, os emails elogiosos que recebemos e o aumento no número de acessos são um grande combustível.

Postado por Alexandre Haubrich

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Gripe A e a cobertura da imprensa

21 Julho 2009

gripe suinaO programa Observatório da Imprensa, da pública TV Brasil, discutiu hoje como anda a cobertura da Gripe A. Sob o comando do jornalista Alberto Dines, o foco principal foi o questionamento de se a cobertura deve ser alarmista, se ela traz pânico, se deve ser sóbria, ou seja, qual o tom mais apropriado. Pois bem, vou me basear nas discussões levantadas ali para dizer o que tenho visto a respeito por aí.

Para mim me parece muito claro que a imprensa tem sido excessivamente alarmista. Fala-se muito em número de mortos, que crescem sempre – afinal, não é possível ressuscitar nenhum -, em como evitar esse mal que mata etc. Falta, isso sim ninguém lembra de fazer, uma comparação clara com a gripe comum. Todos os infectologistas entrevistados em todos os programas dizem que a gripe suína mata em proporções muito semelhantes à gripe que todos os invernos se torna epidêmica, a comum. As pessoas não se assustam com a existência dessa, todos já a conhecemos e a tratamos como algo normal. Então por que esse desespero com uma doença menos perigosa?

Já ouvi pessoas comentando que o problema da gripe A não é a cada pessoa que é contagiada, não é individual, mas coletivo. Sendo assim, falta avaliar, falta a imprensa dizer se essa gripe é transmitida com mais facilidade que a gripe que todos já conhecemos. Me parece que essa comparação facilitaria muito a compreensão. É um recurso comum no jornalismo usar uma ferramenta conhecida do público como parâmetro para uma notícia mais complicada de explicar. Esse aspecto não foi levantado nem pelo Observatório da Imprensa.

O programa, de uma hora de duração, elogiou o Estadão, que fez uma cartilha explicativa muito didática e a distribuiu. Entrevistou jornalistas, que se queixaram da falta de informação a que eles têm acesso, porque o Ministério da Saúde diminuiu a quantidade de notas divulgadas para a imprensa, que antes eram diárias e agora passaram a ser semanais. Mas saber exatamente o número de casos e o número de mortes não vai fazer uma diferença muito significativa na cobertura, e é isso que o Ministério pode informar, além de uma ou outra informação nova. Mas o principal, que seria procurar os dados exatos sobre a gripe, a transmissão, o perigo que ela efetivamente representa, para que não se faça alarde desnecessário e se crie uma situação de pânico, não depende exclusivamente de informações oficiais. É possível consegui-las conversando com especialistas, investigando.

A comparação com a Argentina foi inevitável, e se deu a entender que o papel da imprensa foi importante para ajudar a propagar o vírus por lá. No Brasil, então, o excesso de alarme seria colocado como algo positivo, já que impede a disseminação em grande escala da gripe. Discordo plenamente. Acredito que informação com qualidade é essencial, e que não se pode calar diante de uma pandemia, mas fazer um alarmismo exagerado não é a solução.

A entrevista que o Observatório da Imprensa fez em seguida com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ajudou a compreender melhor e fazer os esclarecimentos devidos, que a imprensa deveria fazer sempre. Mas não ajudou a avaliar que papel essa imprensa vem desempenhando já há quase três meses.

É uma pena que 64% do público do Observatório da Imprensa não pensa como eu e acha que a cobertura não deve ser discreta, mas sim alarmista. Sensacionalismo nunca é a solução. O jornalismo, nesses casos, tem que servir como utilidade pública, cumprir a sua função social.

* O CQC divulgou o regulamento para participar da seleção para ser o oitavo elemento do programa. Não há necessidade de ser homem, qualquer um pode participar.

Postado por Cris Rodrigues

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Conexão Brasilis – Crack

20 Julho 2009

20090709104227_10497_largeEstou escrevendo de dentro da minha barraca em Bento Gonçalves, o sol bate e cria uma estufa aqui, espantando o frio. Os dias tem sido de trabalho e de desconexão com internet, tevê e tudo o mais nas horas vagas. Sorte grande ter comprado a Rolling Stone desse mês quando fui ao centro no sábado, pois ela tem trazido cor e informação para mim nas horas livres destes dias brancos e ermos. Além disso, a revista me deu algum motivo para postar aqui hoje.

Não consegui comprar a edição com a capa do Michael Jackson. Tudo bem, o Ronaldão não tem o mesmo carisma, mas o conteúdo das páginas internas é o mesmo. Por falar nisso, a retrospectiva que a revista faz do rei do pop é sensacional, reeditar matérias velhas deve custar pouco, e o leitor agradece feliz por viver assim um pouco de uma época em que talvez nem fosse nascido.

20090709104416_10502_largeMas o que impressionou mesmo foi mais um vez o nome de Maurício Monteiro Filho. O repórter fez uma matéria ninja a respeito do uso de crack no interior do Brasil – na verdade, mais especificamente em Campina Grande, na Paraíba. A maneira de Marurício narrar é muito sedutora: não estamos apenas lendo uma reportagem, mas também acompanhando repórter e fotógrafo em uma aventura pelas ruas, delegacias e clínicas de recuperação da cidade.

Os retratos humanos dos envolvidos são bem construídos, ajudam a entender aquela realidade. Além disso, o jornalista embasa sua narrativas em dados bem fundamentados sobre o proliferação do uso da droga, comparando números de apreeensão da pedra, de assassinatos e também colocando na ponta do lápis os lucros dos traficantes.

Tudo isso é acompanhado pelo trabalho fotográfico de André Pessoa. Muy ilustrativo e belo. As matérias da sessão “conexão brasilis”, da qual a reportagem faz parte, já estão virando obrigatórias para quem quer entender um pouco mais desse vasto mundo que é esse país.

*Ainda na mesma edição da revista há o portfólio do fotógrafo Mark Seliger. Fotos originalíssimas de Joey Ramone, Michael Stipe, Nirvana, Metallica, entre outros. Aproveita!

** Fotos de André Pessoa roubadas do site da Rolling Stone brasileira.

Postado por Ale Lucchese