
Fotojornalismo é subversão
6 Julho 2009

Em algumas épocas do ano, especialmente em feriados, as pautas bestas pipocam nas redações. Em uma crítica que fiz a isso tempos atrás através da nossa página no Twitter, recebi uma resposta mais ou menos assim: “Se tu soubesses a dificuldade para se encontrar pautas nos feriados…”. Respondi, e o assunto deste post só vem a demonstrar o que falei, que as pautas existem, mas, de dentro da redação, é complicado encontrá-las. Na rua, e com olhar apurado de jornalista, fica muito fácil. Sempre.

O jornalista Wladymir Ungaretti é um desses que tem olhar apuradíssimo. Enxerga o que poucos são capazes de ver. Seu blog, o Ponto de Vista, está sob censura. Para não retalhar o conteúdo que produz, pouco tem publicado nesse espaço. Ungaretti me enviou recentemente as fotos que estão por este post. Elas foram feitas em cinco minutos, na Esquina Democrática, em Porto Alegre, e não serão, ao menos por enquanto, publicadas em Ponto de Vista.
Como ele mesmo me disse por email, “as fotos podem são serem de alta ‘qualidade fotográfica’, mas são o ‘olhar’ de um jornalista”. E o que mais importa? A técnica, é claro, faz diferença, mas um bom fotojornalista não se faz sem sensibilidade e sem uma visão que vá além do senso comum. Essas fotos possuem uma humanidade profunda. Fotografias jornalísticas precisam de rostos, de expressões, de gente de verdade, de verdade de verdade, de espontaneidade, de rua.
A preguiça, a campana, a distância, a sisudez, o rabo preso, resultam, no máximo, em lindíssimas fotos-cascatas de cágados almoçando pombas. É preciso sair às ruas, é preciso desmercadorizar-se, humanizar-se. Um beijo marginal, um cego escorado ao lado de manequins cegos, uma criança em conexão – através das mãos e do olhar – com o artista, o trabalhador que ninguém vê. Aliás, ninguém vê ninguém. O local das fotos é no Centro de Porto Alegre, onde todos passam apressados, cegos. É preciso um olhar treinado para enxergar pessoas em pessoas.
Em tempos nos quais jornalistas também passam correndo sem olhar, ou com um olhar que não enxerga – isso quando saem das redações –, os cinco minutos de realidade são a verdadeira subversão.
* Essas são apenas algumas das 12 fotografias tiradas em cinco minutos.
Postado por Alexandre Haubrich
Tele-entrega: 32287128
Av. Ipiranga, 698, Porto Alegre - RS
Acho que esse é um dos males que aflige as pessoas de modo em geral: somos educados pra aprender a ler e escrever mas não a enxergar realmente as coisas. Nós olhamos mas não vemos. O Ungaretti mostrou com esse ensaio que tudo está acontecendo a toda hora ao nosso redor, é só prestar atenção. Mas pensando bem, acho que ninguém tem tempo pra isso hoje em dia.
Tem toda razão..fui no centro de SP e me deparei com isso. Todo clique tem seu valor, todo corpo tem sua dor, mais nem todos olhos têm seu pudor.
Parabéns pela postagem.
Abraços.