Daqui a pouco, a partir das 18h30min, você poderá acompanhar por aqui a cobertura minuto a minuto do debate “O papel da imprensa na crise política do Estado”, promovido pelo Jornalismo B, direto da livraria Letras e Cia, em Porto Alegre.
Os debatedores serão Marco Weissheimer, do blog RS Urgente, e Guilherme Kolling, editor de política do Jornal do Comércio.
Você também já pode enviar suas questões ou comentários por aqui. Antes, durante e depois do debate. As que chegarem a tempo serão, dentro do possível, colocadas para os debatedores.
Vai começar. Apresentei o blog, agora a Cris apresenta os debatedores.
Guilherme Kolling, editor de política do Jornal do Comércio, começa agradecendo o convite e falando da importância da análise de imprensa.
Guilherme diz que a imprensa é um poder que não costuma ser fiscalizado.
“Tenho 3 observações iniciais fazendo a crítica da cobertura da imprensa nesse caso. A primeira é em relação ao jornalismo declaratório, uma prática muito comum.”
“O que sai nos jornais é quem disso o quê. Não tem uma conclusão, uma leitura real dos fatos para o leitor. Às vezes tu lê uma matéria que diz que fulano disse que a mesa é verde, beltrano disse que é amarela. O leitor termina a matéria sem saber a cor da mesa.”
“A cobertura da imprensa não está satisfatória, em primeiro lugar, por causa dessa prática de jornalismo declaratório”
“O noticiário da crise está sendo muito ocupado por questões jurídicas. O caso do deputado José Otávio Germano é um exemplo. O debate fica exlusivamente focado se as gravações não deveriam ter sido feitas com autorização do STF, se a juíza de Santa Maria teria ou não competência para julgar…”
“O desvio do foco do tema central é outro problema”
“Outra questão de desvio de foco é discutir se as ações são ou não midiáticas. Acho, inclusive, que a ação do MP não foi.”
“Poderia se debater se a imprensa espetacularizou a questão, mas não culpar os procuradores.”
“O foco do debate tinha que ser o que aconteceu e o que não aconteceu, um debate de fundo. Ao invés disso, se debatem questões superficiais.”
Marco Weissheimer, do blog RS Urgente, começa sua fala lembrando que é o segundo debate do Jornalismo B do qual participa.
“Falta uma grande narrativa interligando os fatos.”
Cita exemplo de matéria de Moisés Mendes, que fez isso de forma exemplar. Diz que Moisés conseguiu dar uma ideia geral do ambiente. Mas é um exemplo raro.
“Ao mesmo tempo em que há essas exceções, há o padrão geral de cobertura, que é bem diferente. ZH e Correio do Povo fazem uma cobertura diária, mas na linha do morde e assopra.”
“No dia seguinte à entrevista dos procuradores do MP, a manchete de ZH era ‘Ação atinge Piratini’. Tem que tirar o chapéu para a criatividade. Deram conotação de vítima, como um furacão que atinge uma cidade. Se a reportagem tenta morder, os espaços editoriais se encarregam de assoprar. Isso não é por acaso.”
“Grandes empresas de comunicação, como a RBS, têm sua posição política, tem seus interesses econômicos, e tudo isso é legítimo. Mas seria legítimo também que expressassem isso de forma transparente.”
“Há omissões, mistérios e fragmentação”
“Começando pelas omissões, temos que lembrar que o escândalo do Detran teve um braço jornalísitico, quando jornalistas eram comprados.”
“O Detran patrocinava jornadas esportivas. Não há nenhuma prova de que isso tenha relação com o braço midiático do Detran. Também não há evidência de que não tenha.”
“No meio da investigação, veio a público uma carta de Lair Ferst para a governadora. Nessa carta, ele faz menção ao braço midiático do Detran. Cita o José Barrionuevo, por exemplo, e menciona o negócio que existiu, segundo ele, em torno do Pacto pelo Rio Grande. Se não há uma prova concreta, existem indícios importantes.”
“Outro caso de omissão: há jornalistas proibidos de entrar no Piratini desde o início do governo. Ninguém da grande imprensa fala nada. O caso do espião da BM infiltrado como fotógrafo, com crachá falsificado, numa manifestação, também não foi falado.”
“Há uma contrapartida, não especificada em contrato, vinculando campanhas publicitárias à linha editorial dos veículos.”
“Essas são as omissões. Agora, os mistérios. O primeiro é o caso do Marcelo Cavalcante, de quem não se fala mais”
“O segundo mistério, mais recente, é o assassinato do sem-terra Élton Brum. Finalmente, ontem, a brigada disse que descobriu o culpado.”
“A morte do Élton acontece sexta-feira, no início da manhã. Na sexta-feira de tarde eu recebi uma ligação do Adão Paiani. Ele me relatou que um oficial da brigada relatou a ele que quem fez o disparo foi um oficial. O Paiani me falou o seguinte: ‘Eles vão demorar uma semana, não vão dar o nome, e vão atrás de um soldado para assumir o disparo’. Foi exatamente o que aconteceu.”
“Esses são os mistérios. Há ainda a fragmentação.”
“Há uma associação entre o governo atolado em corrupção e a violência com que ele reage contra quem se opõe a isso tudo. Seja essa violência física, e a morte do Élton e a cereja triste desse bolo, como também violência na relação com a imprensa.”
“Há muitos casos de assessores importantes do Piratini fazendo telefonemas para jornalistas, reclamando de reportagens publicadas.”
“Vivemos também um grave problema ambiental aqui no Estado, começando pelas papeleiras. Conversei semana passada com o Paulo Brack, do Consema, e ele contou que antes ainda se procurava manter uma certa aparência. Hoje não há mais nada disso. O governo Yeda criou um negócio chamado ‘Balcão ambiental”, e o nome é auto-explicativo. O licenciamento ambiental virou um cartório.”
“Tudo o que está acontecendo, com ameaças a funcionários da Fepam, ameaças de demissão, parece invisível à população.”
“Há uma ligação muito óbvia entre a corrupção, a violência e a degradação ambiental, e a grande imprensa não faz essa ligação, essa conexão.”
“Como o Guilherme falou, só há preocupação com as questões jurídicas.”
Um homem da platéia comenta a importância dos blogs na cobertura verdadeira das questões do governo Yeda.
Outro pergunta sobre o código ambiental, e Guilherme começa a responder.
“O discuros que temos hoje é ‘não vamos frear o desenvolvimento’, que é um discurso ultrapassado. Se usa de questões pontuais para tratar questões muito maiores. Está pautado nas páginas de economia. Se poderia trazer também o debate ambiental, nas páginas de Geral, mas isso não está acontecendo. Aqui no Rio Grande do Sul quase não tem o debate, e, quando tem, é focado na questão econômica”
Professora da Universidade de Lajeado pergunta se o desmonte da questão ambiental não está ligado ao desmonte político que vivemos.
Marco fala que é o interesse econômico, puro e simples: “Essas empresas são os anunciantes desses jornais. Em parte é a pressão dos anunciantes, em parte são interesses empresariais ativos, no caso da RBS, na área da construção.”
“O que vem acontecendo em SC em termos de desastres ambientais não pode ser desvincluado das mudanças na legislação ambiental que tivemos lá nos últimos anos. No entanto, nesses casos, os editorias do Diário Catarinense e da Zero Hora falavam reiteradamente em armadilhas do clima. O maior retrocesso ambiental da história do país é patrocinado pelo governador Luiz Henrique. A Yeda esteve lá recentemente, conversando com ele, e quer aplicar esse mesmo modelo aqui.”
“Há uma quadrilha no governo do Estado, e essa quadrilha criou um balcão de negócios. Há também uma letargia na população em relação a isso. O tema Sarney, em Brasília, ajudou muito a Yeda. Se dilui, se naturaliza, se diz que é assim mesmo, não adianta, e não se discute mais o assunto. O contato diário que temos com as pessoas mostra que não há uma indignação. As pessoas aqui estão mais indignadas com o Sarney. Se cria um ambiente de desmonte da política e acho que esse é um grande perigo que a gente corre. É um caso de cultura para autoritarismo que é muito perigoso.”
Guilherme diz que a imprensa contribui muito para esse ambiente de letargia.
“Não se tem cobertura das mobilizações que acontecem, das reuniões. Há a letargia, mas em grande parte porque a imprensa não noticia as mobilizações”
Na platéia, a jornalista Naira Hoffmeister fala: “a imprensa tem mania de que cobertura política se faz cobrindo os personagens, e não a política em si, sem se falar dos resultados dessa força. Se cobre um projeto quando ele vai para o plenário. Por alguma razão, se aceita isso.”
“Enquanto tem um cara ouvindo o que cada lado vai falar, não sobra ninguém para fazer uma matéria de fôlego, analisar documentos, tentar ligar os acontecimentos. Tudo isso é um erro de condução. Tem que cobrir só declaração. Podiam reservar uma pessoa que fosse para não fazer isso.”
“Parece que aqui ninguém quer dar furo. Quer dar a matéria que o outro jornal deu. Olha no outro dia e fala ‘ah, que bom, a Zero Hora deu isso e eu também”
Marco cita pautas que seriam fundamentais em relação ao meio ambiente, no sentido de fazer uma cobertura mais profunda, e que não são feitas, pois não se tem interesse em fazê-las.
“O fato de não existirem essas pautas é muito revelador do que vai na cabeça dos editores. O jornalista do Correio Braziliense fez uma série de reportagens sobre o tema dos eucaliptos. Veio aqui, foi no Espírito Santo, em MG… Eu fico imaginando um repórter daqui chegar pro seu editor na Zero Hora e sugerir uma matéria como essa.”
Guilherme fala da questão da pasteurização do noticiário. Aqui e também fora do Estado. Muita matéria de agência.
Luiza Monteiro, estudante de jornalismo da UFRGS, fala da homogeneização das matérias. Diz que não há pluralidade, e o leitor, e mesmo quem analisa a mídia, às vezes não percebe isso, e até critíca quem faz algo diferente.
Naira volta a falar, e defende a especialização mais clara dos repórter como forma de produzir reportagens mais aprofundadas e de qualidade.
Cris pergunta sobre o papel dos blogs na cobertura da crise.
Marco fala de uma amiga dele de Canoas, que ligou pra ele às 8 da manhã e disse para ele olhar no youtube, que já tinha o vídeo de uma agressão de brigadianos a um motorista de ônibus. Alguém filmou toda a agressão com o celular. Marco diz que foi lá na hora e publicou. A Zero Hora foi publicar isso no site ao meio-dia, com outro tipo de texto.
“Já é real e concreta a capacidade dos blogs de forçar, pressionar, e obrigar os grandes veículos a publicar. Se consegue tanta divulgação para alguns fatos, através dos blogs, que não há como os grandes não publicarem.”
“Um grande desafio é conseguir publicar e dar visibilidade para acontecimentos que acabam repercutindo na grande imprensa. Esse tipo de coisa começa a influenciar também os jornalistas dos grandes veículos. O grande desafio, então, é qualificar essa informação, conseguir a informação também.”
Naira critica cartas de leitores, outro senhor da platéia diz que deve haver uma “fábrica de cartas”, e Marco complementa: “Existem agências de publicidade que trabalham com isso há tempo. Não digo que todas as cartas venham disso, mas muitas, sim. Agora estão fazendo a mesma coisa em comentários de blogs, defendendo os interesses dos contratantes como se fossem pessoas comuns.”
Marco: “Esses debates são muito importantes, e também não tem espaço na grande mídia. Fico imaginando o Conversas Cruzadas fazendo um debate sobre o papel da imprensa na crise política do Estado, com uma bancada super plural…com Políbio Braga, Paulo Sant’ana…”
Naira critica a ideia que se aprende nas faculdades de que o jornalismo tem que ser imparcial: “e aí nós, jornalistas, não analisamos nada, não nos posicionamos, ficamos querendo ouvir todos os lados e vira uma matéria declaratória. Ficamos achando que jornalismo objetivo é dar o microfone para o cara falar o que quiser… Se criou a ideia de que o jornalista não pode pensar.”
Marco cita Robert Fisk, um dos grandes jornalistas da atualidade: “Jornalista tem que ter lado”. Diz que Gabriel Garcia Marquez também diz isso, e que todos, absolutamente todos os grandes textos jornalísticos da História tem lado. “O texto jornalístico não é um texto científico. Tem apenas que ser transparente, não imparcial, puramente descritível”
Considerações finais: Guilherme agradece o convite, fala da importância da busca de informações em fatos, não se ficar na questão de dar os dois lados e, no fim, não dizer nada.
Marco agradece e diz que, embora seja cético, tem fé no jornalismo como um discurso que busca a verdade e o interesse público. “Por isso, o jornalismo não pode ser imparcial”
Aplausos, acabou.