Em duas colunas e meia da reportagem, a palavra “morte” aparece nove vezes, falando do caso do integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Elton Brum da Silva. Será que falta vocabulário aos repórteres de Zero Hora, Humberto Trezzi e Maicon Bock? Ou será que a palavra “assassinato”, a mais adequada a esse caso, está riscada do dicionário quando o assassinado é integrante de algum movimento social?
Esse é apenas um dos pontos. A reportagem “O novo caderno dos sem-terra”, publicada na Zero Hora desta segunda-feira, é uma sucessão de inversões e desvios jornalísticos. Erros, não. Inversões e desvios.
Pra começo de conversa, ZH pegou um fato bobo e transformou-o em um grande acontecimento. Vamos, por enquanto, ignorar a possibilidade de o tal caderno ter sido plantado. O uso do sensacionalismo – especialidade na qual Zero Hora torna-se cada vez mais crack – serviu, nesse caso, à criminalização do MST, outra prática comum por ali. A manchete de capa é “Diários revelam estratégias do MST”. A cartola é “Cadernos da invasão”, e está escrita em branco sobre um fundo vermelho. “Estratégia”. “Invasão”. Vermelho. Como se diz por aí, é o MST tocando o terror! Haja cara-de-pau.
Ainda na capa, duas chamadas menores: “Morte de sem-terra rende uso político”, e “O plano é derrubar a cúpula do Incra gaúcho”. Ou seja: segundo ZH, o MST tem um plano malévolo para derrubar a cúpula do Incra – pobrezinha da cúpula do Incra – e, para isso, vai usar a “morte” de Elton. Passar para a sociedade a ideia de que os Sem-Terra são pessoas sujas, feias, más e sem coração é a estratégia.
No texto: na última frase do segundo parágrafo há uma clara demonstração de qual o posicionamento do jornal, do que Trezzi e Bock querem incutir na cabeça dos leitores. A frase, falando do assassinato (ou “morte”) de Elton Brum: “Embora lamente o episódio, pela dificuldade que o trauma acarretará no recrutamento de militantes, o autor comemora a repercussão”. Em primeiro lugar, a frase poderia estar invertida, não? Algo como “Embora o autor comemore a repercussão, lamenta o episódio”. Não muda o sentido completamente? Além disso, o repórter tenta dar a entender que o único motivo do lamento é a dificuldade para o recrutamento. Mais uma tentativa de mostrar os Sem-Terra como animais sem coração, como monstros. E mais: leia os trechos do caderno que a própria ZH disponibiliza. Há comemoração? Não achei nenhuma.
O quarto parágrafo começa assim: “As anotações são tão claras que deixam margem para a suspeita de que o MST manda recados via cadernos abandonados”. E aí entramos em mais um dos infinitos pontos de conflito presentes nisso que o jornal chamou de reportagem. Não há, nesse trecho, sequer a cogitação de que o caderno possa ser forjado. Isso não acontece, aliás, até chegarmos às últimas linhas. Lá, bem no final, está o seguinte:
“(…) Mauro Renner se diz espantado com o teor dos manuscritos achados no Incra: – Por outro lado, não podemos afastar a hipótese da contra-informação, para prejudicar o movimento”.
Onde, por favor alguém me diga, Mauro Renner se diz espantado com o teor dos manuscritos? Claro que talvez ele tenha dito antes, entendi a lógica “jornalística” desse trecho. Mas por que o destaque tem de ser exatamente no “espanto com o teor dos manuscritos?”, e por que a suspeita sobre uma possível tática de contra-informação está tão escondida? Porque Zero Hora, propositadamente ou não, é peça fundamental dessa contra-informação, pois é quem a publica - caso esse realmente seja o caso.
Outra questão que fica: até agora, da mesma forma que não chega à sociedade o nome do assassino de Elton, também não chega o nome de quem entregou o caderno a ZH. É pra pensar.
Mesmo que admitamos que o caderno seja realmente do MST, não há informação nova para uma reportagem, e o sensacionalismo que ZH aplicou ao fato teve como único objetivo o fortalecimento da estratégia de criminalização do MST e dos movimentos sociais. Manipulação boa é manipulação sutil. Essa reportagem é exemplar.
* No próximo sábado, dia 26 de setembro, às 15h, o Jornalismo B promove o debate “Charges: só humor ou subversão“, com a presença de Santiago e Kayser. Vai ser na livraria Letras e Cia (Osvaldo Aranha, 444, Porto Alegre). Esperamos todos lá!
Postado por Alexandre Haubrich