Posts de Setembro, 2009

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A nova ditabranda da Folha

29 Setembro 2009

A Folha de S.Paulo teve hoje mais um momento “ditabranda”. Embora ainda diga que não, está abertamente apoiando o governo golpista de Honduras. Em editorial de hoje, terça-feira, 29 de setembro (é bom registrar bem a data para a posteridade), criticou duramente a postura do governo brasileiro de ceder asilo a Zelaya. Mais uma vez, a crítica não é direta, e direciona-se à ocupação da embaixada por outros 60 manifestantes, que o jornal considera um absurdo. Vê diversos defeitos na atuação do Brasil no caso, acha que o governo deixou a coisa virar bagunça, resumindo. Mas afinal, quer bagunça maior que a que está em Honduras?

A Folha critica o governo até por deixar Zelaya falar. Diz que, “devido à omissão do governo brasileiro, Zelaya e seu séquito transformaram uma representação diplomática estrangeira numa tribuna e num escritório político privilegiados” e completa que deve impor ao presidente eleito Manuel Zelaya a regra de “calar-se sobre temas políticos internos”. Se o objetivo do Brasil é justamente reaver a normalidade e a legalidade e conduzir Zelaya de volta ao poder, como pode impedi-lo de falar sobre assuntos de seu próprio país?

saudades

Acusa o governo de perder o controle sobre a situação, mas acaba caindo em um problema muito grave. Na tentativa de deslegitimar o governo brasileiro, provavelmente com objetivos internos de desestabilizar o governo dentro do Brasil – já de olho em 2010 -, a Folha acaba legitimando um golpe de Estado. E isso é gravíssimo. Ainda mais depois de seu passado recente que lhe condena, quando acusou a ditadura brasileira de ser branda. A Folha vai tomando, assim, perigosos ares anti-democráticos e de autoritarismo.

O mais grave do editorial está no final, quando o jornal fica mais perto de justificar completamente o golpe do ditador Roberto Micheletti, que, aliás, a Folha chama apenas de “presidente”. Ela não só não condena o golpe como quase o justifica. Diz que o “regime”, como ela nomeia, ocupa uma “categoria bem mais tênue de ilegalidade democrática” que a de outros presidentes apoiados por Lula, como Fidel Castro. Aí o jornal diz que o que Micheletti fez é ilegal, mas termina com um porém. “O governo interino, contudo, respeitou a linha sucessória constitucional, assegurou o poder em mãos civis e manteve o calendário das eleições presidenciais, marcadas para 29 de novembro.” Como se fosse possível realizar eleições justas nessas circunstâncias e como se isso anulasse todo o caráter golpista da situação.

Mas o pior de tudo é que a Folha está apenas seguindo a tendência golpista do jornalismo brasileiro de um modo geral, como já comentado aqui no Jornalismo B – com relação ao Jornal da Globo e à Zero Hora. Até nas charges a coisa descambou, como mostra o blog Dialógico. A Míriam Leitão afirmou hoje no Bom Dia Brasil que o governo Lula deveria ter atuado da mesma forma na Venezuela e na Argentina quando tentaram censurar a imprensa, na visão dela. Ou seja, iguala situações completamente distintas. A Zero Hora está realizando uma enquete com a pergunta “O que aconteceu em Honduras foi um golpe? Deixe a sua opinião”. O mundo inteiro enxerga um golpe em Honduras, menos a imprensa brasileira.

* A charge foi retirada do Blog do Kayser.

* O presidente Lula sancionou a reforma eleitoral e os debates na internet estão liberados. Ainda bem. Além de não ter lógica impor exigências nesse caso, igualmente não faz sentido criar uma lei impossível de ser cumprida e fiscalizada.

* A revista Veja dessa semana publicou uma informação que passou batida pelos veículos de comunicação. Talvez porque seja mentira, difícil saber. Diz na coluna Holofote, assinada por Felipe Patury, que a Igreja Universal quer vender seus veículos impressos, entre eles o Correio do Povo, e que o bispo Edir Macedo jura de pés juntos que é verdade. O Coletiva.net acrescenta a informação de que o Correio nega a venda.

Postado por Cris Rodrigues

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Debate sobre charges em tarde de sol tem clima descontraído

28 Setembro 2009

Em uma tarde de sábado na qual um baita sol surgiu em Porto Alegre, dois baita nomes das charges brasileiras fizeram um debate divertido e provocador. Na livraria Letras e Cia, no sexto debate promovido pelo Jornalismo B, Santiago e Kayser deram show.

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Quem começou falando foi Kayser. Com projeções em uma tela, analisou diversas charges de craques, como Santiago, e de outros nem tanto, como Marco Aurélio (que foi convidado para ser outro debatedor, mas não deu retorno). Entre comentários de Santiago e da platéia, os do primeiro costumeiramente seguidos por ondas de risos do público, Kayser mostrou alguns “truques sujos” usados por certos chargistas, mostrou charges dominadas por preconceitos, outras sem qualquer interesse público.

As charges também são uma forma de se fazer jornalismo, de informar, de conscientizar. Kayser apresentou muitas, feitas para grandes jornais como a Zero Hora, que não chegam perto desse objetivo. Como explicou, “charge não é só para fazer gracinha”. Kayser ainda fez comparações entre charges de Santiago e de outros chargistas, como o próprio Marco Aurélio, deixando evidentes alguns casos de plágio, de apropriação de ideias.

Em seguida, Santiago assumiu a palavra, e sua fala foi além das charges, ainda que tenha tido elas como base. Falou, com propriedade, das possibilidades de se criar uma imprensa alternativa forte, criticou fortemente a grande imprensa e quem a sustenta.

Disse que é impossível para um chargista realmente crítico, um bom chargista, ficar muito tempo em um grande veículo. “Quem tem dinheiro é gente muito inteligente para seus negócios, mas muito burra para o mundo, e são esses os donos dos grandes veículos de comunicação”.

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Santiago criticou a falta de crítica da grande mídia. Lembrou que muitos assuntos são proibidos nestes meios, já que os principais atingidos seriam os patrocinadores. Modelo rodoviário, meio ambiente, empreiteiras…são questões que não podem ser colocadas em pauta.

Depois de Santiago, foi a vez de a platéia se posicionar. O café da Letras e Cia virou, então, um grande palco de conversas. Um bate-papo descontraído e interessante tomou conta do ambiente, e fomos até a hora de a livraria fechar em uma grande conversa entre a platéia, os debatedores e os promotores do encontro.

Foi, mais uma vez, um debate muito produtivo. Em qualquer formato, em qualquer circunstância, a troca de ideias é sempre importante, principalmente qando busca construir modelos novos, alternativas novas e que sejam capazes de reunir pensamentos diferentes enquanto semelhantes, que estão do mesmo lado embora ocupem posições diferentes. Essa é também a proposta do Jornalismo B, essa congregação de pessoas comprometidas com o mesmo lado. Ainda que hajam diferenças, as convergências têm de servir para construirmos alternativas e criarmos ideias e ações mais completas. Os debates têm alcançado este objetivo, do encontro, e mês que vem, se tudo der certo, tem mais.

Postado por Alexandre Haubrich

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Debate “Charges: só humor ou subversão?”

26 Setembro 2009

Daqui a pouco, às 15 horas, começa aqui e no twitter do Jornalismo B, a cobertura minuto a minuto do debate “Charges: só humor ou subversão?”, com Santiago e Kayser, direto da livraria Letras e Cia, em Porto Alegre.

Vai começar o debate “Charges: só humor ou subversão?”, com Santiago e Kayser. Cris começa apresentando o blog e o debate.

Kayser vai começar falando. Santiago diz que Kayser é doutor.

É um material que seria usado em um debate em 2006, no Mercado Público.

Vai falar de charges do Marco Aurélio e comentá-las.

“Coincidentemente, alguns chargistas, nesses casos, tinham ideias iguais às nossas, logo em seguida da gente”

Mostra a charge “prepeita”, na época em que Margarete Moraes assumiu prefeitura, dizendo que a charge reforça preconceitos, conteúdo sexista

“Além de desenhar peitos em Porto Alegre, são seios desenhados pelo Marco Aurelio. Um duplo desrespeito”

Diz que as charges têm uma função crítica, não estão lá só para fazer gracinha.

Muitas risadas o tempo todo entre a platéia e os debatedores.

Kayser segue mostrando charges na tela e as criticando, analisando-as.

“Esse é um dos truques mais rasteiros que se pode fazer numa charge, o do ‘pobrezinho’. O Ronaldo faz muito isso, desfazer os fatos com esse tipo de recurso”

A conexão caiu, mas voltamos.

Kayser analisou charges ruins e comparou-as com boas, mostrando, inclusive, casos em que houve plágio

Santiago falando agora. Diz que é impossível para um chargista realmente crítico, um bom chargista, ficar muito tempo em um grande veículo. “Quem tem dinheiro é gente muito inteligente para seus negócios, mas muito burra para o mundo”

Santiago criticando falta de crítca na mídia de modo geral. Modelo rodoviário, meio ambiente, empreiteiras, questões que não podem ser tocadas, porque as empresas patrocinam toda a grande imprensa.

Tá impossível fazer a cobertura, a conexão cai o tempo todo. Segunda-feira teremos aqui o post sobre o debate de hoje.

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Cobertura de Rodrigo Lopes é insossa

25 Setembro 2009

Não sei se é orientação do jornal ou se o repórter é só ruim mesmo, mas o blog do Rodrigo Lopes, da lista de blogs da Zero Hora, que está escrevendo direto de Tegucigalpa sobre a situação de Honduras é péssimo. A palavra não é forte demais, o blog é muito ruim mesmo. 

blog rodrigo lopes

Para começar, é praticamente um blog de fotografias com notas de algumas poucas linhas. Informação, muito pouca. Embora seja um blog, fica clara a intenção do jornalista de não expressar sua opinião. Mas é difícil não notar que há uma tendência de mostrar manifestações pró-Micheletti, anti-Zelaya. As críticas ao governo Lula estão camufladas, mas estão lá. Mas isso nem é o mais relevante na crítica ao blog. O pior de tudo é o que ele não faz, a falta de qualidade como repórter, a não-cobertura.

São observações fracas, vazias, sem conteúdo. Descrições de situações pequenas, mesquinhas até. De quem não conseguiu nada melhor para dizer. Mas que não conseguiu porque não se dedicou, porque não teve competência. Textos amorfos e insossos. Ele acha que escrever notinhas dizendo “hoje aconteceu isso aqui do lado do hotel” é mostrar que ele está presente no lugar onde as coisas acontecem. Isso não é jornalismo, é perfumaria.

Sabe quando fica claro que o repórter é ruim mesmo? Rodrigo Lopes é um repórter tipicamente RBS. Um perfil muito claro. Tentativa de se tornar apolítico, pouca vontade de fazer uma cobertura decente, falta de amor à camisa, à profissão. Não se nota uma dedicação, uma paixão em seus textos.

Não dá pra ignorar as posições políticas do repórter em uma cobertura. Isso nem é desejável. Só há a necessidade de que haja dedicação para fazer uma cobertura completa, decente, que dê vontade de ler. Ali nem se encontra informação. Ou seja, o blog não se presta a nada: nem a informar nem a opinar. Nada.

zelayaComo se não bastasse, as notinhas foram compiladas, escolhidas as menos piores e publicadas em espaço nobre (Reportagem Especial, páginas 4 e 5) da Zero Hora de hoje. E acompanhadas por um texto igualmente fraco e sem conteúdo. A matéria principal da cobertura é um relato da abordagem dos policiais ao carro dos repórteres. E ainda uma abordagem que não teve nada de mais. Os policiais perguntaram se eles eram brasileiros, foram um pouco ostensivos. Sim, os repórteres esperavam o que de uma situação de tensão dessas? Café e bolachinhas?

Os aspectos políticos praticamente nem são abordados, só as picuinhas do dia-a-dia. A visão do repórter a respeito da situação de Honduras é limitada. Não foge dos detalhes mundanos que qualquer um enxerga e que são bastante previsíveis em uma crise desse porte. Uma análise contextualizada, com antecedentes políticos e perspectivas futuras? Duvido que Rodrigo Lopes saiba o que é isso. Não dá nem pra criticar a cobertura da tensão em Honduras por ser tendenciosa. Dá pra criticar por não ser uma cobertura, não trazer informação, por não se tratar de jornalismo.

* A imagem de Zelaya foi retirada do Estadão online.

* Os repórteres da RBS Carlos Wagner e Cid Martins descobriram e divulgaram hoje, pela Zero Hora e pela Rádio Gaúcha, o nome do soldado que supostamente matou o sem-terra Elton Brum e que estava sendo mantido em sigilo pela Brigada Militar.

* É amanhã, às 15h, o debate “Charges: só humor ou subversão?”, com Santiago e Kayser, na livraria-café Letras & Cia (Osvaldo Aranha, 444, perto do Túnel da Conceição, em Porto Alegre). Não dá pra perder. Quem não puder ir, pode acompanhar a cobertura minuto a minuto pelo blog.

Postado por Cris Rodrigues

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Uma boa entrevista com Manuel Zelaya

24 Setembro 2009

Quem é o personagem que está mais em evidência na política mundial nesse exato momento? Na minha opinião, Manuel Zelaya, o presidente de Honduras deposto por um golpe de Estado. Pois Zero Hora conseguiu uma entrevista exclusiva com Zelaya, e a fez de forma competente e honesta. A entrevista foi publicada na edição desta quinta-feira (24/09).

zelaya - Esteban Felix-APLéo Gerchmann, editor assistente de mundo, fez a entrevista por telefone, como não poderia deixar de ser e, no texto que introduz a entrevista, conta as dificuldades encontradas para tanto. Ligações que caíam, problemas de sinal e, cerca de 40 tentativas depois, a entrevista.

Esse texto inicial, aliás, é muito bem estruturado, muito claro, e consegue pôr o leitor bem a par do que está acontecendo em Honduras. É claro que de forma um tanto rasa, afinal de contas não é uma reportagem, apenas um texto que indroduz uma entrevista. De qualquer forma, há honestidade no relato (o que não tem acontecido em algumas coberturas sobre Honduras, como vimos em outro post do Jornalismo B). Não há nem a tradicional condenação ao governo Lula e seu posicionamento em relação à questão.

A entrevista vai por esse mesmo caminho. As quatro perguntas – segundo o texto do repórter, depois de dez minutos a ligação caiu – foram bem formuladas, Léo Gerchmann conseguiu aproveitar muito bem o pouco tempo que tinha. Conseguiu abranger questões importantes para o momento, questões que todos gostaríamos de fazer. Conseguiu, enfim, cumprir o papel do jornalista, de informar a população com o que ela quer e com o que ela deve saber. Não se toca, infelizmente, em questões políticas, apenas práticas. Ainda assim, a entrevista tem boa importância jornalística, e retrata um momento fundamental. Mesmo os elogios de Zelaya a Lula não sofrem qualquer tentativa de deslegitimação ou contestação pelo repórter, tanto na entrevista como no texto. A opinião e as posições do entrevistado são respeitadas.

Quando quer, Zero Hora também é capaz de fazer bom jornalismo.

* É nesse sábado, 26/09, o debate “Charges: só humor ou subversão?”, com Santiago e Kayser. Começa às 15 horas, na livraria Letras e Cia (Osvaldo Aranha, 444, Porto Alegre). A entrada é gratuita. Para quem não puder comparecer, teremos cobertura minuto a minuto aqui no blog e no nosso Twitter.

Postado por Alexandre Haubrich

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Rolling Stone também é política, sociedade e meio ambiente

23 Setembro 2009

StoneEntre muitas publicações que se metem a falar de política, sociedade e meio ambiente, chega a ser irônico que uma revista (supostamente) de entretenimento como a Rolling Stone realize um trabalho tão marcante nessas áreas. É o caso da reportagem Passado Negro (versão parcial AQUI), publicada na edição de Setembro da Rolling Stone e que trata do desastre ambiental de Shushufindi, no Equador.

Rápido resumo: a cidade de Shushufindi foi palco de exploração de petróleo pela Texaco nos anos 60. Devido ao descaso conjunto do governo e do interesse privado, a segurança ambiental na área foi completamente negligenciada por vários anos, e isso gerou problemas sérios de contaminação dos cursos d’água, do solo e, por conseqüência, da vegetação. A cidade tem índices de mortalidade e de ocorrência de câncer significativamente maiores que aqueles observados no resto do país, e até hoje locais buscam uma indenização da Texaco, que seria utilizada exclusivamente para controle do dano ambiental. A partir do assunto, que é forte, já se percebe que não é difícil fazer uma matéria boa.

Stone1No entanto, a reportagem assinada por Tadeu Breda vai além. Em primeiro lugar, introduz personagens diretamente envolvidos, como a agricultora Melânia Chama- que sofreu cinco abortos espontâneos decorrentes da contaminação- e o advogado Pablo Fajardo, que representa a comunidade de Shushufindi na disputa contra a Texaco. O repórter faz isso sem superexposição ou julgamento. Em segundo, constrói um panorama amplo da situação de Shushufindi a partir de diversos pontos de vista (moradores, advogados, cientistas, ONGs, governo e empresas). Em terceiro, alerta para abusos ambientais atuais no Equador, como o risco de abertura de um poço petrolífero no Parque Nacional do Yasunuí, patrimônio mundial da biosfera.

Com tudo isso, a reportagem ainda se faz atraente no sentido mais elementar do termo, com um texto que envolve o leitor como um bom livro e fotografias de qualidade (como aquelas que ilustram este artigo). Devido a uma combinação de circunstâncias, eu comecei a ler a matéria antes do sol nascer, ainda com sono, mas em alguns minutos eu já virava as várias páginas sobre o assunto com uma voracidade que há muito tempo um material escrito de qualquer tipo não me despertava.

Falar de política, economia, sociedade e ecologia com abrangência e talento. Não é pra qualquer um, mas a Rolling Stone consegue.

Artigo de Luiza Monteiro

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Jornal da Globo é o mais reacionário

22 Setembro 2009

Não adianta, o Jornal da Globo é o telejornal mais conservador que o Brasil tem hoje, pelo menos entre os de destaque nacional. Até o Jornal da Noite, da Band (vídeos disponíveis no site) comandado pelo reacionário Bóris Casoy, fica atrás na maioria das vezes. Foi o caso ontem, segunda-feira, na matéria sobre a volta do presidente constitucionalmente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, ao seu país.

zelaya mãoDesde o golpe em Honduras, na imprensa brasileira não se tem criticado o presidente de esquerda que foi deposto. O motivo é uma tendência neoliberal de pasteurização da informação. Um discurso em prol da democracia já faz parte dos meios de comunicação, e pega mal ser diferente (tudo bem que só pega mal porque ela interessa ao livre mercado, mas ok). Mas o Jornal da Globo consegue, e sem perder a credibilidade que lhe é conferida por seu público – a elite.

Foi por conta disso que a cobertura do Jornal da Globo da volta de Zelaya e de seu refúgio na embaixada brasileira não chamou o presidente deposto de golpista, mas censurou o seu retorno de forma mais sutil. A cobertura do JG destoou de toda a grande imprensa brasileira. Nem Folha (versão impressa disponível no site), nem O Globo, nem Estadão, nem o próprio companheiro de emissora, Jornal Nacional (aqui e aqui), seguiram o mesmo viés. Pelo contrário, foram todos até bem sóbrios, com uma cobertura daquelas que não merecem maiores comentários, nem críticas nem elogios.

Ainda na cabeça da matéria, houve uma deixa malvada de Christiane Pelajo. Foi com relação aos apoios recebidos por Zelaya. Para o público do JG, dizer que Venezuela, Bolívia e Equador apoiam o presidente deposto – ainda que não sejam só eles, mas isso a jornalista não disse – equivale a dizer que esse cara não é flor que se cheire.

A primeira parte da matéria é dedicada às declarações do golpista Roberto Micheletti, criticando o governo brasileiro (mais adiante a tentativa de utilização da situação para criticar o governo brasileiro aparece mais claramente). Ainda que ilegítimo, ele teve voz no JG antes de Zelaya. Fora que a sua declaração foi dublada, enquanto a de Zelaya foi legendada, o que diminui a compreensão do espectador que esteja realizando outras atividades enquanto vê TV.

zelayaPalavras do repórter Carlos de Lannoy (falando a partir de Buenos Aires) sobre Manuel Zelaya: “Apesar de fazer um discurso em defesa do diálogo e da reconciliação, disse que agora é pátria, restituição ou morte”. Ou seja, deixa claro que ele se contradiz e que tem tendências ditatoriais. Será que em nenhum momento ele se questiona quem, afinal de contas, deu o golpe? A resposta a essa simples pergunta deslegitima a tentativa de deslegitimação levada a cabo pelo Jornal da Globo.

Em seguida, no momento exato em que o off diz “o governo golpista…”, aparece a face de Zelaya. Eu sou meio contrária a teorias conspiratórias, mas é impossível que essa coincidência no cruzamento tenha sido por acaso, foi muito perfeita.

Sobre o Brasil, a crítica é bem mais explícita. Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington (praticamente todo o tempo durante o governo FHC, esqueceram de dizer), diz que o asilo a Zelaya pela embaixada brasileira é um grande problema. Em seguida, tergiversa mais um pouco, mas não explica por que é um problema. Aliás, não diz nada de fato, mas ajuda a criar uma imagem negativa das medidas tomadas pelo país. Não apareceu nenhum entrevistado questionando como ficaria a legitimidade internacional do Brasil caso recusasse receber Manuel Zelaya na embaixada.

* Uma pesquisa do Instituto Methodus revela que os jornais mais lidos no RS são os locais, das cidades, e não os grandes, como Zero Hora e Correio do Povo. Na Região Metropolitana, o Diário Gaúcho ficou em primeiro lugar. Informação da Coletiva.net.

Postado por Cris Rodrigues

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Mais um capítulo da guerra de Zero Hora contra os movimentos sociais

21 Setembro 2009

Em duas colunas e meia da reportagem, a palavra “morte” aparece nove vezes, falando do caso do integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Elton Brum da Silva. Será que falta vocabulário aos repórteres de Zero Hora, Humberto Trezzi e Maicon Bock? Ou será que a palavra “assassinato”, a mais adequada a esse caso, está riscada do dicionário quando o assassinado é integrante de algum movimento social?

Esse é apenas um dos pontos. A reportagem “O novo caderno dos sem-terra”, publicada na Zero Hora desta segunda-feira, é uma sucessão de inversões e desvios jornalísticos. Erros, não. Inversões e desvios.

mstPra começo de conversa, ZH pegou um fato bobo e transformou-o em um grande acontecimento. Vamos, por enquanto, ignorar a possibilidade de o tal caderno ter sido plantado. O uso do sensacionalismo – especialidade na qual Zero Hora torna-se cada vez mais crack – serviu, nesse caso, à criminalização do MST, outra prática comum por ali. A manchete de capa é “Diários revelam estratégias do MST”. A cartola é “Cadernos da invasão”, e está escrita em branco sobre um fundo vermelho. “Estratégia”. “Invasão”. Vermelho. Como se diz por aí, é o MST tocando o terror! Haja cara-de-pau.

Ainda na capa, duas chamadas menores: “Morte de sem-terra rende uso político”, e “O plano é derrubar a cúpula do Incra gaúcho”. Ou seja: segundo ZH, o MST tem um plano malévolo para derrubar a cúpula do Incra – pobrezinha da cúpula do Incra – e, para isso, vai usar a “morte” de Elton. Passar para a sociedade a ideia de que os Sem-Terra são pessoas sujas, feias, más e sem coração é a estratégia.

No texto: na última frase do segundo parágrafo há uma clara demonstração de qual o posicionamento do jornal, do que Trezzi e Bock querem incutir na cabeça dos leitores. A frase, falando do assassinato (ou “morte”) de Elton Brum: “Embora lamente o episódio, pela dificuldade que o trauma acarretará no recrutamento de militantes, o autor comemora a repercussão”. Em primeiro lugar, a frase poderia estar invertida, não? Algo como “Embora o autor comemore a repercussão, lamenta o episódio”. Não muda o sentido completamente? Além disso, o repórter tenta dar a entender que o único motivo do lamento é a dificuldade para o recrutamento. Mais uma tentativa de mostrar os Sem-Terra como animais sem coração, como monstros. E mais: leia os trechos do caderno que a própria ZH disponibiliza. Há comemoração? Não achei nenhuma.

atençãoO quarto parágrafo começa assim: “As anotações são tão claras que deixam margem para a suspeita de que o MST manda recados via cadernos abandonados”. E aí entramos em mais um dos infinitos pontos de conflito presentes nisso que o jornal chamou de reportagem. Não há, nesse trecho, sequer a cogitação de que o caderno possa ser forjado. Isso não acontece, aliás, até chegarmos às últimas linhas. Lá, bem no final, está o seguinte:

“(…) Mauro Renner se diz espantado com o teor dos manuscritos achados no Incra: – Por outro lado, não podemos afastar a hipótese da contra-informação, para prejudicar o movimento”.

Onde, por favor alguém me diga, Mauro Renner se diz espantado com o teor dos manuscritos? Claro que talvez ele tenha dito antes, entendi a lógica “jornalística” desse trecho. Mas por que o destaque tem de ser exatamente no “espanto com o teor dos manuscritos?”, e por que a suspeita sobre uma possível tática de contra-informação está tão escondida? Porque Zero Hora, propositadamente ou não, é peça fundamental dessa contra-informação, pois é quem a publica - caso esse realmente seja o caso.

Outra questão que fica: até agora, da mesma forma que não chega à sociedade o nome do assassino de Elton, também não chega o nome de quem entregou o caderno a ZH. É pra pensar.

Mesmo que admitamos que o caderno seja realmente do MST, não há informação nova para uma reportagem, e o sensacionalismo que ZH aplicou ao fato teve como único objetivo o fortalecimento da estratégia de criminalização do MST e dos movimentos sociais. Manipulação boa é manipulação sutil. Essa reportagem é exemplar.

* No próximo sábado, dia 26 de setembro, às 15h, o Jornalismo B promove o debate “Charges: só humor ou subversão“, com a presença de Santiago e Kayser. Vai ser na livraria Letras e Cia (Osvaldo Aranha, 444, Porto Alegre). Esperamos todos lá!

Postado por Alexandre Haubrich

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Charges: só humor ou subversão?

18 Setembro 2009

Cartaz web