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Uma dignidade rara

10 Setembro 2009

Esse é mais um artigo de Luiza Monteiro, agora periódica e oficial colaboradora do Jornalismo B. Seja bem-vinda, Luiza.

PROFIS~1De quando em quando sai alguma coisa no Fantástico ou outro que o valha sobre catadores e outros trabalhadores do lixo. Mesmo aquelas de visão supostamente mais benéfica (leia-se, que não sejam claramente exclusoras) se dividem basicamente em duas linhas: ou caem na espetacularização descarada do assunto, fazendo dos catadores e de sua condição de vida uma espécie de show de curiosidades, ou pendem para uma vitimização do objeto- o tradicional “que horror”- que também não é uma postura inclusiva. Agora, “digno” é uma palavra que eu nunca tinha visto um noticiário global associar à função dos catadores em qualquer instância. Pelo menos até o Profissão Repórter desta última terça, que teve como tema “Os caminhos do lixo”, tratando das histórias de catadores, carroceiros, garis e outros que vivem do recolhimento de resíduos.

Caco Barcellos comandava o time de repórteres que seguiu um caminhão de lixo e conversou com diversos garis, dentre os quais o mais destacado foi Ângelo, apelidado de Pavarotti por causa de seu gosto por cantar. O que poderia ter sido só mais um pouco dessa espetacularização comentada acima assume uma profundidade nova quando a equipe mostra Ângelo cantando na igreja local com as filhas como backing vocal, e não faz disso um show de curiosidades e sim um ângulo novo, de não enquadrar o trabalhador do lixo apenas como isso, de dar mostras da diversidade de papéis que ele pode ocupar socialmente. Outro ponto válido é o tratamento natural dado aos garis- eu quase não lembrei que o caminhão deles é justamente aquele atrás do qual os motoristas detestam parar, buzinam, se irritam, tapam o nariz ou reviram os olhos.

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Júlia Bandeira e Caroline Kleinübing realizaram aquela que eu considero a melhor das três partes do programa: acompanharam o carroceiro Adílson, conversando com ele em tom simpático, amigável e respeitoso e mostrando alguns aspectos da profissão que geralmente não vêm à tona (como por exemplo o fato de que cada carroceiro tem uma área demarcada informalmente que não deve ser explorada pelos demais, ou que cada um tem um espaço específico dentro das companhias de reciclagem, que decora a seu gosto). Além e acima disso vem o destaque que se faz para os dons poéticos de Adílson, e essa parte sim passa bem longe do showrnalismo, e de novo traz a questão da presença do trabalhador do lixo em outros círculos sociais, a exemplo do sarau de poesia do qual Adílson participa ao lado de professores, donas-de-casa, enfim, representantes das mais diversas estruturas sociais. Aliás, essa multiplicidade humana é uma coisa rara de se ver em qualquer reportagem: geralmente um personagem em uma matéria acaba rotulado por uma expressão relativa ao mundo do trabalho (“o motorista”, “a empresária” etc.) e era isso em termos de construção identitária. 

A parte mais chamativa – não a melhor, reparem, mas a que mais me chamou a atenção – foi a dos repórteres Felipe Gutierrez e Felipe Suhre em um aterro sanitário. Apesar de mostrar uma relação repórter/entrevistado mais sensível do que a vista na maioria dos casos, era uma reportagem nos mesmos formatos de espetacularização ou vitimização. Mostra pilha de lixo, urubu sobrevoando e as pessoas enchendo sacola após sacola segundo a lógica do “que horror”, e parte para as figuras curiosas de praxe: uma senhora cuja casa inteira era cheia de objetos de boa qualidade recolhidos do lixo (brinquedos, sapatos, uma torradeira e até um jogo de cama completo foram alguns dos mostrados) e um vendedor de prof reporter 3antiguidades cujas mercadorias provinham do aterro, e que pediu para não ter seu rosto mostrado para não espantar sua freguesia. Mas aí, bem no finalzinho e contrariando aquilo que parecia ser a tendência do segmento de ser o menos inovador e mais retrógrado dos três, veio justamente o que eu achei que era a parte mais marcante de toda a duração do programa: a catadora Maria da Cruz, entrevistada que disse, com muita firmeza e num tom de quem sabe estar refutando um preconceito, “é uma profissão digna”.  

É esse o tom que impera no programa de terça passada. Apesar dos defeitos, o Profissão Repórter realizou um belo trabalho. Um trabalho de respeito, de humanização e de gentileza da parte dos repórteres, um trabalho que devia ser regra, mas não é. Um trabalho, acima de tudo, de dignidade no retrato das classes representadas, e, por conseqüência, de dignidade no próprio fazer jornalístico. Porque jornalismo que descaracteriza seu objeto de trabalho é indigno de respeito.

Luiza Monteiro é estudante de Jornalismo da UFRGS.

7 comentários

  1. mas que BAITA post! bah, PARABÉNS, é só o q me ocorre dizer…


  2. adorei as poesias do adilson,gostaria d ver novamnete a primeira q ele falou.


  3. Eu acho que o Profissão Repórter é um dos programas mais interessantes da globo, na minha opnião!
    Gosto bastante do modo que eles abordam os entrevistados e estão sempre mostrando um outro lado, muitas vezes desconhecido.


  4. Gostaria de adquirir as poesias de artista.
    Como faço?


  5. Ótima análise do programa! Quando vi o catador no sarau senti um certo espanto e desconforto, justamente pelo que falas: essas pessoas geralmente não são vistas nos outros contextos e ambientes em que se inserem.
    Foi uma abordagem inteligente, com certeza.
    Parabéns pelo post!


  6. Muito obrigado a profissão reporter pois atraves dessa reportagem fez a minha familia ficar completa obrigado Julia Bandeira vc e pessoa linda de coração e muito humilde é de pessoas assim que o mundo precisa. Nilsa Darc irmã do Adilson


  7. [...] do Profissão Repórter de 9 de Setembro, que falava de trabalhadores do lixo (aliás, comentado AQUI), o carroceiro Adílson foi reconhecido pelos familiares que tinha deixado há 18 anos, em sua [...]



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