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A nova ditabranda da Folha

29 setembro 2009

A Folha de S.Paulo teve hoje mais um momento “ditabranda”. Embora ainda diga que não, está abertamente apoiando o governo golpista de Honduras. Em editorial de hoje, terça-feira, 29 de setembro (é bom registrar bem a data para a posteridade), criticou duramente a postura do governo brasileiro de ceder asilo a Zelaya. Mais uma vez, a crítica não é direta, e direciona-se à ocupação da embaixada por outros 60 manifestantes, que o jornal considera um absurdo. Vê diversos defeitos na atuação do Brasil no caso, acha que o governo deixou a coisa virar bagunça, resumindo. Mas afinal, quer bagunça maior que a que está em Honduras?

A Folha critica o governo até por deixar Zelaya falar. Diz que, “devido à omissão do governo brasileiro, Zelaya e seu séquito transformaram uma representação diplomática estrangeira numa tribuna e num escritório político privilegiados” e completa que deve impor ao presidente eleito Manuel Zelaya a regra de “calar-se sobre temas políticos internos”. Se o objetivo do Brasil é justamente reaver a normalidade e a legalidade e conduzir Zelaya de volta ao poder, como pode impedi-lo de falar sobre assuntos de seu próprio país?

saudades

Acusa o governo de perder o controle sobre a situação, mas acaba caindo em um problema muito grave. Na tentativa de deslegitimar o governo brasileiro, provavelmente com objetivos internos de desestabilizar o governo dentro do Brasil – já de olho em 2010 -, a Folha acaba legitimando um golpe de Estado. E isso é gravíssimo. Ainda mais depois de seu passado recente que lhe condena, quando acusou a ditadura brasileira de ser branda. A Folha vai tomando, assim, perigosos ares anti-democráticos e de autoritarismo.

O mais grave do editorial está no final, quando o jornal fica mais perto de justificar completamente o golpe do ditador Roberto Micheletti, que, aliás, a Folha chama apenas de “presidente”. Ela não só não condena o golpe como quase o justifica. Diz que o “regime”, como ela nomeia, ocupa uma “categoria bem mais tênue de ilegalidade democrática” que a de outros presidentes apoiados por Lula, como Fidel Castro. Aí o jornal diz que o que Micheletti fez é ilegal, mas termina com um porém. “O governo interino, contudo, respeitou a linha sucessória constitucional, assegurou o poder em mãos civis e manteve o calendário das eleições presidenciais, marcadas para 29 de novembro.” Como se fosse possível realizar eleições justas nessas circunstâncias e como se isso anulasse todo o caráter golpista da situação.

Mas o pior de tudo é que a Folha está apenas seguindo a tendência golpista do jornalismo brasileiro de um modo geral, como já comentado aqui no Jornalismo B – com relação ao Jornal da Globo e à Zero Hora. Até nas charges a coisa descambou, como mostra o blog Dialógico. A Míriam Leitão afirmou hoje no Bom Dia Brasil que o governo Lula deveria ter atuado da mesma forma na Venezuela e na Argentina quando tentaram censurar a imprensa, na visão dela. Ou seja, iguala situações completamente distintas. A Zero Hora está realizando uma enquete com a pergunta “O que aconteceu em Honduras foi um golpe? Deixe a sua opinião”. O mundo inteiro enxerga um golpe em Honduras, menos a imprensa brasileira.

* A charge foi retirada do Blog do Kayser.

* O presidente Lula sancionou a reforma eleitoral e os debates na internet estão liberados. Ainda bem. Além de não ter lógica impor exigências nesse caso, igualmente não faz sentido criar uma lei impossível de ser cumprida e fiscalizada.

* A revista Veja dessa semana publicou uma informação que passou batida pelos veículos de comunicação. Talvez porque seja mentira, difícil saber. Diz na coluna Holofote, assinada por Felipe Patury, que a Igreja Universal quer vender seus veículos impressos, entre eles o Correio do Povo, e que o bispo Edir Macedo jura de pés juntos que é verdade. O Coletiva.net acrescenta a informação de que o Correio nega a venda.

Postado por Cris Rodrigues

6 comentários

  1. se o Eurípedes Alcântara diz “pula”, a imprensa média só pergunta a altura.

    ninguém se posicionava sobre Honduras até segunda-feira. A Folha, inclusive, chamou Micheletti de golpista até duas semanas atrás. As agências internacionais mudaram o termo de “golpista” para “presidente de fato”, em contraposição ao “presidente de direito” que é Zelaya – uma denominação que eu considero correta de acordo com a imparcialidade.

    Mas foi só a Veja se posicionar que todo mundo foi no vácuo. Depois de três meses do golpe. É impressionante o poder que a Abril ainda detém.


    • Pois é, Luís Felipe. Mesmo comprovadamente mentirosa, a Veja ainda é, infelizmente, a mais lida. E mesmo pessoas sem nenhum critério, nenhuma responsabilidade e nenhum senso de ridículo continuam sendo lidos e definindo agenda de discussões, influenciando nas pautas e nos enfoques dos outros veículos. É o caso do Reinaldo Azevedo, que agora está pedindo o impeachment do Celso Amorim e do Lula, depois de afirmar que Manuel Zelaya já não era presidente antes do golpe. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/impeachment-para-celso-amorim-ja-o-de-lula-a-gente-pode-debater/


  2. Como, em um título e em uma linha de apoio, culpar o Chávez, o governo brasileiro e ainda meter os gaúchos no meio de Honduras? ZH ensina: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2670006.xml&template=3898.dwt&edition=13222&section=1014


    • Nossa, Isma, que coisa absurda!


  3. [...] que estão dentro da embaixada brasileira em Honduras. O único brasileiro. Muito embora a Folha esteja exalando odores golpistas em suas matérias e editoriais, as condições são propícias para se fazer um excelente trabalho jornalístico. Para tanto, [...]


  4. Só pra lembrar que o Brasil deu abrigo a Zelaya e não asilo.



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