Posts de Outubro, 2009

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Jornalismo desapaixonado

30 Outubro 2009

Jornalismo internacional não é tarefa fácil. Nunca trabalhei como repórter da área, mas dá pra ter uma ideia só de observar e imaginar a rotina, e também por alguma parca literatura especializada. Uma das disponíveis é “Jornalismo Internacional”, de João Batista Natali, publicado pela Editora Contexto.

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Infelizmente, a bibliografia é realmente escassa, e esse que é um dos livros que mais se destaca no gênero é bem fraquinho. Dá uma ideia bem geral do trabalho nas editorias de Mundo e da evolução, das transformações que esse trabalho sofreu. São de fato enormes. Talvez essa seja a área mais afetada no Jornalismo pela evolução da internet, que realmente revolucionou o Jornalismo Internacional.

O livro tem uma estrutura coerente, que passa pela definição de notícia, a história do jornalismo internacional, suas transformações e por fim exemplos práticos de coberturas. Bem certinho, como parece ser o autor. Certinho até demais. Conservador, eu diria.

O trabalho de Natali tem algumas falhas graves. A primeira, nem tão grave, aparece já na parte menos problemática ideologicamente, de recontar a história. Ok, a história não é estanque, permite diversas interpretações, então poderia causar problemas, mas convenhamos que eles são menos suscetíveis de acontecer do que na parte em que avalia a atuação do jornalismo efetivamente. As escolhas de fatos e de dados incluídos por Natali são meio estranhas. Alguns acontecimentos importantes foram deixados de lado e, mesmo os incluídos parecem pedir mais explicação. É insuficiente, pois.

capa_jorn_inter_grdeDepois Natali critica a celebrização da mídia, com o que eu concordo com o autor, mas que é uma postura normal. Nenhum jornalista quer cobrir celebridade.

O problema maior é quando ele fala das paixões pertinentes ao profissional. Ele critica a paixão do profissional e seu engajamento em uma causa. Tem uma visão muito mecânica da profissão, acredita que a paixão atrapalha. Pois afirmo enfaticamente que a paixão deve estar presente no dia-a-dia do jornalista. Ela o motiva, o faz querer saber o que há por trás do fato, investigar, ir a fundo mesmo. É a paixão que move um repórter, que o faz ser o que é. Jornalismo desapaixonado não é jornalismo. Sem paixão, Eric Nepomuceno não teria ido à Nicarágua escrever sobre a revolução sandinista. Fernando Moraes não teria ido a Cuba escrever sobre a Revolução Cubana. Caco Barcellos não teria subido os morros cariocas para escrever a história de um traficante.

A falta de paixão está no livro de Natali. E ela, infelizmente, o empobrece. Para escrever sobre jornalismo, tem que ser apaixonado pelo tema. Como um repórter deve dedicar paixão a um assunto para que sua reportagem saia realmente boa, profunda.

Postado por Cris Rodrigues

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Em debate, a democratização da comunicação

28 Outubro 2009

debate1Aconteceu ontem na livraria Letras e Cia mais um debate promovido pelo Jornalismo B, dessa vez com o tema “A importância de uma Conferência de Comunicação – novos caminhos são possíveis?”.

Muito mais do que a Conferência, Marcia Camarano (vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul) e Oscar Plentz (coordenador da POA TV) falaram sobre democratização da comunicação, o que ampliou os horizontes e enriqueceu o debate. A Conferência esteve presente como um marco, como uma lembrança de alternativa de discussão críticas com relação ao modelo de comunicação que temos.

Em sua primeira fala, Marcia já deu o tom que prosseguiu durante toda a conversa: “Na questão da terra e da comunicação vivemos em latifúndios. Poucos são donos de tudo”. E completou: “A Conferência não é só em relação ao jornalismo. A comunicação é um bem que afeta a toda a sociedade. Assim como lutamos por emprego, por saúde, temos que lutar por informações de qualidade”.

Oscar lembrou, em seguida, que não temos muitas experiências de comunicação comunitária no Brasil, e que essas experiências devem ser buscadas através da integração com os países latino-americanos.

Oscar bateu bastante na tecla da TV Digital, explicando que temos uma grande oportunidade, com ela, de democratizar ao menos um pouco a comunicação brasileira. Para ele, as novas tecnologias de modo geral produzem essa possibilidade, que deve ser bem aproveitada.

Após esse momento inicial, o debate ficou mais solto e, como era a proposta, transformou-se em um bate-papo, que contou com participação do público pelo nosso Twitter, onde tivemos cobertura ao vivo.

É importante que pensemos de forma conjunta alternativas para democratizar a informação no Brasil. Democratizá-la não é apenas democratizar o acesso a ela, mas sua produção. Para isso, é preciso deixarmos de lado as diferenças e mantermos o foco nas semelhanças, nos objetivos comuns.

A Conferência e seu formato precisam ser aperfeiçoados, sem dúvida. Mas isso só poderá ser feito com a participação de toda a sociedade, de forma ampla, em todas as discussões, e conseguir isso não é fácil, principalmente quando os principais ativistas dessas ideias não conseguem unir-se, e eles mesmos viram as costas para conversas, debates e confrontos de ideias.

Mês que vem teremos outro debate promovido pelo Jornalismo B, com outro tema ligado à comunicação e, assim, de interesse de toda a sociedade. Esperamos que a participação seja mais intensa, e que consigamos construir possibilidades para mudar rumos com os quais não concordamos.

Postado por Alexandre Haubrich

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Debate “A importância de uma Conferência de Comunicação”

27 Outubro 2009

Começa daqui a pouco, às 18h30, ao vivo da livraria Letras e Cia, em Porto Alegre, a cobertura do debate “A importância de uma Conferência de Comunicação – novos caminhos são possíveis?”

Os debatedores são Marcia Camarano, vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, e Oscar Plentz, coordenador da POA TV.

Teremos cobertura minuto a minuto aqui no blog e no Twitter.

Vai começar o debate, com formato modificado. Vai ser mais um bate-papo do que um debate ou palestra.

Pouco quórum, mas o show não pode parar.

Pessoal da POA TV aqui filmando.

Cris começando a explicar a ideia dos nossos debates e como funciona o trabalho do Jornalismo B

Marcia Camarano começa falando. Lembra que já participou aqui do debate sobre o diploma para jornalistas. Comenta que é interessante termos acompanhamento pela internet, apesar de não dominar conceitos da web. Diz também que a luta pela democratização da comunicação é antiga. “Na questão da terra e da comunicação vivemos em latifúndios. Poucos são donos de tudo. Lutamos há quase 3 décadas para mudar esse processo. Hoje eu vejo cada vez mais gente para lutar pela democratização da comunicação do que há 25, 30 anos”

“A Conferência não é só em relação ao jornalismo. A comunicação é um bem que afeta a toda a sociedade. Assim como lutamos por emprego, por saúde, temos que lutar por informações de qualidade”

“A grande mídia não fala nada sobre a Conferência. A sociedade não tem direito de ser informada, é deformada constantemente pelo que os donos dos grandes veículos dizem. Dizem o que se pode ou não ver. Estamos percorrendo um caminho que deve ir muito além do processo de Conferência. O objetivo não é fazer uma Conferência, é fazer com que as pessoas se dêem conta de que a comunicação deve ser democratizada”

Marcia passa a palavra para Oscar Plentz, coordenador da POA TV.

Oscar: “temos que fazer uma análise da comunicação que temos e da comunicação que queremos.”

“O Brasil não tem experiência de comunicação comunitária. É um grande desafio criar esse espaço. Criar não uma ‘TV alternativa’, ou uma ‘rádio alternativa’, mas uma alternativa de rádio e uma alternativa de TV.”

“Temos que buscar essas informações e experiências em outros países. No Uruguai, um terço da comunicação é dedicado à comunicação comunitária. Na Argentina agora estão tentando fazer isso. No Brasil talvez tenhamos 1%”

“A TV Digital é uma oportunidade para começarmos a reverter essa lógica. Temos que entrar na era da TV Digital com o pensamento em cumprir o que está na Constituição. Equilíbrio com relação a matérias locais, equilíbrio entre privado e público…”

Oscar Plentz está criticando a falta de democratização do espectro de TV e rádio. Fala do crescimento do espaço eletromagnético, que tem de ser melhor explorado.

“A TV a Cabo é uma forma de fraudar a Constituição em vários aspectos”

“A TV e o computador estão cada vez convergindo mais. Essa possibilidade técnica que aumenta deve ser usada para expandir a democratização da informação”

Marcia: “O Brasil é um país virado de costas para o nosso continente. As informações são essas totalmente distorcidas passadas pelos jornalões”.

Marcia: “Os movimentos sociais só saem hoje na página de polícia. Hoje, no Brasil, protestar é crime. Ser pobre é crime”.

Oscar: “A importância da Conferência é que estamos mobilizando mais pessoas nesse sentido. Fizemos um trabalho importante em Passo Fundo, com um debate amplo e qualificado, embora não tenha sido muito bem organizado”.

Oscar: “O Jornalismo B, por exemplo, é uma alternativa importante. Concordo com quase tudo o que falam. Poderíamos, por exemplo, fazer um programa na TV para expandir essa análise, falando de jornais”.

Oscar: “A qualidade do nosso jornalismo tem caído muito. O grau de informação e dedicação dos jornalistas é muito pequeno”

Oscar: “Precisamos cada vez mais de crítica de mídia, precisamos de espaços para analisar a imprensa”

Lembrando que amanhã teremos aqui no blog um post especial sobre o debate de hoje, inclusive com fotos e com a nossa análise do que está sendo discutido.

Marcia: “São os donos dos grandes veículos que escolhem os ministros da comunicação. Os grandes veículos não têm propostas para a Conferência, eles têm lobby”.

Marcia: “Teve muita gente que desanimou quando soube que teríamos só 40% dos votos, mais gente vai desanimar com os resultados dessa primeira Conferência. Mas o importante é que isso tudo seja discutido, que essas questões sejam levadas à sociedade. O importante são estes encontros”.

Marcia: “Não estamos numa briga fácil, que vamos vencer na primeira Conferência. Eles já estão estruturados, nós estamos começando agora a nos organizar”.

Oscar elogia as TV’s estatais, diz que ajudam a democratizar.

Marcia: “O bom é que os empresários também se engolem. Globo x Record, ontem a Record bateu na Folha de SP…Eles estão se matando e as pessoas estão vendo os podres de cada um deles”.

Pergunto se a Conferência está conseguindo cumprir o objetivo de levar essa discussão à sociedade, se a sociedade está se interessando realmente.

Oscar responde que em parte sim. Diz que os movimentos sociais e os sindicatos estão conseguindo se unir e discutir muito mais a questão da comunicação do que antes.

Marcia: “A gente está fazendo História. Essa briga, essa luta pela Conferência é histórica, e vão lembrar disso daqui a 40 anos. Esse é um momento histórico”.

Oscar: “Infelizmente perdemos muitos militantes porque as pessoas não entendem que é um processo lento”

Pergunto sobre a importância da internet e dos blogs para a Conferência e para a democratização da comunicação de modo geral. Marcia responde que “tem sido a nossa salvação. Mesmo que os grandes não queiram dar as notícias, nós encontramos outras formas de divulgar, como no caso de alguns protestos contra a Yeda. Estamos conseguindo, através desses meios, furar esse bloqueio”

Oscar responde que devemos lutar pela universalização da internet, como um direito fundamental do cidadão, para que todos tenham acesso às informações, por exemplo os blogs, que trazem informações diferentes e mais democráticas.

Vamos às colocações finais de cada um dos debatedores.

Marcia lembra que já temos propostas de vários setores da sociedade, mas ainda não temos nada da juventude.

Pergunta pelo twitter:  Sind. Jornalistas ou FENAJ aceitariam inscrições de blogueiros não-formados e de outras áreas e defenderiam-nos juridicamente?

Marcia responde que não, pois não considera os blogs um espaço jornalístico.

Discussão partiu para a questão do diploma, com os dois debatedores defendendo a obrigatoriedade. Vale lembrar que não é a posição do JB.

Vou colocar a questão do Helio Paz, pelo twitter,  sobre TV’s na internet, se não são mais democráticas, por terem acesso menos elitizado e mais e baratas.

Acho que não vai dar tempo.

Consegui. Oscar vai responder.

Oscar: “Cada vez é mais barato produzir para a televisão com qualidade. O equipamento é mais barato e avançado. Isso permita que a gente produza conteúdo de forma mais barata. Sobre os meios de distribuição: as TV’s estão em transformação, mas ainda teremos por um tempo a onda sendo transmitida direto para a casa das pessoas. As duas coisas vão acontecer ao mesmo tempo: a TV Digital e a TV pela internet. Precisamos avançar na questão da internet Banda Larga. Se conseguirmos avançar isso, realmente talvez deixe de ser tão importante a questão da TV Digital”.

Platéia: “A grande questão não é só como conseguir meios para produzir esse conteúdo, mas quem vão ser os donos desse espaço de TV Digital. Na internet não acontece isso”.

Vamos encerrando. Obrigado a todos que nos acompanharam. Amanhã, aqui mesmo, um post especial com a cobertura completa do debate, inclusive com fotos e nossas análises.

Aplausos, acabou.

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Zero Hora e as eleições no Uruguai

26 Outubro 2009

uruguaiA cobertura das eleições no Uruguai não é nenhuma maravilha, mas ela parece brilhante se comparada à do golpe de Honduras, a qual o Jornalismo Banalisou aqui. Refiro-me à Zero Hora e seus correspondentes internacionais, André Machado, reportando os acontecimentos no país vizinho, e Rodrigo Lopes, falando das peripécias golpistas de Micheletti na terra de Zelaya.

Reconheço que falar das eleições é muito mais fácil, e nesse sentido poderia se esperar muito mais da cobertura. Um golpe é sempre um golpe, e geralmente impõe dificuldades. Mas nenhuma delas faz com que o repórter deva se tornar um defensor dos golpistas, muito pelo contrário.

A diferença maior entre os dois casos está no aspecto ideológico. Rodrigo Lopes é golpista, André Machado até que tem sido razoavelmente simpático ao esquerdista favorito José Mujica, candidato pela Frente Ampla, partido do atual presidente Tabaré Vasquez. Nada excessivo, é claro, mas digamos que tem se mantido dentro dos limites possíveis da isenção, respeitando o bom senso.

Os aspectos negativos de sua cobertura são jornalísticos mesmo. Essa coisa da Zero Hora ficar sempre procurando o gauchismo em tudo o que acontece no mundo às vezes força algumas matérias inúteis, sem sentido. É óbvio que a campanha acontece do lado uruguaio da fronteira, não precisa dedicar meia página da cobertura (de ontem, domingo, dia 25) para dizer que em Santana do Livramento não tem cartazes, os quais se encontram apenas em Rivera. Qual é a relevância disso para o cenário internacional e, já que o jornal é daqui, para o cenário brasileiro e gaúcho?

brasil uruguaiFaria sentido falar na forma como os resultados eleitorais podem afetar nosso país e estado, em função das relações comerciais, culturais, intercâmbios de um modo geral que podem haver. Mas isso cabe em um box bem pequeno do jornal, e de forma bem mal feita, faltando vários elementos de análise.

A entrevista com o ex-jogador gremista Hugo de León é uma das piores coisas da cobertura, que quase chega a prejudicar a qualidade do texto principal da edição de ontem – que descreve bem o cenário político e os candidatos principais para o parco espaço de que dispõe, embora ainda deixe o leitor meio confuso com relação à associação dos candidatos a seus respectivos partidos. Duas perguntas são sobre política, que poderiam ter sido melhor exploradas. Uma é sobre um gremista integrar o Partido Colorado, como se houvesse alguma contradição nisso. Até é compreensível a brincadeira, mas o espaço era tão curto para isso… E, por fim, a pior, se é mais difícil a vitória do Grêmio no Grenal ou do seu partido nas eleições (os colorados estão em terceiro nas pesquisas). Mais uma vez, desnecessário.

Postado por Cris Rodrigues

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Band também frequentou a escola do mau jornalismo

23 Outubro 2009

20080924_mural-venezuela-socialista1Quando vejo que vai ter alguma matéria sobre a Venezuela na imprensa brasileira, já fico cabreira. Sei que Hugo Chávez vai apanhar e que o bolivarianismo vai ser combatido. Na Band, essa semana, não foi diferente. Aliás, foi é dos piores, isso sim.

Uma série intitulada “A Venezuela sob Chávez” começou a ser exibida terça-feira, dia 20, com o sugestivo subtítulo “o medo da população em Caracas”. Tive acesso aos vídeos do Jornal da Noite, mas, pelo que entendi, foi ao ar também no Jornal da Band (entrando na seção “Vídeos” do site da Band, é só colocar “Venezuela” na busca).

Em 1989, o professor Luiz Roberto Lopez escreveu em seu livro “História da América Latina” que o continente herdou dos processos de indepêndencia, a maioria envolvendo luta armada, uma tendência à violência. A Venezuela foi um dos países que passou por um processo difícil, com várias revoltas desse tipo. Mas a Band decidiu que a violência de Caracas, a “capital mais violenta do mundo”, é culpa de Chávez. E fincou o pé.

“Cada país tem o pequeno príncipe que merece.” Foi com essa ironia que Bóris Casoy abriu a segunda reportagem da série, a pior. Intitulada “confisco de terras e a crise no campo”, diz que a Venezuela importa 80% dos alimentos que consome”. Mas não fala de onde tira a informação.

Fala de novo em medo, mas agora voltado ao campo. E é tudo culpa da Reforma Agrária, segundo a Band: “a expropriação de terras promovida pelo governo venezuelano vem destruindo postos de trabalho e também a produção de alimentos”. Foram entrevistados vários “produtores rurais” e nenhum pequeno agricultor. É óbvio que os grandes estão insatisfeitos com a redistribuição de terras, e isso é ótimo, é sinal de mais igualdade e justiça, menos concentração. Mas esse lado a Band não mostravenezuela sob chavez

“O direito de propriedade está acabando no país”, diz o repórter. Fica, para quem assiste, a informação de que o povo está perdendo um direito que ele tinha, e é evidente que essa imagem é ruim, ninguém quer perder direitos. Mas não se fala que outros estão ocupando o lugar desse, como os direitos à dignidade e à igualdade, por exemplo.

Quando a gente pensa que vem elogio, como no terceiro dia da série, sobre o baixo preço da gasolina, Boris Casoy completa que é “a custa de um rombo nas contas públicas”. Com o título “gasolina a R$ 0,07″, a reportagem fala apenas nas suas consequências negativas, como o excesso de veículos “velhos e gastões”. Pensou que a crítica viria em função da poluição gerada por eles? Nem se tocou no assunto. O problema, segundo a reportagem, é o trânsito caótico. O repórter vive, nitidamente, em uma sociedade baseada na cultura do automóvel, em que as máquinas são mais importantes que as pessoas.

Não consegui assistir o programa de hoje, mas já foi mais do que suficiente. Na série inteira, apareceu uma única menção positiva à Venezuela, e foi no primeiro dia, para dizer que o povo é alegre e bem humorado. A única boa característica da Venezuela são as pessoas, vítimas desse governo bobo e malvado. O resto da série foi só porrada. Não é forma de falar, não é exagero. Não teve mais nenhum mísero elogio à Venezuela. O único intelectual entrevistado foi um cientista político, bem no fim da série e, como todas as outras fontes, era contra o governo. A própria escolha dos temas já foi bem fraca, escancaradamente direitista, e sua abordagem só corroborou. Serviu apenas para comprovar que a Band também faz parte do PIG, expressão criada por Paulo Henrique Amorim para designar o Partido da Imprensa Golpista.

Postado por Cris Rodrigues

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Mais uma oportunidade perdida

22 Outubro 2009

Folha capa“É correto classificar de marolinha uma crise que gerou desemprego, redução de investimentos e derrubou o crescimento da economia de 5% ao ano para 1% em 2009 no cenário mais otimista?” – Uma pergunta formulada dessa forma tem uma intenção. Quem a lê pensa “é óbvio que não é correto”, afinal, olha tudo de ruim listado a seguir. É uma pergunta que induz a uma resposta, ou a que o leitor espere uma resposta e se decepcione com o entrevistado caso ela seja diferente do esperado.

Pois foi assim, entrando de sola, que Kennedy Alencar começou uma entrevista que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu à Folha de S.Paulo. Essa não foi apenas uma questão sacana entre tantas. Essa foi a primeira pergunta. Como a resposta seria obviamente de que sim, é correto classificar de marolinha, o leitor já se frustra por não ouvir o que esperava – o que o repórter queria que ele esperasse – e lê de má vontade todas as outras respostas. Claro que não são todos os leitores que se deixam levar, mas é importante deixar claro a tentativa de indução.

Isso tudo sem considerarmos que a pergunta levaria a uma resposta óbvia. Era, portanto, inútil. Mais adiante, o repórter ameniza o tom de crítica. Ainda assim, fala até em “herança maldita”. Nem a imprensa mais conservadora e anti-lulista – me refiro à parte mais mais, porque anti-lulista toda ela é – ainda não está usando essa expressão para esse governo.

Quem puxa o assunto Reforma Agrária pela primeira – e única - vez é Lula. É um dos pontos mais polêmicos do governo, porque desagrada a todos, ótima pauta, ainda mais para uma entrevista. Até porque ele falou no assunto como exemplo das mudanças pelas quais passou para virar presidente, na transformação de seu pensamento, que o tornou mais conservador nesse quesito. Ótimo mote. Mas Kennedy Alencar deixa passar. Perde oportunidades.

De resto, é natural que em uma entrevista desse porte se pressione o presidente. Mas é diferente pressionar de criar um clima antipático a ele, de usar artifícios linguísticos para isso. A pressão tem que ser clara, direta. E essa até houve, mas faltou serem explorados aslula1pectos que foram deixados de lado, como a Reforma Agrária ou o Meio Ambiente. Fica superficial falar em Marina Silva apenas na conjuntura de disputa política sem lembrar dos poucos avanços do governo na questão ambiental, por exemplo. A entrevista ficou muito centrada em economia e na conjuntura eleitoral.

A íntegra da entrevista é gigantesca. E por isso mesmo poderiam ter sido abordados mais temas e com maior profundidade. Fora a primeira parte, ela foi bem feita, tem algumas sacadas boas, está redondinha, não tem nada tão gritante como quando a Folha entrevistou a ministra Dilma Rousseff. Continua utilizando, no texto todo, dessas artimanhas na formulação das questões a que me referi, e que Lula também notou (o presidente disse em determinado momento: “Estranho a malandragem da pergunta”). Mas não é todo dia que se tem a oportunidade de conversar tanto tempo com um presidente da República – ainda que o nosso não se canse de falar. Redondinha, então, não é suficiente.

Postado por Cris Rodrigues

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Correio do Povo, Jornal do Comércio e Zero Hora no arquivamento do impeachment de Yeda

21 Outubro 2009

pizza-2O arquivamento do pedido de impeachment da governadora Yeda Crusius foi assunto de destaque dos principais jornais do Rio Grande do Sul hoje. Confira aqui como três deles apresentaram as informações a respeito do caso.

O Correio do Povo, como de costume, realiza a matéria mais curta das três analisadas. Mesmo assim, o simples espaço dedicado à foto da capa, para padrões de Correio do povo, já demonstra a importância dedicada ao assunto. A única crítica é que a matéria, se não pecou pela parcialidade, também não teve abrangência. Embora não tenha se falado particularmente bem da base aliada, pouquíssimo se mencionou a oposição. Meio parágrafo foi dedicado a questões objetivas básicas (o que aconteceu, quantos votos, quanto tempo) e a partir dali a única voz que soa é a da base aliada do governo- suas estratégias, sua celebração dos resultados, e, por fim, a celebração da governadora.

Muito embora o destaque do assunto na capa do Jornal do Comércio tenha sido menos do que nos outros dois jornais (a manchete principal tem relação com a arrecadação de impostos no mês de Setembro), pertence ao JC a cobertura mais imparcial e abrangente. Embora seja simples, abre com um parágrafo das mesmas informações do início da matéria do Correio do Povo, e segue com praticamente todas as informações divulgadas a respeito.  A matéria é longa e há distribuição igualitária de espaço para aliados e oposição, sem que se note um tratamento particularmente injusto de qualquer uma das partes.

A capa da Zero Hora já chama a atenção pela escolha da foto principal, ilustrando o arquivamento do impeachment não como um evento político (conforme mostram as fotos do JC e do Correio que ilustram esta matéria) mas como uma festa, com um pequeno espaço dedicado a uma foto daquilo que o jornal descreve como “hostilidades” e “tumulto” da parte de manifestantes. A matéria interna segue a mesma lógica da capa- celebração do resultado favorável a Yeda e redução das manifestações contrárias à condição de “conflitos inevitáveis”, com o mínimo de importância. Quanto à oposição dentro da Assembleia, Zero Hora fala de sua “estratégia” de “tentar desqualificar o relatório” e de como ela “não foi suficiente para garantir a continuidade da demanda oposicionista”. Como em ocasiões anteriores, a Zero Hora é a que mais distorce os fatos e briga com a notícia.

Artigo de Luiza Monteiro

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Jornalismo B promove oficina na Semana Acadêmica da Comunicação da UFRGS

20 Outubro 2009

A segunda participação do Jornalismo B na Semana Acadêmica da Faculdade de Comunicação da UFRGS teve um formato diferente, que considero que tenha funcionado muito bem. Foi uma oficina e, como deve ser, teve participação constante dos alunos, além de participação mais do que especial do professor Wladymir Ungaretti, já que minha colega de blog, a Cris Rodrigues, teve problemas de saúde e não pôde participar.

Mais uma vez, fiz uma rápida retrospectiva do trabalho que temos desenvolvido nesses dois anos de Jornalismo B para, em seguida, o Ungaretti fazer uma bela explanação sobre a importância de se exercer – dentro de uma faculdade de jornalismo e na sociedade – um olhar crítico sobre a mídia. Falou também sobre caminhos para o futuro, e sobre a possibilidade que temos de buscar iniciativas diferentes, subversivas, que possam mudar um pouco a forma de fazer jornalismo. Lembrou a necessidade de se viver o jornalismo, falou do que chama de “DNA de jornalista” e deu show.

Depois, apenas complementei sua fala com algumas observações minhas sobre isso tudo, e parti para a análise em si. Dei à turma dois exemplos de como fazemos nossas análises no Jornalismo B, primeiro trabalhando em cima de um conjunto de matérias de Zero Hora, analisado NESTE post, e em seguida demonstrando um exercício de comparação, com elementos que trabalhamos NESTE outro momento.

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Em seguida, passamos para a parte prática, distribuindo ESTA matéria (analisada AQUI) para que, divididos em grupos, todos analisassem. Depois de alguns minutos, discutiu-se tudo entre a turma, cada um fez seus apontamentos, em cima dos quais fiz alguns comentários. Apontamentos, aliás, que me surpreenderam muito positivamente, e mostraram que, com um olhar mais cuidadoso – mesmo que ainda não muito treinado – se pode perceber muitas oscilações dentro de um texto. Lê-se um texto pelo menos duas vezes: sua superfície e sua parte submersa. O aparente é apenas a ponta do iceberg.

Não perdi a oportunidade de lembrar o que tenho dito recorrentemente em todas as ocasiões possíveis: a desunião entre as pessoas que defendem uma mídia diferente e uma sociedade diferente é nosso maior inimigo, e tem um poder maior do que o de nossos adversários aparentes. As diferenças precisam ser deixadas de lado para que busquemos alternativas e unamos nossas lutas. Precisamos perder a mania infantil de focarmos sempre as diferenças, deixando que elas apaguem todas as semelhanças que podem contribuir para que construamos algo novo. Há a necessidade de darmos força uns aos outros, uns às iniciativas dos outros, para que todas se tornem robustas e, juntas, possam bater de frente com os poderosos.

A experiência da oficina, como a palestra do semestre passado, me de um ânimo danado. Ver que tem gente interessada vagando por aí e que a gente pode, em momentos como esse, mostrar que existem possibilidades, que existe o que fazer, é extremamente recompensador. Ver que tem mais gente sintonizada na ideia de pensar diferente, de questionar, é um combustível a mais na luta pela implosão de um modelo de jornalismo ultrapassado, anti-democrático e ladrão de conhecimento. Espero que todas essas pessoas possam se agregar de alguma forma nessa luta, pois são fundamentais.

Postado por Alexandre Haubrich

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Folha Ilustrada de domingo emplaca duas boas matérias

19 Outubro 2009

Daryan Dornelles - Folha ImagemUm dos melhores cadernos de cultura do país é, sem dúvida, a Folha Ilustrada, da Folha de São Paulo. A edição de domingo (18/10) trouxe duas matérias que não podem passar sem registro. A primeira está na página E4, sob o título “Banda funciona como uma grande empresa”. A segunda é uma bela entrevista com Ney Matogrosso, na E6.

Thiago Ney, repórter da Folha no Ceará, fez uma boa reportagem sobre uma nova possibilidade de organização mercadológica musical que vêm ganhando força em alguns lugares do Brasil. Falando sobre o grupo Aviões do Forró, Thiago explicou que a banda cearense “tem dono”, ou seja, pertence a um grupo empresarial, o A3 Entretenimento, que ainda “possui” mais algumas bandas de forró. Além disso, o Aviões do Forró não vende CD’s, mas os distribui como forma de divulgação, lucrando através de shows. Os músicos recebem – da A3 – salário fixo, 13º, férias e tudo o mais que um trabalhador comum deve receber.

O texto de Thiago é simples e bom. Limpo, claro, sem invenções. A organização gráfica da matéria chama a atenção e não confunde, destaca imagens sem esconder o texto, também muito bem trabalhada. A foto principal é bonita, mas é de divulgação. Faltou um fotógrafo da Folha por lá. Faltou também o repórter explicar os prós e contras desse modelo empresarial de administração de uma banda. Me arrisco a afirmar que os contras não são poucos, mas minha função aqui não é essa. Fato é que a reportagem vai muito bem na função de mostrar que existe um novo formato em desenvolvimento, mas não é um texto analítico – como costumam ser os da Folha.

A entrevista com Ney Matogrosso é uma entrevista feita por um especialista em perguntas com um especialista em respostas. Entrevistá-lo sempre rende boas matérias, e nesse caso não foi diferente. Mesmo porque Marcus Preto, enviado especial ao Rio de Janeiro, fez um texto de abertura primoroso, extremamente bem costurado e, inclusive, com as invenções que não estiveram no texto de Thiago Nery. Mas as invenções, quando funcionam, soam geniais. É o caso. As imagens e percepções do repórter mostram uma visão além, e a capacidade de transmiti-las no texto causa no leitor a sensação de estar lá.

As perguntas tiram de Ney respostas sobre suas atitudes musicais, seu momento como artista e sobre sua vida pessoal – algo do qual ele pouco costuma falar. O repórter demonstra um grande conhecimento do trabalho de Ney Matogrosso, o que deveria ser praxe quando se faz uma entrevista qualquer – ainda mais para ser publicada como entrevista –, mas não é.

Como a abertura do próprio texto diz, Ney é extremamente “fotografável”, chama a lente. Por isso e pela qualidade do fotógrafo Daryan Dornelles, a fotografia que ilustra a entrevista também é fantástica, de uma expressividade quase violenta. Por fim, o início: o título escolhido não poderia ser melhor e mais corajoso, pois certamente incomodou os leitores mais puritanos – o mundo está cada vez mais mal-humorado ou nós é que estamos cada vez mais loucos? –, ainda que este não seja o perfil dominante em um caderno de cultura. O título é a frase de Ney Matogrosso que fecha a entrevista, e que vai fechar este post, em homenagem aos puritanos: “A minha vida não é de putaria”.

Postado por Alexandre Haubrich

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Debate “A importância de uma Conferência de Comunicação”

16 Outubro 2009

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