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Folha valoriza a História

9 Novembro 2009

MaisConhecer a História é o primeiro passo para não repetir os erros. Conhecer não apenas a nossa História, mas a do mundo, entender as consequências de cada ato, de cada gesto, dos momentos significativos. Descobrir as transformações causadas pela construção de um muro e o que gerou a sua derrubada poderiam evitar que outros muros fossem construídos. Muros reais ou ideológicos. Diante de tantos muros que precisamos urgentemente derrubar, a Folha de S.Paulo demonstrou perceber a importância de se compreender acontecimentos históricos como a queda do muro de Berlim, que completa hoje 20 anos.

O caderno Mais! é sempre um dos melhores do jornal. Mas o de ontem, com chamada na capa do jornal, conseguiu se superar, dedicada ao marco histórico que é hoje lamentado por uns, comemorado por muitos. Com a capa limpa e marcante, fez uma cobertura reflexiva e profunda.

A cobertura tem uma dimensão de grande reportagem de seis páginas e envolve nomes de reconhecimento indiscutível, independente de se concordar ou não com suas ideias – e é por isso que não traz um nome só. É o caso de Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores da atualidade. Não é uma figura importante apenas pelos livros vendidos ou pelo reconhecimento internacional. É importante pela ousadia, que a Folha soube reconhecer e destacar: o historiador afirma que a queda do muro precipitou o fim do século XX, alçou os Estados Unidos à condição de única superpotência mundial e trouxe uma onda de violência e desigualdade social. Ou seja, enquanto o mundo inteiro comemora, Hobsbawm ousa criticar.

E mais, aproveita o momento para relacioná-lo com a crise atual e ajudar a compreender o mundo em que vivemos. É uma leitura crítica da História. Com isso, a Folha demonstra que não se prende a convenções (não sempre), que foge do óbvio. E começa uma cobertura de alto nível, que vai trazer também opiniões em outros sentidos, todas muito contundentes e competentes.

Na página seguinte, uma entrevista muito bem executada, de perguntas muito boas, a Jutta Voigt, uma jornalista alemã que viveu a Berlim antes, durante e depois do muro.

Embora o jornal anuncie na capa do caderno nomes do porte de Ferreira Gullar, Cildo Meireles, Silviano Santiago e Eduardo Coutinho, seus depoimentos são curtos e não acrescentam muita informação. O de Ferreira Gullar, por exemplo, não passa de quatro frases, reunidas em muito poucas linhas. Seu nome não poderia ser colocado ao lado do de Eric Hobsbawm, que preencheu uma página com sua entrevista. Uma falha de um jornal que, mesmo quando acerta, quer valorizar ainda mais a qualidade de seu material e acaba prometendo o que não vai cumprir. Não precisava disso.

As fotos, a maioria em preto e branco – em um caderno que permite cores e as adota em detalhes da reportagem – compõem com o texto de forma equilibrada, coerente e esteticamente bonita.

Mas os 20 anos da queda do muro acontecem hoje, dia 9, e a Folha não esqueceu disso. Se ontem a cobertura foi voltada para uma reflexão sobre o significado do momento histórico e suas consequências, hoje o foco foi mais factual, e uma página de muita qualidade, escrita por uma enviada à Alemanha, apresentou as celebrações da Berlim atual.

* Enquanto isso, a Zero Hora chamou para o aniversário da queda do muro apenas na Contracapa do jornal de domingo, 8, e deu três páginas de informações soltas e desconexas. FolhaDeve-se considerar que a ZH é um jornal tablóide, quase metade do formato standard da Folha. Hoje, a Folha online dedicava sua capa ao tema, com diversos links interessantes. A ZeroHora.com nem lembrava na capa. Ou seja, nota-se uma clara diferença de valorização da História. É uma pena.

Postado por Cris Rodrigues

Um comentário

  1. [...] Folha de ontem – que eu analisei no Jornalismo B -, Hobsbawm ousa analisar o momento histórico a partir de uma perspectiva crítica. Diz que a [...]



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