No dia em que terminava definitivamente minha faculdade, com a apresentação da monografia, tive mais uma lição de jornalismo. Foi na saída da banca, quando convidei um de seus membros, professor Wladymir Ungaretti, para tomar uma ou outra cerveja em algum bar da Cidade Baixa.
No meio da conversa, reparo em uma garota sentada duas mesas à minha frente, às costas do Ungaretti. Isso no exato momento em que ele me contava histórias de personagens que conheceu nos últimos tempos, quando tem circulado pelas ruas de Porto Alegre em busca de rostos que contem vidas. Comentei com ele que, atrás dele, talvez estivesse uma boa história. A garota dizia ao telefone que estava sozinha há dois dias em Porto Alegre, bebendo. Ali, naquela cadeira, estava sentada desde pouco depois que nós dois chegáramos.
Ungaretti então se levantou e foi até a garota. Apresentou-se como jornalista e pediu para tirar fotos dela. Sentou-se e conversaram, enquanto eu observava duas mesas adiante. Helena Hutz contou a história de sua vida, se deixou fotografar e, juntos, o jornalista e a garota descobriram pontos em comum. O pai dela, por exemplo, fora preso junto com ele durante a ditadura militar.
Ali, em um bar da Cidade Baixa, depois de uma ou outra bebida, estava sentada em nossa mesa uma pessoa com uma baita história. Jornalismo se faz assim, nas ruas, não nas redações. A desculpa do tempo que corre cola cada vez menos. Em poucos minutos, tínhamos uma grande pauta. O problema de verdade são os olhos fechados e as costas viradas.
O jornalismo está cada vez mais de costas para as ruas, para as cidades, para a vida. Era isso o que o Ungaretti me dizia quando notei a menina cinco metros à frente. O jornalismo cobre apenas a classe média. Pobre aparece nos jornais só na página de polícia ou nas curiosidades. Qualquer movimento ou pessoa que busque qualquer tipo de contestação, idem. Nas outras páginas, sempre a mesma história, sempre o mesmo rosto.
Wladymir Ungaretti, jornalista e professor, está com seu blog sob censura, por causa de uma ação movida contra ele pelo fotógrafo do Grupo RBS Ronaldo Bernardi. Junto ao ótimo material jornalístico que Ungaretti tem postado no Ponto de Vista, mostrando a cidade que os grandes jornais não enxergam, poderiam estar mais aulas de jornalismo, mais crítica do que está aí, fechado nas redações.
* Fotos de Wladymir Ungaretti
Postado por Alexandre Haubrich
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Jornalismo é azaração.
ficou massa o texto, as fotos, etc e tal…. manda um beijo pra…. pra…. su?
Helena
Estas oportunidades sutis que surgem no caminho, são observadas somente por aqueles que possuem um olhar diferenciado, acompanhando os movimentos da vida comum. Este posicionamento oportuniza uma atuação jornalistica em outro nível , diferente daquelas que estão mais identificadas com “boizinho de presépio”(já que é Natal).
que não sãoreportagematuação jornalistica diferenciadaum jornalismo diferenciado, são
ok, tudo bem. para revistas e órgãos semelhantes, concordo.
para jornalismo diário, não dá para transformar toda história pessoal em pauta.